segunda-feira, março 26, 2007

O FANTASMA SAIU PELO TUBO CATÓDICO


O fantasma saiu pelo tubo catódico. Salazar venceu o pseudo reality show "Os Grandes Portugueses", que a RTP-1 organizou. A vitória de Salazar, com mais de 41 por cento dos votos, à frente de Cunhal com 19 por cento dos votos, é reveladora de um país que, passados quase quarenta anos sobre a morte do ditador ainda vive com o seu espectro. É o país dos doutores, do poder pelo poder, do cinzentismo, da mediocridade, do capitalismo das OPA's, mas também o país da política dos patos bravos que querem abandonar o interior às urtigas em favor das vias rápidas e condomínios fechados ou abertos. O país do ódio aos campos, dos engarrafamentos para o trabalho e para casa, o país que necessita de um ou dois ditadores -- o segundo lugar de Cunhal é bastante significativo. É claro que é um reality show estúpido, feito com mortos, mas não deixa de ser um indicador significativo da nossa realidade. De como qualquer resquicio do 25 de Abril está enterrado.

domingo, março 18, 2007

PEDOJORNALISMO


De há uns tempos para cá - anos ou mesmo décadas - as crianças começaram a ocupar um lugar no espaço público que jamais tiveram. A baixa de natalidade e de mortalidade infantil, são factores para que se criem em volta das crianças disputas legais, raptos, exercicios de poder por parte de assistentes sociais, medo exagerado em volta da figura do pedófilo, e claro, a mediatização de tudo isto. O caso da bebé raptada há um ano em Penafiel, e agora descoberta pela PJ é mais uma mancha no jornalismo a que mesmo o dito jornalismo de referência não escapou. Durante dias, esta criança de um ano, tem sido tema de abertura de telejornais (incluindo o serviço público), primeira página de jornais (incluindo o "novo" Público). Qual a fronteira, nesta história, entre jornalismo tablóide e jornalismo de referência? Não se vê, porque todos os orgãos de comunicação social alinham pelo mesmo diapasão. Ontem havia festa na aldeia onde a mãe biológica recebeu a sua filha. Um repórter descrevia as solicitações por parte dos populares para ver a criança; o pivô da TVI entrevistava uma pedopsiquiatra questionando-a sobre a mediatização do caso... Talvez os jornalistas não tenham espelho, mas têm monitores.

quinta-feira, março 08, 2007

JEAN BAUDRILLARD (1929-2007)


O esquecimento da exterminação faz parte da exterminação, pois o é também da memória, da história, do social, etc. Esse esquecimento é tão essencial como o acontecimento, de qualquer modo impossível de encontrar para nós, inacessível na sua verdade. Esse esquecimento é ainda demasiado perigoso, é preciso apagá-lo por uma memória artificial (hoje em dia, por toda a parte, são as memórias artificiais que apagam a memória dos homens, que apagam os homens da sua própria memória). Esta memória artificial será a reencenação da exterminação -- mas tarde, demasiado tarde para poder fazer verdadeiras ondas e incomodar profundamente alguma coisa e, sobretudo, sobretudo através de um medium ele próprio frio, irradiando o esquecimento, a discusão e a exterminação de uma maneira ainda mais sistemática, se é possível, que os verdadeiros campos de concentração. A televisão. Verdadeira solução final para a historicidade de todo o acontecimento. Fazem-se passar os judeus já não pelo forno crematório ou pela câmara de gáz, mas pela banda sonora e pela banda-imagem, pelo ecrã catódico e pelo microprocessador. O esquecimento, o aniquilamento alcança assim, por fim, a sua dimensão estética -- cumpre-se no retro, aqui enfim elevado à dimensão de massas.


"Holocausto", in Simulacros e Simulação, Relógio d' Água, 1991, p.67