terça-feira, dezembro 31, 2013

LIVROS EM 2013

Aqui fica uma selecção de livros lidos em 2013.

A Cura, Pedro Eiras, Quidnovi
O Verão de 2012, Paulo Varela Gomes, Tinta da China
Desobediência, Eduardo Pitta, Dom Quixote
Viagem a Tralalá, Wladimir Kaminer, Tinta da China
Pássaros na Boca, Samanta Schweblin, Cavalo de Ferro
UTZ, Bruce Chatwin, Quetzal
Em Busca da Idade Média, Jacques Le Goff, Teorema
Mais um Dia de Vida, R. Kapuscinski, Tinta da China
Sono, Haruki Murukami, Casa das Letras
Apanhar Ar, Adília Lopes, Averno

Para além destes livros 10 livros, de que 6 foram publicados em 2013, há a registar a publicação de dois grandes livros: Ulisses de James Joyce, numa nova tradução de Jorge Vaz de Carvalho, editada pela Relógio d' Água; e de Gonçalo M. Tavares mais um objecto literário inovador: Atlas do Corpo e da Imaginação (Caminho). Para além destes livros pesados, em vários sentidos, registe-se mais um livro de Ana Teresa Pereira - As longas tarde de chuva em Nova Orleães (Relógio d' Água).
Quanto ao resto, no espaço literário, continuou-se a escavar (uma metáfora utilizada por José Sócrates no seu comentário dominical). E esse escavar significa um cada vez maior ódio ao livro por parte de quem o comercializa. O estúpido Acordo Ortográfico tem sido adoptado por cada vez mais editoras. Não se percebe. Para além de uma enorme confusão o AO mostra a subserviência de Portugal perante os PALOP. Mas neste caso, como no da política, o bom aluno fica sozinho. Os PALOP´s, especialmente o Brasil ainda não adoptaram este (des)acordo.

domingo, dezembro 15, 2013

Pedro Tiago

UMA CONVERSA DE ALMOFADA

revoltavas-te, as tuas costas dobradas,
inclinadas para a frente, os seios tocando
nas pernas enquanto procuravas uma meia
debaixo da cama e franzias as sobrancelhas
numa cara de criança que acorda tarde:
« não percebo porque é que a poesia
tem de ser tão absurda ». e eu respondia-te
que tem de ser assim, porque o mundo
já está cheio de coisas concretas e práticas
que não fazem sentido nenhum.

T, DE TELEFONE

entende esta verdade,
coberta de musgo e metáforas: a literatura
já não é nada. dizem-me que não posso
escrever isto (isto), porque estou inserido na
contemporaneidade que, de tão aberta, literaria-
mente, me fecha todas as mãos e todos os braços.
e não posso usar metáforas nem lirismo nem posso
repetir os modernistas, porque o modernismo
já passou. e dizem-me que se quero ser lido
tenho de fazer assim, mas nunca entendo muito
bem o que seja isso. vou continuando a ver
velhos a dar milho aos pombos, nos
parques e jardins públicos, ao sol e à chuva,
e isso chega-me. a literatura pode já não ser
nada, mas também, verdade seja dita,
não a pretendo nisto.

Tiago Pedro, O Comportamento das Paisagens, Artefacto, Lisboa, 2011, pp. 46 e 64

segunda-feira, novembro 04, 2013

A POLÍTICA DO MAL



Muitas vezes o Mal se manifestou na História da Humanidade – refiro-me ao mal que tem por origem acções humanas. O Holocausto e o Gulag foram formas extremas da manifestação desse Mal. Os tempos que atravessamos, em Portugal e noutros países do sul da Europa, não podem ser comparados a esse Mal extremo. Mas um mal a que H. Arendt chamou “banalidade do mal”, conceito discutível, que a pensadora judia aplicou como forma de explicar o Mal do Holocausto, parece retornar.
As políticas e as figuras que têm governado Portugal nos últimos dois anos, encaixam-se nessa “banalidade do mal” pela sua mesquinhez, estupidez e incompetência. A acrescentar a essas figuras nacionais, e encontrando-se Portugal sob resgate, devemos acrescentar a figura de Angela Merkel, que ressuscita numa pequena escala o Mal alemão.
Vivemos sob uma política do mal, de uma banalidade do mal, não no sentido que H. Arendt deu a essa expressão como explicação do nazismo, mas no simples sentido comum com que percebemos esta expressão. O desemprego, o empobrecimento, o rendimento zero, a emigração, a perda da casa que não pode continuar a ser paga ao banco, a fome – tudo isto tem milhões de rostos por detrás com a sua história própria, as marcas de um sofrimento. Para os executores das políticas que levam os portugueses e outros povos europeus a estas situações, existe a desculpa de não haver alternativa, de serem políticas necessárias para que os mercados voltem a confiar em nós. De facto, com os executores destas políticas não há alternativa, porque este é um projecto ideológico, que corresponde a um desprezo pela vida  das pessoas.

