segunda-feira, dezembro 31, 2012

LIVROS EM 2012


Crise. Para além da realidade social, incontornável, provocada por um governo que é o pior depois do fim do Estado Novo, a palavra crise e o discurso em volta dela criam ainda mais crise. Como disse W. Burroughs, a linguagem é um vírus. 2012 terá sido o ano em que este governo de canalhas pôs em prática o processo de aniquilamento de Portugal. No que respeita ao mundo literário a crise não terá sido tão evidente – o demissionário secretário de estado da cultura, o escritor, jornalista e editor Francisco José Viegas, colocou a salvo o livro (e os seus livros) de uma maior taxa de IVA.

O que é perceptível é que o comércio do livro é cada vez mais governado pelas leis de um capitalismo selvagem; que os actores deste comércio são agora grupos que aglutinam um número grande de editoras; que esses grupos e quem está na sua chefia nada têm a ver com o mundo literário, restando algumas editoras e editores independentes. Nada disto é novo. O que este ano apareceu como novo é a desistência de grandes grupos em relação ao livro em papel. Assim, é possível ver como nas lojas Fnac a preocupação não é o livro mas a venda de espaço a editoras, a venda de leitores de e-books e mesmo de artigos de papelaria. Parece aliás existir um ódio ao livro, cuja rotação é permanente. Cada vez há menos livros nas livrarias e as próprias editoras – as dos grandes grupos – encarregam-se de guilhotinar livros dos seus fundos editoriais. Tudo isto resulta num enorme empobrecimento. A Amazon parece já não ter livros nos seus armazéns (pelo menos a Amazon.es): os livros em papel são vendidos por outras livrarias e o destaque vai para os e-books. Parece que se abre o caminho desenhado por Ray Bradbury (que morreu este ano) no seu romance de ficção-científica Fahrenheit 451.

O que se publicou este ano em Portugal não pode ser desligado das notas anteriores. O best-seller do ano foi marcado pelo erotismo para donas de casa com As Cinquenta Sombras de Grey (ed. Lua de Papel) – por cá foram vendidos 120 mil exemplares, o que mostra o poder do marketing editorial. Foi também o ano em que um engenheiro desempregado, João Ricardo Pedro, ganhou o Prémio Leya com o seu romance de estreia, O Teu Rosto Será o Último –, um exemplo para o discurso do primeiro-ministro. Quem tomou uma atitude política e ética em relação à política de Passos Coelho foi Maria Teresa Horta ao recusar receber das mãos deste o Prémio D. Dinis da Casa de Mateus pelo romance As Luzes de Leonor. A política não andou desligada do livro e a polémica em volta da História de Portugal, coordenada por Rui Ramos, que o Expresso distribuiu em fascículos durante o verão, foi mais uma evidência disso. Essa polémica, iniciada por Manuel Loof, permitiu realçar como Rui Ramos procedeu a um branqueamento da política do Estado Novo e quem apoiou ou se opôs a esse branqueamento.

Já no final do ano o Prémio Pessoa foi atribuído a um pessoano – Richard Zenith, que há quase duas décadas se ocupa da obra sempre inacabada de Pessoa. Este ano Richard Zenith editou com Fernando Cabral Martins uma Teoria da Heteronímia, volume de cerca de 400 páginas onde se recolhem os textos que Pessoa escreveu em volta deste tema, além de uma “tábua de heterónimos”. Este livro, a que se podem juntar outros como a Prosa de Álvaro de Campos, editado pela Ática, fazem parte da incomensurável bibliografia de Fernando Pessoa. A Teoria da Heteronímia foi editada pela Assírio & Alvim, que há mais de uma década edita Pessoa, mas em 2012 a editora de que foi mentor Manuel Hermínio Monteiro, e depois da morte deste Manuel Rosa, passou definitivamente para o grupo Porto Editora, sendo o editor responsável Manuel Alberto Valente. Embora a PE respeite o grafismo e a linha editorial, a verdade é que se perdeu uma das principais editoras independentes. Em resposta, Aníbal Fernandes lançou uma nova editora, a Sistema Solar, e Manuel Rosa a Documenta, editora de livros de arte e sobre arte.  É das editoras independentes que chegam os livros que interessam, editoras como a Relógio d’ Água que entre os livros que publicou em 2012 destaco os Contos Escolhidos de Carson McCullers com tradução e escolha de Ana Teresa Pereira. A mesma Ana Teresa Pereira que venceu – finalmente – o Grande Prémio de Romance e Novela da APE pela narrativa O Lago, e este ano publicou Num Lugar Solitário, livro reescrito, cuja primeira edição data de 1996.

É nas micro editoras que se vai encontrar grande parte da poesia que se edita. Averno, Língua Morta, mas também Mariposa Azual, Artefacto, 7 Nós, a “velhinha” & etc, a artesanal 50 kg ou a Opera Omnia. Nesta última editora reunião Carlos Poças Falcão vinte e cinco anos de produção poética em Arte Nenhuma (Poesia 1987-2012). O livro, embora editado numa editora com pouca visibilidade, resgata uma das principais vozes poéticas dos últimos 25 anos – repare-se, por exemplo, num livro como Três Ritos. Entre os livros publicados pela Averno para este natal, destaque-se, além do nº 17 da revista Telhados de Vidro, o volume colectivo Nós, Desconhecidos e um livro que reúne ensaios de Manuel de Freitas, Pedacinhos de Ossos. No ano da morte de Manuel António Pina, ficam dois nomes editados pela Mariposa Azual, ainda para averiguar da sua qualidade: Susana Araújo com Dívida Soberana e Raquel Nobre Guerra com Broto Sato.

Se estes livros são difíceis de encontrar nas livrarias, no que toca ao ensaio passa-se algo de semelhante. Que o volume A Mecânica dos Fluidos/ A Noite do Mundo, reedição das obras completas de Eduardo Prado Coelho pela INCM, não tenha aparecido nas livrarias é sintomático desse ódio aos livros que se instala entre pretensos vendedores dos mesmos.

