quarta-feira, dezembro 31, 2014

LIVROS EM 2014



 

Este ano pouco ou nada mudou no que ao comércio dos livros e sua edição diz respeito. É certo que quando a Porto Editora conseguiu, não se sabe por que carga de água ou fogo, editar com a sua chancela o último livro de Herberto Helder, houve a percepção, por parte de algumas das mais brilhantes cabeças da pátria, de que se estava a abusar do maior poeta português vivo. Ou então que o poeta tinha finalmente enlouquecido, como há desde quase cinquenta anos vinha ameaçando (veja-se o início do conto “Estilo” do livro Os Passos em Volta, ou algumas passagens de Photomaton & Vox). Verdade que o livro, A Morte sem Mestre, esgotadíssimo, não agradou a alguns críticos, a quem certa linguagem erótica, vinda do vate octogenário, talvez tenha escandalizado. Diferente seria quando uma ex-jornalista, com carácter de urgência, resolveu escrever em terras alentejanas, numa cozinha, enquanto o verão passava, um livro que utilizava uma linguagem vernacular muito idêntica à do nosso tão celebrizado vate H H. Entenda-se, então, uma coisa: o que uma senhora pode escrever (e dizer) não é o mesmo que um velho de 80 anos pode. Porque a senhora, dona das suas curvas, faz com o seu sexo o que lhe apetece; tem os amantes que quer e ninguém tem nada a ver com isso – muito menos os amantes. Já do velho vate, só fica bem o flirt com a morte. Mesmo porque algumas palavras, ditas ou escritas por varão, podem configurar o crime nefasto de assédio sexual. Portanto, mesmo em questões literárias, e numa altura em que o autor regressou, como um Lázaro da tumba estruturalista, há que ter todo o cuidado, quando se é um macho branco e heterossexual, mesmo que de um país que esteve sob o domínio da obscena troika.
É claro que muitos mais livros se publicaram ao longo de 2014, com o grande destaque para o lixo do costume, de editores idiotas e livreiros imbecis – com as honrosas excepções, como em tudo. A situação de destruição que o país vive veio dar fôlego a um género que em Portugal tinha pouca expressão: os livros de jornalismo, ou para tentar ser mais exacto grandes reportagens em livro. Diria que finalmente. Finalmente há jornalistas que escrevem sobre o que sabem fazer, o que fazem no dia-a-dia, mas de uma forma mais prolongada, com mais caracteres. Mas desengane-se que isto acabou com a lógica do jornalista-vedeta que escreve o seu romance anualmente. Não. E para o confirmar tivemos mais livros de José Rodrigues dos Santos e de Miguel Sousa Tavares. Mas os livros que tentam desmascarar o jogo de cadeiras por detrás do poder político, ou quem são os Donos de Portugal, ou aprofundar a história do BES, são livros de reportagem e investigação que faziam falta, principalmente se atentarmos que o panorama mediático português é dominado por grupos empresariais pouco interessados em que a verdade seja publicada nos seus jornais – e muito menos nas televisões. Temos assim que na falta de um jornalismo plural – em Portugal, ao contrário do que existe em França ou mesmo na Espanha, não há jornais de esquerda, tentando todos parecer um enorme bloco central jornalístico – cabe a jornalistas independentes fazer vir ao de cima a verdade que se esconde nas pequenas notícias. Jornalistas como Paulo Pena (a colaborar agora com o Público), autor de Jogos de Poder – Toda a verdade sobre os bancos portugueses e a forma como criaram a dívida que todos temos de pagar (esfera dos livros) ou mesmo investigadores como Gustavo Cardoso, entre outros, têm feito esse trabalho. Trata-se, por vezes, de escrever aspectos da história recente de Portugal que só no formato livro podem ganhar inteligibilidade. Outras vezes é tão só uma forma de ter ainda mais projecção mediática e ganhar algum dinheiro fazendo favores à ideologia que nos governa ou apresentando propostas dúbias (veja-se o caso do jornalista da SIC José Gomes Ferreira).
Nas actuais circunstâncias, em que as livrarias parecem lojas de chinês, ou talvez em que as livrarias podiam tornar-se lojas de chinês, já que apenas procuram o lucro de forma acéfala, há que encontrar outros lugares e outras formas de leitura que fazem uma ponte entre o passado e o futuro. Não é preciso ser um leitor exigente para perceber que se ganha muito mais, em todos os aspectos, frequentando e sendo leitor de bibliotecas – a única coisa que se perde é o livro que uma vez lido tem de ser devolvido. As bibliotecas, mesmo as municipais, são formas de um encontro feliz com os livros como objectos de saber, de reflexão e de gozo. Porque as bibliotecas são lugares de encontro com o passado, com livros marcantes da nossa literatura, filosofia, história ou outros saberes e sabores. E ali estão esses livros já marcados pelo tempo, já lidos, sublinhados (e ler um livro sublinhado, de uma biblioteca, é entrar em diálogo com alguém que desconhecemos). Talvez que esta crise tenha aumentado o número de leitores em bibliotecas, evitando a decadência das mesmas, esses lugares que ainda restam de silêncio e murmúrio (para além das Igrejas). Mas, infelizmente, as bibliotecas representam o passado.
O futuro apresenta-se através das tecnologias de comunicação digital. É a internet o grande repositório de saber, não só de um saber tosco, inexacto, que de certa forma cria uma nova epistemologia, mas também de alguns dos mesmos livros que se encontram nas bibliotecas. No entanto, a mudança de uma leitura analógica (digamos assim) para uma leitura digital é um processo complexo – desde os hábitos dos leitores até direitos de autor. E é também uma nova questão da ética de leitura: já não se trata de ler por prazer ou por dever (por exemplo), mas de ler contra o sistema ou a favor do sistema – e ai a questão volta ao início, entre o lixo e o luxo – independentemente do meio.

