quarta-feira, outubro 25, 2006

TRANSE

Há filmes sobre os quais devemos guardar silêncio. Como se não entendessemos a língua em que são falados. O que no caso é verdade.

Transe (2006) de Teresa Villaverde com Ana Moreira

quarta-feira, outubro 11, 2006

António Franco Alexandre


poderemos, um dia, amar estas vitrinas
como quem ama uma ideia imperdoável, ou uma
breve hesitação dos condutores
a meio do percurso? quero dizer,
estaremos vivos para o desbotar destas
folhas de plástico que brilham
uma vez cada noite; e para
o assobio das nuvens
ao passar sobre a roupa?
ou, fechando a gaveta, engoliremos o receio
destes bolos roubados
na prateleira de água?
ou será este o dilema que nos propõem
as minuciosas escavações telefónicas?
são questões ignorantes, delas depende o rumo
dos grandes navios japoneses à entrada da doca.

in Os Objectos Principais (1979)

quarta-feira, outubro 04, 2006

VOLVER: A IMANÊNCIA DAS MULHERES


O cinema de Pedro Almodovar vive dos extremos da sociedade espanhola. Extremos que existem, pelo menos, desde a guerra civil. Ao aproveitar esses extremos, essas margens sociais, como as freiras e os travestis, os drogados, os homossexuais, enfim gente que esta(va) em fractura, Almodovar tem conseguido contar algumas das histórias mais interessantes do cinema contemporâneo ao mesmo tempo que tem traçado um retrato sociológico (e satírico) da Espanha actual. A juntar a isto Almodovar é um cineasta que dialoga e procura o público (o contrário do nosso Manoel de Oliveira).
Em Volver, seu último filme em exibição, existe um certo distânciamento em relação aos filmes que o celebrizaram nos anos 80 e 90. Digamos que os extremos se atenuaram. Talvez por isso a história, e a forma como é filmado Volver, não seja tão intensa como como outras.
Volver é, no entanto, o filme mais feminino de Almodovar, o que implica que todo o elenco (com excepção de dois "figurantes") seja constituido por mulheres. Mulheres que vivem na Espanha profunda, cuidando dos mortos e dos vivos, matando para sobreviver ao desejo transgressor dos homens e assim constituindo uma lei (que já não é a lei do desejo) que remonta a Antigona; fazendo pela vida numa solidariedade que resulta da cumplicidade das relações (familiares) entre mulheres. Trata-se aqui de uma espécie de imanência particularmente feminina. Mas Volver também anúncia um regresso a essa Espanha profunda onde Almodovar passou a infância e onde o vento leste enlouquece por entre moinhos de vento - a sombra de Quixote, quinhentos anos depois, é a antitese destas mulheres.
Volver, real. Pedro Almodovar, com Penelope Cruz e Carmen Maura, 1996, 3 em 5

terça-feira, outubro 03, 2006

Sylvia Plath


BONDADE

A bondade plana perto da minha casa.
A dona Bondade, ela é tão simpática!
As jóias azuis e vermelhas dos seus anéis de fumo
Nas janelas, os espelhos
Enchem-se de sorrisos.

Que há mais real do que o gemido de uma criança?
O gemido de um coelho pode ser mais selvagem
Mas não tem alma.
O açuçar tudo cura, é o que diz a Bondade.
O açucar é um fluido necessário,

De cristais que são como um pequeno penso.
Ó bondade, bondade
A apanhar delicadamente os grânulos!
As minhas sedas japonesas, borboletas desesperadas,
Para fixar a qualquer momento, anestesiadas.

E lá vens tu, com uma chávena de chá
Numa auréola a vapor.
O jacto de sangue é poesia,
Nada o pode estancar.
Tu trazes-me dois filhos, duas rosas.

in Ariel, tradução de Maria Fernanda Borges, Relógio d' Água, 1996

segunda-feira, outubro 02, 2006

José Tolentino Mendonça

O POEMA
O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.