Por último a questão do acordo (desacordo) ortográfico: em 2012 aumentou o número de editoras que adoptaram o AO. No entanto, o Brasil ainda recentemente congelou por 3 anos a entrada em vigor (legislativa) do acordo. Portanto é cada vez mais notório que o acordo não agrada a ninguém.

 

A=

Contos Escolhidos, Carson McCullers, Relógio d’ Água

Arte Nenhuma, Carlos Poças Falcão, Opera Omnia

E a Noite Roda, Alexandra Lucas Coelho, Tinta da China

Uma pequena História da Filosofia, Nigel Warburton, Edições 70

A Terceira Miséria, Hélia Correia, Relógio d’ Água

Os Primos da América, Ferreira Fernandes, Tinta da China

 

B=

As Armas Imprecisas, António Ramos Rosa, Afrontamento

As Damas do Século XII (vol. 3), Georges Duby, Teorema

Una Novelita Lumpen, Roberto Bolaño, Anagrama

Cicatriz 100%, Inês Lourenço,

Sobre os Sonhos, S. Freud, Texto Editora

 

C=

O Teu Rosto Será o Último, João Ricardo Pedro, LeYa

Pedacinhos de Ossos, Manuel de Freitas, Averno

Telhados de Vidro /17, VV AA, Averno

Nós, Os Desconhecidos, VV AA, Averno

Teoria da Heteronímia, Fernando Pessoa, Assírio & Alvim

Dívida Soberana, Susana Araújo, Mariposa Azual

Broto Sato, Raquel Nobre Guerra, Mariposa Azual

Quem Paga o Estado Social em Portugal, Raquel Varela (org), Bertrand Editora

Mecânica dos Fluidos / A Noite do Mundo, Eduardo Prado Coelho, INCM
 
A- Livros publicados e lidos em 2012 (selecção).
B- Livros lidos em 2012, publicados noutros anos (selecção).
C- Livros publicados em Portugal em 2012 e que poderia ter lido se.

 

 

segunda-feira, dezembro 17, 2012

BANDITISMO NO PODER


Este governo não é só criminoso porque está a atirar pessoas para a miséria, porque está a desmantelar o Estado Social – saúde, segurança social, educação – que é o suporte de vida de muita gente em Portugal; este governo não é só criminoso porque rouba as reformas aos pensionistas, o resultado de uma vida de trabalho para sobreviver com alguma dignidade; este governo não é só criminoso porque está a fazer retrocessos nunca vistos no regime laboral, levando os direitos dos trabalhadores para o nível do salazarismo, criando um desemprego que para muita gente – os que têm mais de 30, 40 anos – será para o resto das suas vidas. Este governo é também criminoso porque está a liquidar, a privatizar, as últimas empresas que na maior parte dos estados democráticos estão nas mãos do Estado porque tanto a nível simbólico como económico e estratégico devem pertencer ao Estado. Ora sobre este processo de últimas privatizações, de que a EDP foi o primeiro exemplo, começa-se a levantar um pouco do véu de nebulosidade. O Público de hoje, sobre a escandalosa privatização da TAP ao preço da chuva, revela como o energúmeno ministro Relvas reuniu há mais de um ano com o tal Efromovich, o único interessado em comprar a TAP, e como este Efromovich está ligado a outro vigarista brasileiro, José Dirceu envolvido no escândalo do mensalão, de quem Relvas é amigo. Ou seja, começa a ser claramente notório que este governo é constituído, quer no sentido moral, político e constitucional, mas também agora no sentido jurídico por um bando de criminosos. Sobre o “dr.” Relvas, e pelo seu currículo, não restam dúvidas que mais tarde ou mais cedo, terá o destino dos amigos de Cavaco do BPN. Sobre os outros, Coelho, Gaspar, Borges, Mota Soares, Nuno Crato (veja-se a reportagem da TVI sobre os colégios da empresa GPS), é necessário que os cidadãos se mobilizem, que acordem outra vez, e sigam o exemplo da Islândia.

quarta-feira, dezembro 05, 2012

"UM ABAIXO-ASSINADO QUE VAI CONTRA O ESTADO DE DIREITO E AS REGRAS ELEMENTARES DA DEMOCRACIA"


Maria João Rita Filomena Pinto da Cunha de Avilez Van Zeller, nascida em 1945 numa família da aristocracia lisboeta. Conhecida como jornalista (Expresso, SIC, RTP, agora) e escritora (uma biografia sobre F. Sá-Carneiro, entrevistas com Mário Soares, etc) pelo singelo nome de Maria João Avilez. O Van Zeller, pormenor de não despicienda importância, é o nome de casada, que lhe deu a semente para mais quatro Van Zeller’s verem a luz deste mundo cão. Ora a D. Maria João Rita Filomena Pinto da Cunha de Avilez Van Zeller foi chamada a fazer serviço público na RTP-1 aos Domingos à noite, depois do Telejornal, num programa cujo título é Termómetro Político. Acompanham-na nesse programa o director do Diário de Notícias, João Marcelino, o director do Jornal de Negócios, Pedro Santos Guerreiro e o moderador Carlos Daniel. O programa consiste em dar notas a 4 figuras políticas e comentar a razão das notas. Concorre com a actuação do professor Marcelo na TVI. Sobre a pluralidade do programa, se os nomes não fossem suficientes, bastava ver uma pequena amostra. Mas o programa tem picos que demonstram o carácter dos intervenientes, neste caso de Maria João Avilez. Afirma a excelsa aristocrata jornalista no último programa sobre a carta dirigida ao primeiro-ministro cujo primeiro signatário foi Mário Soares: “Um abaixo-assinado que vai contra o Estado de Direito e as regras elementares da democracia”. Portanto, para a senhora dona Maria João quando um grupo de cidadãos num Estado democrático escreve ao primeiro-ministro para este abandonar as políticas que estão a liquidar a economia, ou demitir-se, isso é um acto contra o Estado de Direito. Será contra o estado como o concebe a senhora Van Zeller – mas esse já não é um Estado de direito, mas tão só de direitos para alguns privilegiados – os Van Zeller’s deste mundo cão.

domingo, novembro 25, 2012

FERNANDO GANDRA

Os caminhos mudam de aspecto
quando os fazemos ao contrário.
Há dias em que há os homens e há
as coisas e em que não me venham falar de deus
deste tempo ou da minha geração.
Redonda é a água em que o barco se recreia
porque é em parte a mesma que caiu nos guarda-chuvas.
Obediente aos príncipios o parque desenvolve-se
coloridamente. A simetria tubular das árvores
forma uma ogiva onde se narra a elaboração
de alguns atritos. Cresce uma mesa onde se
fumam sementes mais vertiginosas. Os cães
juntam-se para passearem as suas biografias
de ócio e só se distanciam para dar luta
à presença guerreira dos insectos.
Um incêndio pensativo alarga a beleza das mães
cuja flor final às vezes se acende.
Estão de costas para o cisne que atravessa o lago
vestido de almirante. Seria uma boa ideia
se a tivessem tido.

