quarta-feira, dezembro 31, 2008

LIVROS DE 2008


Musil, Pessoa e Herberto Helder marcaram, no campo editorial, o ano que agora finda. De Musil a Dom Quixote deu à estampa, em tradução de João Barrento, esse grande romance (pelo menos no número de páginas) que é O Homem sem Qualidades. Sobre Pessoa, que em finais de 2005 passou a domínio público, e do qual se comemoraram este ano os 120 anos do nascimento, foram lançadas uma série de edições importantes e monumentais, tal como a obra do poeta. José Blanco publicou na Assírio & Alvim a ciclópica bibliografia Pessoana em dois volumes de mais de mil páginas; em finais de Novembro a editorial Caminho publicou o Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, coordenado por Fernando Cabral Martins e com a colaboração de cerca de 80 especialistas em Pessoa e no Modernismo (quer literário quer nas artes plásticas). Teresa Sobral Cunha publicou, na Relógio d’ Água, a sua versão desse livro maior da literatura portuguesa que é o Livro do Desassossego (recorde-se que esta pessoana participou na edição princeps do Livro, editada em 1982, sob a organização de Jacinto do Prado Coelho). E como a arca de Pessoa parece não ter fundo, Ana Maria Freitas organizou para a Assírio & Alvim as “novelas policiárias” do poeta sob o título Quaresma Decifrador. O ano Pessoano contou ainda com um congresso e um polémico leilão de uma parte do espólio do poeta dos heterónimos.
Se Pessoa é a figura mais importante da literatura portuguesa do século XX, há quem não tenha dúvidas em considerar Herberto Helder como a segunda figura. Ora este ano, e depois de um silêncio de 14 anos, Herberto voltou a publicar um livro com originais. A Faca não Corta o Fogo – súmula & inédita (Assírio & Alvim) terá sido o livro mais procurado do ano, esgotando a tiragem de três mil exemplares numa semana.
Em ano de crise na economia o mercado livreiro e editorial esteve agitado. Paes do Amaral, antigo patrão da TVI, mudou-se para os livros (embora do que goste realmente é de corridas de automóveis) e formou o grupo Leya que adquiriu editoras de peso no mercado livreiro como a Dom Quixote, a Caminho e a Asa. A estratégia agressiva do grupo causou polémica na Feira do Livro. Já no mercado livreiro um mega-projecto de livraria, a Byblos, acabou por falir enquanto a FNAC acabava com os descontos de 10 por cento.
Mas voltemos aos livros publicados em 2008. No que respeita ao romance Maria Velho da Costa publicou Myra (Assírio & Alvim), Mafalda Ivo Cruz apareceu com O Cozinheiro Alemão (Relógio d’ Água), Teresa Veiga, uma autora bastante discreta, publicou o livro de contos Uma Aventura Secreta do Marquês de Bradomín (Cotovia), e continuando com mulheres, Ana Teresa Pereira publicou dois livros: O Fim de Lizzie (BI) e O Verão Selvagem dos Teus Olhos (Relógio d’ Água). Dois mil e oito foi também ano de Saramago e Lobo Antunes. Do Nobel, tivemos A Viagem do Elefante (Caminho), e do pretendente ao Nobel, Arquipélago da Insónia (Dom Quixote).
Na poesia portuguesa, para além do já destacado livro de Herberto Hélder, a colheita não terá sido das piores mas também não foi das melhores. Mesmo assim tivemos Armando Silva Carvalho com O Amante Japonês (Assírio & Alvim), Nuno Júdice com A Matéria do Poema (Dom Quixote), Luís Quintais com Mais Espesso que a Água (Cotovia), Manuel Gusmão com A Terceira Mão, o regresso que se saúda de Fátima Maldonado com Vida Extenuada (& etc) ou ainda a consolidação de um novo nome para a poesia portuguesa do século XXI: Bénédicte Houart com Vida: Variações (Cotovia). E, já agora a referência a três revistas: a Telhados de Vidro, que fez cinco anos de uma cuidada e criteriosa publicação, a Relâmpago que preserva a memória de Luís Miguel Nava dedicando números bi-anuais a alguns dos maiores poetas portugueses e também a temáticas relacionadas com a poesia, e a Criatura, revista que revelou novos poetas. Na poesia traduzida assinale-se o trabalho que a Cotovia vem fazendo (a editora de André Jorge comemorou este ano 20 anos de actividade) na tradução de clássicos – desta vez Pedro Braga Falcão traduziu as Odes de Horácio.
Na ficção traduzida, e para além do já referido Homem Sem Qualidades, há uma série de autores a referir, muitos dos quais foram alvo de destaque da cada vez mais parca imprensa literária portuguesa. Julio Cortázar com Rayuela (Cavalo de Ferro), Roberto Bolaño com Os Detectives Selvagens (Teorema), ou ainda, para continuarmos no mesmo idioma, Bomarzo do argentino Manuel Mujica Lainez foram alguns dos autores mais festejados pelo jornalismo cultural que se vai fazendo por cá. Mas também houve, entre muitos outros, dois livros de Thomas BernhardCorrecção (Fim de Século) e Árvores Abatidas (Assírio) – e mais de Robert Walser, Histórias de Amor (Relógio d’ Água), livro de micro-narrativas ou micro-ficção num ano em que se publicou a Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa (Exudus) resultado, em parte, da blogosfera.
E para terminar, ou quase, o ensaio. Do que me lembro e do que constato por outros balanços, o ensaio (reunindo neste grupo livros de filosofia, ciências sociais, etc) tem vindo a perder terreno no mercado editorial. Refiro apenas dois títulos: Mil Planaltos de Gilles Deleuze e Félix Guatarri (Assírio & Alvim) e Camaradas – uma história mundial do comunismo de Robert Service (Europa-América). E lembro-me agora dois livros de George Steiner e um de Harold Bloom, Onde Está a Sabedoria (Relógio d’ Água).
Esta tentativa de fazer o balanço dos livros que se publicaram em 2008 é, como todos os balanços, imcompleta. Haveria muito mais para dizer, outros livros para acrescentar a esta já longa lista.










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