sábado, março 25, 2006


Solidão

Cai chuva, chora
chora, chora.
Solidão, solidão!

Já não canta o pássaro.
Calou-se a voz, a alegre, a rara.
A que se ouvia solitária.
Cai chuva.

Não sou freira e estou num convento.
A paz, o silêncio, a chuva, os claustros...
Ser freira!
O sequestro, cantar, rezar.
Cai chuva, rude e sem dor.
Tu não choras.
Sou eu que choro.

Que é do pássaro, como cantava?
Voltou, voltou. Pia!
Bendito pássaro, onde estás?
Acompanha-me, já não chove.
Solidão, melancolia.

Irene Lisboa, Outono Havias de Vir in Obras de Irene Lisboa I, Presença, 1991, org. de Paula Mourão

terça-feira, março 14, 2006


SEM OUTRO INTUITO

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extrírem
às águas o silêncio que as unia.

Luís Miguel Nava, in Vulcão

sexta-feira, março 03, 2006


VIOLA CHINESA

Ao longo da viola morosa
Vai adormecendo a perlenda,
Sem que, amadornado, eu atenda
A lengalenga fastidiosa

Sem que o meu coração se prenda
Enquanto, nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a perlenda.

Mas que cicatriz melindrosa
Há nele, que essa viola ofenda
E faz que as asitas distenda
Numa agitação dolorosa?

Ao longo da viola, morosa...

Camilo Pessanha, "Clepsidra"