Fernando Gandra, O Lado do Cisne, Gota de Água - INCM, col. Plural, 1984, p. 17.
Fernando Gandra nasceu em 1947, Silves. Publicou As Forças Amadas (em colaboração com Helder Moura Pereira, 1981), O Lado do Cisne (1984) e os ensaios Para uma Arquelogia do Discurso Imperial (1978), O Eterno Contorno (1987 e 1997) e O Sossego Como Problema (2008).

sábado, novembro 10, 2012

BARDAMERKEL (Coro da Achada)

Bardamerkel
(do pobre Beethoven)

Bardamerkel
bardamerkel
bardamerkel
bardamer...

... da finança é marioneta
lacaia do capital
bardamerkel
bardamerkel
essas contas cheiram mal

do banqueiro é amiguinha
ai a santa austeridade
bardamerkel
bardamerkel
erro de contabilidade

o cavaco faz-lhe uma vénia
dá-lhe prendas de natal
bardamerkel
bardamerkel
autoclismo é essencial

ei-lo agora D. Coelhinho
primeiro de portugal
bardamerkel
bardamerkel
de joelhos serviçal

vens-me ao bolso, apertas-me o cinto
e já se vê o fundo ao tacho
bardamerkel
bardamerkel
acho que vais água abaixo

pensámos fazer-te uma vaia
mas talvez o avião caia
bardamerkel
bardamerkel
não somos da tua laia

pró coelho uma cenoura
e o chicote anda de fraque
bardamerkel
bardamerkel
tu não vales mais que um traque

ela passa aqui de visita
faz a notícia do jornal
bardamerkel
bardamerkel
sê mal vinda ao curral 
(via you tube, pelo coro da Achada)
  •  

quinta-feira, outubro 25, 2012

A CIÊNCIA CONDENADA


Um tribunal italiano condenou seis sismólogos a seis anos de prisão, por estes terem subestimado a ocorrência do sismo que em 2009 matou cerca de três centenas de pessoas em Áquila. A decisão deste tribunal, inédita, foi criticada por todo o mundo científico. E, no entanto, ela mostra a relação que a sociedade actual mantém com a ciência. Depois da “morte de Deus” anunciada por Nietzsche, Comte ergueu o seu positivismo em que a ciência se tornava na nova religião. Esta nova religião está bem viva nos nossos dias: a ciência é a esperança e a verdade – da medicina á meteorologia. E apesar da constatação diária das falhas destas duas ciências, a ciência avança, apoiada pelos meios de comunicação social. Cada disciplina científica vai alargando o seu campo, procurando mais que explicações (sempre provisórias) para a realidade que em última instância não podemos conhecer. O que pretendem as ciências é afirmar o seu poder. Talvez seja hora de juntarmos ao poder económico-político-mediático o poder tecnocientífico. A história do século passado demonstra como a ciência esteve no melhor e no pior, da penicilina à bomba nuclear. Podemos dizer que sem ciência viveríamos num mundo muito pior, um mundo onde a civilização moderna estaria em causa. Mas é também a ciência que nos ameaça, criando mecanismos que nos escravizam e controlam perante o poder. A condenação dos seis sismógrafos italianos resulta sobretudo do estatuto de verdade, como uma verdade teológica, infalível, a que a ciência ascendeu. E nesse sentido, pode-se dizer que se fez justiça (e jurisprudência), e que a justiça, no sentido grego antigo de que falava Sophia de Mello Breyner Andersen num dos seus poemas, se impôs a um dos poderes que governa o mundo. Lamentável é que os cientistas não percebam que esta condenação devia ser objecto de reflexão sobre a sua actividade.

sexta-feira, outubro 19, 2012

MANUEL ANTÓNIO PINA (1943-2012)

Arte Poética

Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.

Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.

Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
o teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.

E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?

(de Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal, Assírio & Alvim, 2011, p. 7, originalmente publicado em Os Livros de 2003)


Manuel António Pina tinha a ideia que chegou (chegamos) demasiado tarde. O seu primeiro título de poesia, invulgarmente longo, Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde, expressa essa ideia. Jornalista durante 30 anos no jornal mais popular do Porto, o Jornal de Notícias, M. A. Pina destacou-se na escrita de crónicas – ocupou nos últimos tempos, com uma verve feroz contra toda a injustiça, a ultima página do JN -, e também na escrita para crianças. Mas se estas actividades de escrita o tornaram conhecido, foi na poesia – que dizia ser inútil e não ter mais de 300 leitores – que a sua arte de escrita mais profundamente penetrou no (des)conhecimento do mundo. O Prémio Camões consagrou-o em 2011, destacando-o entre os poetas dos anos 70, antes da doença o abater e a morte deixar de ser “um problema de estilo”. Para além da família, amigos, leitores e conhecidos, deixa alguns gatos mais sós.

domingo, outubro 14, 2012

CONDE DE MONSARAZ

OS BOIS

Na doce paz da tarde que declina
após a faina sob um sol ardente,
vão os bois reconhendo lentamente
pelas vias desertas da campina.

Atravessam depois a cristalina
ribeira e ao flébil som de água corrente
bebem sedentos, demoradamente,
numa sensual beleza que os domina.

