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sexta-feira, novembro 30, 2018

INDIGÊNCIA, DEPUTADOS E CIDADÃOS


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A 22 de Novembro tentei, via páginas web, contactar os vários grupos parlamentares que, numa democracia representativa como a nossa, têm o dever de representar os cidadãos. Em questão, como se pode ver pela leitura do texto abaixo, estava – e está – a forma como vivem centenas de milhares de pessoas em Portugal, com um governo, de esquerda – PS – e apoiado por outros dois partidos de esquerda (ou como querem alguns extrema-esquerda) que leva três anos de legislatura. Se durante estes 3 anos muitas prestações sociais foram repostas – reformas, aumento de salários na função pública, etc – continua a existir uma parcela da população portuguesa que vive na indignidade de ter um rendimento zero, e outra que vive na também indignidade de auferir um RSI que ronda uns míseros 200 euros. Penso que esta é uma questão de regime, ou seja, enquanto existirem, tanto em Portugal como noutros países – mesmo dos civilizados da Europa – pessoas que têm um rendimento zero, é a própria democracia que ainda não amadureceu o suficiente para terminar com este estado de coisas.
A minha abordagem, feita na tarde do dia 22 consistiu na procura via google das páginas web dos cinco partidos com grupos parlamentares: CDS-PP, PSD, PS, Bloco de Esquerda e PCP (deixei de fora o PAN, que apenas tem um deputado e o PEV, que para efeitos eleitorais e não só está dependente do PCP). Na fraca página do PSD não encontrei nenhum contacto. Não espanta, depois do governo Passos Coelho, e actualmente com o partido divido entre os deputados que foram escolhidos por Passos e o novo líder que teve que renegar o passado recente do partido, o partido encontra-se dividido (numa democracia normal teria o mesmo destino que o PASOK). O Partido Socialista e o PCP têm na sua web page uma “janela” para submeter os comentários. Tendo obtido na página do PCP um extracto de uma conferência de imprensa onde se anunciava que o PCP iria apresentar uma proposta sobre subsídio social para desempregados de longa duração, não submeti o texto (como fiz na página do PS) mas, antes um pedido de informação sobre essa proposta (é provável que entre as mais de 900 emendas ao Orçamento de Estado, o PCP tenha apresentado realmente uma proposta nesse sentido, que naturalmente foi rejeitada). Confesso que censurei duas partes do texto, ao submete-lo à página do CDS-PP: a parte onde faço referência às esmolas e a frase onde falo de neoliberalismo e Passos Coelho. O facto de ter censurado estas duas partes deve-se a uma atitude diplomática – embora não tenha qualquer ilusão sobre a política do CDS-PP no que diz respeito a apoios sociais. Apenas o BE apresenta além de um contacto de e-mail, um contacto telefónico.
Concordo que esta altura – a de apresentação de propostas para o OE 2019 – não terá sido a melhor para como cidadão tentar expor um problema aos grupos parlamentares. Também acho que o texto tem deficiências – falta-lhe a pirâmide invertida. Mas não acho que tenha sido nenhuma dessas situações o factor que levou a que até hoje não obtivesse nenhuma resposta – nem sequer uma resposta automática.
O problema que se coloca resume nisto: os deputados, uma vez eleitos não querem saber dos cidadãos que representam, dando razão ao comentário populista, “o que eles querem é tacho”. O que recentemente aconteceu com deputados do PSD, vem reforçar esta ideia. Cabe aos cidadãos e aos meios de comunicação social terem uma atitude vigilante, e procurar soluções.



