terça-feira, novembro 27, 2007

Manuel de Freitas


O SOM DAS VÍRGULAS


para o Jorge Gomes Miranda

Deixa estar, Jorge, é demasiado

tarde: já não nos livramos da

imerecida glória de sermos

grupo, constelação, movimento

-"nós" que, a bem dizer,

nunca acreditamos em nada disso.


Sempre de vozes tontas e ruído

alarve precisou o mundo. Mas agora

imitam os políticos, delegam poder

naquilo que nenhum poder aufere -

a poesia - esses que em jornais

e outras cátedras matariam pai e mãe

para chegar a palcos grosseiros

em que nem actores conseguem ser.


E até dizem que prestamos vassalagem

a quem simplesmente nos ensinou

por onde não devíamos seguir

-à distância dos livros, na pulsão

do irrespirável e, anos depois, do afecto.

Há várias maneiras de preferir um descampado.


Porque a poesia, Jorge, só interessa

- se é que interessa - quando nos visita

"com a urgencia de quem verte

cubos de gelo num copo de whisky".

Tão parecida com "o vírus do amor"

que faz do corpo o único lugar.


Mas para quê falar-te disto?

Disseste-o melhor, assim:

"nada é a poesia

prelúdio de outras ruínas

nunca afirmadas".


Não te inquietes, pois, com arrumadores

de versos. A morte corrigirá todas

as vírgulas, mesmo as que lá não estavam.
Manuel de Freitas, Telhados de Vidro, nº3, ed. Averno.

domingo, novembro 25, 2007

IAN CURTIS: O CONTROLO DO MITO




Ele era casado, tinha uma filha ainda bébe, um emprego num centro de emprego, uma amante; era jovem (young men), sofria de epilepsia, vivia numa cidade de subúrbio perto de Manchester - Macclesfield. Uma vida vulgar? Não. Ele chamava-se Ian Curtis e era o vocalista e autor das letras dos Joy Division, uma das mais importantes bandas da história do rock. O suicídio, aos 23 anos, a 18 de Maio de 1980, criou o mito que a intensidade espasmódica e depressiva da música dos Joy Division já fazia antever. Agora, 27 anos depois, surge o filme, uma adaptação da biografia que a viúva de Ian, Deborah Curtis, escreveu (Touching from a Distance de que existe tradução em português, Carícias Distantes, Assírio & Alvim). O filme, Control, é realizado por Anton Corbijn, fotografo que em 1988 realizou o teledisco de "Atmosfere", e tem Sam Riley (praticamente um estreante que embora tendo sido vocalista de uma banda "não fazia ideia de quem era Ian Curtis") no papel de Ian Curtis. Aclamado em Cannes, o filme de Corbijn, de que Deborah Curtis é co-produtora, foge da estética depressiva e pós-punk dos Joy Division, desmistificando pelo lado de fora Ian Curtis. Ora a vida de Curtis, que não chegou a ser uma estrela rock, é uma vida banal, cinzenta como esses finais da década de 70 em Inglaterra, como essa cidade de subúrbios. O que não é banal em Ian é a sua visão do mundo plasmada na música e letras dos Joy Division, ou ainda a sua entrega em palco que, creio, Sam Riley, se esforça por copiar, mas será sempre uma cópia. O filme acaba por dar pouco daquilo que foram os Joy Division e a banda sonora é escassa e mal aproveitada - nem sempre os melhores temas dos Joy Division aparerecem (veja-se o final do filme aonde seria de aproveitar um dos temas maiores da banda "The Eternal" ou mesmo "Decades").

quinta-feira, novembro 22, 2007

FERNANDO PESSOA / BERNARDO SOARES


Cada vez que viajo, viajo imenso. O cansaço que trago comigo de uma viagem de comboio até Cascais, é como se fosse o de ter, nesse pouco tempo, percorrido as paisagens de campo e cidade de quatro ou cinco países.

Cada casa por que passo, cada chalé, cada casita isolada caiada de branco e silêncio -- em cada uma delas num momento me concebo vivendo, primeiro feliz, depois tediento, cansado depois; e sinto que tendo-a abandonado, trago comigo uma saudade enorme do tempo em que lá vivi. De modo que todas as minhas viagens são uma colheita dolorosa e feliz de grandes alegrias, de tédios enormes, de inúmeras falsas saudades.