Mas quando, fartos d' água, erguendo as frontes,
os beiços escorrendo, olham os montes
e ouvem cantar ao alto os rouxinois,

eu fico-me a cismar, calado e triste,
que um mundo de impressões, que uma alma existe
nos olhos enigmáticos dos bois!

Conde de Monsaraz (António de Macedo Papança) (1852-1913), Poemas Portugueses, p. 886. O poema foi originalmente publicado no livro Musa Alentejana (1908).


sexta-feira, outubro 05, 2012

A REPÚBLICA TEVE VERGONHA

Aos seus 102 anos a República portuguesa teve vergonha dos que a representam. E os que a representam, cobardemente, fugiram do povo. O garoto do Coelho para o estrangeiro, a restante malta escondeu-se no Pátio da Galé - nome simbólico -, como simbólico foi esse hastear da bandeira ao contrário.  Tudo demasiado vergonhoso e humilhante. Os portugueses são hoje representados por uma escumalha que perdeu toda legitimidade democrática (Cavaco & Coelho). Soares mostrou dignidade ao não comparecer nesta farsa. Mas as duas heroínas deste último (?) 5 de Outubro como feriado, foram duas mulheres anónimas que mostraram o desespero e a revolta dos portugueses contra este governo e este presidente. A República pede uma outra República, mas não há ninguém credível que se chegue à frente.   

quarta-feira, outubro 03, 2012

AS SOMBRAS DA MISÉRIA


Aquele senhor mais famoso que uma marca de iogurte, que viveu em Viena e tinha um divã em casa, e de cujo nome não me quero lembrar, disse um dia que a sexualidade feminina era um continente negro. A sexualidade feminina ou a mulher, não tenho a certeza – mas para outro senhor daquele tempo e local, Otto Weininger, não faria diferença. Tendo isto que vir a propósito de alguma coisa, pode vir a propósito desse livro erótico “para donas de casa” que empesta os topes das livrarias (como se os topes das livrarias e mesmo as livrarias não fossem uma peste actual), e cujo título é As Cinquenta Sombras de Grey. Uma formula editorial para ganhar milhões que pode ter consequências para as/os leitoras/es. Confesso: não li, não comprei e estou teso para esse tipo de livros. E para muitos outros.
E regresso, de novo ao tal senhor que explicava mais que um bifidus activo. Perguntava ele: o que quer uma mulher? E eu pergunto, o que quer uma mulher? Não sei. E acho que o tal senhor de Viena também não sabia. E mesmo uma mulher não sabe o que quer uma mulher. Como um homem não sabe o que quer um homem.
Mas os editores de As Cinquenta Sombras de Grey sabem o que quer uma mulher. Digo editores e não autora, uma tal E L James, porque o sucesso do livro depende de operações de marketing a nível internacional, e a autora pouco conta. Ou seja, este como muitos outros livros que pululam pelos topes de vendas são impingidos aos leitores – quer através do destaque nas livrarias reais e virtuais, quer da exploração mediática do tema, escolhido a dedo (como se costuma dizer): sexo. É o tema do livro, melhor, dos livros, pois trata-se de uma trilogia que faz com que todos ganhem três vezes mais. Autora, editores, livreiros, mas também revistas que “puxam” o livro para a capa – todos ganham. O sexo vende bem e o mercado livreiro andava esquecido disso.
 
E volto à questão do vienense, o que quer uma mulher? Uma mulher quer As Cinquenta Sombras de Grey, uns sapatos novos, uma carteira nova, uma cozinha nova, etc. Resumindo, uma mulher ou um homem querem aquilo que outros fabricam para eles desejarem, para eles consumirem, para eles se consumirem.
 
Escrevi no presente, não vou apagar, mesmo porque ainda é verdade em grande parte dos países ocidentais para a maioria da população. Mas o que escrevi já não se aplica à Grécia ou a Portugal. Nos países onde vigora a austeridade criminosa da troika e dos seus governos, o que quer um homem ou uma mulher é simplesmente algo para comer, um medicamento de que necessita, um emprego. Para algumas pessoas, de repente tudo mudou. A sociedade do consumo acabou. Vivem agora na miséria neo-neorealista das cidades.
 
(foto de Paulo Nozolino)

sábado, setembro 15, 2012

A DEMOCRACIA SAIU À RUA


E de repente um povo acorda. Hoje centenas de milhares de pessoas saíram à rua para se manifestarem contra a trioka, contra o governo e as suas políticas ditatoriais de austeridade, de roubo aos portugueses. Contra esse roubo, contra um governo eleito por engano que suspende a democracia em nome dos interesses do capital. Um governo (Coelho/Gaspar) que rouba aos que quase nada têm para dar aos grandes grupos económicos – que rejeitaram a esmola, como Belmiro de Azevedo. Hoje, pacificamente (um caso de desespero levou um homem a tentar imolar-se em Aveiro), com uma extraordinária imaginação e raiva (veja-se as fotos acima) por cerca de 40 cidades, centenas de milhares de pessoas manifestaram-se (alguns pela primeira vez). Terá sido a maior manifestação depois do 1º de Maio de 1974. Um momento histórico. As consequências que este governo de traição nacional (sitiado à direita e à esquerda) poderá tirar dependem do grau de autismo e imbecilidade do mesmo – que é bastante grande.

quarta-feira, setembro 12, 2012

MANIF 15 SET

Contra a troika, e principalmente contra as últimas medidas do governo, no próximo sábado por todo o país serão organizadas manifestações. Será que desta vez os portugueses acordam e percebem o que lhes estão a fazer? Parece que sim.
Aqui ficam alguns links onde pode obter mais informação:
Páginas do Facebook: http://www.facebook.com/events/402643499798144/
http://www.facebook.com/events/402643499798144/#!/pages/Que-se-Lixe-a-Troika-Queremos-as-nossas-Vidas/177929608998626
O blogue da manifestação com a informação mais completa: http://www.queselixeatroika15setembro.blogspot.pt/

sábado, agosto 25, 2012

DESVERGONHA


Há primeira vista o fecho da RTP 2 e a concessão dos restantes canais da RTP era, no mínimo, algo inédito no audiovisual europeu. Mas lendo o Expresso de hoje percebo o maior alcance da medida – criminosa – anunciada por António Borges. Criminosa porque se trata de um puro roubo aos contribuintes para entregar esse dinheiro a privados, destruindo o serviço público de televisão. A desvergonha que se instalou neste governo de aniquilação nacional não tem limites. Cito Ricardo Costa no Expresso desmontando a engenharia financeira provinda do gabinete do “dr. Relvas”: “com quase 150 milhões de euros da taxa audiovisual [paga na factura da electricidade] e cerca de 50 milhões de euros de publicidade, os investidores (…) sem mexer uma palha ganham 20 milhões de euros ao ano”.