Livros esquecidos de 2014 – uma (pequena) lista

João César Monteiro – Obra Escrita 1, Livraria Letra Livre
João Urbano – Revoada, ed. Nada
Dulce Maria Cardoso – Tudo são Histórias de Amor, tinta-da-china
Paulo Varela Gomes – Hotel, tinta-da-china
Luís Filipe de Castro Mendes – A Misericórdia dos Mercados, Assírio & Alvim
Daniela Arbex – Holocausto Brasileiro, Guerra e Paz
Giorgio Agamben – A Potência do Pensamento, Relógio d’ Água
Paulo da Costa Domingos - «Voici la poésie ce matin et pour la prose il y a les jornaux », Averno

terça-feira, dezembro 23, 2014

Andreia C. Faria

Vesti-me sempre com as roupas de um primo
da irmã mais velha
ou do último amor
Assim sou-lhes leal:
os dedos através dos bolsos
aflorando o sexo, a nuca
beijada de borboto, o hálito
suspenso nas golas da camisa
Com eles tropeço
na estreiteza das coxas, como cavalos
dormimos juntos no mesmo disfarce
Nada em mim cresce de que não sejam a forma
Nada obsceno
que as suas roupas usadas não cubram

*
Rachado o tronco - ardida a lenha
desabrido o lugar de onde vinha
a melodia se assim
puder chamar os nomes
redondos que em lembrança
a boca esgota
pergunto
(a textura omissa do pomar)

a que fruto dar, agora, atenção desmedida

*
BREAKING THE WAVES

Deus existe

Quer estar sozinho, suprimiu
os sinos e os ladrilhos mais sonoros
e às mulheres, para não parecer
quem é, sacode antes de entrar
os cascos sujos

Andreia C. Faria, Flúor, Textura, 2013, pp. 8, 38 e 55.

Andreia C. Faria estreou-se com o livro de poesia De haver relento (Cosmorama, 2008). Flúor é o seu segundo livro. Venceu em 2013 o Prémio Jovens Criadores. A sua poesia, desalinhada de estéticas grupais, em Flúor atinge uma grande qualidade. Uma poeta a ter em atenção para o século XXI.

sexta-feira, dezembro 19, 2014

ALEXANDRE VARGAS

MA BLONDE

Ouve, vagueio num espaço de luz cercado dum silêncio...
é um silêncio e não o teu... vejo claramente olhando as mesas
o meu perfil que se volta docemente e não és tu,
em que braços te suspendes e flutuas os teus lábios
rigorosos de planície quando voas?...

Olha, fixa e furtivamente olha superiormente,
ó Cyborg que enorme já te ergues no teu luto,
a boca entreaberta como um ovo que é olhado
na doce e fresca idade que em breve nos espera
entoa já o canto dos fantasmas que dão fruto.

