domingo, janeiro 29, 2006



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Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.


Mário de Sá-Carneiro

terça-feira, janeiro 24, 2006


Um penedo é a sua força construtiva; uma ave é a sua própria acção orgânica
(Teixeira de Pascoaes)

segunda-feira, janeiro 23, 2006

NOTAS SOBRE AS PRESIDENCIAIS (3)

1. EQUÍVOCOS. Uma parte significativa dos eleitores votaram em Cavaco não tendo a real consciência de que o professor de Boliqueime, como presidente da república, não tem os poderes que outrora teve como primeiro-ministro. Cavaco ajudou a passar essa mensagem, Soares tentou, em vão, explicar que os poderes do PR eram reduzidos. De nada valeu. Cavaco, como PR não pode ser (a menos que perverta a função presidencial) o salvador da pátria, a solução para a crise.
2. TODOS. Cavaco "dissolveu" a sua escassa maioria e afirmou-se o presidente de todos os portugueses. Nada de novo. Os anteriores presidentes utilizaram a mesma fórmula, uma vez eleitos passam a ser o "presidente de todos os portugueses". Falta saber se todos os portugueses se reconhecem nesta afirmação, e dizem em uníssino "este é o meu presidente". Eu, como muitos outros, não me reconheço no coro.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

POR
UMA VIDA
SEM CAVACO
help

SOARES ALEGRE LOUÇÃ JERÓNIMO GARCIA PEREIRA

terça-feira, janeiro 17, 2006

NOTAS SOBRE AS PRESIDENCIAIS (2)


A entrevista dada hoje por Mário Soares ao Jornal da Noite da SIC mostrou um animal político derrotado, antecipadamente. O mais confrangedor nesta entrevista é a incapacidade que Soares mostra de lutar, derrotado pelas sondagens, quando na pré-campanha venceu Cavaco por K.O. Cansado, o apelidado pai da pátria, prepara a derrota do seu último combate político. A seu favor tem a História. O protagonismo em quase meio século da História de Portugal, o jogo político, muitos ódios, outras venerações, poucos votos.
No pólo oposto, Manuel Alegre, que na pré-campanha se mostrava hesitante e balbuciante, animado pelas sondagens, distanciado das lógicas partidárias, mostra-se agora firme e lutador a caminho do impossível. Para já, Alegre parece ter ganho o seu primeiro combate, aos pontos, contra Soares.

domingo, janeiro 15, 2006

Pára-me de repente o Pensamento...
- Como se de repente sofreado
Na Douda Correria... em que, levado...
- Anda em Busca... da Paz... do Esquecimento

-Pára Surpreso... Escrutador... Atento
Como pára... um Cavalo Alucinado
Ante um abismo... ante seus pés rasgado...
- Pára... e Fica... e Demora-se um Momento...

Vem trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora

E mergulha na Noute, Escura e Fria
Um olhar d'Aço, que na Noute explora...

- Mas a Espora da dor seu flanco estria...

- E Ele Galga... e Prossegue... sob a espora!



Ângelo de Lima
(Poesias Completas, Assírio & Alvim, organização de Fernando Guimarães)

sexta-feira, janeiro 13, 2006

O POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregados
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis)
custureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

*

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos


Alexandre O´Neill, "Abandono Vigiado" (1960)

segunda-feira, janeiro 09, 2006

NOTAS SOBRE AS PRESIDENCIAIS

1.O TABU. Cavaco Silva começou a sua campanha pelo silêncio, pela gerência do tabu, há dois ou três anos. Quem se lembra das prédicas semanais do Prof. Marcelo, ainda na TVI, em que opunha Cavaco a Guterres como prováveis candidatos? Cavaco ele-próprio nunca existiu, nunca disse - até há 3 meses - que tencionava candidatar-se a Presidente da República. Mas todos o convocavam, dos comentadores às sondagens. Cavaco foi até há pouco tempo um espectro, o fantasma da nação encarnado nos meios de comunicação social. Nunca uma assombração foi tão bem acolhida.

2. SEBASTIÃO. Desde que D. Sebastião se perdeu no norte de África que os habitantes da região portuguesa (expressão anarquista para designar Portugal), esperam a vinda do nosso messias. No século que terminou tivemos Sidónio Pais e Salazar... e Cavaco. Mas o destino de todos os Sebastiões é cair em desgraça, ficar por terras de África. Cavaco caiu em desgraça há mais de 10 anos. Ninguém se lembra do buzinão, do abandonar o leme para fazer naufragar politicamente um tal Fernando Nogueira nas eleições que ele sabia que ia perder, na derrota frente a Sampaio nas presidenciais? São as brumas da memória mediática. O que é inédito é a remake, o regresso de Sebastião-Cavaco. Um mau filme de terror.

3. IDADE. Em todos os sítios se anúncia um limite de idade. Já não se trata de ter mais de 18 anos para poder entrar (sempre se entra à mesma), mas de ter menos de x anos. O Papa, para ser eleito tem que ter menos de 80 anos. Soares tem 81. Segundo as estatísticas que medem a esperança de vida já devia estar morto, ou então mudar de sexo (a esperança de vida das mulheres é de 81 anos). Portanto, para os homens dos números, Soares já não existe. Mas Soares faz batota: troca os números e fica com 18 (coisas da animalidade política). Mas o povo não gosta, mesmo porque sabe que Soares não é um homem de números, como Cavaco de quem se espera a multiplicação dos euros para o resplendor do consumo.