domingo, julho 29, 2012

ALBERT LONDRES - COM OS LOUCOS


Nessa manhã, eu vagueava na companhia de um médico estagiário pelas instalações de um asilo.
- Os loucos - dizia-me ele não são o que se julga. O público vê-os de uma forma errada... Nem sempre são forças à solta. Olhe para os que estão reunidos naquela sala.
Eram uma dezena. Falavam ligeiramente mais alto do que é habitual, coisa que acontece aos de maior juízo.
- Pode lá entrar - disse o médico.
Entro. Caras espantadas voltam-se para o lado onde estou. No meio do grupo reconheço o médico-chefe.
O estagiário agarra-me pelo braço.
- O que se passa?
- Erro meu! - diz a morder o lábio. - Não são loucos, são alienistas. É uma reunião da Liga de Higiene Mental!
A diferença era mínima.

Albert Londres, Com os Loucos, trad. e apresentação de Aníbal Fernandes, Sistema Solar, Lisboa, 2012, p. 164.

sexta-feira, abril 27, 2012

25 DE ABRIL NA ESCOLA DA FONTINHA PELO ES.COL.A

A escola da Fontinha, no Porto, voltou ontem a ser ocupada pelo movimento Es.Col.A. A ocupação teve um carácter quase simbólico: hoje a escola estava de novo desocupada e trabalhadores da C. M. do Porto emparedavam a escola. Por outro lado, a ocupação de ontem pelo movimento Es.Col.A fez-se num dia demasiado simbólico para que houvesse confrontos entre polícia e ocupantes, o 25 de Abril. De certa forma a ocupação de ontem correspondeu a um acto revolucionário, como se se tratasse já não de comemorar o 25 de Abril, mas de re-fazer o 25 de Abril – e isto numa altura em que algumas personalidades se manifestaram a favor de um novo 25 de Abril. Perante isto torna-se pertinente citar o que José Neves escreve hoje no jornal i: A Escola da Fontinha não é simplesmente nome de um projecto social, cultural ou educativo. (…).A Escola da Fontinha é antes de mais, de onde eu a vejo, o nome de um projecto de poder (ou de antipoder, se preferirem) que se caracteriza por assumir uma natureza económica e política radicalmente democrática (ou anarquista, se preferirem). E é isto que a singulariza. Do ponto de vista económico, a Fontinha não é enquadrável em nenhuma das duas alternativas que tomaram conta do debate económico no espaço mediático dominante. Essas duas alternativas rezam que ou as coisas pertencem à ordem pública regida pelo Estado ou pertencem a uma esfera privada oleada pelos mecanismos de mercado.
O que é ameaçador para o poder político e económico é que novas escolas da Fontinha surjam, que os cidadãos façam alguma coisa para além daquilo que lhes é pedido (votar, fazer donativos para acções de caridade, consumir, pagar os impostos). Por isso o exemplo da Es.Col.A pode ser a semente de algo de novo

terça-feira, abril 24, 2012

MANIFESTO DA ASSOCIAÇÃO 25 DE ABRIL

Abril não desarma

Há 38 anos, os Militares de Abril pegaram em armas para libertar o Povo da ditadura e da opressão e criar condições para a superação da crise que então se vivia.

Fizeram-no na convicta certeza de que assumiam o papel que os Portugueses esperavam de si.

Cumpridos os compromissos assumidos e finda a sua intervenção directa nos assuntos políticos da nação, a esmagadora maioria integrou-se na Associação 25 de Abril, dela fazendo depositária primeira do seu espírito libertador.

Hoje, não abdicando da nossa condição de cidadãos livres, conscientes das obrigações patrióticas que a nossa condição de Militares de Abril nos impõe, sentimos o dever de tomar uma posição cívica e política no quadro da Constituição da República Portuguesa, face à actual crise nacional.

A nossa ética e a moral que muito prezamos, assim no-lo impõem!
Fazemo-lo como cidadãos de corpo inteiro, integrados na associação cívica e cultural que fundámos e que, felizmente, seguiu o seu caminho de integração plena na sociedade portuguesa.

Porque consideramos que:

Portugal não tem sido respeitado entre iguais, na construção institucional comum, a União Europeia.

Portugal é tratado com arrogância por poderes externos, o que os nossos governantes aceitam sem protesto e com a auto-satisfação dos subservientes.

O nosso estatuto real é hoje o de um “protectorado”, com dirigentes sem capacidade autónoma de decisão nos nossos destinos.

O contrato social estabelecido na Constituição da República Portuguesa foi rompido pelo poder. As medidas e sacrifícios impostos aos cidadãos portugueses ultrapassaram os limites do suportável. Condições inaceitáveis de segurança e bem-estar social atingem a dignidade da pessoa humana.

Sem uma justiça capaz, com dirigentes políticos para quem a ética é palavra vã, Portugal é já o país da União Europeia com maiores desigualdades sociais.

O rumo político seguido protege os privilégios, agrava a pobreza e a exclusão social, desvaloriza o trabalho.

