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segunda-feira, outubro 02, 2006

José Tolentino Mendonça

O POEMA
O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.

sexta-feira, agosto 18, 2006

R. LINO

hoje, as cidades


hoje, as cidades
ficaram um pouco mais longe
e eu não sei porquê
só sei que ficaram mais longe
as cidades
à beira-mar, havendo por todo o globo
as duas vidas:
eleanor damortis animada de festas e de estios
ou a rapariga que vive
a mil e quinhentos paus por mês
não sabendo no armário
outros sítios de ser festa ou esperar.
(do outro lado da ribeira o velho cão
guarda o corpo como algas
e compotas de frio às seis da tarde...)
a rapariga do armário
mata-se na cidade
do outro lado de ser diferente o mesmo tempo.
(in Atlas Paralelo, IN-CM/Gota de Água, col. Plural, 1984, p.48)
R. Lino nasceu em Évora a 12 de janeiro de 1952. Publicou nos anos 80 os seguintes livros: Palavras do Imperador Hadriano (1984), Atlas Paralelo (1984), Paisagens de Além Tejo (1986) e Daquíra (1988).

sábado, maio 27, 2006

Carlos de Oliveira



SONETO FIEL

Vocábulos de sílica, aspereza,
Chuva nas dunas, tojos, animais
Caçados entre névoas matinais,
A beleza que se têm se é beleza.

O trabalho da plaina portuguesa,
As ondas de madeira artesanais
Deixando o seu fulgor nos areais,
A solidão coalhada sobre a mesa.

As sílabas de cedro, de papel,
A espuma vegetal, o selo de água,
Caindo-me nas mãos desde o início.

O abat-jour, o seu luar fiel,
Insinuando sem amor nem mágoa
A noite que cercou o meu ofício.

terça-feira, maio 16, 2006

Egito Gonçalves


NOTíCIAS DO BLOQUEIO

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
Tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos - contrabando - aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construido,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos em silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e, enquanto a água e os viveres escasseiam,
aumenta a raiva
e a esperança reproduz-se.

(in Árvore, nº4, [1953])

quarta-feira, maio 03, 2006

Eugénio de Andrade


AS PALAVRAS INTERDITAS

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.
Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.
Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te...E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.
As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.
Dói-me esta água, este ar que se respira.
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.
E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.
(de As Palavras Interditas)

sexta-feira, abril 21, 2006

Fernando Assis Pacheco


Peçam a grandiloquência a outros
acho-a pulha no estado actual da economia

(Variações em Sousa, 1987)

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EU VI UMA NOIVA SAIR DO AUTOMÓVEL
Ó noiva triste entre as noivas
que saem de casa pela manhã
partidas ao encontro da geada na relva,
noiva melancólica e sem palavras,
como te lamento assim vestida
de muitas folhas secas ao vento.
Sei que vais já morta, ferida no coração
por pedras e nevoeiros, por tarântulas.
Pequena caminhas sobre a leve seda
do teu manto, como as aves caminham
nos jardins molhados do Inverno;
sobes degrau a degrau, espada a espada
a tua última, arrebatada vertigem.
Rainha, agora, só de quebrados espelhos.
E da ternura exangue com que muda
celebrarás aos deuses malfazejos.
Aqui de longe envio com os olhos
um pequeno adeus, um punhado de terra.
(Cuidar dos Vivos, 1963)

quarta-feira, abril 05, 2006

Sophia de Mello Breyner Andresen


Pranto pelo dia de hoje

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criadorser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas

de Livro sexto, 1962

terça-feira, abril 04, 2006

Al Berto


dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligueira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorrisotamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

(de Uma Existência de Papel, 1985)

sábado, março 25, 2006


Solidão

Cai chuva, chora
chora, chora.
Solidão, solidão!

Já não canta o pássaro.
Calou-se a voz, a alegre, a rara.
A que se ouvia solitária.
Cai chuva.

Não sou freira e estou num convento.
A paz, o silêncio, a chuva, os claustros...
Ser freira!
O sequestro, cantar, rezar.
Cai chuva, rude e sem dor.
Tu não choras.
Sou eu que choro.

Que é do pássaro, como cantava?
Voltou, voltou. Pia!
Bendito pássaro, onde estás?
Acompanha-me, já não chove.
Solidão, melancolia.

Irene Lisboa, Outono Havias de Vir in Obras de Irene Lisboa I, Presença, 1991, org. de Paula Mourão

terça-feira, março 14, 2006


SEM OUTRO INTUITO

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extrírem
às águas o silêncio que as unia.

Luís Miguel Nava, in Vulcão

sexta-feira, março 03, 2006


VIOLA CHINESA

Ao longo da viola morosa
Vai adormecendo a perlenda,
Sem que, amadornado, eu atenda
A lengalenga fastidiosa

Sem que o meu coração se prenda
Enquanto, nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a perlenda.

Mas que cicatriz melindrosa
Há nele, que essa viola ofenda
E faz que as asitas distenda
Numa agitação dolorosa?

Ao longo da viola, morosa...

Camilo Pessanha, "Clepsidra"

terça-feira, fevereiro 21, 2006

para lá da cortina além da porta errada
silêncioso e só está sentado
e lê num livro
a sua própria história

Manuel de Castro, in Edoi Lelia Doura - Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa de Herberto Helder.

domingo, janeiro 29, 2006



7


Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.


Mário de Sá-Carneiro

terça-feira, janeiro 24, 2006


Um penedo é a sua força construtiva; uma ave é a sua própria acção orgânica
(Teixeira de Pascoaes)

domingo, janeiro 15, 2006

Pára-me de repente o Pensamento...
- Como se de repente sofreado
Na Douda Correria... em que, levado...
- Anda em Busca... da Paz... do Esquecimento

-Pára Surpreso... Escrutador... Atento
Como pára... um Cavalo Alucinado
Ante um abismo... ante seus pés rasgado...
- Pára... e Fica... e Demora-se um Momento...

Vem trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora

E mergulha na Noute, Escura e Fria
Um olhar d'Aço, que na Noute explora...

- Mas a Espora da dor seu flanco estria...

- E Ele Galga... e Prossegue... sob a espora!



Ângelo de Lima
(Poesias Completas, Assírio & Alvim, organização de Fernando Guimarães)

sexta-feira, janeiro 13, 2006

O POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregados
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis)
custureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

*

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos


Alexandre O´Neill, "Abandono Vigiado" (1960)

quarta-feira, janeiro 04, 2006

FESTA ALEGÓRICA

O bobo do imperador Maximiliano
organizou uma festa alegórica
que o povo e a corte do soberano à frente
saborearam em grandes gargalhadas;
juntou na praça todo o cego pobre,
prendeu a um poste um porco muito gordo,
e anunciou ganhar o dito porco aquele
que à paulada o matasse. Os cegos todos
a varapau se esmocaram uns aos outros,
sem acertar no porco por serem cegos,
mas uns nos outros por humanos serem.
A festa acabou numa sangueira total:
porém havia muito tempo que o imperador
e a corte e o povo não se riam tanto.
O bobo, esse tinha por dever bem pago
o fabricar as piadas para fazer rir.

Jorge de Sena

terça-feira, janeiro 03, 2006

PESSOA: DOMíNIO PÚBLICO

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?
Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quasi alegre,
Quasi alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.

Fernando Pessoa/Alberto Caeiro, poema XLVIII de "O Guardador de Rebanhos", in Ficções do Interlúdio, Assírio & Alvim,1998