Há em Portugal, um número que pretende ser escondido, mas que rondará as 300 a 400 mil pessoas, pelo menos, que não auferem nenhum rendimento. Nem o RSI – quer porque por qualquer razão perderam esse rendimento – e as assistentes sociais são peritas em criar condições para que isso aconteça –, quer porque estando numa família onde um dos agregados trabalha lhes é recusado esse rendimento. São pessoas muitas vezes acima dos 50 anos, que depois de ficarem desempregadas (e algumas tinham empregos onde auferiam salários duas ou até seis vezes o salário mínimo), toda a sua vida mudou. Algumas entraram em processos depressivos major, crónicos, que um inepto SNS é incapaz de resolver. São pessoas a quem foi retirada a esperança pela acção do anterior governo PSD/PP. São pessoas a quem foi retira a dignidade de viver, que vivendo em famílias que se tornaram pobres, estão em exclusão social – nem um cêntimo têm que seja delas. É uma situação lamentável? Sim. Mas não é uma situação TINA, uma situação sem alternativa. Essas pessoas – muitas das quais não têm dinheiro sequer dinheiro para comprar os medicamentos, sendo assim vítimas de uma mortalidade precoce – têm direito a ser tratadas com toda a dignidade que merecem pelo Estado português.
Numa notícia do site SIC – Notícias leio: “Mais três mil desempregados de longa duração com direito a subsídio social” (de 13.10.2018). Isto é um pouco ridículo: este número corresponderá a 1% dos desempregados de longa duração. É uma esmola do PS e do BE, que faz lembrar os ricos que no tempo do salazarismo tinham um, dois ou três pobres a quem davam esmola para expiação dos seus pecados.
Vivemos com uma enorme carga fiscal, com altas rendas pagas pelo Estado para grandes grupos financeiros. Ou seja, o neoliberalismo de Passos Coelho ainda não foi revertido.
Urge acabar com uma situação em que os desempregados de longa duração têm uma vida indigna. Para isso apelo ao vosso grupo parlamentar para criar legislação no sentido de criar um verdadeiro subsídio social para todos os desempregados de longa duração.


quarta-feira, outubro 31, 2018

CABRA DA PESTE

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Jair Messias Bolsonaro, antigo capitão do exército, é o novo presidente do Brasil. Porque ganhou as eleições este extremista de direita, perigoso protofascista, seguidor de Trump, defensor do armamento geral da população, amigo dos ultraliberais da escola de Chicago? Enfim, um cabra da peste, um cafajeste. Para se ser honesto, temos que ouvir quem votou nele, e a resposta parece ser o medo. O medo, mais que o ódio. O medo de ser uma das 62 mil vítimas de homicídio que por ano entram para as estatísticas de um dos países mais violentos do mundo. Mas Bolsonaro, com a ideia de distribuir armas pela população só tornará esse número muito maior. Em segundo lugar está a corrupção que grassa por todo o espectro político brasileiro. Ora, foi em nome do combate a essa corrupção que o juiz Sérgio Moro fez um golpe de Estado judicial ao enviar Lula da Silva para a prisão a tempo de que não se pudesse apresentar como candidato. Em condições normais, e apesar do fastio que os brasileiros sentem pelo PT, Lula ganhava a Bolsonaro. É preciso que se diga bem alto: os ministérios públicos (MP) estão a destruir as democracias – o Brasil é um claro exemplo disso. Entre um corrupto e um ditador eu prefiro o corrupto. Bolsonaro é sobretudo o produto de um alarme social (como os juízes gostam de invocar para usar a prisão preventiva) por parte do MP e do super-juíz Sérgio Moro. Em reconhecimento, e sem a mínima vergonha, Bolsonaro pôs à disposição de Sérgio Moro um lugar de ministro. Outro cabra da peste, cafajeste.

sexta-feira, agosto 31, 2018

MARINE LE PEN E A WEB SUMMIT

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Uma das polémicas levantadas neste mês recordista de temperaturas, foi o convite e desconvite a Marine Le Pen para participar na Web Summit. A questão é complexa e está para além deste convite. Mas parece evidente que não se deve convidar alguém da extrema-direita para discursar seja onde for. Portanto, há uma primeira questão: porque foi endereçado este convite a Marine Le Pen por parte da organização da Web Summit? A resposta não surgiu, porque, creio, nem sequer foi colocada. Mas devia. É que nestes tempos onde se desenha o futuro pós-humano, o futuro – que é já presente – com a Inteligência Artificial, com empresas como o Facebook, a Google ou a Uber, questionar a organização da Web Summit pode parecer algo de sacrílego, como se na Idade Média alguém questionasse a existência de Deus.
Sendo Marine Le Pen a líder de um partido de características fascistas, portanto totalitárias, confesso que gostaria de saber o que realmente esta senhora pensa das novas tecnologias. Isto não quer dizer que numa eventual participação de Le Pen na Web Summit esperasse ouvir a verdade. A verdade sobre o uso do poder político (totalitário) sobre as novas tecnologias vai sendo desvendada na China, onde, para já, se sabe que a policia recorre a scanners para “ler” o conteúdo dos telemóveis de qualquer pessoa. E, neste sinistro estado Chinês, isto parece ser só o começo de uma situação que quase ultrapassa o big brother orwelliano.
Isto vem lembrar que a questão essencial, hoje, não é tanto entre dar a palavra a uma líder de um partido fascista ou censura-la, mas entre estarmos conscientes das implicações das novas tecnologias para a vida de todos nós ou não estarmos conscientes dessas implicações. Porque mesmo nas sociedades democráticas, existe um poder que se faz de algoritmos, ao qual estamos cada vez mais umbilicalmente ligados.