*
CYBORG (excerto)

Não sei por que modo ou forma entrei em Cyborg.
À entrada lembro-me dos pássaros tenebrosos e eu a hesitar
orgasmático naquele labirinto cósmico
onde os gigantes poderosíssimos nas suas terríveis bielas
nos falam da raça superior. Eu estava vestido
de negro e acordava num sítio inacessível onde
estivesse a começar a levantar-me. Uma porta lassa,
no seu crepitar de ídolo de barro, verificava as
grandes colunas ibéricas que, nos corredores das suas
engrenagens, começavam a erguer-se. [...]

Alexandre Vargas, Cyborg (1978), Lisboa, Livros Horizonte, 1979, pp. 16 e 27.
Alexandre Vargas nasceu em Lisboa em 1952. Publicou os seguintes livros de poesia: Morta a sua fala (1977), Cyborg (1979), Vento de pedra (1981), Organum (1984) e Múltiplo de Três (1997). 
Cyborg é dos poucos livros da poesia portuguesa que se enquadra dentro da ficção-científica. Um outro exemplo é uma das secções de Quatro Caprichos de António Franco Alexandre.


quinta-feira, dezembro 11, 2014

ANTÓNIO OSÓRIO

 

Amo-te
com pressa
de não acabar o amor

*
BOSCH, O INÍCIO

I   Tríptico das Delícias

Enquanto Adão, Eva e o mais
eram criados, um gato abocava
o primeiro rato.
Iníludivel a prepotência
do felino. Adão soerguido
Eva desejava, nudez sua. E Deus
abençoava os seus viventes
consagrando o bem e o mal que lhes fizera.

António Osório, Emigrante do Paraíso, s/l [edição brasileira, antologia dos primeiros livros, com prefácio de Carlos Nejar] Massao Ohno-Roswitha Kempf / editores, 1981