Depois, ao passar diante de casas, de «villas», de chalés, vou vivendo em mim todas as vidas das criaturas que ali estão. Vivo todas aquelas vidas domésticas ao mesmo tempo. Sou o pai, a mãe, os filhos, os primos, a criada e o primo da criada, ao mesmo tempo e tudo junto, pela arte especial que tenho de sentir ao mesmo tempo -- e ao mesmo tempo por fora, vendo-as, e por dentro sentindo-mas -- as vidas de várias criaturas.


Livro do Desassossego, edição de António Quadros, in Obras de Fernando Pessoa, vol. II, Lello e Irmão, pp. 872-3.

segunda-feira, novembro 19, 2007

THOMAS BERNHARD NO CCB


A partir de hoje e até 16 de Dezembro Thomas Bernhard, o escritor austriaco que passava frequentemente por Portugal, estará em foco num ciclo que é dedicado à sua obra no CCB. Para hoje está prevista a inauguração de uma exposição, na galeria Mário Cesariny, sobre "Thomas Bernhard e as pessoas da sua vida". Um dos principais tradutores da obra de Bernhard para português, José A. Palma Caetano apresenta a conferência "Thomas Bernhard e Portugal", pelas 18 horas; às 21h00 a Companhia de Teatro de Almada lê a peça O Presidente. No dia 22 será apresentado o romance Correcção, editado pela Fim de Século; no dia 26 João Barrento apresentará outro livro de Thomas Bernhard, que será editado pela Assírio & Alvim: Derrubar Árvores. Nesse mesmo dia, pelas 21h00, Tiago Rodrigues lê O Náufrago e a seguir é exibido o filme Glenn Gould: Variações de Goldberg. Outras iniciativas acontecerão até 16 de Dezembro, mas será que Thomas Bernhard, iconoclasta e provocador, aceitaria este tipo de homenagens?

quinta-feira, novembro 08, 2007

ROBERT WALSER


O URSO


Quão diferente é o urso. Em rigor, bonito não é. É antes um pouco estranho nos seus movimentos bamboleantes, ágil e encorpado, e não se sabe ao certo como o interpertar. Se ele pretende estender a pata, dás, involuntáriamente, um passo atrás. Não te apercebes de que, com a tua demonstração de medo, poderias tê-lo ofendido. Um urso tem o seu amor-próprio. Esta noite sonhei com um urso. Essa visão patusca fez que me sentisse também todo peludo. Senti compaixão, quando ele estendeu o braço para uma rapariga, ela a personificação da delicadeza e ele assim tosco, nem sequer penteado - bem podia ter esse cuidado... «Deixa-me em paz!», disse ela, e ele foi-se embora empertigado e, como se fosse uma pessoa que tivesse percebido bem o recado, enfiou-se na cama e puxou o cobertor para se tapar.


Robert Walser, A Rosa, Relógio d' Água, Trad. Leopoldina Almeida, 2004, p.29.

domingo, novembro 04, 2007

OS MÉDIA E «MADDIE»


O jornalismo procura, entre outras coisas, contar histórias - boas histórias - que, fazendo parte do real, muitas vezes são adaptadas à ficção (literária ou cinematográfica). Por outro lado´a imprensa escrita albergou ficções através de géneros como o folhetim ou o conto, hoje arredados das páginas dos jornais. O desaparecimento de Madelaine McCan no passado dia 3 de Maio de um complexo hoteleiro na Aldeia da Luz, no Algarve, e as consequências que este caso teve a nível mediático enquadram-se numa lógica folhetinesca. Este caso teve, e continua a ter, todos os ingredientes de um bom romance ou série policial. É claro que todos os dias desaparecem crianças, mas nunca um caso como o de Maddie teve esta repercussão mediática. Quer se acredite na inocência ou culpabilidade (ainda que relativa) dos pais, estes, através da sua posição social e amizades junto do governo inglês, tiveram um papel activo no desencadear de uma cobertura mediática inédita na busca de uma criança. As acções que o casal McCan tomou, que incluiram um encontro com Bento XVI, ajudaram a manter a campanha a nível dos meios de comunicação social. Mas, como numa boa história policial, dá-se uma reviravolta e as vitimas passam a culpados. Mais apetecível ficou a história. Agora, passados 6 meses e com o casal McCan em Inglaterra, embora com o estatuto de arguidos, o caso vai-se esfumando. Há indícios forenses, mas não há corpo, e a polícia judiciária sabe que este não é um outro caso Joana (onde a confissão da mãe terá sido obtida sob tortura). Nem mais um episódio de CSI (Praia da Luz).