terça-feira, julho 31, 2018

RICARDO & ROBLES, DEMOCRACIA LIMITADA


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O senhor Robles, admirável capitalista neoliberal e especulador imobiliário, levanta-se de manhã para pregar partidas aos seus velhos arrendatários, que se recusam a sair dos locados, como lobos da toca. Cada um destes decrépitos apartamentos, restaurado, vale fortunas que um dia, farão do senhor Robles um frequentador da Forbes, essa montra das grandes fortunas.
Já Ricardo, activista contra a especulação imobiliária, membro do BE e vereador da CML, passa o tempo a perseguir os Robles deste mundo – e do outro, pois que devem existir marcianos a fazer especulação imobiliária em Marte, e também terrestres, não tarda nada.
Nada liga Ricardo e Robles, odeiam-se ferozmente. Até que um dia, os jornalistas, essa escumalha, como diria o presidente pato Donald, descobre que são uma e a mesma pessoa. Ora, capas para vender jornais, escândalos para arrefecer o  jantar, ia lá o Ricardo Robles ser um especulador imobiliário, diz Catarina, a grande do Bloco.

sábado, março 31, 2018

O PÓS PASSISMO E OS COMENTADORES

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Qualquer analista sensato, numa democracia saudável, diria bem da estratégia de Rui Rio de viragem à esquerda. Porque depois de oito anos de passismo, onde o país passou pelo seu período mais negro economicamente depois do 25 de Abril, quem sucedesse a Passos Coelho não teria, na actual conjuntura e tendo em conta o que foram os anos do governo PSD/CDS, outra alternativa para evitar um possível desaparecimento ou redução extrema do PSD, senão virar à esquerda abjurando do que foi o PSD de Passos Coelho.
Ora, acontece que não temos analistas ou comentadores sensatos, mas comentadores que fazem o favor a quem lhes paga. Temos uma comunicação social dominada por poderes que tudo fizeram, e ainda fazem, para varrer a crise e as suas consequências para debaixo do tapete. Mesmo ao governo de António Costa não interessa falar das consequências da crise, de como a crise continua a contribuir para escravizar (o termo parece forte mas não é realista) trabalhadores. E os partidos que seguram a geringonça – BE, PCP, PEV – vão criticando o governo, mas na realidade apoiando-o. É uma situação “esquizofrénica”, mas é melhor que não ter nenhuma oposição à esquerda.
Nisto torna-se evidente a falta que fazem novos partidos na sociedade portuguesa. Veja-se o que aconteceu em Espanha com o fim do bipartidarismo dominante desde o fim da ditadura franquista, ou na França onde o Partido Socialista desapareceu. Em Portugal vivemos na inércia, mesmo depois de uma crise como a que tivemos e ainda temos (é bom sublinhar) apenas um novo partido entrou na Assembleia da República, o PAN, com um deputado. O Livre e o partido a que estava ligado Marinho Pinto foram um flop eleitoral. Há nas elites portuguesas um medo da mudança, geralmente apontado como um medo do populismo, que na realidade é apenas o medo dessas elites – os comentadores televisivos, radiofónicos ou da imprensa – perderem o lugar que ocupam e o modo de vida que lhes garante o salário – muitos destes comentadores são profissionais do comentário, exercendo-o em mais que um média. Estão, noutra escala, reféns da precariedade que faz com que os trabalhadores trabalhem precariamente em turnos a desoras, com horas extraordinárias e com salários miseráveis. Mas, se se portarem bem, se cumprirem com os seus papéis de encherem 50 minutos a falar de lugares comuns, numa pseudo pluraridade onde cada um encarna um não muito exagerado lugar de direita, de centro ou de esquerda, falando para nada dizer,  serão certamente premiados. Ora isto não é nada bom para a democracia portuguesa onde habitam velhos fantasmas, incrustados, que ficaram do Estado Novo e moldaram uma certa mentalidade portuguesa.

