quinta-feira, dezembro 28, 2006

O ESTADO DOS LIVROS: A EDIÇÃO EM 2006


O que há para dizer sobre a edição de livros no ano que está a terminar não é nada de substancialmente novo em relação ao que tem vindo a acontecer de há uns anos para cá. As tendências de uma literatura light de que o nome de Margarida Rebelo Pinto é apenas uma metonímia; uma outra literatura, que se está a tornar num género, também de caracteristicas light que anda em volta do sucesso de O Código d' Vinci a par com livros sobre sexo e romances de vedetas de televisão (por exemplo Fátima Lopes apresentadora do programa da manhã da SIC) enchem os escaparates das FNAC's e Bertrand's, num processo de democratização da leitura e da escrita com todas as consequências que isso implica, sendo a mais importante delas o relegar para as prateleiras dos livros realmente importantes, aqueles que foram escritos por autores (Duras, Beckett, Bernhard, Llansol, Rui Nunes, Tolentino de Mendonça, etc, exemplos ao acaso do que são autores).
Se por um lado a abertura de lojas como a FNAC tem vindo a democratizar a leitura, permitindo que um público mais vasto tenha acesso ao livro (daí a existência de editoras como a Oficina do Livro - este ano comprada por uma sociedade de investimentos financeiros de alto risco - que se baseam na publicação de livros de figuras públicas) por outro esta democratização torna o livro em mais um produto da indústria de conteúdos, da indústria cultural, onde é dessacralizado, ficando entregue à mesma lógica das telenovelas. Ou seja, assim como as televisões generalistas já não têm espaço para passar cinema de autor, também os grandes espaços de venda de livros, os mais frequentados, e algumas editoras começam a não ter espaço para os verdadeiros autores. Que os escaparates das Bertrand's e Fnac's são ocupados por lixo não era novidade, mas talvez o seja o facto de Armando Silva Carvaho e Maria Velho da Costa, autores que normalmente eram publicados pela Dom Quixote terem publicado o seu Livro do Meio na Caminho, enquanto a editora dirigida agora por Teresa Coelho publicava a denúncia, em estílo de vingança kitsh, do mundo mafioso do futebol por Carolina Salgado. Convenhamos que Eu, Carolina é um livro que em nada prestigia os pergaminhos de uma das principais editoras portuguesas (agora em mãos espanholas), embora para quem estivesse atento aos escaparates das livrarias nos últimos tempos não constitua uma surpresa.
Ficam, no entanto, os resistentes desta lógica mercantil do livro (que nem sequer é nova na história): editoras como a Assírio & Alvim, a Relógio d' Água, Cotovia, Quasi ou as mais "marginais" Frenesi, & etc, Fenda, Vendaval, Black Sun. E também as livrarias de que se destaca a reabertura da Ler Devagar em Lisboa ou, no Porto, para além da Leitura (em decadência) e Latina, a Utopia, a Pulga e a Poetria. Quanto ao livros publicados em 2006, serão objecto de um outro post.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Jorge Fallorca

LISBOA, 21 JUN 74

Um doido sorri-me do táxi. Poucos doidos em Lx. Uma cidade, um país, uma cidade-país, que não tem doidos, mesmo poucos, não interessa. Tá bem eu sei que em Lx. é tudo doido, ou melhor: louco, eu sei, mas refiro-me a doidos mesmo doidos, com quem se possa aprender alguma coisa...
.......................................................
(in Sião)
*
Laranja

A estrada para o Caramulo acendia-se de laranjas.
A berma ladeava-se de cestas traiçoeiras, que desafiavam a atenção dos condutores e atiçavam discussões familiares.
A que lhes era alheio o sabor e o preço.
Pelo caminho ficavam as confidências das meninas.
Seios à dimensão de uma laranja, revelados em aulas improvisados pela curiosidade.
Os gomos adoçicavam-nos o tacto, sem que os dedos se quebrassem na expectativa.
Miller fez-me correr pomares à procura de das laranjas de Hieronymus.
Mas tudo quanto vi foram as cascas deixadas por Al-Mu'tamid, junto ao sabor uniformizado pela Europa.
Uma vez, o vento atirou-me uma azahar para dentro do chá em Tânger.
Finalmente, a flor de laranjeira sossegava-me a cabeça no regaço das estradas.
in Longe do Mundo, Frenesi, 2004, p. 25
Jorge Fallorca nasceu em 1949 (15 de Junho), em Mortágua. Poeta, tradutor, jornalista, radialista (na Rádio Comercial) e viajante, é autor de entre outros os seguintes livros: A luva in Love (1977) Alpendre (1988), Fruta da Época (2001), A cicatriz do Ar ( 2001) e Longe do Mundo (2004)

terça-feira, novembro 28, 2006

poema

Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas de neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam do esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gêlo
como se de gêlo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres
quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro negro e verde
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos

Mário Cesariny, Pena Capital, Assírio & Alvim, 1982

domingo, novembro 26, 2006

MÁRIO CESARINY (1923-2006)




O QUE NÃO SE CHAMAVA ASSIM

Entre nós e as palavras há metal fundente

A revolução surrealista falhou há muito, aliás conotar Cesariny com o surrealismo bretoniano será um erro. Se de alguém Mário Cesariny (de Vasconcelos) estava próximo era de Antonin Artaud. Mas isso são outras contas. Contas do rosário da história da literatura, das minudências comparativistas. Acabam sempre por ser simples papéis ao vento perante o peso de uma obra poética onde habitam alguns dos maiores poemas da poesia portuguesa do século XX, e alguns dos principais versos dessa mesma poesia deveriam ser gravados a "metal fundente" por cima das porcas imagens dos placards publicitários.

