sexta-feira, dezembro 31, 2010

LIVROS EM 2010.


UMA LISTA*

- Nudez, Giorgio Agamben, Relógio d’ Água
- Inverness, Ana Teresa Pereira, Relógio d’ Água
- Que se diga que vi como a faca corta, Miguel Cardoso, Mariposa Azual
- O Nascimento da Filosofia, Giorgio Colli, Edições 70
- A Poesia Ensina a Cair, Eduardo Prado Coelho
- Matteo Perdeu o Emprego, Gonçalo M. Tavares, Porto Editora
- Mulher ao Mar, Margarida Vale de Gato, Mariposa Azual
- Viva México, Alexandra Lucas Coelho, Tinta da China
- Poemas com Cinema, Org. de Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim

* Esta lista corresponde a livros que li em 2010, editados neste mesmo ano, em Portugal.

UMA SÍNTESE

No ano em que morreu José Saramago, Gonçalo M. Tavares consolidou-se como um “valor” da literatura portuguesa – premiado em França, publicou três livros: Uma Viagem à Índia, Eliot e as Conferências (ambos editados pela Caminho) e Matteo Perdeu o Emprego (vergonhosamente editado pela Porto Editora que, numa lógica de merceeiro estúpido, colou nas capas um autocolante a prometer prémios aos leitores que ligassem para um número de valor acrescentado). Trata-se de uma crescente mercantilização do objecto livro que a consolidação de uma lógica de grupos (Leya, Porto Editora, Fnac) equipara a gadgets como telemóveis, tablets, computadores, plasmas, etc, - veja-se os “catálogos” de sugestões elaborados pela Fnac, Leitura-Bulhosa, Bertrand. Nem as livrarias “alternativas” conseguem escapar a esta lógica de mercantilização do livro (a Livraria Latina, do Porto, foi comprada pelo grupo Coimbra Editora e Leya, ficando com o nome mais ridículo que jamais uma livraria terá tido em Portugal: "Leya na CE Latina").
No entanto continuam a existir espaços de resistência. Para além de mais de duas dezenas de boas livrarias “alternativas” espalhadas pelo país, os leitores muito têm a agradecer a editoras como a Assírio & Alvim, a Relógio d’ Água e muitas outras.
A Mariposa Azual é uma destas editoras. Este ano deu a conhecer duas revelações da poesia portuguesa: Margarida Vale de Gato, com Mulher ao Mar, e Miguel Cardoso com Que se diga que vi como a faca corta, título que aponta para um diálogo com Herberto Helder e não só.
É no campo de batalha da poesia que algo de “bombástico” aconteceu: a publicação de Um Toldo Vermelho por Joaquim Manuel Magalhães, livro que faz a excisão e reescrita de toda a poesia do autor de Dois Crepúsculos. E essa reescrita é de tal forma radical que anula por completo o programa poético que J. M. Magalhães esboçou no poema “Princípio” de Os Dias, Pequenos Charcos (1981): o “voltar ao real”. No campo e contra-campo de batalha que tem sido a poesia portuguesa da última década, algo mudou com o livro de Joaquim Manuel Magalhães: um dos grupos perdeu o seu “pai” tutelar (enlouquecido? Farto de ser ama de leite seco?). Certo é que desde 2008 que a poesia portuguesa se tem vindo a renovar – com o livro de Herberto A Faca não Corta o Fogo, com os livros de Miguel-Manso e este ano com Margarida Vale de Gato e Miguel Cardoso.

2 comentários:

Anónimo disse...

Parabéns pelo texto, e permita-me a liberdade de escrever que, se alguém comprar um livro (seja para oferecer ou para o próprio) porque quer ganhar um prémio é de louvar pois vender um livro é uma vitória num pais conotado com índices baixos de leitura...

E se esse alguém comprar/ler especificamente o "Matteo Perdeu o emprego" porque, por acaso, tem um prémio então ainda mais satisfeitos deveremos ficar. Permitir que um comum leitor tenha acesso e entre em contacto com um autor de referencia porque se oferece um pequeno incentivo (e uma TV 3D de uma marca de referencia parece-me um bom incentivo, i.e. para quem não vê na caixa mágicae demais gadgets, obra do Demo.)

Pelo que sei 0,50€ é o valor mínimo destes serviços, portanto não vejo aqui tentativa de lucro, aliás do valor total, a maior parte vai para as operadoras,com deve saber, e o restante para pagar as mensagens de resposta ao individuo que participa (prémio que ganhou ou não ganhou ou quantos sms faltam para ganhar, creio).

Obviamente (ainda) vivemos num país livre (para indivíduos e empresas) e se o individuo pode fazer e dizer(dentro dos valores sociais) o que muito bem entende, as empresas também e podem, dentro das regras de mercado, potenciar as vendas dos seus autores(mesmo dos bons). Naturalmente, o comprador pode não ligar aos prémios ou mesmo não comprar e "castigar" a editora em causa. Mas pelos livros que vejo nas livrarias que refere muitos devem discordar.

Mas as editoras que refere (as do Sul, do centro e do Norte)devem ter gerentes inteligentes, pois o mercado tem evoluído de forma muito louvável e temos tido o prazer de ver editados inúmeros autores novos (e muitos portugueses).

No que toca ao nome da Livraria, o senhor também deve achar que a Feira do Livro de Lisboa agora também se chama "Leya na Feira do Livro", isto seguindo os cartazes que lá vi e imagino que também tenha visitado a dita ou acha o evento "muito feira", um evento do povo...

Graças a essa editora, a dita livraria do centro do pais ganhou um novo fôlego, uma revista do sector voltou ao mercado e temos livros a preço baixo, sobretudo no final do ano passado(bastava ir uma das lojas que refere e ver a promoção leve 4, pague 3) ora se isso não é dar acesso à leitura o que será!!!

Eu sou fervoroso leitor de poesia e do GTavares (e mesmo ainda antes dos 20 já boa parte dos clássicos, espero que o GT venha a sê-lo) mas, veja-se lá, gosto do Dan Brown, dos jornalistas escritores (todos eles, pelo menos os que de facto escrevem) pois por vezes também peço coca cola para acompanhar bacalhau, quem sabe, depois dar mais valor a um bom vinho.

Ler muito (jornais, revistas, livros de referência ou não, blogs, etc), forma o carácter mas não é sinal de sapiência, ajuda, infelizmente não em todos os casos. Eu penso que ainda vou a tempo.

Atenciosamente,

um leitor

ASM disse...

Caro Leitor Anónimo,
Agradeço o comentário. As questões que coloca são bastantes. No entanto, parece que temos visões diferentes sobre o livro, a edição, a política, o que é perfeitamente natural.