terça-feira, fevereiro 27, 2018

DE PASSOS A RIO


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Durante oito anos, quatro dos quais como primeiro-ministro Passos Coelho foi o presidente do PSD. Estes oito anos – principalmente os quatro de governo PSD/CDS – foram os piores da democracia portuguesa. O que Passos Coelho fez aos portugueses – desejar e fazer tudo para que a troika entrasse em Portugal; ir além da troika; implementar uma política de austeridade que visava o empobrecimento dos portugueses, o célebre “temos de empobrecer”; enfim, aplicar uma política económica ultraliberal que destruiu a vida de centenas de milhares de pessoas – não tem expressão por agora porque os comentadores de meios de comunicação próximos do PSD não querem perder o emprego (note-se que os média em Portugal pertencem a empresas e têm linhas editorias de direita ou centro-direita). Por isso Passos Coelho mesmo quando se viu forçado a abandonar o PSD continuou a ter boa imprensa, uma imprensa que faz a lavagem dos anos em que foi primeiro-ministro. Por isso não é de espantar as reacções – dos média – ao congresso do PSD que não quis consagrar Rui Rio como novo presidente do PSD. Embora seja discutível se o PSD numa democracia normal e saudável tinha algum futuro ou o destino que teve o PASOK grego, o Partido Socialista em França ou mesmo o bipartidarismo em Espanha, o certo é que Rio tomou a medida que se impunha perante a herança que lhe coube: virar à esquerda, renunciar ainda que implicitamente ao PSD de Passos Coelho. Tudo isto abriu uma guerra, natural, no PSD. Natural porque os deputados que estão na Assembleia da República foram escolhidos por Passos Coelho, alguns fizeram parte desse governo que fez tão mal a Portugal. A tarefa mais difícil para Rui Rio é limpar o PSD desta gente e colocá-lo como um partido com sentido de Estado – que foi o que Passos Coelho não teve quando votou contra o PEC IV. Mas esta é uma tarefa hercúlea, ainda para mais porque Rio tem contra si os média coniventes com o ultraliberalismo passista. A tudo isto há a acrescentar o facto de Rui Rio ser do Porto, e para os lisboetas aqueles que vêm da cidade invicta, seja de que sector for, seja de que quadrante político for, são alvos a abater. O pior que pode acontecer é que passado pouco ou algum tempo depois deste congresso, alguém das hostes passistas queira destronar Rio para continuar o legado do mal, o de Passos Coelho. Mas será que esse legado tem algum valor junto do eleitorado? Será que apesar do masoquismo, da mediocridade apelando para o fantasma de Salazar (Passos Coelho), um PSD passista não ficaria quase apagado da política portuguesa?
Mas resta ainda uma outra questão, mais premente, e da qual depende o cenário político  depois das próximas eleições legistlativas: de que forma a aproximação do PSD de Rio vai afectar este governo de esquerda? Como vai reagir António Costa perante a aproximação de Rio? E como vão reagir os partidos que sustentam a geringonça?