Cesariny foi pouco amado e muito rotulado. Pelos literatos, e pela polícia por quem foi perseguido e tratado como uma puta. Surrealista e homossexual foram os rótulos de que os sistemas literários e político-políciais se serviram para arrumar a sua obra. Deixou-nos um aviso: eu vou nascer feliz numa cidade futura.

domingo, novembro 19, 2006

A AGONIA DO JORNALISMO


A SIC transmitiu em 2001 algo a que chamou reportagem e que na altura foi inserido num espaço informativo. Consistia essa alegada reportagem em fechar um toxicodependente, de nome Pedro, num apartamento onde estavam colacadas câmaras que filmaram a ressaca a que o "jornalista" João Ferreira chamou Agonia. Deste vómito jornalístico fazia parte o psiquiatra Goulão, especialista em tratamento de toxicodependentes, que na boa tradição do sadismo psiquiatrico se responsabilizou (?) por este tratamento de choque. É necessário dizer que em 2001 a televisão portuguesa estava a enfrentar a tv realidade com o Big Brother, grande sucesso de audências da TVI, que liquidou a liderança da SIC. O programa, na altura foi transmitido em horário nobre, em plena concorrência com o Big Brother da TVI. Toda a gente ficou muito sensibilizada e emocionada com esta "grande reportagem", a começar pelo presidente da república de então, Sampaio, que recebeu Pedro, Goulão e Ferreira. Mais tarde, aproveitando o sucesso da "reportagem", João Ferreira escreveu um livro, Agonia: Uma Lição de Vida, editado por essa fábrica de lixo literário de tudo quanto é gente que aparece na televisão que é a Oficina do Livro. Adiante. Ontem a SIC estreou um programa de título Perdidos e Achados que, apresentado pela jornalista Sofia Pinto Coelho, pretende ir repescar reportagens e notícias transmitidas pela SIC e saber o que é feito desses casos. Sem vergonha, os responsáveis pela informação da SIC escolheram precisamente essa alegada reportagem para primeira emissão. Tratava-se agora de saber o que tinha acontecido à vida de Pedro, seis anos depois de ter sido submetido a um ultrajante tratamento médico-mediático (a TVI estreou sexta-feira um outro reality-show médico, Dr. Preciso de ajuda, para mudar o aspecto físico das concorrentes que não podem pagar cirurgias plásticas). Vários tem sido os atropelos, em cerca de 15 anos de televisão privada, à deontologia e ética do jornalismo televisivo, mas esta "reportagem", agora repescada, terá sido das maiores fraudes jornalisticas. E fraude porquê? Porque não se tratava de uma reportagem mas sim de um programa concorrente do Big Brother com o descaramento de se entítular de jornalismo. Se no canal que foi de inspiração cristã, 12 pessoas alienavam a sua privacidade em busca de fama e dinheiro, na SIC o dr. Goulão e o sr. Ferreira inauguravam um novo tipo de tratamento da toxicodependência: um jovem, só, num apartamento ressacava, sem ajuda médica, mas com o olho do Big Brother, ou seja, neste caso os televoyeuristas que assistiam a uma cerimonia de exorcismo dessa coisa que nem psiquiatras nem jornalistas querem explicar que é a dependência de qualquer substância (seja o vinho, o tabaco, a heroína ou um psicofármaco) e que no caso das drogas ilegais é diabolizada. Não duvido que Pedro tenha deixado as drogas, mas questiono: se este "tratamento" foi tão eficaz porque não o repetir? E, afinal, como estão a ser tratadas as outras dezenas ou centenas de toxicodependentes em Portugal? O que pensam os médicos, os toxicodependentes, a população em geral? E a troca de seringas nas prisões? E o tráfico de droga? São estas, pelo menos algumas das questões que um jornalista deve tentar responder numa reportagem sobre a droga.

domingo, novembro 12, 2006

PASOLINI #1: Sobre o 25 de Abril

Foto de Eduardo Gageiro
[...] Há no entanto casos como o de Portugal, que tinha de deixar de ser uma nação severa, somítica, arcaica: resumindo, tinha de ser lançada no grande universo do consumo. Assim, provavelmente a América obrigou Spínola e Caetano a entenderem-se. Dos dois o pior fascista «real» é Spínola (que aliás me dizem ter combatido outrora com uma formação portuguesa ao lado das SS) porque considero pior o totalitarismo do capitalismo de consumo do que o totalitarismo do velho poder. De facto - que coincidência! - o totalitarismo do velho poder não conseguiu sequer beliscar o povo português: demonstra-o o 1º de Maio. O povo português festejou o mundo do Trabalho - ao cabo de quarenta anos sem o fazer - com uma frescura, um entusiasmo e uma sinceridade absolutamente intactas, como se a última vez tivesse sido ontem. É de prever contudo que cinco anos de «fascismo consumista» irão mudar radicalmente as coisas: começará também o aburguesamento sistemático do povo português, e já não haverá espaço nem ânimo para as ingénuas esperanças revolucionárias.
Pier Paolo Pasolini, Escritos Corsários, Cartas Luteranas: uma antologia, Assírio & Alvim, 2006, p. 56. Orig. entrevista ao Il Mondo, 11 de Junho de 1974.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Artur Schopenhauer


O Estado não é mais do que o açaimo cujo fim é tornar inofensivo esse animal carnívoro que é o homem, e dar-lhe o aspecto de um hervívoro.
*
O nosso mundo civilizado não passa duma grande palhaçada. Encontram-se aí cavaleiros, frades, soldados, doutores, advogados, padres, filósofos, e que mais? Não são, porém o que representam: são simples máscaras sob as quais se ocultam geralmente especuladores de dinheiro. Um ostenta a máscara da justiça e do direito com o auxílio dum advogado, para melhor prejudicar o seu semelhante; outro, com o mesmo fim, escolheu a máscara do bem público e do patriotismo; um terceiro o da religião, da fé imaculada. Para toda a espécie de desígnios secretos, mais um se ocultou sob a máscara da filosofia, etc.[...]. Quase sempre, não há, como já disse, senão puros industriais, comerciantes, especuladores debaixo dessas máscaras. Sob este ponto de vista a única classe honesta é a dos negociantes, porque se apresentam como são e passeiam de rosto descoberto: por isso os colocaram no ponto inferior da escala.

quarta-feira, novembro 08, 2006

sábado, novembro 04, 2006

A BANCA QUE ROUBA



REVISTA DA IMPRENSA (DE ONTEM)

