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segunda-feira, agosto 31, 2020

Leonor de Almeida e a Feira do Livro do Porto

 Leonor de Almeida

ENTRONIZAÇÃO


Tenho o braço cansado,
A mão dorida, trôpega...
Mas uma espécie de ânsia sôfrega
ordena:
            Empurrar tudo!
- Não quero, nem passado,
Nem presente,
Nem futuro! - 

O braço faz de muro,
A mão abre caminho, coerente...

Quero uma estrada cá dentro... lisa, plana,
Para a tua palavra mágica, profética,
Bela e magnética,
Passear livremente,
E demoradamente!...

(de "Caminhos Frios", 1947)

TELA

Pássaros enfermos transbordam-me a garganta
e meu coração tenta encher as covas das árvores arrancadas.
As nuvens enrolam-se na linha nua das chuvas
e no ar granuloso o teu perfil se descasca...

Bodes inquietos bebem a noite selvagem
e meu sangue encharca as esponjas de treva.
O choro dos sonhos corre sobre as folhas caídas
e no colchão dessa lama a morte me abraça...

Dá-me um nome
ó filho das calmas pastagens!
Que a minha hora glacial
deixe de sorver os pântanos!

(de "Terceira Asa", 1960)

O nome e a poesia de Leonor de Almeida esteve esquecido durante décadas, como o de outros poetas do século XX. Como são desatentas as gentes que catam versos, como piolhos da cabeça de um infante loiro. Na verdade, Leonor de Almeida foi uma poeta bastante discreta. Nascida no Porto em 1909, ou 1915, publicou apenas 4 livros de poesia: Caminhos Frios (1947), Luz do Fim (1950), Rapto (1953) e Terceira Asa (1960), colaborou com alguns jornais do Porto, e faleceu em Lisboa, em 1983. E subitamente, alguém reparou nesse nome que é um dos primeiros a figurar na Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa de 1961, organizada por E. M. de Melo e Castro (poeta e ensaísta falecido no passado sábado, 29, e que foi um dos principais nomes da poesia experimental portuguesa) e Maria Alberta Menéres (da qual se transcreveram os dois poemas acima). E assim, o nome de Leonor de Almeida, homónima da Marquesa de Alorna, é homenageado este ano na Feira do Livro do Porto. Pronto para esta homenagem, foi recentemente editado o livro Na Curva Escura dos Cardos do Tempo, com organização de Cláudia Clemente e prefácio de Ana Luísa Amaral (ed. Ponto de Fuga), que reúne os quatro livros publicados em vida pela autora. Destaque ainda, nesta Feira do Livro, para a homenagem a Maria de Sousa, cientista, mas também poeta, falecida este ano vítima de covid. E ainda, para outra mulher poeta, Andreia C. Faria - esta viva e de boa saúde, espera-se - a quem a organização da Feira foi buscar o título do livro que reúne a poesia de uma das revelações poéticas da década de 10, Alegria para o Fim do Mundo, para estampar como slogan (?) da feira. É certo que vivemos tempos pandémicos, e o livro, editado em 2019, tem algo de profético no título, mas como resposta, encontramos um outro livro, de Manuel António Pina, cujo título é: Ainda não é o fim nem o princípio do mundo. 


terça-feira, junho 30, 2020

António Manuel Couto Viana

POETA ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA DEIXOU-NOS HÁ 10 ANOS! - BLOGUE ...

O AVESTRUZ LÍRICO

Avestruz:
O sarcasmo de duas asas breves
(Ânsia frustrada de espaço e luz,
De coisas frágeis, líricas, leves) ;

Patas afeitas ao chão;
Voar? Até onde o pescoço dá.
Bicho sem classificação:
Nem cá, nem lá.

Isto sou (doi-me a ironia
- Pudor nem eu sei de quê).
Daí  a absurda fantasia
De me esconder na poesia,
Por crer que ninguém a lê .

domingo, maio 31, 2020

sábado, fevereiro 29, 2020

TOMAS KIM

Resultado de imagem para tomas kim

Tempo habitual

De nojo, o tempo, o nosso,
A perfídia estrumando
No presumir da carícia branda e sorriso
De todos.

De raiva o tempo, o nosso,
Céu, mar e terra abrasando
Em clamor de labareda e navalha afiada
E sangue.

De pavor o tempo, o nosso,
A primavera assombrando.
Exílio de ventres a fecundar e tudo o mais
Que a faz.

