terça-feira, julho 18, 2006

foto: Reuters
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas
Eugénio de Andrade

sexta-feira, julho 14, 2006

LAURIE ANDERSON: UMA CERTA DISPERSÃO


Laurie Anderson esteve ontem no Porto, onde actuou na Casa da Música para cerca de 250 pessoas, acompanhada de dois músicos: Peter Scherer e Skùli Sverrisson. Amanhã vai estar em Mentemor-o-Velho, no Festival do Castelo.
Com uma longa carreira de 25 anos, Laurie Anderson continua no registo multimédia, embora mais soft. Ontem na Casa da Música, durante cerca de 75 minutos, a autora de "Big Cience" voltou a contar estórias que podem ser consideradas pequenos poemas ou mesmo aforismo enquanto numa tela eram projectadas fotografias (e as palavras de Anderson traduzidas para português).
Sendo a componente multimédia reduzida isso não deixa, no entanto, de provocar um efeito de dispersão entre a palavra, servindo de mensagem para reflexão, a música (com alguns excelentes momentos) e as imagens projectadas. Uma brochura a acompanhar o espectáculo com as palavras de Anderson seria uma boa ideia.

domingo, julho 09, 2006

Thomas Bernhard, 2


Filhos
Cortar as orelhas a todas as mulheres grávidas seria uma boa ideia. Eu disse isso? Bem, disse-o porque as pessoas, quando julgam que põem crianças no mundo, cometem um grande erro. Engendram um merceeiro ou um criminoso de guerra todo suado, espantoso, pançudo, e é isto que põem no mundo, não crianças. Dizem que vão ter um bebé, mas na realidade o que vão ter é um octogenário que se mija e baba todo, cheira mal, é cego e a quem a goto não deixa dar um passo. Põem no mundo desgraçados, mas a esses não os vêem, para que a natureza possa perpetuar-se e a mesma estrumeira prossiga até ao infinito.
Excerto de entrevista a Kurt Hoffman in Trevas, ed. Hiena, 1993, trad. de Ernesto Sampaio, p.76.

terça-feira, julho 04, 2006

GI PLAYSTATION

Foto de Nan Goldin


As criancinhas criminosas foram a julgamento. Bom... o julgamento é assim uma espécie de brincadeira aos juízes e criminosos com um senhor a fazer de ministério público e a pedir a condenação (10 a 15 meses de internamento em regime aberto ou semi-aberto). Enfim, tudo cotas porreiros, que até gostam de apimentar a brincadeira com isto de julgamento e tudo. Como se fosse a sério, como nos filmes. Só faltava era um tal de Parlamento Europeu vir estragar o final da brincadeira. Mas eles aqui não entram. Nós somos de brandos costumes.
Bom. As criancinhas lá confessaram. Foi tudo um divertimento, um passatempo, perfeitamente natural em criancinhas de tão tenra idade. Gritavam: "vamos dar lenha ao Gi" e lá iam. Note-se, facto bastante importante, que estas criancinhas estudando nas Oficinas de S. José não tinham acesso a playstations. A Gi era a playstation deles, o que por si só explica quase tudo: uma criancinha deve ter a sua playstation. As criancinhas também explicaram (e estou a seguir a notícia do público, assinada por Tânia Laranjo), que "sujeitaram a vítima a sevícias sexuais... por curiosidade". Ora contra um argumento destes nada a dizer. Isto só mostra a natureza epistemofílica deste grupinho, quer dizer, a seu amor ao conhecimento. Estamos perante futuros génios da ciência, que já mostram a meticulosidade com que tratam o seu objecto de estudo: "primeiro, queriam saber se era homem ou mulher; depois, quando viram que ainda não havia trocado de sexo, resolveram violentá-la". E, prosseguindo as suas investigações, não faltou o espancamento, as queimaduras com cigarros e a ocultação da "experiência".