Diário de Notícias: Clientes podem exigir à banca devolução dos arredondamentos.
Jornal de Notícias: Banca sujeita a regras para arredondar juros
Público: Operação anticorrupção bloqueia contas do BES em Espanha

quinta-feira, novembro 02, 2006

LEVI CONDINHO

Juro uma vingança grave sobre
toda esta falta de viver
juro uma treva um nó de madeira obsessivo
uma mancha de podridão na abóbora
ou no pepino enroscado na terra aguada
juro uma unha roxa no rouxinol amado
um ponto negro nas tuas nádegas de concurso
um baque no peito uma recus no planeta mais visível
juro o estalar da pedra nas patas do sardão
juro o próprio sardão
juro os teus mamilos na raiva do silêncio
juro o bornal apodrecido de Kerouac em Bordéus
onde a viagem morreu na baiúca do vinho
juro o vinho (a) martelo no resvés das pedras calcárias
basalto cilício cortiço de zângões
juro as águas de velhas torneiras ferrugentas
e palavras e signos e símbolos sublimes
odeio Céline do meu lado esquerdo
e amo Céline do meu lado direito
ficando por cima como arcanjo astuto
juro mordendo este copo esta trégua este luxo
este ser disponível para tudo abrir
caixa de veludo calo do mindinho erva de plantar
no jardim falido de um ânus loiro profundo
ânus olho juro
Levi Condinho nasceu em 1941, em Bárrio (Alcobaça). Publicou, entre outras obras Para que Alguns me Possam Amar (1977), Saxofone (1981), Tentáculos (1981). Em Roteiro Cego faz uma antologia da sua produção poética entre 1965 e 2000. É também tradutor e crítico, com vários ensaios publicados na Colóquio/Letras.

quarta-feira, outubro 25, 2006

TRANSE

Há filmes sobre os quais devemos guardar silêncio. Como se não entendessemos a língua em que são falados. O que no caso é verdade.

Transe (2006) de Teresa Villaverde com Ana Moreira

quarta-feira, outubro 11, 2006

António Franco Alexandre


poderemos, um dia, amar estas vitrinas
como quem ama uma ideia imperdoável, ou uma
breve hesitação dos condutores
a meio do percurso? quero dizer,
estaremos vivos para o desbotar destas
folhas de plástico que brilham
uma vez cada noite; e para
o assobio das nuvens
ao passar sobre a roupa?
ou, fechando a gaveta, engoliremos o receio
destes bolos roubados
na prateleira de água?
ou será este o dilema que nos propõem
as minuciosas escavações telefónicas?
são questões ignorantes, delas depende o rumo
dos grandes navios japoneses à entrada da doca.

in Os Objectos Principais (1979)

quarta-feira, outubro 04, 2006

VOLVER: A IMANÊNCIA DAS MULHERES


O cinema de Pedro Almodovar vive dos extremos da sociedade espanhola. Extremos que existem, pelo menos, desde a guerra civil. Ao aproveitar esses extremos, essas margens sociais, como as freiras e os travestis, os drogados, os homossexuais, enfim gente que esta(va) em fractura, Almodovar tem conseguido contar algumas das histórias mais interessantes do cinema contemporâneo ao mesmo tempo que tem traçado um retrato sociológico (e satírico) da Espanha actual. A juntar a isto Almodovar é um cineasta que dialoga e procura o público (o contrário do nosso Manoel de Oliveira).
Em Volver, seu último filme em exibição, existe um certo distânciamento em relação aos filmes que o celebrizaram nos anos 80 e 90. Digamos que os extremos se atenuaram. Talvez por isso a história, e a forma como é filmado Volver, não seja tão intensa como como outras.
Volver é, no entanto, o filme mais feminino de Almodovar, o que implica que todo o elenco (com excepção de dois "figurantes") seja constituido por mulheres. Mulheres que vivem na Espanha profunda, cuidando dos mortos e dos vivos, matando para sobreviver ao desejo transgressor dos homens e assim constituindo uma lei (que já não é a lei do desejo) que remonta a Antigona; fazendo pela vida numa solidariedade que resulta da cumplicidade das relações (familiares) entre mulheres. Trata-se aqui de uma espécie de imanência particularmente feminina. Mas Volver também anúncia um regresso a essa Espanha profunda onde Almodovar passou a infância e onde o vento leste enlouquece por entre moinhos de vento - a sombra de Quixote, quinhentos anos depois, é a antitese destas mulheres.
Volver, real. Pedro Almodovar, com Penelope Cruz e Carmen Maura, 1996, 3 em 5

terça-feira, outubro 03, 2006

Sylvia Plath


BONDADE

A bondade plana perto da minha casa.
A dona Bondade, ela é tão simpática!
As jóias azuis e vermelhas dos seus anéis de fumo
Nas janelas, os espelhos
Enchem-se de sorrisos.

Que há mais real do que o gemido de uma criança?
O gemido de um coelho pode ser mais selvagem
Mas não tem alma.
O açuçar tudo cura, é o que diz a Bondade.
O açucar é um fluido necessário,

De cristais que são como um pequeno penso.
Ó bondade, bondade
A apanhar delicadamente os grânulos!
As minhas sedas japonesas, borboletas desesperadas,
Para fixar a qualquer momento, anestesiadas.

E lá vens tu, com uma chávena de chá
Numa auréola a vapor.
O jacto de sangue é poesia,
Nada o pode estancar.
Tu trazes-me dois filhos, duas rosas.

in Ariel, tradução de Maria Fernanda Borges, Relógio d' Água, 1996

segunda-feira, outubro 02, 2006

José Tolentino Mendonça

O POEMA
O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.