terça-feira, outubro 31, 2017

OUTUBRO REVOLTADO

1. A 1 deste mês Portugal ia a votos para as autarquias locais. Mas a consequência política dessas eleições foi a clamorosa derrota do PSD de Passos Coelho, que se viu forçado a convocar eleições para a liderança do partido. Assim se espera que termine a carreira do político que mais mal fez aos portugueses depois do 25 de Abril. Quanto ao PSD, deveria ser um partido com o mesmo destino do PAZOK na Grécia ou do Partido Socialista francês – e pelos resultados obtidos arrisca-se a transformar-se num partido insignificante. Pelo mal que o PSD de Passos Coelho fez a Portugal merece-o; no entanto, e apesar de os candidatos à liderança serem duas figuras que nada trazem de novo (Pedro Santana Lopes e Rui Rio), o PSD conta com boa imprensa o que o torna, num país como Portugal, difícil ou impossível de abater.
2. No mesmo dia em que Portugal elegia os seus autarcas, a Catalunha organizava um referendo, à rebelia das autoridades e da constituição espanhola, pelo sim ou não a um estado catalão independente. No meio de uma votação quase clandestina, com intervenções da polícia que fizeram centenas de feridos, acabou por naturalmente ganhar o sim com 90 por cento dos votos. No entanto, só metade dos eleitores votaram o que não dá legitimidade a este referendo convocado pelo governo independentista de Carles Puigdemont. O mês de Outubro foi dos mais tumultuosos para a Espanha e para a Catalunha desde a transição democrática, com Puigdemont a declarar a independência unilateral. O governo de Rajoy accionou o artigo 155 e o líder independentista fugiu para a Bélgica. O (primeiro) problema da independência da Catalunha reside na legitimidade democrática quando existem manifestações a favor da independência e outras a favor da manutenção da Catalunha no estado espanhol. Depois, há uma série de situações iguais à da Catalunha, quer em Espanha quer noutros países da Europa que poderão seguir o exemplo da Catalunha, redefinindo a geografia da Europa.
3. Ao fim de quase 3 anos depois da prisão preventiva de José Sócrates, o Ministério Público apresentou finalmente a acusação. O caso Sócrates, que agora é engrossado pelo alegado corruptor, o banqueiro Ricardo Salgado, e conta ainda com dois ex-CEO da PT, Henrique Granadeiro e Zeinal Bava, sofre de duas coisas que não deviam ser permitidas num Estado de direito: 1) a prisão durante meses do ex-primeiro-ministro para investigar e sem acusação e, 2) o tempo que demorou o MP a fazer essa acusação com sucessivos dilatamentos nos prazos, permitidos pela PGR, muito para além do que determina a lei.
4. Subitamente a 15 de Outubro, Domingo quentíssimo e com vento forte por todo o país, as sirenes dos carros de bombeiros dão o alarme: Portugal (pelo menos acima do Tejo) estava a arder. O fogo atiçado por ventos ciclónicos saltava por entre as matas cheias de vegetação, eucaliptos e pinheiros como um macabro dançarino. Ainda o país não se tinha refeito da tragédia de Pedrogão e o inferno voltava – 45 mortes a juntar às mais de 60 de Pedrogão. Nunca tal tragédia tinha acontecido em Portugal, apesar dos fogos recorrentes no verão. Mas agora já não estávamos sequer no verão. A questão politizou-se com a exigência – desde comentadores a manifestantes na rua ou nas redes sociais – da demissão da Ministra da Administração Interna. Afinal, soube-se depois da comunicação ao país de Marcelo Rebelo de Sousa, que indirectamente demitia a ministra, que esta já tinha pedido a demissão em Julho aquando da tragédia de Pedrogão. A politização desta desgraça acaba por ser algo vergonhoso quer para Marcelo como para Costa. Mas principalmente para o presidente da República que, no seu estilo irrequieto, passou a percorrer o Portugal queimado e na sua magistratura de afectos andou a distribuir abraços pelas vítimas dos incêndios. É como se o chefe de Estado se tornasse num terapeuta de uma dessas terapias new-age, mas sobretudo quisesse suspender a política, torná-la numa clínica, lugar despolitizado.
Penso que o que foi escamoteado na questão dos incêndios é bastante mais simples: o mundo está a sofrer graves alterações climáticas cujas consequências podem ser dramaticamente inesperadas. Só Donald Trump ignora esse facto. É certo que pouco ou nada se fez durante os últimos anos para ordenar a floresta – e nisto tanto os governos do PS como os do PSD têm culpa. Mas o que aconteceu este ano foi demasiado anormal, como é ainda anormal no final de Outubro estar uma temperatura de Agosto. As mudanças climáticas estão aí, não são uma narrativa de ficção-científica, são reais e temos que alterar o nosso modo de vida se não queremos destruir o planeta.

5. Em Outubro, pelo nosso calendário, há 100 anos, Lenine chegava à Rússia para por em prática uma nefasta utopia: o comunismo. As crianças deviam aprender na escola ou na família que as utopias, os desenhos totais (logo totalitários) de sociedades são algo de que se devem afastar; são qualquer coisa como o homem do saco. A concretização da teoria de Marx e Engels por Lenine na Rússia, em Outubro de 1917, foi o início de 100 anos de terror, torturas, mortes. Ainda hoje a Coreia do Norte da dinastia Kim é a prova disso, ameaçando não só os seus cidadãos mas todo o mundo com o seu arsenal nuclear. Como pode tanta generosidade transformar-se em algo absolutamente monstruoso? Esse homem novo, que ainda pouco depois do 25 de Abril de 1974 Carlos do Carmo cantava (lembro: “São os putos deste povo / a aprender o homem novo”) é a revelação de que antropológica e psicologicamente o homem continua a ser um monstro, um bárbaro, se para isso lhe derem possibilidades. E foram essas possibilidades que as revoluções comunistas trouxeram a alguns homens (?) durante o século XX (e ainda neste século). Algo que me espanta: que ao longo destes 100 anos algumas das cabeças mais brilhantes do pensamento tenham insistido na teoria marxista – e nenhuma teoria política foi tantas vezes experimentada e tantas vezes falhou (é certo que o capitalismo fez as suas vítimas, tem o seu lado negro, invisivelmente negro, mas isso não justifica que do outro lado da barricada ideológica o terror se tenha manifestado em tal grau de pureza).