terça-feira, novembro 25, 2014

O CASO SÓCRATES OU NÃO HÁ COINCIDÊNCIAS




Há uns anos a escritora de literatura light Margarida Rebelo Pinto deu como título a um dos seus romances “Não há coincidências”. Na detenção e consequente prisão preventiva de José Sócrates podemos nos interrogar se há ou não coincidências. Porquê prender o ex-primeiro-ministro e líder do PS durante cerca de seis anos, quando o PS estava a eleger um novo líder? E quando a nova liderança do PS estava a reabilitar José Sócrates? E porquê prender Sócrates quando, a menos de um ano das eleições, ninguém pode esconder que já começou a campanha eleitoral para as mesmas?
Todas estas questões parecem ter uma resposta incerta, mas entram dentro de uma teoria da conspiração que nos atira para o pior cenário político que a democracia portuguesa viveu. Porque embora qualquer cidadão possa ser alvo do juiz justiceiro Carlos Alexandre, e José Sócrates por ter sido primeiro-ministro não possa estar acima ou abaixo de qualquer outro cidadão, o timing e a forma como esta prisão foi feita aponta para uma preocupante judicialização da política. De repente, desde o processo Casa Pia, a chamada justiça portuguesa tornou-se mediática – lembram-se daquele primeiro juiz do processo Casa Pia? Ora a justiça portuguesa vive numa promiscuidade: no mesmo edifício trabalham juízes e magistrados do Ministério Público. Essa promiscuidade, aliada a uma má formação desses elementos – notoriamente em questões de direitos humanos – leva a um desrespeito total pela presunção de inocência dos arguidos. Por isso se aplica tantas vezes a prisão preventiva.
Mas o caso José Sócrates é especial. Desde que foi convidado pela anterior direcção de informação da RTP para comentador, Sócrates assumiu a sua defesa, a sua “narrativa”, contra a narrativa do actual governo de direita. Embora o ódio a Sócrates prevalece-se, a sua mensagem ia passando todos os domingos. Uma mensagem incómoda para o governo, contrastando com o comentário de Marcelo Rebelo de Sousa na TVI. Uma vez iniciada a campanha eleitoral, ou pré-campanha, com a eleição de António Costa para a liderança do PS, a direita de Passos Coelho, Portas e Cavaco não podia permitir que a mensagem de Sócrates continuasse a passar. Este governo fez tudo para destruir o país, é bom que os portugueses tomem consciência que no próximo ano fará tudo para impedir a esquerda de ganhar as eleições. Acabar com o comentário de Sócrates na RTP era demasiado evidente nesta altura de que se tratava de uma medida de ingerência do governo na televisão pública. Havia que fazer algo mais eficaz. Para alguma coisa serve o SIS que depende directamente de Passos Coelho. Arranjar forma de incriminar José Sócrates, e entregar o caso ao juiz justiceiro Carlos Alexandre. E fazê-lo precisamente na altura em que António Costa era eleito secretário-geral do PS e a uma semana do congresso do PS. Não há coincidências. (É claro que esta é uma teoria da conspiração, mas enquanto o processo permanecer indevidamente em segredo de justiça, com fugas de informação ou mentiras propaladas pelo Correio da Manhã e por Felícia Cabrita do Sol – lembram-se que foi ela quem despoletou o caso Casa Pia? – esta narrativa é tão válida como a que tem vindo a ser publicada na imprensa.)
Com Sócrates preso, numa operação pidesca, o PS parte para as próximas eleições fragilizado. E a narrativa que Sócrates vinha defendendo, a de que não foi ele o culpado do pedido de ajuda à troika – antes esta foi desejada pela direita, e mesmo a esquerda ajudou na sua vinda ao chumbar o PEC 4 – vai por água abaixo. Mais: António Costa torna-se um líder do PS fragilizado – ele que pertenceu ao governo de Sócrates e outros elementos do PS que também estiveram com Sócrates durante seis anos de governo. É quase todo um partido.
A prisão de Sócrates resulta de um abuso da prisão preventiva – prender alguém preventivamente é declara-lo culpado antes de ser julgado. Este método tem sido utilizado pela justiça portuguesa tanto para o pilha galinhas, como para o traficante de droga, como para o político ou empresário. Quase sempre que a moldura penal do crime permite a utilização da prisão preventiva ela é utilizada. Ora isto não pode continuar. É um grave atentado aos direitos humanos que se prenda alguém só porque é suspeito.
Há na prisão de José Sócrates algumas ironias. Foi Sócrates quem inaugurou o campus da justiça onde cinco anos depois viria a ser interrogado; foi Sócrates que assinou alterações legislativas que agora lhe são imputadas; Sócrates publicou um livro de filosofia política, A Confiança no Mundo, resultante da sua tese de mestrado, sobre a tortura. Ora tanto a forma como foi detido, como o regime de prisão preventiva que lhe foi aplicado podem ser consideradas formas de tortura light.
Quanto ao futuro de Sócrates, como "animal político" ele não está completamente terminado. Mas perante este sistema judicial as suas hipóteses são
escassas.
P. S. - Durante o dia de sábado, quando a PJ foi com grande aparato fazer buscas à casa de José Sócrates, viram-se populares e uma bandeira do PNR, o partido de extrema-direita que é um equivalente da Frente Nacional francesa.

quarta-feira, novembro 19, 2014

ÁLVARO MANUEL MACHADO

 CORES - 2

Uma simples laranja.
Loucura do amarelo
sobre a toalha branca.

*

VENTO

Maneira de
beber o dia

*

ROSTO

Paisagem
ao longe

*

TEU ROSTO

Lâmpada   oval
tensa
recolhida

pão
ovo
berço
rio

Álvaro Manuel Machado, Íntimo Rigor, Arcádia, Lisboa, 1981, pp.21, 29, 42 e 43



sábado, outubro 25, 2014

Rosa Oliveira



L´HOMME AUX RATS


vai-me buscar cigarros
(de enrolar duram mais)
dizia agarrado ao roupão
que gritava hospital a
centenas de metros
os chinelos de velho
nos calcanhares de cortiça
ontem esfreguei-me no chão
não há hipótese
não tenho orgasmos há quatro anos

fugi daquela casa
os ratos não me deixavam dormir
conduzi
o carro sugado pela neblina
os ciganos
ofereceram-me o lixo deles
para comer
agradeci
os algarismos
não paravam
batiam à porta
depositaram
um cão esventrado
no tapete

na aldeia
havia menos pessoas que no prédio
em frente de tua casa
cheira bem
o teu manjericão roído
por traças verdes

foi então no outono
telefonei-te
percebi
que estava a
deixar de ser moderno
era um sabujo
que batia nos pais
e mal sabia ler
tens de escrever e falar
por mim
perco-me nas frases
e as ideias partem-se
ao quererem sair

estás a ver este gajo
foi buscar tabaco e
agora vem com conversa de padre
se calhar safava-me
da ala psiquiátrica
se fosse para padre
assim
rio e choro
tudo de seguida
e não tenho ninguém a quem
encostar o corpo

esta conversa parece um poema
do cesariny
numa noitada
abjeccionista

esquece o orgasmo
é só um espasmo
toma mas é o lítio
e põe-te firme
na realidade

qual mimese
qual caralho...