terça-feira, outubro 29, 2013

ANTÓNIO JOSÉ FORTE

GRANDE ÉCRAN

No grande écran
a festa do homem lobo do homem
e a sua mulher de bicicleta
até que um século de furor
abra a cratera donde irrompe o rosto do poeta
as suas mãos borboletas gigantes
os seus pés peixes voadores
a sua boca asa de fogo branco
e outro século
erga a pirâmide de palavras
que se derramem docemente
de anel em anel
até ao último século

*
TESES SOBRE A VISITA DO PAPA (excertos)

6

Explorado sê manso e obedece. Pode ser que entres no reino dos céus, de camelo ou às costas de um rico. obedece. Pode ser que vás para a cama com a Pátria. Obedece. Pode ser que o teu cadáver ainda venha a ser o estandarte glorioso do Partido. Nunca percas a esperança, explorado, jamais.

7

Abaixo a união livre.Viva a coexistência pacífica. O casamento do capital e do trabalho vai ser o grande casamento do século. Não haverá oposição dos pais nem da polícia. Sobretudo, tudo menos a erotização do proletariado. Felicidades, explorado.

António José Forte, Corpo de Ninguém, Hiena Editora, Lisboa, 1989, pp. 69 e 100-101.

domingo, outubro 13, 2013

João Miguel Henriques

ACÁCIAS EM CHAMAS

em cores brutais
de outono imenso
tive sonhos de acácias em chamas
perpetuados por densos fogos fátuos
febris como ameixas amarelentas
em calda antiga

acácias em chamas inteiras
e para sempre


O VENTO E OS SALGUEIROS

a toupeira surge plácida
de um qualquer reguengo adormecido.
há que arrebatar o quanto antes
seis ou sete batatas doces
para dar o dia
por completo

às cinco bebe-se o chá
na toca escura, aburguesada,
do velho rato
(um amigo de paleio)

ainda sopra um vento antigo
pelas ramagens dos salgueiros.
a toupeira habita terra
e guarda as lentes graduadas
no bolso do paletó

João Miguel Henriques, O Sopro da Tartaruga, edição de autor, 2005, pp. 5 e 39.
João Miguel henriques nasceu em Cascais no ano de 1978. O Sopro da Tartaruga (2005) foi o seu primeiro livro de poemas. Em 2011 publicou na Artefacto Isso Passa. A sua poesia na senda de um realismo imperativo nas últimas décadas, faz algumas inflexões com imagens bastante criativas e inovadoras. É autor do blogue Quartos Escuros, onde podem ser lidos alguns dos seus poemas inéditos.

terça-feira, setembro 24, 2013

ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924-2013)

 ESTOU VIVO E ESCREVO SOL

Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol

Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol

A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida

Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

António Ramos Rosa, "Estou vivo e escrevo sol", poema publicado pela primeira vez no livro com o mesmo título de 1966.