Entendemos ser oportuno tomar uma posição clara contra a iniquidade, o medo e o conformismo que se estão a instalar na nossa sociedade e proclamar bem alto, perante os Portugueses, que:

- A linha política seguida pelo actual poder político deixou de reflectir o regime democrático herdeiro do 25 de Abril configurado na Constituição da República Portuguesa;

- O poder político que actualmente governa Portugal, configura um outro ciclo político que está contra o 25 de Abril, os seus ideais e os seus valores;

Em conformidade, a A25A anuncia que:

- Não participará nos actos oficiais nacionais evocativos do 38.º aniversário do 25 de Abril;

- Participará nas Comemorações Populares e outros actos locais de celebração do 25 de Abril;

- Continuará a evocar e a comemorar o 25 de Abril numa perspectiva de festa pela acção libertadora e numa perspectiva de luta pela realização dos seus ideais, tendo em consideração a autonomia de decisão e escolha dos cidadãos, nas suas múltiplas expressões.

Porque continuamos a acreditar na democracia, porque continuamos a considerar que os problemas da democracia se resolvem com mais democracia, esclarecemos que a nossa atitude não visa as Instituições de soberania democráticas, não pretendendo confundi-las com os que são seus titulares e exercem o poder.

Também por isso, a Associação 25 de Abril e, especificamente, os Militares de Abril, proclamam que, hoje como ontem, não pretendem assumir qualquer protagonismo político, que só cabe ao Povo português na sua diversidade e múltiplas formas de expressão.

Nesse mesmo sentido, declaramos ter plena consciência da importância da instituição militar, como recurso derradeiro nas encruzilhadas decisivas da História do nosso Portugal. Por isso, declaramos a nossa confiança em que a mesma saberá manter-se firme, em defesa do seu País e do seu Povo. Por isso, aqui manifestamos também o nosso respeito pela instituição militar e o nosso empenhamento pela sua dignificação e prestígio público da sua missão patriótica.

Neste momento difícil para Portugal, queremos, pois:

1. Reafirmar a nossa convicção quanto à vitória futura, mesmo que sofrida, dos valores de Abril no quadro de uma alternativa política, económica, social e cultural que corresponda aos anseios profundos do Povo português e à consolidação e perenidade da Pátria portuguesa.

2. Apelar ao Povo português e a todas as suas expressões organizadas para que se mobilizem e ajam, em unidade patriótica, para salvar Portugal, a liberdade, a democracia.

Viva Portugal!

sábado, abril 14, 2012

PASSOS COELHO OU A MENTIRA COMO ASSALTO AO PODER

Impressionante este vídeo que recolhe declarações de Passos Coelho em 2010 e 2011, antes de ser eleito primeiro-ministro. É espantoso como se pode mentir tanto, como aquilo que Passos disse, repetidas vezes, antes das eleições que não faria, foi exactamente o que fez. (O vídeo é da autoria do blogue Aventar)

domingo, fevereiro 12, 2012

A PORCA ALEMANHA


1.Essa língua em que pensou Hegel e Kant, Marx, Nietzsche e Freud, Heidegger e Wittgenstein, Benjamin e Arendt, Adorno e Marcuse, Max Stirner e Fuerbach, essa língua é a mesma língua do Holocausto. Essa mesma língua em que escreveu Goethe e Holderlin, Novalis, E. T. A. Hoffmann, Musil, Herman Hesse, Thomas Mann é a língua que ordenou o extermínio, a língua que se falou no inferno sobre a terra. Essa língua dos grandes pensadores, dos grandes escritores, dos grandes compositores, língua de gramática complexa, declinações, palavras compostas, palavras intraduzíveis – heimat, stimmung, etc. Essa língua com cujos curtos sintagmas se ordenaram os mais atrozes actos por humanos praticados desde sempre é a língua alemã.

2.O mais que o cidadão comum sabe da Alemanha são os nomes das suas principais marcas comerciais: Mercedes, BMW, Volkswagem, Deutsch Bank. Mas o que ignora é o papel que estas grandes empresas tiveram no Holocausto. Ignora que durante o período nazi estas marcas de tanto prestígio utilizaram o mais aviltante e despudorado trabalho escravo: judeus que serviram de trabalho escravo e depois foram executados pelos nazis. Talvez nunca na História da humanidade algo tão atroz tenha sido feito. Mas foi precisamente na Alemanha de há cerca de 70 anos que isso foi feito. Que essas marcas comerciais, do pós-guerra até hoje, beneficiem de um estatuto de prestígio é algo incompreensível. Por muitos elogios que se façam à mecânica dos motores Mercedes ou BMW, eles estão cobertos por um manto de sangue negro. E esse sangue perpetua-se na memória das vítimas de tão ignóbeis crimes.

Por muito que elogiem a produtividade e eficácia dos trabalhadores alemães, em contraposição com os “malandros” do sul da Europa, é aos alemães actuais que corresponde a vergonha de serem os herdeiros de um povo que legitimou, democraticamente, o mais atroz regime político que se conheceu. Essa vergonha deveria ser sentida e manifestada numa altura em que a Alemanha, através da sua chanceler Angela Merkl, nada faz para salvar a Europa dos ataques de agiotagem que vem sofrendo. Antes pelo contrário: Merkl, liderando a União Europeia, sem que para isso lhe corresponda nenhum mandato dos cidadãos europeus, comporta-se como uma pequena ditadora em pacto com os obscuros interesses económicos que querem aniquilar países como a Grécia e Portugal.

Perante o que se está a passar em alguns países da Europa, é altura que os povos europeus se manifestem, que exijam de quem tem poder para tal uma solução política. Ora, no actual quadro político e económico essa solução depende da Alemanha. É pois altura do povo alemão mostrar-se digno de um Bach, um Kant ou um Goethe e exigir do seu poder político e económico que seja solidário com países como a Grécia e Portugal. Sem essa solidariedade é toda a Europa e o seu futuro que está em causa – incluindo o da Alemanha. Sem essa solidariedade poderemos repetir a História naquilo que de mais negro ela nos deu.
Die NUT DEUTSCHLAND