De amor o tempo, o nosso,
Onde uma voz espalhando
A boa nova do pântano fétido da noite
Imposta?
De nojo, de raiva, de pavor,
O tempo transido
Do nosso viver dia-a-dia!
Mas não de amor...

Tomaz Kim, in 'Exercícios Temporais'

sábado, novembro 30, 2019

João Miguel Fernandes Jorge

Imagem relacionada
Ia pela ponte de Waterloo
passou um milénio sobre o teatro
tudo era luz.
Parámos na fábrica dos azulejos os fumos
cobrem as ruas vêm dos esgotos movem-se
«e também há alguns autênticos
verdadeiros americanos, são russos.»

Uma rapariga tem sempre a sua música
leva o dinheiro apertado num saco bordado
o retrato da amada na outra mão.
Podia muito bem ter pintado o rei nesse outono
não havia heróis nem escudos
os temas estavam tão batidos aproveita-se o
contrabaixo um negro igual a todos vai
pelas ruas sem nenhum proveito
já nem sequer ouvia a voz dos dedos.

Acabei de ler algumas frases
do meu caderno. O Auden do trompete
assobiava. Tinha um sweater de lã
muita tosse. Um olhar de alegria seguia de
novo o novo tema.

quinta-feira, maio 31, 2018

MANUEL RESENDE

Imagem relacionada


Na Auto-Estrada

Ainda posso perceber
Esses miúdos nos viadutos
Que atiram pedras aos carros da auto-estrada.
É um gesto eficaz
Que matou alguns caixeiros-viajantes,
E até famílias inteiras,
É pura malvadez
E o mundo precisa de pureza.

Mas como se justificam esses que nos acenam
Com alegria ao passarmos?

(De Poesia Reunida, Cotovia, 2018)



terça-feira, abril 26, 2016

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO



Há entre Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa mais que uma amizade. Sá-Carneiro poderá ter sido prejudicado por essa pequena multidão de gente que habitava a mente e o génio de Pessoa. Demasiado ofuscante para toda a poesia que viria depois, Mário de Sá-Carneiro terá sido a primeira “vítima” de Pessoa. Sá-Carneiro foi quase um heterónimo de Pessoa. Mas, por outro lado, Pessoa foi o duplo de Sá-Carneiro, a alteridade em que se funda a poesia moderna, pelo menos desde Rimbaud (o outro, “Aqueloutro”).
E, no entanto, há um caso Mário de Sá-Carneiro na literatura portuguesa que tem sido sombreado pela imensa complexidade – em todos os sentidos – do caso Pessoa. E Sá-Carneiro, de mais breve vida, de obra publicada em vida e com poucos inéditos, não deixa de ser um caso único na unicidade da sua obra a que se liga um ou outro biografema, quando não se tenta fazer uma interpretação da obra pela biografia ou vice-versa. A orfandade materna, o dinheiro, os cafés, Paris… e o suicídio, a 26 de Abril de 1916, que parece ter sido uma encenação para um espectador – João Araújo.
Mas para além de tudo isto, há uma obra de extrema riqueza, quer a nível poético quer ficcional. É essa obra, escassa, que tem vindo a ser descurada, talvez em proveito de um mito que o jovem suicida alimenta. Ou, simplesmente a literatura de Mário de Sá-Carneiro, hoje, cem anos após o seu suicídio, ainda não foi entendida. Como defendem vários especialistas na obra do “esfinge gorda” na edição de hoje do Público (pp. 24-25), terá sido Sá-Carneiro a abrir caminhos para a obra pessoana. Repare-se num poema como Manucure (datado de Maio de 1915), “semifuturista” mas algo de único na literatura portuguesa, na sua ligação às vanguardas de princípios de século. E algo de único também entre o barroco e a poesia experimental. É claro que a literatura, nem a sociedade, portuguesa estava preparada para ter um Mário de Sá-Carneiro – e provavelmente ainda não está. Mário de Sá-Carneiro sabia que escrevia para o futuro, o que espanta é como esse futuro tem andado alheado desta escrita. Será porque ainda não a compreendeu? 

domingo, setembro 13, 2015

JOÃO RUI DE SOUSA

MOTU CONTINUO

a minha vida dança sobre esferas
por esferas que vão ao infinito

o infinito cai a prumo em nada
no ar que me pesa que respiro

respiro o mar o sol a sombra a casa
cada acordar diurno das raízes

as raízes seguram a terra

a terra é onde durmo e onde vivo

DÍSTICO

põe ordem no desejo
repousa cegamente como um navio em chamas

João Rui de Sousa, Meditação em Samos, Galeria Panorama, s/d, pp. 20 e 23

terça-feira, junho 16, 2015

JOSÉ EMÍLIO-NELSON

DANAÇÃO

O decorrer do tempo ofende a beleza.
Ao vê-la resplandecer miraculosamente escurece-a de luto.
(Unicamente lhe recorda o perfume.)