AS PALAVRAS VITAIS PULSANDO NO POEMA



António Ramos Rosa era um dos últimos grandes poetas portugueses. Esta afirmação aparentemente banal numa altura como esta tem a sua justificação. Embora sendo um poeta maior, pela sua necessidade de uma respiração poética que o parecia alimentar como o ar, como a “facilidade do ar” – título de um dos seus livros –, Ramos Rosa tornou-se em certo sentido um poeta “marginal”. Marginal porque editou cerca de 100 livros, a maioria dos quais em pequenas editoras, mas também porque a sua pulsão poética, marcada pelo desejo – desejo do poema e no poema em primeiro lugar, como acto de afirmação, acolhimento e plenitude – não seria bem vista a partir de um momento em que a poesia portuguesa começa a ser marcada por um tom narrativo, pela melancolia e posteriormente por um niilismo de pulsão tanática. É certo que a poesia – portuguesa e não só, sempre foi marcada por pulsões de morte. No entanto, António Ramos Rosa, embora só iniciando a publicação em livro em 1958, com o livro O Grito Claro (título que encerra todo um programa), pertence a uma geração de grandes poetas portugueses que iniciaram o seu percurso ainda durante a II grande guerra: Sophia, Eugénio de Andrade ou Jorge de Sena. 
 É fundamentalmente a forma como é editado e a sua pulsão poética, que o leva a escrever milhares de poemas, que o tornam um poeta que pode parecer repetitivo ao leitor desatento da sua obra. E no entanto, a obra poética de Ramos Rosa está à altura da de Sophia, Sena, Eugénio ou Herberto. 
Essa obra é marcada por uma extrema modernidade, uma alta modernidade – e repare-se na influência que Ramos Rosa exerceu sobre os poetas de Poesia 61 de que é testemunho Gastão Cruz. O autor de Acordes (1989) foi desde cedo um teórico do poema. Daí resultaram alguns dos principais livros de ensaio da poesia portuguesa: Poesia, Liberdade Livre (1962), Incisões Oblíquas (1987) ou A Parede Azul (1991). Nestes livros, a respiração poética fazia-se quer através de uma teorização do poema, quer através do diálogo com a obra de outros poetas – e esse diálogo, já sob a forma de poema, foi particularmente fecundo em livros como A Imobilidade Fulminante (1998) em diálogo com Rosa Alice Branco. Mas a teorização da poesia, de que os textos iniciais de A Parede Azul são um dos pontos mais altos, bem como as múltiplas artes poéticas espalhadas pela sua vasta obra, falam-nos de uma poesia autotélica e de uma insurreição: “a poesia é uma invenção livre e aberta mas é ao mesmo tempo uma insurreição vital”, lemos na página 15 de A Parede Azul. Assim se compreende que os primeiros poemas, como “O boi da paciência”, que fizeram Eduardo Lourenço classificar a poesia de António Ramos Rosa como realista, até livros finais como Génese Seguido de Constelações (2005) mantenham ainda que de forma diferente essa linha de resistência, que é ao mesmo tempo uma forma de insurreição contra “os discursos que a sociedade produz […] os seus estereótipos, as suas normas e conceitos”. É contra este mundo desvitalizado que Ramos Rosa escreve. Mas estar contra essa desvitalização implica que o poema é também um lugar de pensamento – e nesse sentido há uma ligação em Ramos Rosa entre poesia e filosofia.  
De António Ramos Rosa, ficam as palavras, as palavras vitais pulsando nos seus poemas. E enquanto existir uma civilização, essas palavras ecoam como um desejo eterno de vida: “Estou vivo e escrevo sol”.

quinta-feira, setembro 05, 2013

SÃO EMPRESAS PORTUGUESAS COM CERTEZA

Aqui se publica a lista das empresas portuguesas, cotadas no PSI-20, que têm sede na Holanda e ai pagam os seus impostos. Ao fugirem para a Holanda estas empresas beneficiam de um regime fiscal mais atractivo (impostos mais baixos), e simplesmente não pagam imposto (IRC) em Portugal. Ou seja, roubam descaradamente o Estado português e fazem o que as outras empresas portuguesas, pequenas e médias, não podem fazer. Não se trata apenas de concorrência desleal e imoral. O país precisa do dinheiro destas empresas que operam em Portugal, estão na bolsa portuguesa e vendem os seus produtos a portugueses. O governo não faz nada contra esta situação. A este estado de coisas não é estranha a chamada "dança das cadeiras": os executivos que destas empresas vão para o governo e do governo para estas empresas num regime de promiscuidade político-empresarial. Na verdade, podemos dizer que não vivemos numa democracia mas numa oligarquia empresarial constituída por cerca de duas dezenas de empresas. E os cidadãos que fazem contra esta situação, ocultada pelos meios de comunicação social que se divulgassem esta situação correriam o risco de perder a publicidade destas empresas? Nada. Torna-se, pois, importante, 1) divulgar esta escandalosa situação e 2) apelar para um boicote aos produtos destas empresas. A situação é demasiado imoral: o governo aumentou de forma "colossal" os impostos (além de acabar com o 13º mês, subsidio de férias e baixar as pensões, entre outras maldades), mas estas empresas lideradas por "patriotas" como Alexandre Soares dos Santos (Jerónimo Martins), Belmiro de Azevedo (Sonae) ou Ricardo Salgado (BES) apenas pensam nos seus lucros.