quinta-feira, setembro 14, 2006

A INFÂNCIA CONFISCADA

Desenho de Alejandra Pizarnik
Nunca como agora a infância foi tão vigiada, controlada, programada. É certo que aquilo a que hoje chamamos infância eram os primeiros seis anos de vida, pouco mais, até há pelo menos 100, 80 anos. Pelo menos seria assim para a grande maioria das crianças, as que não pretencenciam às classes abastadas e tinham que começar a trabalhar em tenra idade, sem frequentar a escola. A infância começou com o controlo da natalidade através dos métodos contraceptivos e do fim da calamitosa taxa de mortalidade infantil que andaria, ainda no início do século passado muito acima dos 50 por cento.
É nos últimos anos que a infância se tornou, cada vez mais, politizada, comercializada, mediatizada (tanto zada!). É certo que Freud, e seus seguidores, já tinham no começo do século passado utilizado a infância como matriz de todo o comportamento do homem pela vida fora. Mas é também com os psicanalistas, os pedo-psiquiatras, os psicologos e tantos outros técnicos que se vão ocupar - e viver, no sentido económico - da infância, que esta ganha o seu lugar na cidade. Hoje ao mesmo tempo que qualquer ameaça à infância é notícia de abertura de telejornal, geralmente protagonizada por essa figura por excelência da actualidade que é o pedófilo, as crianças, são controladas de todas as formas numa negação do espaço que configura a infância. É assim que o tempo de aulas é aumentado, a pressão para o chamado sucesso escolar compete com a pressão no trabalho dos adultos, aumentam as actividades extra curriculares, os ATL, etc. Tudo visa uma ocupação do espaço da infância, que entretanto foi alargado a nível etário: hoje alguém com 18 anos é considerado uma criança. Ao mesmo tempo a infância, com o seu alargamento etário, é considerada um lugar de inocência quando, por vezes se assiste à pratica das maiores crueldades por essas criancinhas (veja-se o caso Gisberta) que sem nenhuma condenação, e conscientes da sua inimputabilidade, não mostram a mais miúda culpa.
Por outro lado, e no que diz respeito á infância dos adultos, esta é objecto de todo um trabalho de reescrita por parte de psicoterapeutas e psicanalistas que culmina na criação de falsas memórias (veja-se a este respeito o trabalho de Elisabeth Loftus) ou no apagar da memória da infância.

segunda-feira, setembro 11, 2006


9/11:O DIA EM QUE O MUNDO MUDOU?

Por todo o lado, nesta altura em que se assinala o 5º aniversário do 11 de Setembro de 2001, os média falam do "dia em que o mundo mudou". Será que o ataque às torres gémeas mudou o mundo? No essencial o mundo permanece o mesmo, embora vá mudando um pouco todos os dias - faz parte da condição do mundo mudar lentamente - e se o mundo mudou em catástrofes foi mais nas catástrofes naturais que nas provocadas pelo homem. No entanto, nestas últimas temos os exemplos de Hiroshima e Nagasáqui transformadas pelos americanos de um momento para o outro. Aí a vida nunca mais foi o que era. De Nova Iorque apenas desapareceram dois dos seus maiores símbolos.
É certo que as tragédias crescem na medida em que se tornam colectivas, ou se colectivizam pelo número de vitimas, e pelo efeito de proximidade: o que aconteceu em Balí não teve a mesma reprecursão do que aconteceu em Londres. É uma regra do jornalismo e não só: primeiro os mais próximos, os outros...
O ataque ao WTC, o centro (símbolico) do capitalismo, teve um outro efeito: a criação de espetacularidade que fez com que um acontecimento real fosse, na altura, visto pela televisão, como se tratando de uma ficção. Para além de tudo o 11 de Setembro foi um desses raros acontecimentos globais onde - e aqui ao contrário da encenação radiofónica da guerra das estrelas por Orson Welles - a ficção e a realidade se confundiram.
Mas o 11 de Setembro foi, a nível político, o acontecimento que permitiu a George W. Bush iníciar a sua cruzada bélica. Daí as teorias da conspiração: o 11 de Setembro teria sido fabricado pelo governo americano. Importa destacar do 11 de Setembro e dos ataques que se seguiram assinados pela Al-Qaida, ou mesmo dos ataques falhados como o deste verão, que o verdadeiro ataque à forma de vida e liberdade do Ocidente tem sido praticado pelos seus governos quando, em nome da segurança, põem as liberdades e direitos dos cidadãos em risco. Abdicar das liberdades que as sociedades ocidentais construiram durante séculos em nome da "guerra ao terrorismo" seria dar a vitória ao fundamentalismo terrorista islâmico.

quinta-feira, setembro 07, 2006

O FIM DA INDEPEDÊNCIA

O Independente acabou, já foi há uma semana (ou melhor terá sido há uns anos atrás quando Inês Serra Lopes tomou conta do jornal) e este post vai atrasado, depois de muitos posts e artigos de jornal sobre o finado jornal. O certo é que de alguns comentários que li parecem sobresair dois ou três aspectos: a satisfação pelo fim do jornal por parte de personalidades que foram atacadas pelo jornal (Eduardo Prado Coelho, Macário Correia, etc), a crítica pessoal aos seus fundadores e directores (Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas) e por causa de Portas, a leitura redutora d' O Independente como um projecto político. Todas estas leituras esquecem o que mais importa no caso d' O Independente: o quanto o projecto editorial do jornal foi, sem fazer escola, uma lufada de ar fresco na Imprensa portuguesa. Dito de outro modo, e muito haveria e haverá a dizer sobre O Independente, o jornal de MEC e PP, nos seus tempos áureos, foi uma proposta a nível estético conjugado com um atitude insubordinação únicas na imprensa portuguesa dos últimos 20 anos. O jornalismo de O Independente, embora tenha deixado muitas vezes de lado a ética foi o contrário do que é o actual jornalismo: o mais subserviente possível. Algo que na altura, sem blogosfera, só podia ser feito num jornal ou numa rádio pirata. Entre o muito que passou por O Independente, desde escritores e poetas como M. S. Lourenço, João Miguel Fernandes Jorge, Joaquim Manuel Magalhães (que pôde publicar parte dos poemas de Alta Noite em Alta Fraga ) destaco o papel reservado para a fotografia.

domingo, agosto 27, 2006

domingo, agosto 20, 2006

Federico Garcia Lorca


BÚZIO

Trouxeram-me um búzio.

Dentro dele canta
um mar de mapa.
Meu coração
encheu-se de água
com peixinhos
de sombra e prata.

Trouxeram-me um búzio.

