quinta-feira, janeiro 05, 2006

A EXTINÇÃO DA LUZ DA MANHÃ


O poeta António Gancho morreu a passada segunda-feira na Casa de Saúde do Telhal, o asilo psiquiátrico onde estava internado há 38 anos. Nascido em Évora em 1940, aos 20 anos é internado no Júlio de Matos. Mas também frequentou o Café Gelo, nos anos 50.
Revelado em 1985 por Herberto Helder, na antologia "Edoi Lelia Doura - Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa" (Assírio & Alvim), com um conjunto de onze poemas, de 36 que estavam na posse de Herberto Helder desde 1973, seria 1o anos depois que por intermédio do pintor e escritor Álvaro Lapa publica o seu primeiro livro. "O Ar da Manhã" (Assírio & Alvim), reúne quatro livros de poesia: "O Ar da Manhã", "Gaio do Espírito", "Poesia Prometida" e "Poemas Digitais"; um segundo livro, uma novela, "As Dioptrias de Elisa", é publicado em 1996. A partir daí fica remetido ao silêncio donde viera, (não se sabe se por ausência de obra ou indisponibilidade editorial) cortado por uma ou outra entrevista que o estatuto de "poeta louco" lhe dera. O amigo e conterrâneo, Álvaro Lapa, citado pelo DN de ontem referia que António Gancho "foi muito mal tratado pela sociedade. É mais um caso de abuso psiquiátrico, de miséria nacional e institucional".
Herberto Helder chamou-lhe "poeta nocturno", mas alguns dos seus poemas e a novela que escreveu no Telhal parecem antes uma tentativa de sair do espaço de silêncio e trevas associado ao espaço asilar e às técnicas repressivas da psiquiatria. Digamos que tentou, através da escrita, saltar o muro do manicómio para "o ar da manhã".

AMOUR

Para que os teus dois seios sejam duas pombas brancas
e eu seja para ti o dono do pombal
para que o teu pombal seja nas tuas ancas
e eu o teu senhor matinal

Para que te a manhã te seja nos teus seios
e as tuas pombas brancas fiquem da cor de mulher
para que as tuas ancas já sejam as tuas ancas
e o teu pombal uma metáfora qualquer

Para que te eu o grão de todas as manhãs
de todas as manhãs a te distribuir
para que as tuas pombas voem do pombal
e todas as manhãs assim me distrair

Para que os teus dois seios as tuas pombas brancas
que o teu senhor há-de afagar
por ti e sobre ti e sobre as tuas ancas
o teu senhor te há-de amar.

4 comentários:

Anónimo disse...

boa publicação! tinha ouvido falar vagamente neste poeta, mas não o conhecia - força na divulgação!
abraço
carlos p f

http://podiamsermais.weblog.com.pt

Anónimo disse...

ok

Anónimo disse...

ok

Anónimo disse...

ok