terça-feira, outubro 26, 2010

Teresa M. G. Jardim


TELEVISÃO

A televisão é uma fotografia de guerra
que mexe. É um beijo mais largo que a minha cabeça.
É uma caixa de sabão que não se cansa de lavar mais branco.
E faz muita companhia, a mim, aos livros, ao cão.

O arroz está mais caro. A água e a luz também.
Eu estou mais gorda e não passou na televisão:
a minha televisão é sensível, preocupa-se comigo,
é como se fosse uma pessoa; melhor
que as pessoas amigas que me contam as rugas
e os cabelos brancos, resmungam
por tudo e por nada, calçariam luvas
para apanhar do chão um livro
ou mesmo o meu coração se caísse.

Teresa M. G. Jardim, Jogos Radicais, Assírio & Alvim, 2010, p. 19

Teresa M. G. Jardim nasceu no Funchal em 1960. Nos anos 80 publicou poemas no DN Jovem e no Anuário de Poesia da Assírio & Alvim. Professora e artista plástica, estreia-se em livro com Jogos Radicais. A sua poesia aproxima-se de um quotidiano onde a televisão convive com os gatos e os livros. (A fotografia acima foi retirada da página do facebook da autora).

sexta-feira, outubro 22, 2010

DAVID MOURÃO-FERREIRA


Brilha nas mãos do sol o gume de um cutelo
O pescoço da Lua é que há-de ser o alvo

***

Os meses vão batendo à nossa porta
Sempre fingindo que são deuses diversos

***

TRENO

Ai a tua nudez Ai a tua mudez
Ó taça de cristal sobre veludo preto

Quando voltas de novo a ser aquele vento
que antes do amor se começa a mover

Poemas do livro Matura Idade, (1ª edição 1973) reeditado (8ª edição) pela Arcádia, 2010.

quarta-feira, outubro 13, 2010

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Leitura de poemas sobre a temática da água e do fogo amanhã, 14 de Outubro, pelas 21h00 no Café Progresso. Os poemas serão lidos por Celeste Pereira e Ana Afonso.
Aqui fica o poema de António Ramos Rosa cujos dois primeiros versos encimam o cartaz

Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.

(de Volante Verde, 1986)

terça-feira, outubro 05, 2010

REPÚBLICA: 100 ANOS


Hoje, cem anos depois da implantação da República torna-se difícil compreender o que foi esse tempo, entre 1910 e 1926. Talvez um tempo de paixão pela política, de crença na política como algo que iria modificar a vida das pessoas, mudar de vida, mudar de regime. Paixão e crença e não calculismo, estratégia e carreirismo.
A grande turbulência política, o espírito positivista, a perseguição às entidades religiosas, a participação de Portugal na I Guerra Mundial – com baixas significativas –, a liberdade de imprensa num acentuado nível, a aposta no ensino como forma de libertação do povo. Alguns dos aspectos positivos e negativos da I República.
Destes aspectos vejamos um em particular, o que hoje, nas comemorações do centenário mais se destacou: a aposta na educação. O governo inaugurou cem escolas (algumas foram apenas remodeladas), talvez para tentar contrabalançar as centenas que tem vindo a fechar. Cem anos depois da proclamação da República exigia-se uma outra atitude política, uma outra capacidade de ver o presente. O que se torna hoje necessário não é apenas a aposta na educação, vista como forma de alfabetizar as crianças. O que hoje é necessário é uma outra forma de pensar a educação. Já não se trata de combater o analfabetismo mas a iliteracia.