quarta-feira, fevereiro 25, 2015

Mário Rui de Oliveira


SANGUE

Depois chegavam os ventos
a tarde arrastava uma chuva
de flores brancas
tão delicadas

doía-me uma luz em teus olhos
que não conseguia
sombra assustada, minha vida

o ar libertava um azul
nesses passeios lentos pelo pomar

descendo às laranjeiras
o sangue ardia

*
FS-93-29

Meu pai foi caseiro
com setecentos escudos de renda
comiam-se as migas e a teresinha apontava
no velho livro de contas
um quilo disto e dois daquilo
e umas sapatilhas bondy
para o menino rasgar

na velha carrinha vermelha
o amigo da fábrica
que mais tarde o traíria

trabalhava-se duramente
parecia uma escravidão
até a casa foi vendida

vieram doenças
telefonemas de urgência
dias divididos à sombra do passado

esmagadeira das uvas
prensas antigas
tesouras da poda
esquecidas
cheias de ferrugem

agora a vida é muito diferente

*

ALMA

A alma é uma claridade discutível
cria laços com a escuridão
seu esplendor de diamante
provém da aluviões
lentamente depositados

Mario Rui de Oliveira, Bairro Judaico, Lisboa, Assírio & Alvim, 2003, pp.11, 13 e 34.
Mário Rui de Oliveira nasceu em 1973, em Joane. Estudou teologia e direito canónico. Publicou em 2002, com prefácio de Eugénio de Andrade, O Vento da Noite (Assírio & Alvim) e que se seguiu Bairro Judaico. A sua poesia (escassa) é marcada por motivos religiosos ou aparentemente autobiográficos. Pode ser inserido num grupo de poetas a que chamaram "poetas de Deus" e que tem em Tolentino Mendonça e Daniel Faria os seus expoentes mais próximos.

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