Eis a lista (com as empresas e as sociedades em que o grupo empresarial se divide):
- BCP detém a sociedade BCP Investment B.V.;
- PT detém as sociedades Bratel Brasil, Bratel TV, Africatel e PT International Finance BV;
- SONAECOM detém: Sonaecom BV (que detém uma parte da Optimus) e Sonaetelecom BV (detém jornal Público);
- SONAE detém: Soflorin BV, Sonvecap BV, Sonae Investments BV e Sontel BV;
- EDP detém EDP Finance BV;
- CIMPOR detém Cimpor BV;
- BRISA detém Brisa Finance BV, Brisa International BV, Brisa International Invest BV;
- SONAE INDÚSTRIA detém Megantic BV;
- GALP detém Galp Energia E&P BV e Galp Energia Port. Holdings;
- MOTA-ENGIL detém ME Brand Management e Tabella Holding;
- SEMAPA detém Seinpar Investments BV, Interholding Invest. BV, Parcim Invest. (grupo Secil) e Seciment Investments (Secil);
- PORTUCEL detém Megantic BV.

4 grupos têm sociedades com sede noutras cidades da Holanda (Roterdão e Amstelveen):
- BCP detém Bitalpart BV e BBG Finance BV, em Roterdão;
- JERÓNIMO MARTINS detém a Belegginsmaatschappij Tand em Roterdão;
- ZON detém a Teliz Holding BV em Amstelveen;
- SONAE INDUSTRIA detém SCS Beheer em Amstelveen.

"O BES é o grupo com mais sociedades sediadas no estrangeiro (10), especialmente em paraísos fiscais, seguindo-se o BANIF com sociedades em 9 países. O BES detém 7 empresas sediadas nas Ilhas Caimão, conhecido paraíso fiscal, e o BANIF 6."

"A sociedade TAND, do grupo Jerónimo Martins e com sede em Roterdão, detém 100% da JM Dystrybucja, que por sua vez detém a Biedronka, a rede de supermercados dominante no comércio retalhista do ramo na Polónia. Esta rede de supermercados na Polónia é a principal fonte de receitas do grupo Jerónimo Martins com vendas de 4,3 mil milhões de euros nos primeiros nove meses de 2011 (59,1% do total do grupo)."
Respigado de Esquerda.net
 (Em cima logo da Sonae, uma das empresas com mais sociedades na Holanda)

domingo, agosto 04, 2013

EI-LOS QUE PARTEM

Em finais de outubro de 2011, estava ainda o governo PSD/CDS a preparar com a troika o processo de destruição nacional exigido pelos todo poderosos deuses Mercados, o secretário de Estado da juventude e desporto afimou que "Se estamos no desemprego, temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras". Era o primeiro convite do governo à emigração, que seria, pouco mais tarde, renovado pelo primeiro-ministro. Hoje, e comparando a emigração actual com a de antes do 25 de Abril, os resultados são catastróficos: em 1973 Portugal teria 79.517 emigrantes, em 2011 esse número quase duplica: 121.418 emigrantes, dos quais 51.958 permanentes e 69.460 temporários (números recolhidos na edição do Expresso de 03-08-13, caderno principal, p.21). Ora, segundo o secretário de Estado das Comunidades afirmou em janeiro deste ano, nos últimos dois anos teriam emigrado 200 mil pessoas desmentindo os dados do INE que apontavam para números muito mais baixos. Curiosa esta atitude de um governante. Seria de esperar do secretário de Estado que encobrisse os números da emigração. Não o fez, embora os números reais, contando com a emigração clandestina devam de ser superiores. Na realidade o que este governo fez nos últimos dois anos foi criar todas as condições para o aumento exponencial da emigração, colocando-a a níveis superiores ao do Estado Novo. Emigram os melhores e os mais jovens. Pelo que já foi exposto, parece que o governo tem um estranho orgulho nisso. Não nos devemos espantar com isso: o objectivo deste governo é destruir um país. Ora, tanto o aumento do desemprego, o empobrecimento, como a consequente necessidade de emigrar, fazem parte das metas para conseguir o pior para Portugal. São essas metas que agradam à troika e a frau Merkel e não a redução do défice - para um número que todos (governo, troika, Alemanha, mercados) sabem que não é possível atingir. Possível é atingir em cheio a vida das pessoas, levá-las à pobreza, à humilhação, à separação, à infelicidade. Ao fazer com que alguns dos mais capazes emigrem, em condições de grande precariedade, muitas vezes clandestinamente, como no tempo do Estado Novo, esta canalha esta a preparar as condições para que Portugal se torne numa pequena China. E quanto aos emigrantes portugueses não os espera um paraíso sonhado, quer seja na Alemanha, na Suíça, em Angola ou no Brasil. Resta-nos este fado que não conseguimos quebrar enquanto não agirmos politicamente - única forma de mudarmos a nossa vida em comunidade, isto é, como cidadãos de uma nação.
Em cima o vídeo onde Manuel Freire interpreta a canção "Ei-los que partem", no programa Sabadabadu (inícios dos anos 1980 do século passado).

