domingo, novembro 19, 2006

A AGONIA DO JORNALISMO


A SIC transmitiu em 2001 algo a que chamou reportagem e que na altura foi inserido num espaço informativo. Consistia essa alegada reportagem em fechar um toxicodependente, de nome Pedro, num apartamento onde estavam colacadas câmaras que filmaram a ressaca a que o "jornalista" João Ferreira chamou Agonia. Deste vómito jornalístico fazia parte o psiquiatra Goulão, especialista em tratamento de toxicodependentes, que na boa tradição do sadismo psiquiatrico se responsabilizou (?) por este tratamento de choque. É necessário dizer que em 2001 a televisão portuguesa estava a enfrentar a tv realidade com o Big Brother, grande sucesso de audências da TVI, que liquidou a liderança da SIC. O programa, na altura foi transmitido em horário nobre, em plena concorrência com o Big Brother da TVI. Toda a gente ficou muito sensibilizada e emocionada com esta "grande reportagem", a começar pelo presidente da república de então, Sampaio, que recebeu Pedro, Goulão e Ferreira. Mais tarde, aproveitando o sucesso da "reportagem", João Ferreira escreveu um livro, Agonia: Uma Lição de Vida, editado por essa fábrica de lixo literário de tudo quanto é gente que aparece na televisão que é a Oficina do Livro. Adiante. Ontem a SIC estreou um programa de título Perdidos e Achados que, apresentado pela jornalista Sofia Pinto Coelho, pretende ir repescar reportagens e notícias transmitidas pela SIC e saber o que é feito desses casos. Sem vergonha, os responsáveis pela informação da SIC escolheram precisamente essa alegada reportagem para primeira emissão. Tratava-se agora de saber o que tinha acontecido à vida de Pedro, seis anos depois de ter sido submetido a um ultrajante tratamento médico-mediático (a TVI estreou sexta-feira um outro reality-show médico, Dr. Preciso de ajuda, para mudar o aspecto físico das concorrentes que não podem pagar cirurgias plásticas). Vários tem sido os atropelos, em cerca de 15 anos de televisão privada, à deontologia e ética do jornalismo televisivo, mas esta "reportagem", agora repescada, terá sido das maiores fraudes jornalisticas. E fraude porquê? Porque não se tratava de uma reportagem mas sim de um programa concorrente do Big Brother com o descaramento de se entítular de jornalismo. Se no canal que foi de inspiração cristã, 12 pessoas alienavam a sua privacidade em busca de fama e dinheiro, na SIC o dr. Goulão e o sr. Ferreira inauguravam um novo tipo de tratamento da toxicodependência: um jovem, só, num apartamento ressacava, sem ajuda médica, mas com o olho do Big Brother, ou seja, neste caso os televoyeuristas que assistiam a uma cerimonia de exorcismo dessa coisa que nem psiquiatras nem jornalistas querem explicar que é a dependência de qualquer substância (seja o vinho, o tabaco, a heroína ou um psicofármaco) e que no caso das drogas ilegais é diabolizada. Não duvido que Pedro tenha deixado as drogas, mas questiono: se este "tratamento" foi tão eficaz porque não o repetir? E, afinal, como estão a ser tratadas as outras dezenas ou centenas de toxicodependentes em Portugal? O que pensam os médicos, os toxicodependentes, a população em geral? E a troca de seringas nas prisões? E o tráfico de droga? São estas, pelo menos algumas das questões que um jornalista deve tentar responder numa reportagem sobre a droga.

7 comentários:

Woman Once a Bird disse...

Plenamente de acordo. Há muito que o jornalismo televisivo definhou neste País. Na escrita ainda se salvam alguns dias... alguns dias.

Anónimo disse...

O Sr. que criou este blog está absolutamente enganado. A ignoranccia de facto é o grande problema deste país e ela vem apenas de pessoas mesquinhas e irritantes que pegam em tudo para poderem falarmal seja de quem for não olhando a meios ou verdades.Quem criou este blog, feliz ou infelizmente, nunca teve problemas de droga, nem conheceu ninguem com este problema.A ignorancia vai acompanhá-lo sempre até que um dia perceba, que há pessoas que fazem as coisas sem ser por dinheiro, fama ou maldade. O Pedro,o João Ferreia e a SIC merecem mais respeito do que qualquer "doutor" e merecem muito mais de tudo do que quem se dá ao trabalho de criar um blog com as barbaridades acima escritas. Logo se vê que deve viver numa redoma de vidro, como qualquer bom hipócrita que acha que a droga não chega a nossas casas. Que Deus o ajude. TG

Rodrigo Pretuga disse...

A propósito desse programa da SIC: http://www.nosnogoverno.blogspot.com/

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Jorge disse...

Algúem me consegue um link para assistir ao filme de Janeiro de 2001. Vi a reportagem mas gostava de ver o filme que lhe deu origem.

Muito Obrigado

Bruno Costa disse...

O post do autor deste blogue não tem razão de existir. A reportagem Agonia é um excelente trabalho jornalístico. Este opinião é partilhada pela comunidade docente portuguesa (que assinou um protocolo com a SIC, a fim de mostrarem o documentário em aulas escolares/universitárias. Para além disso, foi premiada com a serpente de ouro do festival médico científico de Obidos, um dos festivais mais prestigiados da europa.Foi reconhecido sobretudo a importância social da
reportagem.
O trabalho da SIC também tem sido utilizado pela classe médica na prevenção e na formação de técnicos especializados.

ASM disse...

“O post do autor deste blogue não tem razão de existir”. O que pretende com esta frase? Censurar-me, certamente. Infelizmente não pode. Mas eu podia apagar o seu comentário, como também não tendo razão de existir. No entanto, acho que lhe devo responder.
Se esta reportagem (?) está a ser mostrada em escolas secundárias e universidades, lamento muito. Porque ela contribui para aumentar o estigma em relação ao toxicodependente, e é esse estigma social parte do sofrimento do toxicodependente – é por causa desse estigma que os toxicodependentes acabam na rua, na criminalidade, abandonados por amigos e família. E afinal o que é um toxicodependente? Alguém que está dependente de uma substância química. Milhões de pessoas estão dependentes de substâncias químicas como antidepressivos, benzodiazepinas, hipnóticos, opiáceos, etc. São drogas legais, receitadas por médicos, algumas “pesadas” (como no caso de doses elevadas de antidepressivos ou opiáceos). É porque o toxicodependente consome drogas ilegais, promovidas por criminosos, que é estigmatizado, rejeitado socialmente. Não só pela família e amigos, mas também pelos “técnicos” que os deveriam ajudar mas são incapazes – quer por falta de competência e saber, quer porque também esses técnicos olham para o toxicodependente como um “leproso”. Que esta alegada reportagem tenha sido “premiada com a serpente de ouro do festival médico científico de Obidos, um dos festivais mais prestigiados da europa” é disso evidência. O que se vê neste trabalho televisivo é um tratamento médico “medieval”. Só a estigmatização, diria até o ódio misturado com sadismo, à figura do toxicodependente podem explicar o sucesso deste produto televisivo. Os psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais que seguem este modelo do dr. Goulão, que não respeita os elementares direitos de pessoas que sofrem de toxicodependência, simplesmente deviam ser banidos das respectivas Ordens profissionais.