1.Die Sprache des Denkens Hegel und Kant, Marx, Freud und Nietzsche, Heidegger und Wittgenstein, Benjamin und Hannah Arendt, Adorno und Marcuse, Max Stirner und Fuerbach, wird diese Sprache die gleiche Sprache des Holocaust. Das gleiche Sprache schrieb er Goethe und Hölderlin, Novalis, E. T. A. Hoffmann, Musil, Hermann Hesse, Thomas Mann ist die Sprache, die die Vernichtung, die Sprache, die in die Hölle auf Erden gesprochen wurde bestellt. Diese Sprache der großen Denker, die großen Schriftsteller der großen Komponisten, komplexe Grammatik Sprache, Tonfall, zusammengesetzte Wörter, Wörter unübersetzbar - Heimat, Stimmung, etc.. Diese Sprache mit kurzen Sätzen, die die abscheulichsten Taten von Menschen begangen bestellt werden ist immer ein Deutscher.
2.Die mehr als der Durchschnittsbürger weiß von Deutschland sind die Namen der wichtigsten Marken: Mercedes, BMW, Volkswagen, Deutsche Bank. Aber was es ignoriert die Rolle, die diese großen Unternehmen haben in den Holocaust hatte. Ignorieren Sie, dass während der Nazizeit diese beiden renommierten Marken am meisten Dealkylierung und schamlose Sklavenarbeit Juden, die als Zwangsarbeiter gedient und wurden dann von den Nazis hingerichtet werden. Vielleicht nie in der Geschichte der Menschheit etwas so schreckliches getan wurde. Aber gerade in Deutschland seit fast 70 Jahren, das wurde getan. Dass dieser Marken, die nach dem Krieg bis heute, genießen einen Status von Prestige ist etwas unverständlich. Warum haben so viele Komplimente, dass die Mechanik der Motoren Mercedes oder BMW, werden sie von einem Mantel aus schwarzem Blut bedeckt. Und das Blut wird in Erinnerung an die Opfer solcher abscheulicher Verbrechen verewigt.
So viel wie wir die Produktivität und Effektivität der deutschen Arbeiter zu loben, im Gegensatz zu den "Schurken" im Süden Europas ist Deutsch die Strömung, die zur Schande des Seins die Erben eines Volkes, das demokratisch legitimiert, die grausamsten politischen Systems entspricht erfüllt. Dass Scham empfunden und sollte zu einer Zeit als Deutschland, durch seine Bundeskanzlerin Angela Merkl, tut nichts, um Europa vor den Angriffen des Wuchers, das Leiden zu ersparen ausgedrückt werden. Im Gegenteil, Merkl, was die Europäische Union, ohne dass dies es kein Mandat der europäischen Bürger entspricht, verhält er sich wie ein kleiner Diktator im Bunde mit den dunklen Geschäften Interessen, die mit Ländern wie Griechenland und Portugal vernichten wollen.Angesichts dessen, was ist in einigen europäischen Ländern geschieht, ist es Zeit, dass die europäischen Völker offenbaren, erfordert von denen, die Macht haben, zu einer solchen politischen Lösung. Allerdings hängt die aktuelle politische und wirtschaftliche Rahmen dieser Lösung auf Deutschland. Es ist Zeit für das deutsche Volk sich würdig zeigen einen Bach, ein Kant oder Goethe ein und fordern ihre politischen und wirtschaftlichen Macht, die in Solidarität mit Ländern wie Griechenland und Portugal ist. Ohne diese Solidarität ist ganz Europa und seine Zukunft auf dem Spiel steht - auch in Deutschland. Ohne diese Solidarität können wir wiederholen die Geschichte dessen, was sie gab uns mehr schwarz.
(A tradução do português para o alemão foi "feita" pelo google)



quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Golgona Anghel




Poeta na Praça da Alegria:
Não sou feliz. Não, não me quero matar.
Tenho até uma certa simpatia por esta vida
passada nos autocarros,
para cima e para baixo.
Gosto das minhas férias
em frente da televisão.
Adoro essas mulheres com ar banal
que entram em directo no canal.
Gosto desses homens com bigodes e pulseiras grossas.
Acredito nos milagres de Fátima
e no bacalhau com broa.
Gosto dessa gente toda.
Quero ser um deles.

Não, não guardo nenhum sentido escondido.
Estas palavras, aliás, podem ser encontradas
em todos os números da revista Caras.
A ordem às vezes muda.
Não quero que me façam nenhuma análise do poema.
Não, não escrevam teses, por favor.
Isto é apenas um croché
esquecido em cima do refrigerador.
Obrigado por terem vindo cá para me beijarem o anel.

Obrigado por procurarem a eternidade da raça.
Mas a poesia, mes chers, não salva, não brilha, só caça.

Golgona Anghel, Vim Porque me Pagavam, Mariposa Azual, 2011, pp. 25-26.

Golgona Anghel nasceu na Ilíria Oriental (Roménia). Vive há alguns anos em Portugal onde se licenciou em Línguas e Literaturas Modernas (FLUL, 2003). É autora de uma biografia sobre Al Berto: Eis-me Acordado Muito Tempo Depois de Mim (Quasi Edições, 2006) e dos livros de poemas Crematório Sentimental (Quasi, 2007) e Vim Porque me Pagavam (Mariposa Azual, 2011). Tem colaboração poética em várias revistas entre as quais Criatura. É com o livro de poemas publicado o ano passado, de que aqui se publica um poema, que Golgona Anghel desperta a atenção da crítica. A sua poesia não teme o risco de misturar alta com baixa cultura, numa voz desenvolta, atenta ao quotidiano e consciente da despoetização do mundo, mas nem por isso enveredando por uma tonalidade melancólica ou niilista.

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

JOÃO ULISSES (1947-2012)

(imagem respigada de daqui)


João Ulisses nasce em Mangualde, no sopé da Serra da Estrela, em 1947. Tendo vivido no Porto, deserta em 1970 da guerra colonial, refugiando-se em Amsterdão, onde colaborou na revista Vertical, do Centro Português de Cultura, e frequentou filosofia na Universidade Livre, vivendo o movimento beatniks intensamente até 1985, a par de actividades cívicas diversas.
A revolução dos cravos trouxe-o a Portugal, onde colaborou no movimento poético da revista Quebra-Noz.
Radical, outsider, rebelde, serrano da Estrela, Ulisses o Poeta, atravessou as ruas do Porto que o abraçou e o reconhece por este nome.
Viveu nos últimos tempos numa quinta rodeado por animais e plantas.