(Relâmpago - revista de poesia nº 33)

Rosa Oliveira nasceu em 1958, Viseu. Tem-se dedicado ao estudo e ensino da literatura. Em 2013 publicou o seu primeiro livro de poemas - Cinza - editado pela colecção de poesia da Tinta da China.
                                                              

terça-feira, outubro 14, 2014

O TTIP por Almuneda Grandes

                                                               ALARMA

Nos sobran motivos para el miedo. Como vivimos cercados por la mentira y el silencio, al temor por la suerte de Teresa Romero se suma el de los aún desconocidos desastres que los recortes en sanidad provocarán mañana, y hasta la posibilidad de que, en el colmo del cinismo, el Gobierno aproveche la ocasión para liquidar lo poco que queda de cooperación y ayuda al desarrollo. Todo lo malo que hayamos sido capaces de pensar alguna vez se va cumpliendo sin remedio. Por eso quiero llamar hoy su atención sobre el TTIP, siglas que probablemente desconocen aunque pesan como una amenaza silenciosa sobre su futuro. EE UU y la UE negocian desde hace año y medio el Tratado Transatlántico de Libre Comercio e Inversión en una opacidad casi absoluta. Lo poco que han declarado sobre sus intenciones —que pretenden eliminar las barreras reguladoras que limitan los beneficios potenciales de las multinacionales a ambos lados del Atlántico— es ya temible. Los acuerdos que se están negociando en secreto pueden ser mucho más peligrosos que el ébola. Si lo que temen las organizaciones de la sociedad civil que han dado la voz de alarma llegara a cumplirse, las multinacionales tendrían derecho a cuestionar las decisiones que tomen Estados soberanos y a ser indemnizadas cuando éstas les perjudiquen. Para colmo, el tribunal que dirimiría estos conflictos no sería público, sino privado. Tres abogados con intereses en la disputa fijarían la sentencia y la multa correspondiente, sin derecho a recurrir por parte del Estado sancionado. A partir de ahí, la soberanía democrática será una cáscara hueca y el sometimiento de la política a los poderes económicos, la norma de nuestra vida. Recuerden estas siglas: TTIP. Porque lo peor que hayan temido al leer esta columna se cumplirá mañana si no somos capaces de evitarlo.

Artigo publicado no El País de 13-10-14, última página, sobre o obscuro
TTIP. Sobre o TTIP ver mais informação aqui, aqui, aqui

terça-feira, setembro 09, 2014

JOSÉ RICARDO NUNES


CERIMÓNIA DE ABERTURA

Entram no estádio e desfilam
as delegações: uma bandeira
por país, um capitão
a comandar os implicados
no crescimento do comércio global.
Os desportistas sorriem, acenam,
cumprem à risca o seu papel de figurantes.
Digo-lhe que não sei parar as imagens.

Reina a paz e a concórdia.
Mesmo os que vieram apenas para competir,
perder, sonham com o milagre
que lhes turva os olhos de glória. E eu,
sentado neste sofá suburbano
que treme à passagem do comboio,
acredito no que lhe digo.

Lembra o comentador, algo comovido
pelas últimas notícias, que na Grécia
faziam tréguas durante os Jogos.
Alguém é dono da verdade? Resta-nos
o poder de mudar livremente de canal
ao sabor dos nossos humores tão variáveis.
Estou sempre a dizer isto à Jacinta.

       

       
           O SUPLENTE



            O futebol preferia 
aos livros. Mas livros depois  
já não era capaz de distinguir
quem driblava, quem centrava
para dentro da área, se o remate
certeiro concluía uma jogada
ou um poema. Se não podes vencê-los
junta-te a eles. No mesmo banco
em que acompanhava os jogos
da minha equipa leria os livros.
Lances e metáforas imaginados,
uma luz crua e breve.
Pois a maior parte do tempo
ficava petrificado, ausente,
como se nem sequer eu
estivesse sentado no banco
a assistir a tudo isto.

José Ricardo Nunes, Versos Olimpicos (2008), Deriva, Porto, pp. 5 e 13