(in Antologia Poética, trad. de José Bento, Relógio d' Água, 1993, p.35)

Federico Garcia Lorca foi fuzilado a 19 de Agosto de 1936, pelos nacionalistas.

sexta-feira, agosto 18, 2006

R. LINO

hoje, as cidades


hoje, as cidades
ficaram um pouco mais longe
e eu não sei porquê
só sei que ficaram mais longe
as cidades
à beira-mar, havendo por todo o globo
as duas vidas:
eleanor damortis animada de festas e de estios
ou a rapariga que vive
a mil e quinhentos paus por mês
não sabendo no armário
outros sítios de ser festa ou esperar.
(do outro lado da ribeira o velho cão
guarda o corpo como algas
e compotas de frio às seis da tarde...)
a rapariga do armário
mata-se na cidade
do outro lado de ser diferente o mesmo tempo.
(in Atlas Paralelo, IN-CM/Gota de Água, col. Plural, 1984, p.48)
R. Lino nasceu em Évora a 12 de janeiro de 1952. Publicou nos anos 80 os seguintes livros: Palavras do Imperador Hadriano (1984), Atlas Paralelo (1984), Paisagens de Além Tejo (1986) e Daquíra (1988).

terça-feira, julho 18, 2006

foto: Reuters
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas
Eugénio de Andrade

sexta-feira, julho 14, 2006

LAURIE ANDERSON: UMA CERTA DISPERSÃO


Laurie Anderson esteve ontem no Porto, onde actuou na Casa da Música para cerca de 250 pessoas, acompanhada de dois músicos: Peter Scherer e Skùli Sverrisson. Amanhã vai estar em Mentemor-o-Velho, no Festival do Castelo.
Com uma longa carreira de 25 anos, Laurie Anderson continua no registo multimédia, embora mais soft. Ontem na Casa da Música, durante cerca de 75 minutos, a autora de "Big Cience" voltou a contar estórias que podem ser consideradas pequenos poemas ou mesmo aforismo enquanto numa tela eram projectadas fotografias (e as palavras de Anderson traduzidas para português).
Sendo a componente multimédia reduzida isso não deixa, no entanto, de provocar um efeito de dispersão entre a palavra, servindo de mensagem para reflexão, a música (com alguns excelentes momentos) e as imagens projectadas. Uma brochura a acompanhar o espectáculo com as palavras de Anderson seria uma boa ideia.

domingo, julho 09, 2006

Thomas Bernhard, 2


Filhos
Cortar as orelhas a todas as mulheres grávidas seria uma boa ideia. Eu disse isso? Bem, disse-o porque as pessoas, quando julgam que põem crianças no mundo, cometem um grande erro. Engendram um merceeiro ou um criminoso de guerra todo suado, espantoso, pançudo, e é isto que põem no mundo, não crianças. Dizem que vão ter um bebé, mas na realidade o que vão ter é um octogenário que se mija e baba todo, cheira mal, é cego e a quem a goto não deixa dar um passo. Põem no mundo desgraçados, mas a esses não os vêem, para que a natureza possa perpetuar-se e a mesma estrumeira prossiga até ao infinito.
Excerto de entrevista a Kurt Hoffman in Trevas, ed. Hiena, 1993, trad. de Ernesto Sampaio, p.76.

terça-feira, julho 04, 2006

GI PLAYSTATION

Foto de Nan Goldin


As criancinhas criminosas foram a julgamento. Bom... o julgamento é assim uma espécie de brincadeira aos juízes e criminosos com um senhor a fazer de ministério público e a pedir a condenação (10 a 15 meses de internamento em regime aberto ou semi-aberto). Enfim, tudo cotas porreiros, que até gostam de apimentar a brincadeira com isto de julgamento e tudo. Como se fosse a sério, como nos filmes. Só faltava era um tal de Parlamento Europeu vir estragar o final da brincadeira. Mas eles aqui não entram. Nós somos de brandos costumes.
Bom. As criancinhas lá confessaram. Foi tudo um divertimento, um passatempo, perfeitamente natural em criancinhas de tão tenra idade. Gritavam: "vamos dar lenha ao Gi" e lá iam. Note-se, facto bastante importante, que estas criancinhas estudando nas Oficinas de S. José não tinham acesso a playstations. A Gi era a playstation deles, o que por si só explica quase tudo: uma criancinha deve ter a sua playstation. As criancinhas também explicaram (e estou a seguir a notícia do público, assinada por Tânia Laranjo), que "sujeitaram a vítima a sevícias sexuais... por curiosidade". Ora contra um argumento destes nada a dizer. Isto só mostra a natureza epistemofílica deste grupinho, quer dizer, a seu amor ao conhecimento. Estamos perante futuros génios da ciência, que já mostram a meticulosidade com que tratam o seu objecto de estudo: "primeiro, queriam saber se era homem ou mulher; depois, quando viram que ainda não havia trocado de sexo, resolveram violentá-la". E, prosseguindo as suas investigações, não faltou o espancamento, as queimaduras com cigarros e a ocultação da "experiência".

sexta-feira, junho 23, 2006

Thomas Bernhard


(...). Estúpidos, como em geral eles são, matam em breve nos alunos que lhes estão confiados qualquer sentimento que neles possa despertar a arte da pintura e nem sequer só esta, e a visita das suas por assim dizer inocentes vítimas ao museu, a visita por eles guiada, fica a ser, devido à sua estupidez e, portanto, ao seu estúpido palavreado, na maior parte dos casos a última visita feita a um museu por cada um dos alunos. Vindo uma vez com os professores ao Museu de História de Arte, os alunos nunca mais cá vêm durante toda a vida. A primeira visita de todos esses jovens é também a última. Os professores destroem para sempre, nessas visitas, o interesse pela arte dos alunos que lhes estão confiados, isto é um facto. Os professores aniquilam os alunos, esta é que é a verdade, este é um facto que vem de há séculos, e os professores austríacos, especialmente, aniquilam nos alunos sobretudo desde o princípio o gosto artistico (...)
Antigos Mestres, pp. 66-67, Trad. de José A. Palma Caetano, Assírio & Alvim, 2003.