*
COSMIC PULSES
[Karlheiz Stockhausen, por Massimo Simonini]

Poisado cone num sopro aspergindo
Espirais que derramam
Luminosos teclados turbulentos,
Eixos suspensos num horizonte de obscuridade profunda.
Erguem em roldanas o Cosmos.

José Emílio-Nelson, Pesa um boi na minha língua, Porto, Afrontamento, 2013, pp. 13 e 21


domingo, maio 10, 2015

JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA

TRAVESSA DE SÃO FILIPE

Cheguei cedo, na primavera dos rapazes.
O cão do norte veio morrer às portas da cidade,
já do amigo compadecido.

Havia dálias e cravos e gladíolos e as tias atrás
das cortinas.
As cortinas tinham medo nas suas rendas.
Eu tinha medo no coração.

O tédio parava na imobilidade dos guindastes.
Havia nas sombras de um beco uma luz muito triste.
As trepadeiras enredavam-se nos muros e subiam.
No terraço, a minha vida sentava-se longamente.
Ao longe, a palmeira recortava o seu perfil e
parecia uma esfinge,
uma faca apontada ao céu.

Retive o gosto das tâmaras e do fruto do paraíso.
Amei em frente uma cabeleira de trigo errante e
na sua dourada exaltação
os metais refulgiam.
Era uma cabeleira ondulando. Eram vales ondulando
na pequena alegria.

Crescia-se com os gerânios, ao abandono.
As famílias afastavam-se, inadvertidamente.
Eu não dizia nada.
Sei que houve um adeus numa estação de lágrimas no
meio de lenços, no meio da cambraia húmida,
e nem uma palavra,
nem um rumor de pálpebras.

Os beijos queimavam. O sol queimava o convés onde
eles se perfilavam, entontecidos pelas hélices.

Percebi que as agulhas corriam pelos dedos e nos
dedos havia um dedal de prata.
Elas falavam devagar,
falavam alto para a solidão dos filhos, distraídas
da candura,
explodindo às vezes, mas como podia sair,
desprender-me, soltar as amarras do ventre?

Oh,
maternal, nocturna gestação de ser morosamente
aturdido, encostado às raízes.
Sonolenta inspiração dos dias raros.
E a mágoa sobrepõe-se à orquídea, à bela orquídea
encantada.
À magoada flor da mocidade.

Os sinos de São Filipe eram como uma dor, um
veneno doce nas horas de maio.
Depois ao crepúsculo,
elas recolhiam-se e já nada se ouvia para lá do
próprio coração.
Eu não dizia nada.

As manhãs repetem os sintomas da doença.
Mal respiro, e o pólen faz-me enlouquecer.
Um pássaro de papel cai junto à janela.
A avó sobressalta-se.

Agora chove nas abacates e nos araçás.
Chove por dentro, diluvianamente,
para sempre.
A ternura escava a sua morada subterrânea.
Oculto as minhas nascentes.

Dizem que hei-de ser homem mas o meu sonho é
uma obsessão de mastros e linhas de água.
Eu era um rapaz muito cedo na primavera.

José Agostinhos Baptista,Canções da Terra Distante (1994), Biografia (2000), Lisboa, Assírio & Alvim, pp. 509-511.

quinta-feira, janeiro 15, 2015

OLGA GONÇALVES


 
 (Moledo. Uma hora depois. Quando fui sentar-me entre
as ervas finas da primeira duna. Onde há camarinhas e as
austrálias podem ver o mar.)

1. Uma gaivota num tremor de frio
fechou os olhos sob os meus cabelos
(a paz já me não dói?)

2. Há sangue na orla das vagas
há maravilhamento nos ecos da praia
- a paz deixou de doer

*
Como a palavra nua
que partiu sem regresso
a angústia voltou

*
Sentir o cobre da argola do portão
agarrar os passos que se deram
para trás num caminho de rostos

*
As alvoradas brancas nasceram
para o lado de lá do desespero
campo aberto

Olga Gonçalves, Movimento, Círculo de Poesia / Moraes Editores, Lisboa, pp. 35, 38, 45, 50.

sexta-feira, dezembro 19, 2014

ALEXANDRE VARGAS

MA BLONDE

Ouve, vagueio num espaço de luz cercado dum silêncio...
é um silêncio e não o teu... vejo claramente olhando as mesas
o meu perfil que se volta docemente e não és tu,
em que braços te suspendes e flutuas os teus lábios
rigorosos de planície quando voas?...

