quinta-feira, outubro 25, 2012

A CIÊNCIA CONDENADA


Um tribunal italiano condenou seis sismólogos a seis anos de prisão, por estes terem subestimado a ocorrência do sismo que em 2009 matou cerca de três centenas de pessoas em Áquila. A decisão deste tribunal, inédita, foi criticada por todo o mundo científico. E, no entanto, ela mostra a relação que a sociedade actual mantém com a ciência. Depois da “morte de Deus” anunciada por Nietzsche, Comte ergueu o seu positivismo em que a ciência se tornava na nova religião. Esta nova religião está bem viva nos nossos dias: a ciência é a esperança e a verdade – da medicina á meteorologia. E apesar da constatação diária das falhas destas duas ciências, a ciência avança, apoiada pelos meios de comunicação social. Cada disciplina científica vai alargando o seu campo, procurando mais que explicações (sempre provisórias) para a realidade que em última instância não podemos conhecer. O que pretendem as ciências é afirmar o seu poder. Talvez seja hora de juntarmos ao poder económico-político-mediático o poder tecnocientífico. A história do século passado demonstra como a ciência esteve no melhor e no pior, da penicilina à bomba nuclear. Podemos dizer que sem ciência viveríamos num mundo muito pior, um mundo onde a civilização moderna estaria em causa. Mas é também a ciência que nos ameaça, criando mecanismos que nos escravizam e controlam perante o poder. A condenação dos seis sismógrafos italianos resulta sobretudo do estatuto de verdade, como uma verdade teológica, infalível, a que a ciência ascendeu. E nesse sentido, pode-se dizer que se fez justiça (e jurisprudência), e que a justiça, no sentido grego antigo de que falava Sophia de Mello Breyner Andersen num dos seus poemas, se impôs a um dos poderes que governa o mundo. Lamentável é que os cientistas não percebam que esta condenação devia ser objecto de reflexão sobre a sua actividade.

sexta-feira, outubro 19, 2012

MANUEL ANTÓNIO PINA (1943-2012)

Arte Poética

Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.

Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.

Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
o teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.

E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?

(de Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal, Assírio & Alvim, 2011, p. 7, originalmente publicado em Os Livros de 2003)


Manuel António Pina tinha a ideia que chegou (chegamos) demasiado tarde. O seu primeiro título de poesia, invulgarmente longo, Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde, expressa essa ideia. Jornalista durante 30 anos no jornal mais popular do Porto, o Jornal de Notícias, M. A. Pina destacou-se na escrita de crónicas – ocupou nos últimos tempos, com uma verve feroz contra toda a injustiça, a ultima página do JN -, e também na escrita para crianças. Mas se estas actividades de escrita o tornaram conhecido, foi na poesia – que dizia ser inútil e não ter mais de 300 leitores – que a sua arte de escrita mais profundamente penetrou no (des)conhecimento do mundo. O Prémio Camões consagrou-o em 2011, destacando-o entre os poetas dos anos 70, antes da doença o abater e a morte deixar de ser “um problema de estilo”. Para além da família, amigos, leitores e conhecidos, deixa alguns gatos mais sós.

domingo, outubro 14, 2012

CONDE DE MONSARAZ

OS BOIS

Na doce paz da tarde que declina
após a faina sob um sol ardente,
vão os bois reconhendo lentamente
pelas vias desertas da campina.

Atravessam depois a cristalina
ribeira e ao flébil som de água corrente
bebem sedentos, demoradamente,
numa sensual beleza que os domina.

Mas quando, fartos d' água, erguendo as frontes,
os beiços escorrendo, olham os montes
e ouvem cantar ao alto os rouxinois,

eu fico-me a cismar, calado e triste,
que um mundo de impressões, que uma alma existe
nos olhos enigmáticos dos bois!

Conde de Monsaraz (António de Macedo Papança) (1852-1913), Poemas Portugueses, p. 886. O poema foi originalmente publicado no livro Musa Alentejana (1908).


sexta-feira, outubro 05, 2012

A REPÚBLICA TEVE VERGONHA

Aos seus 102 anos a República portuguesa teve vergonha dos que a representam. E os que a representam, cobardemente, fugiram do povo. O garoto do Coelho para o estrangeiro, a restante malta escondeu-se no Pátio da Galé - nome simbólico -, como simbólico foi esse hastear da bandeira ao contrário.  Tudo demasiado vergonhoso e humilhante. Os portugueses são hoje representados por uma escumalha que perdeu toda legitimidade democrática (Cavaco & Coelho). Soares mostrou dignidade ao não comparecer nesta farsa. Mas as duas heroínas deste último (?) 5 de Outubro como feriado, foram duas mulheres anónimas que mostraram o desespero e a revolta dos portugueses contra este governo e este presidente. A República pede uma outra República, mas não há ninguém credível que se chegue à frente.   

quarta-feira, outubro 03, 2012

AS SOMBRAS DA MISÉRIA


Aquele senhor mais famoso que uma marca de iogurte, que viveu em Viena e tinha um divã em casa, e de cujo nome não me quero lembrar, disse um dia que a sexualidade feminina era um continente negro. A sexualidade feminina ou a mulher, não tenho a certeza – mas para outro senhor daquele tempo e local, Otto Weininger, não faria diferença. Tendo isto que vir a propósito de alguma coisa, pode vir a propósito desse livro erótico “para donas de casa” que empesta os topes das livrarias (como se os topes das livrarias e mesmo as livrarias não fossem uma peste actual), e cujo título é As Cinquenta Sombras de Grey. Uma formula editorial para ganhar milhões que pode ter consequências para as/os leitoras/es. Confesso: não li, não comprei e estou teso para esse tipo de livros. E para muitos outros.
E regresso, de novo ao tal senhor que explicava mais que um bifidus activo. Perguntava ele: o que quer uma mulher? E eu pergunto, o que quer uma mulher? Não sei. E acho que o tal senhor de Viena também não sabia. E mesmo uma mulher não sabe o que quer uma mulher. Como um homem não sabe o que quer um homem.
Mas os editores de As Cinquenta Sombras de Grey sabem o que quer uma mulher. Digo editores e não autora, uma tal E L James, porque o sucesso do livro depende de operações de marketing a nível internacional, e a autora pouco conta. Ou seja, este como muitos outros livros que pululam pelos topes de vendas são impingidos aos leitores – quer através do destaque nas livrarias reais e virtuais, quer da exploração mediática do tema, escolhido a dedo (como se costuma dizer): sexo. É o tema do livro, melhor, dos livros, pois trata-se de uma trilogia que faz com que todos ganhem três vezes mais. Autora, editores, livreiros, mas também revistas que “puxam” o livro para a capa – todos ganham. O sexo vende bem e o mercado livreiro andava esquecido disso.
 
E volto à questão do vienense, o que quer uma mulher? Uma mulher quer As Cinquenta Sombras de Grey, uns sapatos novos, uma carteira nova, uma cozinha nova, etc. Resumindo, uma mulher ou um homem querem aquilo que outros fabricam para eles desejarem, para eles consumirem, para eles se consumirem.
 
Escrevi no presente, não vou apagar, mesmo porque ainda é verdade em grande parte dos países ocidentais para a maioria da população. Mas o que escrevi já não se aplica à Grécia ou a Portugal. Nos países onde vigora a austeridade criminosa da troika e dos seus governos, o que quer um homem ou uma mulher é simplesmente algo para comer, um medicamento de que necessita, um emprego. Para algumas pessoas, de repente tudo mudou. A sociedade do consumo acabou. Vivem agora na miséria neo-neorealista das cidades.
 
(foto de Paulo Nozolino)