segunda-feira, junho 12, 2006

domingo, junho 11, 2006

O FIM DO FUTEBOL


O Futebol, aquele que é jogado num campo com onze jogadores de cada lado, já não existe. É, de tudo o que se chama hoje futebol o que menos interessa. Não falo só pelo actual Mundial da Alemanha. Há muito que os jornais desportivos se interessam por tudo menos o futebol em si. O que tem interessado os ditos jornais desportivos são as transferências (o mercado de transferências, como se fossem jornais de economia), as polémicas que envolvem dirigentes, treinadores e jogadores. E também não desprezam as sempre polémicas arbitragens - todas as arbitragens são polémicas. Também as revistas cor-de-rosa viram, ultimamente, nas histórias amorosas entre futebolistas e vedetas de televisão uma receita certeira para alargar o seu público. A televisão seguiu-lhes o caminho, ou ao contrário, percebendo que o futebol também interessa às mulheres, criou em volta dos jogos toda uma série de espectáculos. Não é o jogo que interessa mas o antes do jogo e o depois do jogo, a envolvente do jogo, do campeonato. É assim no Mundial da Alemanha, mas intensificado até à náusea.
Aquilo que se pode chamar a beleza do futebol é algo acessório. Os jogos de futebol são acessórios, onde predomina uma lentidão que não se coaduna com a actual voragem das imagens televisivas (a rapidez dos planos). O futebol entrou na era do espectáculo, na Sociedade do Espectáculo como foi definida por Guy Debord: "tudo o que era directamente vivido se afastou numa representação". Assim é com o futebol, esse jogo da nossa infância, agora rodeado de todo um discurso vazio (veja-se as conferências de imprensa dos treinadores, jogadores e dirigentes, a avidez com que os jornalistas as seguem como se dali fossem sair as palavras que salvam o mundo). Nada escapa ao comentário que inaugura o vazio sobre o indizível da experiência (e isto não se aplica apenas ao futebol).



terça-feira, junho 06, 2006

LIVROS A VIR


A Feira do Livro serve, entre outras coisas, para tomar conhecimento dos livros que vão ser publicados. Ou, melhor, daqueles que as editoras tencionam publicar. Porque há livros que constam dos catálogos há anos e esperamos encontrar um dia numa livraria e nunca mais, nunca mais aparecem. É o caso de Câmara Escura de Nico com selecção, tradução, textos e fotografias de Fátima Castro Silva que está anunciada no catálogo da Assírio & Alvim. A editora de Manuel Rosa promete começar a publicação da obra de José Rodrigues Miguéis com Léah e Outras Histórias. Pessoa, Carlos de Oliveira, Fernando Assis Pacheco ou Walter Benjamin vão continuar a ser publicados na Assírio que passa a distribuir a revista de poesia Relâmpago, da Fundação Luís Miguel Nava, com um número a sair sobre Luiza Neto Jorge.
Outra das melhores editoras portuguesas é a Relógio d' Água que anuncia um novo título de Ana Teresa Pereira, Histórias Policiais, a ser publicado em breve. Uma surpresa será a edição de cinco (5) livros do polémico filósofo esloveno Slavoj Zizek. Para começar, A subjectividade a Vir seguido do Manifesto a Favor da Intolerância. Entre os clássicos, a editora de Francisco Vale vai publicar Andreas de Hugo von Hofmannsthal, o quinto volume dos Contos de Tchékhov e Dias Memoráveis de Walt Whitman. Isto são só algumas das novidades prometidas de duas editoras. Mas as promessas...

sábado, maio 27, 2006

Carlos de Oliveira



SONETO FIEL

Vocábulos de sílica, aspereza,
Chuva nas dunas, tojos, animais
Caçados entre névoas matinais,
A beleza que se têm se é beleza.

O trabalho da plaina portuguesa,
As ondas de madeira artesanais
Deixando o seu fulgor nos areais,
A solidão coalhada sobre a mesa.

As sílabas de cedro, de papel,
A espuma vegetal, o selo de água,
Caindo-me nas mãos desde o início.

O abat-jour, o seu luar fiel,
Insinuando sem amor nem mágoa
A noite que cercou o meu ofício.

quinta-feira, maio 18, 2006

IAN CURTIS


Há 26 anos, Ian Curtis, o vocalista e autor das letras dos Joy Division, suicidava-se. Iniciava-se o mito.

Uma voz que nos chega das profundezas mais sombrias, alguém que como Orfeu desceu aos infernos para nos trazer uma beleza aterradora, espasmódica, nocturna como o sol cegante do meio-dia. Voz da lucidez: excesso de luz dirigida.

quarta-feira, maio 17, 2006

O BONO DO JORNAL


Este é o número de ontem do The Independent, um dos jornais de referência da Inglaterra. A surpresa aparece no título da primeira página: No news today. Reparando melhor podemos ver, no canto superior esquerdo a foto de Bono. O Independent de ontem foi dirigido por Bono, o músico dos U2 e activistas de várias causas, que trouxe para a edição do jornal Inglês, como a luta contra a sida ou a fome em África. Pode-se ver no fim da primeira página o número de pessoas que morreram de sida e de doenças que em países ocidentais seriam facilmente tratáveis.
Para além destas questões políticas e humanitárias uma outra questão se coloca com esta edição especial do Independent. Ela vem mostrar que o jornalismo de hoje é feito sem imaginação, sem critérios estéticos nem éticos. Foi necessário convidar um músico, ainda que também activista político, mas alguém que não é jornalista, para fazer um jornal completamente diferente, com preocupações comunicativas essenciais. Em Portugal, esta capa faz lembrar o período em que Miguel Esteves Cardoso foi director do ("nosso") Independente. Ou outros tempos do Libération.

terça-feira, maio 16, 2006

Egito Gonçalves


NOTíCIAS DO BLOQUEIO

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
Tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos - contrabando - aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construido,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos em silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e, enquanto a água e os viveres escasseiam,
aumenta a raiva
e a esperança reproduz-se.

(in Árvore, nº4, [1953])

quarta-feira, maio 03, 2006

Eugénio de Andrade


AS PALAVRAS INTERDITAS

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.
Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.
Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te...E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.
As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.
Dói-me esta água, este ar que se respira.
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.
E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.
(de As Palavras Interditas)

domingo, abril 30, 2006

O HOMEM QUE CONFUNDIU UM CHARUTO COM UM FALO

(S. Freud por Andy Warhol)