Olha, fixa e furtivamente olha superiormente,
ó Cyborg que enorme já te ergues no teu luto,
a boca entreaberta como um ovo que é olhado
na doce e fresca idade que em breve nos espera
entoa já o canto dos fantasmas que dão fruto.

*
CYBORG (excerto)

Não sei por que modo ou forma entrei em Cyborg.
À entrada lembro-me dos pássaros tenebrosos e eu a hesitar
orgasmático naquele labirinto cósmico
onde os gigantes poderosíssimos nas suas terríveis bielas
nos falam da raça superior. Eu estava vestido
de negro e acordava num sítio inacessível onde
estivesse a começar a levantar-me. Uma porta lassa,
no seu crepitar de ídolo de barro, verificava as
grandes colunas ibéricas que, nos corredores das suas
engrenagens, começavam a erguer-se. [...]

Alexandre Vargas, Cyborg (1978), Lisboa, Livros Horizonte, 1979, pp. 16 e 27.
Alexandre Vargas nasceu em Lisboa em 1952. Publicou os seguintes livros de poesia: Morta a sua fala (1977), Cyborg (1979), Vento de pedra (1981), Organum (1984) e Múltiplo de Três (1997). 
Cyborg é dos poucos livros da poesia portuguesa que se enquadra dentro da ficção-científica. Um outro exemplo é uma das secções de Quatro Caprichos de António Franco Alexandre.


quinta-feira, dezembro 11, 2014

ANTÓNIO OSÓRIO

 

Amo-te
com pressa
de não acabar o amor

*
BOSCH, O INÍCIO

I   Tríptico das Delícias

Enquanto Adão, Eva e o mais
eram criados, um gato abocava
o primeiro rato.
Iníludivel a prepotência
do felino. Adão soerguido
Eva desejava, nudez sua. E Deus
abençoava os seus viventes
consagrando o bem e o mal que lhes fizera.

António Osório, Emigrante do Paraíso, s/l [edição brasileira, antologia dos primeiros livros, com prefácio de Carlos Nejar] Massao Ohno-Roswitha Kempf / editores, 1981

quarta-feira, novembro 19, 2014

ÁLVARO MANUEL MACHADO

 CORES - 2

Uma simples laranja.
Loucura do amarelo
sobre a toalha branca.

*

VENTO

Maneira de
beber o dia

*

ROSTO

Paisagem
ao longe

*

TEU ROSTO

Lâmpada   oval
tensa
recolhida

pão
ovo
berço
rio

Álvaro Manuel Machado, Íntimo Rigor, Arcádia, Lisboa, 1981, pp.21, 29, 42 e 43



terça-feira, setembro 09, 2014

JOSÉ RICARDO NUNES


CERIMÓNIA DE ABERTURA

Entram no estádio e desfilam
as delegações: uma bandeira
por país, um capitão
a comandar os implicados
no crescimento do comércio global.
Os desportistas sorriem, acenam,
cumprem à risca o seu papel de figurantes.
Digo-lhe que não sei parar as imagens.

Reina a paz e a concórdia.
Mesmo os que vieram apenas para competir,
perder, sonham com o milagre
que lhes turva os olhos de glória. E eu,
sentado neste sofá suburbano
que treme à passagem do comboio,
acredito no que lhe digo.

Lembra o comentador, algo comovido
pelas últimas notícias, que na Grécia
faziam tréguas durante os Jogos.
Alguém é dono da verdade? Resta-nos
o poder de mudar livremente de canal
ao sabor dos nossos humores tão variáveis.
Estou sempre a dizer isto à Jacinta.

       

       
           O SUPLENTE



            O futebol preferia 
aos livros. Mas livros depois  
já não era capaz de distinguir
quem driblava, quem centrava
para dentro da área, se o remate
certeiro concluía uma jogada
ou um poema. Se não podes vencê-los
junta-te a eles. No mesmo banco
em que acompanhava os jogos
da minha equipa leria os livros.
Lances e metáforas imaginados,
uma luz crua e breve.
Pois a maior parte do tempo
ficava petrificado, ausente,
como se nem sequer eu
estivesse sentado no banco
a assistir a tudo isto.

José Ricardo Nunes, Versos Olimpicos (2008), Deriva, Porto, pp. 5 e 13