quinta-feira, agosto 01, 2013

O NOVO MANDELA É UM CÃO



Enquanto Nelson Mandela, uma referência mundial nos direitos humanos, luta pela vida num hospital de Joanesburgo, em Portugal assistimos à estúpida situação de um cão que matou uma criança ser elevado ao estatuto de novo Mandela. “Vamos chamá-lo Mandela,porque tal como o líder sul-africano este cão também é um símbolo de liberdade.Esteve preso sete meses sem saber porquê, tal como Mandela esteve preso mais deduas décadas”. Foi com este desplante de demente que a dirigente da AssociaçãoAnimal, Rita Silva, comentou a “libertação” do pitbull que há uns meses esmagou o crânio de uma criança. Repare-se na enormidade destas afirmações: Rita Silva compara um cão assassino a um dirigente que transformou a política racista de um país e é um símbolo da liberdade e da luta pelos direitos humanos. Será que Rita Silva e a Associação Animal são uma corja de racistas e estas declarações pretendem atingir Nelson Mandela? Ou será que estas declarações, insanas, revelam que para a Animal a vida de um cão tem mais valor que uma vida humana, e consequentemente, como esteve preso sete meses, o cão assassino de um bebé tornou-se “num símbolo” da libertação animal, assim como Mandela foi um símbolo da libertação dos negros sul-africanos? Portanto, se tivermos em conta esta última hipótese a Associação Animal – e não só – defende a supremacia da vida animal sobre a vida humana. Nada disto é completamente estranho se tivermos em conta o “pensamento” de um tal Peter Singer. Mas estas declarações e atitudes devem ser combatidas com toda a veemência. A Animal e a sua dirigente devem merecer o mesmo tratamento e repudio que os talibãs merecem. Porque é disso que se trata: fundamentalistas que pretendem subjugar os humanos já não aos deuses mas aos animais.

quarta-feira, julho 03, 2013

O DESMORONAMENTO DE PPC

Quando eu andava no que hoje é o actual 5º ano, existia na minha turma um rapaz que queria ser Presidente da República. Esta resposta, dada na sala aula era, claro, motivo de chacota. Mas creio que um professor, mais alerta para os reveses da vida, não terá descartado de todo a possibilidade, embora se tratasse do pior aluno da turma. Não sei por onde anda esse meu antigo colega, mas deverá ter ficado pela agricultura. Mais ou menos por essa mesma altura, um jovem já envolvido na política partidária, ao ver o grupo As Doces decidiu que haveria de casar com uma delas – e consegui. Passou à realidade o que deveria ser uma fantasia de muitos homens na época. Creio que esse jovem, já nessa altura, sonhava ser primeiro-ministro e talvez também Presidente da República. Esse jovem, agora perto dos cinquenta, é desde há dois anos primeiro-ministro de Portugal. E conseguiu ser mais que primeiro-ministro. Pedro Passos Coelho ficará na História de Portugal como o pior primeiro-ministro de sempre (abre-se uma excepção para Salazar, naturalmente), como aquele que executou um programa de destruição do país, ordenado por interesses mais ou menos obscuros, representados pela troika e pela Alemanha. Mas na ganância do poder quis “ir além da troika”, empobrecer Portugal, estrangular a economia. E, com a preciosa ajuda de Vítor Gaspar, como exterminador implacável da economia portuguesa, e o silencioso apoio do “palhaço” Cavaco, conseguiu o seu objectivo.
Nos últimos dois dias tudo se desmoronou com a demissão de Gaspar e depois de Paulo Portas. Ontem, nas televisões, Coelho fazia lembrar um general de Saddan Hussein que quando as tropas americanas já estavam em Bagdade insistia em dizer que tudo permanecia na mesma. O “não me demito” de Coelho faz parte já de um negacionismo da realidade que raia o psicótico ou a tragicomédia de um filme muito muito mau. A apoiar tudo isto está a múmia presidencial. Perante esta situação, de nada vale invocar os mercados – esses “deuses”, para quem Coelho, Gaspar e Cavaco sacrificaram a vida dos portugueses durante dois anos, não são tão estúpidos como parecem, e muito menos misericordiosos. Implacáveis estão a vender tudo que é produto financeiro português. A manutenção deste governo (?) de nada serve; a batata quente está nas mãos do presidente.
É necessário dizer, redizer, que, desde o 25 de Abril, nunca um governo faz tão mal aos portugueses. E mesmo agora, na hora que está prestes a sair de cena insiste em complicar as coisas, em fazer mais mal. Nunca um governo teve um primeiro-ministro tão estúpido, tão incapaz; nunca um primeiro-ministro mentiu tanto, tão colossalmente, entre aquilo que prometeu em campanha eleitoral e o que fez depois.