Títulos publicados:
-Alegorias do corpo mais triste (poesia), Marânus, 2002 (esgotado);
-História do Soldado que deserta por amor (ficção), Estratégias Criativas, 2004; Tibóteo, o Subtil Pastor do Caos / A Sombra d´Aurora, (ficção), Estratégias Criativas, 2009.
(Biografia adaptada daqui)

quarta-feira, janeiro 11, 2012

A VERDADE SOBRE A DÍVIDA



Enquanto a operação choque e pavor se desenrola por aqui (e em Espanha e Itália e Grécia, etc.), a Alemanha vive dias paradisíacos nos mercados. Na segunda-feira, pela primeira vez desde que há memória, os investidores pagaram para comprar dívida pública alemã. É estranho, não é? As pessoas que emprestam dinheiro pagam para emprestar? É esquisito, mas aconteceu: esta foi a semana em que a Alemanha passou a ganhar dinheiro quando pede emprestado. Os investidores querem tanto ficar com títulos de dívida alemães que aceitam juros negativos para que a Alemanha os deixe emprestar-lhe dinheiro. Isto é economicamente estranho? É, aliás nunca tinha acontecido. Mas é o resultado económico, fantástico para a Alemanha, da descrença total no futuro do euro e da Europa tal como ela foi organizada. A crise do euro, afinal, tem vencedores: a Alemanha ganha com a sua dívida pública, está a aguentar uma taxa de emprego razoável, importa cérebros fugidos de países miseráveis e, por enquanto, ainda não está a levar com a recessão. A desvalorização do euro vai facilitar a sua missão exportadora para outros mercados, mesmo quando os europeus deixarem de comprar coisas que se vejam.

Com toda esta conversa supostamente moral sobre dívida pública que intoxica o debate político, aqui e no resto da Europa, é natural que o leitor comum ache que a Alemanha tem “as suas contas em ordem” e já pagou, ou está quase a pagar, tudo o que deve. Mentira. Como disse Sócrates, também a Alemanha acha, evidentemente, que a dívida “é para se ir pagando”, e está longe de ter uma dívida pública baixinha, como a da Estónia, que é de 6,6% do PIB. Não: a dívida pública alemã é de 83,2% do PIB e é parecida com a francesa (81,7% do PIB). Mas tanto a dívida pública alemã como a dívida pública francesa são maiores do que a espanhola (60,1% do PIB). Sim, nós temos uma dívida terrível – 93% do PIB. Mas está apenas dez pontos acima dos alemães. A Bélgica está nos 96% e os casos mais complicados são a Itália – 119% – e a Grécia, a chegar aos 142,8%. A Letónia, por exemplo, um país que pagou as suas dívidas honrosamente (está nos 44% do PIB), tem agora uma taxa de desemprego de 18%.

Com a confiança na zona euro a bater no fundo, os investidores refugiam-se no colo de Berlim, que é a economia mais forte da zona euro. Aceitam perder dinheiro – negoceiam a juros negativos – para deterem dívida pública alemã. Como é que os outros países da zona, enfiados em programas de austeridade sem crescimento à vista, podem dar confiança aos investidores? A resposta, infelizmente, é conhecida. Se puder, emigre para Berlim.


Editorial do jornal i de 11-01-12,com o título "As dívidas boas e as dívidas más", por Ana Sá Lopes.Sublinhados meus .A imagem, retirada do jornal Público, mostra gráficamente a distribuição da dívida na zona euro. Por estes dados facilmente se conclui que a crise da dívida soberana portuguesa não é objectiva nem real. Ela foi criada pelas agências de rating e agrada à política de destruição do Estado social do PSD e CDS. Portugal tem uma dívida semelhante a outros países da zona euro, 10 pontos percentuais superior à Alemã, em termos de PIB. No geral, quem tem uma dívida colossal na zona euro é a Alemanha, a Itália e a França. A questão é, portanto, política - e só a acção política, no sentido abrangente, nos pode tirar da situação em que estamos. Mas pela apatia generalizada parece que há pessoas que gostam de ser roubadas, masoquistas que gostam de empobrecer. Enfim, a "servidão voluntária" tem raízes profundas.



terça-feira, janeiro 03, 2012

segunda-feira, janeiro 02, 2012

LIVROS DE 2011


A=
O Pintor Debaixo do Guarda-loiça, Afonso Cruz, Caminho
Vim Porque me Pagavam, Golgona Anghel, Mariposa Azual
A Pantera, Ana Teresa Pereira, Relógio d’ Água
A Felicidade no Crime, Barbey D´ Aurevilly, Assírio & Alvim
Vida: Variações, Bénédicte Houart, Cotovia

B=
O Conformista, Alberto Moravia, Público
Romance Sujo, João Urbano, UR
Doutor Avalanche, Rui Manuel Amaral, Angelus Novus
O Filho do Lobo e outros contos, Jack London, Estrofe & Versos
S. Bernardo, Graciliano Ramos, Cotovia

C=
Almanaque do F. C. do Porto, Rui Miguel Tovar, Caderno
Contos Completos, Gabriel Garcia Marquez, Dom Quixote
O Colosso de Maroussi, Henry Miller, Tinta da China
Poesia Completa, Manoel de Barros, Caminho
O Lago, Ana Teresa Pereira, Relógio d´Água
Contos Escolhidos, Guy de Maupassant, Dom Quixote
Ferdydurke, Witold Gombrowicz, 7 Nós
Correr, Jean Echenoz, Cavalo de Ferro
Auto-de-Fé, Elias Canetti, Cavalo de Ferro
Tiago Veiga - Uma Biografia, Mário Cláudio, Dom Quixote
Liberdade, Jonathan Franzen, Dom Quixote
Uma Mentira Mil Vezes Repetida, Manuel Jorge Marmelo, Quetzal
Nervo, Diogo Vaz Pinto, Averno
Histórias de Imagens, Robert Walser, Cotovia

A – livros publicados em 2011 e lidos em 2011.
B – livros lidos em 2011, publicados noutros anos.
C - livros publicados em 2011, em Portugal, que não li mas poderia ter lido se.