DO SILVA E DOS POBRES


O Silva, afinal, regressou. Esteve com as tropas portuguesas, fez o discurso do 25 de Abril e esteve ontem na ovibeja, afinal não há amor como o primeiro. O problema foi mesmo o discurso da evocação (este ano foi evocação) do 25 de Abril. Não é que o Silva começou a falar de exclusão social? Ter-lhe-á dado alguma coisa? A direita, pavlovianamente aplaudiu; a esquerda também pavloviana não aplaudiu. Quem não gostou nada e ficou perplexo com tudo isto foi o Fernandes, o Zé Manel, director do Público. Nem a Helena Matos. A Matos, no Público de ontem, contornou o assunto com os carenciados, mas nota-se o incómodo no último paragrafo: "levamos todo o século XX a falar de pobres. (...). Talvez seja mais do que o momento de falarmos menos de pobreza e mais de como produzirmos riqueza". Pois. Hoje, no mesmo Público, uma tal Isabel Jonet, com ar de quem tem passado fome de caviar, do Banco Alimentar contra a Fome, afirma que "só o desenvolvimento económico pode ajudar a combater a pobreza". A ajudar isto tudo (há coisas que convém não passar impunes, não é ao Zé Manel?) temos uma tese de doutoramento (para alguma coisa servem afinal as teses universitárias) que conclui que o "Rendimento Mínimo não vence imobilismo social dos beneficiários". Será que este doutor já experimentou viver com 30 contos mensais?
O discurso de Silva foi demasiado inevitável e surpreendente ao mesmo tempo. Portugal é um dos países mais pobres da União Europeia, mas é sobretudo um dos países com mais pobres da União Europeia: 20 por cento da população. E nada disto mudou nas últimas décadas. Que esta situação salazarenta continue passados 32 anos depois do 25 de Abril sem que ninguém faça nada é escandaloso e revela que o fundamental do 25 de Abril está por cumprir. É que à esquerda os pobres - que são também pobres de espírito - não dão votos, e a direita, e também certa esquerda, querem conserva-los como espécie protegida. Atracção turistica.

terça-feira, abril 25, 2006

sexta-feira, abril 21, 2006

Fernando Assis Pacheco


Peçam a grandiloquência a outros
acho-a pulha no estado actual da economia

(Variações em Sousa, 1987)

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EU VI UMA NOIVA SAIR DO AUTOMÓVEL
Ó noiva triste entre as noivas
que saem de casa pela manhã
partidas ao encontro da geada na relva,
noiva melancólica e sem palavras,
como te lamento assim vestida
de muitas folhas secas ao vento.
Sei que vais já morta, ferida no coração
por pedras e nevoeiros, por tarântulas.
Pequena caminhas sobre a leve seda
do teu manto, como as aves caminham
nos jardins molhados do Inverno;
sobes degrau a degrau, espada a espada
a tua última, arrebatada vertigem.
Rainha, agora, só de quebrados espelhos.
E da ternura exangue com que muda
celebrarás aos deuses malfazejos.
Aqui de longe envio com os olhos
um pequeno adeus, um punhado de terra.
(Cuidar dos Vivos, 1963)

sexta-feira, abril 07, 2006

SILVA DESAPARECEU?


Um mês depois da tomada de posse de Silva como Presidente da República, estranha-se a ausência deste. Vimos Sampaio numa corrida ao lado de Sócrates, mas Sampaio já não é presidente, é ex-presidente. Até tem o retrato pintado por Paula Rego. O presidente agora é Silva. Mas onde está Silva que não aparece? Nem um sound bite no Jornal Nacional, nem uma fotografia no 24 Horas, nem sequer um comentário de um assessor. É certo que houve a tomada de posse, com o Bush pai e todos os outros ex-chefes de estado e algumas suas altezas reais e o Soares a pirar-se antes do beija mão. Mas, e depois? Por onde anda e o que faz Silva? Vai todos os dias a Belém ou fica em casa de pantufas? Estará num bunker com medo de uma terceira guerra mundial? Ou terá sido raptado e o SIS está a encobrir tudo? Terá medo de aparecer por não conseguir realizar o milagre da multiplicação de euros? Todos ansiavam (enfim 50 virgula qualquer coisa por cento dos votantes) pela eleição de Silva e esperavam que com ele sempre que metessem a mão ao bolso saísse uma nota de 20 euros, num truque de prestidigitação que nem o Luís de Matos ousa tentar. Mas Silva está desaparecido e as poucas notas de 20 euros que entram nos bolsos depressa desaparecem, e os bolsos ficam vazios. Onde estará o Silva?

quarta-feira, abril 05, 2006

Sophia de Mello Breyner Andresen


Pranto pelo dia de hoje

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criadorser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas

de Livro sexto, 1962

terça-feira, abril 04, 2006

Al Berto


dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligueira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorrisotamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

(de Uma Existência de Papel, 1985)

sábado, março 25, 2006


Solidão

Cai chuva, chora
chora, chora.
Solidão, solidão!

Já não canta o pássaro.
Calou-se a voz, a alegre, a rara.
A que se ouvia solitária.
Cai chuva.

Não sou freira e estou num convento.
A paz, o silêncio, a chuva, os claustros...
Ser freira!
O sequestro, cantar, rezar.
Cai chuva, rude e sem dor.
Tu não choras.
Sou eu que choro.

Que é do pássaro, como cantava?
Voltou, voltou. Pia!
Bendito pássaro, onde estás?
Acompanha-me, já não chove.
Solidão, melancolia.

Irene Lisboa, Outono Havias de Vir in Obras de Irene Lisboa I, Presença, 1991, org. de Paula Mourão

terça-feira, março 14, 2006


SEM OUTRO INTUITO

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extrírem
às águas o silêncio que as unia.

Luís Miguel Nava, in Vulcão

sexta-feira, março 03, 2006


VIOLA CHINESA

Ao longo da viola morosa
Vai adormecendo a perlenda,
Sem que, amadornado, eu atenda
A lengalenga fastidiosa

Sem que o meu coração se prenda
Enquanto, nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a perlenda.

Mas que cicatriz melindrosa
Há nele, que essa viola ofenda
E faz que as asitas distenda
Numa agitação dolorosa?

Ao longo da viola, morosa...