É agora altura de regressar à política e mostrar que os mercados são deuses com pés de barro. Mas essa é a mais difícil das tarefas, para a qual não servem pessoas inseguras.

quarta-feira, junho 26, 2013

UM GESTO POR INVENTAR



Em entrevista publicada no jornal i da passada segunda-feira, Rui Tavares admite a criação de um novo partido de esquerda. A forma tímida e demorada dessa admissão, que o texto de capa do jornal ilustra (“Em entrevista ao i, o eurodeputado Rui Tavares quebra um tabu e assume que a esquerda ‘não deve ter vergonha’ de formar um novo partido, afirmando em voz alta ‘o que outros dizem nos corredores’”), mostra como se tem feito política em Portugal nos últimos dois anos, ou seja, durante a vigência deste governo de destruição nacional. Ou dito doutro modo, como a oposição, a esquerda, perante uma situação política anormal, de emergência, que na História portuguesa recente só encontra paralelo no PREC de 1974-75, quase nada tem feito. Que algumas das vozes contra a escandalosa política deste governo, que nos manda empobrecer, venham da direita, como é o caso de Pacheco Pereira, Manuela Ferreira Leite ou Bagão Félix é sintomático – enquanto algumas personalidades da esquerda, com responsabilidades partidárias ou governativas nas últimas décadas, se mantém em silêncio ou só há pouco tempo acordaram (por exemplo: António Guterres, Ferro Rodrigues, Jorge Sampaio, Ramalho Eanes). Pode-se dizer que os políticos, ou ex-políticos, estão em consonância com o povo que engole o barrete da dívida, em parte ajudado por uma longa série de comentadores televisivos, de Marcelo a José Gomes Ferreira, na versão soft, que nos explicam a sorte que temos em ter uma troika que nos ajuda, e como os pobres do tempo de Salazar, como devemos ser agradecidos para com a troika e a Chanceler Merkel (que se prepara para vencer as próximas eleições em Setembro, muito à custa dos países “intervencionados” do sul que renderam no último ano à Alemanha 80 mil milhões de euros).
De facto, os portugueses adormeceram ao som de um fado antigo. Estão, como nunca divorciados da política e dos políticos – e têm razão. Mas os portugueses enfiam ainda mais o barrete, tapam os olhos e assobiam para o lado. Enquanto isto, no Brasil, essa espantosa criação portuguesa, o povo saiu à rua e mostrou a sua força.
Neste momento, em Portugal – como também um pouco pela Europa do sul atingida pela agiotagem financeira da troika e da Alemanha – impera a inércia, o pasmo, a lentidão. Faz sentido criar um novo partido à esquerda, nesta situação? Faz todo o sentido se for para acordar o país, para enfrentar energicamente os tempos que vivemos, tempos difíceis e sombrios. Mas esse partido terá que ser diferente: a questão não é a ausência de um programa político – temos melhor programa político que a Constituição (que em muitos dos seus artigos nunca foi comprida)? A questão, essencial, está na atitude. E essa atitude é ainda um gesto por inventar que não se coaduna com a inércia e burocracia político-partidária existente.