4. OS OUTROS. Pode dizer-se que são paisagem, mas essencialmente falta-lhes currículo. Em cada português existe um chefe sempre pronto a analisar um currículo de qualquer candidato (a seja o que for). É claro que Alegre tem uma ligeira vantagem sobre Soares, dizem os homens dos números. Mas isso de nada importa. O que importa é o número esmagador de Cavaco, mais de 60 por cento. Assim as coisas ficam arrumadas à primeira volta e poupa-se uns trocos.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

A EXTINÇÃO DA LUZ DA MANHÃ


O poeta António Gancho morreu a passada segunda-feira na Casa de Saúde do Telhal, o asilo psiquiátrico onde estava internado há 38 anos. Nascido em Évora em 1940, aos 20 anos é internado no Júlio de Matos. Mas também frequentou o Café Gelo, nos anos 50.
Revelado em 1985 por Herberto Helder, na antologia "Edoi Lelia Doura - Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa" (Assírio & Alvim), com um conjunto de onze poemas, de 36 que estavam na posse de Herberto Helder desde 1973, seria 1o anos depois que por intermédio do pintor e escritor Álvaro Lapa publica o seu primeiro livro. "O Ar da Manhã" (Assírio & Alvim), reúne quatro livros de poesia: "O Ar da Manhã", "Gaio do Espírito", "Poesia Prometida" e "Poemas Digitais"; um segundo livro, uma novela, "As Dioptrias de Elisa", é publicado em 1996. A partir daí fica remetido ao silêncio donde viera, (não se sabe se por ausência de obra ou indisponibilidade editorial) cortado por uma ou outra entrevista que o estatuto de "poeta louco" lhe dera. O amigo e conterrâneo, Álvaro Lapa, citado pelo DN de ontem referia que António Gancho "foi muito mal tratado pela sociedade. É mais um caso de abuso psiquiátrico, de miséria nacional e institucional".
Herberto Helder chamou-lhe "poeta nocturno", mas alguns dos seus poemas e a novela que escreveu no Telhal parecem antes uma tentativa de sair do espaço de silêncio e trevas associado ao espaço asilar e às técnicas repressivas da psiquiatria. Digamos que tentou, através da escrita, saltar o muro do manicómio para "o ar da manhã".

AMOUR

Para que os teus dois seios sejam duas pombas brancas
e eu seja para ti o dono do pombal
para que o teu pombal seja nas tuas ancas
e eu o teu senhor matinal

Para que te a manhã te seja nos teus seios
e as tuas pombas brancas fiquem da cor de mulher
para que as tuas ancas já sejam as tuas ancas
e o teu pombal uma metáfora qualquer

Para que te eu o grão de todas as manhãs
de todas as manhãs a te distribuir
para que as tuas pombas voem do pombal
e todas as manhãs assim me distrair

Para que os teus dois seios as tuas pombas brancas
que o teu senhor há-de afagar
por ti e sobre ti e sobre as tuas ancas
o teu senhor te há-de amar.

TELHADOS DE VIDRO

A revista Atlântico (porque será que só a direita consegue publicar revistas minimamente interessantes? - porque tem dinheiro para as financiar e a esquerda não?) publicou no último número (10) uma reportagem de Leonardo Ralha, que fez capa, sobre astrologia. Entre as chamadas personalidades ouvidas pelo repórter - Maya e Paulo Cardoso, entre os astrólogos, e uns anónimos - estava o psiquiatra e psicanalista Carlos Amaral Dias como representante da Razão e da Ciência. Não pretendo defender "astrólogos e trabalhadores similares" (assim são considerados como categoria profissional), mas tenho que registar a indignação de Amaral Dias. O psicanalista afirma que "na religião existia a excomunhão para quem não a praticava de acordo com as leis da Igreja. Em Ciência também devia haver uma excomunhão para todos aqueles que compactuam com tudo aquilo que não é científico. Excomunhão, já! Não se pode continuar a compactuar com a deficiência de saber". Destas afirmações do psicanalista infere-se que Carlos Amaral Dias coloca os astrólogos e trabalhadores similares no seu grupo profissional, o dos "psis". Senão porque razão excomungá-los em nome da Ciência? Porque lhes roubam clientela? É necessário puxar pela memória para lembrar que Amaral Dias, o psicanalista português com mais obra publicada, participou na TSF em programas onde respondia, na qualidade de psicanalista, às questões dos ouvintes tal como o faz (ou fazia) a bruxa do computador, Cristina Candeias, na Praça da Alegria da RTP 1. A existência de consultórios em programas de televisão ou rádio sobre assuntos psi, médicos ou júridicos é habitual em todo o mundo, mas não deixa de ser questionável. Será uma prática científica - sendo que, apesar de tudo, Amaral Dias considera o seu trabalho como psicanalista científico - fazer em 3 ou 4 minutos aconselhamento num meio de comunicação social? Não se trata antes de um "show" onde quem se mostra como estrela (especialista) do zodíaco ou do divã ganha os seus x minutos de fama?

quarta-feira, janeiro 04, 2006

FESTA ALEGÓRICA

O bobo do imperador Maximiliano
organizou uma festa alegórica
que o povo e a corte do soberano à frente
saborearam em grandes gargalhadas;
juntou na praça todo o cego pobre,
prendeu a um poste um porco muito gordo,
e anunciou ganhar o dito porco aquele
que à paulada o matasse. Os cegos todos
a varapau se esmocaram uns aos outros,
sem acertar no porco por serem cegos,
mas uns nos outros por humanos serem.
A festa acabou numa sangueira total:
porém havia muito tempo que o imperador
e a corte e o povo não se riam tanto.
O bobo, esse tinha por dever bem pago
o fabricar as piadas para fazer rir.

Jorge de Sena

terça-feira, janeiro 03, 2006

PESSOA: DOMíNIO PÚBLICO

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?
Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quasi alegre,
Quasi alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.

Fernando Pessoa/Alberto Caeiro, poema XLVIII de "O Guardador de Rebanhos", in Ficções do Interlúdio, Assírio & Alvim,1998