quarta-feira, maio 27, 2015

Frederico Pedreira

CIRCO

Os salpicos das ondas voam entre o nevoeiro. Passam horas em que só vemos as nossas sombras a agigantarem-se no chão. Ao longe, monta-se um espectáculo de circo e uma criança passa por nós correndo nessa direcção, visionária, urdindo uma velha canção entre monólogos abafados. Acena muito a uns cavalos brancos que estão presos a um poste e que se sacodem em toda a sua magreza pela excitação. Tento agarrar-lhe o braço, pedir-lhe desculpa por não poder ir com ela. Que não me é possível, que entre a minha e a vida dela aconteceu um número de circo que terminou abruptamente, com estatelamento no chão, sem magia  ou aplausos, e um público a retirar-se em profundo constrangimento.
A criança corre através de mim como se me expulsasse do tempo, corre cada vez mais veloz contra a parede do vento, empurrando a sua primeira contrariedade. O rosto é jovem mas os olhos parecem doentes e lembram-me os meus, injectados ainda com a possibilidade de diferentes rumos.
É a única vez que paramos de andar, petrificados, os pés afundados na areia húmida. Sintonizamos a respiração da criança, tentando obter uma escuta transversal do mundo.

Frederico Pedreira, Breve Passagem pelo Fogo, Lisboa, Artefacto, 2011, p. 28
Frederico Pedreira nasceu em 1983. É autor dos livros de poesia Breve Passagem pelo Fogo, O Artista Está Sozinho, Doze Passos Atrás e Presa Comum (Relógio d' Água, 2015). Publicou também o livro de contos Um Bárbaro em Casa (Língua Morta, 2014)



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