Camilo Pessanha, "Clepsidra"

sábado, fevereiro 25, 2006

AS CRIANCINHAS CRIMINOSAS

Um grupo de 14 adolescentes assassinou de forma barbara um sem abrigo, travesti, prostituto e toxicodependente (é por todos estes qualificativos que esta pessoa de 40 anos tem sido identificada nos meios de comunicação) no Porto. A vitima foi apredejada, esbofeteada, esfaqueada e violada, segundo revela a autópsia ao corpo.
As adoráveis criancinhas que cometeram tal crime foram presentes ao Tribunal de Família de Menores do Porto e a mais velha, de 16 anos, ao TIC. Esta última ficou em prisão preventiva, das outras, maiores de 13 anos, 11 serão internados em instituições a designar pelo Instituto de Reinserção Social de Lisboa, sendo que uma delas ficará em regime fechado e as restantes dez em regime aberto.
A inimputabilidade dos menores de 16 anos permite que façam o que lhes apetecer, sendo assim apetecíveis ao crime organizado. A perversidade deste crime aumenta se tivermos em conta o que relata o Portugal Diário:"Os jovens estiveram durante todo o dia muito descontraidos: juntos na mesma sala, os jovens viram televisão e fizeram alguma brincadeiras entre eles. Segundo informações recolhidas pelo PortugalDiário nas conversas que tinham, não havia menção a [sic] questão que os levava a estarem retidos em tribunal". Ou seja, o perfeito sentimento de frieza e completa impunidade que alguns "técnicos", especialmente pedopsiquiatras, tem ajudado a reforçar. No fundo quer fazer-se crer que são crianças, anjinhos completamente inocentes, vitimas de situações sociais e não carrascos, como no caso presente. Ora estes adolescentes, como muitos outros, são um perigo social - a começar para outros adolescentes (algumas escolas são lugares de extrema violencia). Atacam os mais fracos e os que fogem aos padrãos sociais dominantes, como foi o caso do crime desta semana no Porto (a vitima era sem abrigo, travesti, prostituto e toxicodependente, alguém completamente indefeso perante este bando, que não tão poucos adultos terão aplaudido). Que isto se tenha passado no Porto e os criminosos sejam de uma escola (Oficinas de S. José) pertencente à Igreja não será mero acaso.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

para lá da cortina além da porta errada
silêncioso e só está sentado
e lê num livro
a sua própria história

Manuel de Castro, in Edoi Lelia Doura - Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa de Herberto Helder.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

ÁLVARO LAPA (1939-2006)



O pintor e escritor Álvaro Lapa morreu no passado Sábado, 11 de Fevereiro, no Porto. Nascido a 31 de Julho de 1939 em Évora era professor de Estética na Faculdade de Belas Artes do Porto. Neste momento está patente uma exposição sua na Galeria Fernando Santos do Porto, à Rua Miguel Bombarda.
Álvaro Lapa iniciou o seu percurso como pintor com uma exposição individual em 1964 na Galeria 111. Em 1994 apresenta retrospectivas na Fundação de Serralves e no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian e em 2004 vence o Prémio EDP.
A escrita, o outro lado da criação de Álvaro Lapa foi, de certo modo, obscurecida pela pintura. Publicou cinco livros: Raso como o Chão (Estampa, 1977), Porque Morreu Eanes (Estampa, 1978), Barulheira (& etc, 1982), Balança (Frenesi, 1985) e Sequências Narrativas Completas (Assírio & Alvim, 1994). Influenciado por autores da tradição surrealiata e de vanguarda como Kafka, Burroughs, Joyce, Beckett, Artaud ou António Maria Lisboa afirmou ao DN, em 1993, que "só se cria aquilo que se é". Amigo do poeta António Gancho, falecido no mês passado no Telhal, cuja obra ajudou a publicar, Álvaro Lapa terá contornado a loucura pela via da criação.

O DIAGNÓSTICO

Um jovem tinha um cérebro artificial chamado diagnóstico. Um dia fez-lhe três perguntas e o cérebro não respondeu. Como era jovem teve medo e logo a seguir fez-lhe mais duas perguntas. O cérebro respondeu mas estava errado.

Álvaro Lapa, in Sião, org. de Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, Frenesi, 1987

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Lar doce lar


Minha pátria é minha infância:
por isso vivo no exilio

Cacaso (poeta e letrista brasileiro, 1944-1987)

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

MOVIMENTO DE FUGA


A loucura é um movimento de fuga. Uma das imagens mais usadas para representar a loucura é O grito de Eduard Munch. É um ícone da loucura. Em Esplendor na Relva (1961)de Elia Kazan há uma cena em que o quadro de Munch é citado. É quando Natalie Wood, numa aula de Inglês é chamada a comentar os versos de Wordsworth: "E agora, apesar de perdido o esplendor na relva e o tempo de glória da flor, em vez de chorarmos buscaremos força no que para trás deixamos". É depois de comentar estes versos que Deenie Loomis/Natalie Wood pede para sair da aula num enquadramento em que o rosto de Natalie Wood se aproxima, cita, a imagem de Munch (uma das mãos da actriz junto ao rosto). E, em seguida, no movimento de fuga, em sentido inverso ao do quadro de Munch, vemos Natalie Wood de costas, fugir pelo corredor em direcção à loucura. O grito, vocalizado ou calado, expresso num esgar que suporta a angústia do mundo, a angústia de ser/estar no mundo, é uma suprema aesthesis carregada de pathos. Assim são os estados de perturbação, fora do normal, fora da normalidade estatística que rege a vidinha e os lepidópteros. A estética (aesthesis) é um movimento de fuga a essa normalidade castradora das sensações. Daí, o grito. Grito que é pavor e espanto de ser no mundo, mas também grito de angústia pela consciência do peso de um mundo onde vigora uma insustentável leveza.
Mas se O grito de Munch nos deixa perante a angústia, o silêncio, a perplexidade, um espaço de unidade ontologicamente parmenidiana perdido, Esplendor na Relva aceita a perda do "tempo da glória da flor", um trabalho de luto, de luta. Porque Esplendor na Relva não exige a imutabilidade do ser na chaga do tempo ou o impedimento (social) da unidade dos corpos. Embora sejam esses os factores que levam Natalie Wood à loucura, o filme tem o happy end de uma psicoterapia bem sucedida: nas cenas finais do filme Natalie Wood aceita a renuncia de que falam os versos de Wordsworth - e que antes lhe tinham despoletado a loucura. Ou seja, aceita/faz o trabalho de luto a partir das memórias do passado (no caso a relação amorosa com Warren Bety): "em vez de chorarmos buscaremos força no que deixamos para trás". Esta formulação de Wordsworth contém um devir impelido pela enxurrada da memória. É um movimento de fuga inverso da loucura: sem angústia, apaziguado num eu-pele poroso, fronteira entre o interior e a realidade externa, superficie. Superficialidade dos dias sem História que a narrativa já não contempla.

domingo, janeiro 29, 2006



7


Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.


Mário de Sá-Carneiro