terça-feira, junho 22, 2010

CABAZADA E FUZILAMENTOS


Ontem a selecção nacional venceu a Coreia do Norte por 7-0. Resultado histórico contra um pais que não é deste planeta. A Coreia do Norte é uma espécie de monarquia estalinista de Kim's, um buraco negro entre as nações da terra: quem lá entra, por exemplo como jornalista terá poucas hipóteses de sair de lá vivo para contar o que viu, se quiser fazer mesmo um trabalho jornalístico. Um pais como este governado pelo querido líder Kim Jong-Il, é capaz de tudo. O jogo de ontem foi transmitido em directo pela televisão estatal norte-coreana, ao contrário do jogo com o Brasil, transmitido em diferido. Ora se o jogo foi mesmo transmitido em directo sem nenhuma decalage que permitisse ao realizador da emissão cortar os sete golos de Portugal, os norte-coreanos que têm o privilégio de ter uma televisão viram em directo a humilhação de uma nação que para propaganda interna deve dominar o mundo. Tudo isto faz-me pensar no destino dos jogadores da Coreia do Norte. O que os espera quando chegarem à sua querida pátria estalinista, depois da humilhação que Portugal lhes infligiu? Receio o pior, o fuzilamento. Imagino que enquanto os portugueses festejavam ontem os sete golos, estivessem a festejar também os fuzilamentos do coreanos, como se a metáfora fuzilar a baliza se tornasse literal. E um dia o deus demente, o grande líder Kim resolve ripostar com armas nucleres (não contra Portugal, mas contra o pais que esteja mais à mão, talvez a inimiga Coreia do Sul)

segunda-feira, junho 21, 2010

JOSÉ SARAMAGO 1922-2010


Depois de tudo o que foi dito, escrito, mostrado, pouco há a dizer. Li apenas quatro livros de Saramago e gostei. Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, principalmente destes. Depois Saramago passou a ser para mim um produto de marketing: os grandes espositores nas livrarias, as polémicas que ajudavam a vender (quer se queira quer não ajudavam). Entre Saramago - ou Lobo Antunes - e Margarida Rebelo Pinto ou José Rodrigues dos Santos, existe uma diferença talvez abissal, mas o marketing livreiro que tudo engole e vomita com estrelas resplandecentes, também tudo nivela pela mesma escala. Por isso sempre que saia um livro de Saramago passava ao lado. E não é agora, depois de todo este folclore fúnebre que vou ler Saramago. Reconheço uma importância em Saramago pelo autodidatismo, talvez uma certa rudeza que à medida que ai descobrindo o mundo da cultura não se deixava possuir pela fineza deste. Era um camponês, um operario. Foi assim que sempre pensou, como um camponês alentejano que desconfiava da metafísica depois de a conhecer. Permaneceu fiel às origens, como Genet.

quarta-feira, junho 16, 2010

JORGE GOMES MIRANDA


AUTO-RETRATO

Nos outros livros, em verdade, afirmei
aquilo que neste, claramente, coloco em dúvida:
a tenaz esperança de um mundo capaz de escapar
ao eterno alinhamento de violência e impiedade.

Findo um milénio de pássaros agonizantes,
e no início de outro, tudo vejo capitular
de novo: a cidade de ninguém, abatida
por construções clandestinas, desabamentos;

entre amigos, vocábulos de aspereza
comprometendo o entendimento;
negrura sem interrupção e homicida

nos gestos que dantes reflectiam o amor;
a perda lancinante do conhecimento
da poesia às mãos de ressentidos e diletantes.

Jorge Gomes Miranda, in Este Mundo, Sem Abrigo, Relógio d' Água, 2003, p.11.