sábado, setembro 30, 2017

A CRISE, AINDA

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A crise que a finança mundial criou há 10 anos e que atingiu Portugal e os portugueses como nunca, ainda não acabou. Lamento, mas isto tem que ser dito. Têm que ser lembradas as vítimas da crise – as que morreram por suicídio, por falta de cuidados médicos –; as vidas despedaçadas (algumas até tinham bons empregos, ganhavam bem, mas ficaram na miséria, subitamente caídas num buraco negro). Há muito por investigar, muito trabalho para os historiadores futuros sobre esta crise. Mas não é difícil apontar os seus responsáveis: as agências de rating que criminosamente levaram Portugal para o lixo – literal e metafóricamente –; Passos Coelho e o seu governo neoliberal que quiseram ir além da troika; Angela Merkel ou Durão Barroso, que criaram uma Europa não democrática, que a partir de uma Alemanha que nunca deixou de ser nazi (veja-se como agora o resultado do partido AfD – cerca de 13 por cento – faz estalar o verniz que cobria o nazismo alemão), impuseram a via única (diziam) da miséria aos países do sul – os PIIGS (PORCOS, assim éramos chamados).
Mas a crise não acabou. Ela continua na vida de centenas de milhar de pessoas que não têm nenhum rendimento; continua nas reformas de miséria; na miséria do RSI; no “colossal aumento de impostos” que não foi revertido por este governo de esquerda. A crise continua, estacionou mansamente em vidas caladas pela depressão, pela miséria de vender o recheio da casa no olx, por uma oferta de trabalho precária, escrava. A crise permanece, apesar dos bons resultados económicos, de Portugal ter saído do lixo na classificação da Standard & Poors (o que é isso de uma agência rating chamar lixo à dívida de um país? Têm eles coragem de colocar os EUA abaixo de AAA?). A crise permanece no Estado social com os cortes a continuarem. Perante isto, os partidos de esquerda que sustentam este governo calam a permanência da crise, calam objectivos que eram urgentes como impor a renegociação da divida. Os média, vivem em crise (quanto tempo aguenta o grupo Impresa na família Balsemão?), directores de informação, como Paulo Dentinho na pública RTP, despedem mais de metade da redacção, em silêncio, substituída por jovens que sabem que existe um risco vermelho que não pode ser pisado. O resultado disto é uma nova censura: há demasiados licenciados em jornalismo e afins, por isso os jornalistas que se tornam incómodos podem ser despedidos, como aconteceu no Público.

Esta semana morreu o antigo bispo de Setúbal, D. Manuel Martins, o bispo que em meados da década de 1980 denunciou a fome existente no seu distrito. Nessa altura, dez anos passados sobre o 25 de Abril, com o FMI em versão light em Portugal, era possível escutar e dar voz ao “bispo vermelho”, confirmar as suas denúncias. Estranhei a notícia da sua morte, porque há muito que não ouvia falar dele, pensei que já tivesse morrido. D. Manuel Martins tinha 90 anos, não sei em que condições de saúde estava, mas desde o início desta crise, há quase 7 anos, que a sua voz, o seu exemplo, tinha que ser censurado. Porque não se pode dizer HÁ FOME EM PORTUGAL.

quinta-feira, agosto 31, 2017

A ESQUERDA QUE TEMOS



 
O governo de António Costa, com o apoio do PCP e do Bloco de Esquerda é algo de inédito na política portuguesa. O resultado pelo menos a nível económico tem sido bom. Mas isso, por agora, não tem sido suficiente para reverter o que quatro anos de um governo de destruição nacional fizeram aos portugueses. A reversão das medidas do anterior governo, principalmente “o colossal aumento de impostos” ainda está longe de ser revertido. Espera-se pelo próximo Orçamento de Estado, que para já promete aliviar a carga fiscal de 1,6 milhões de famílias em 5 milhões. É pouco.
O desemprego desceu, é certo. E a confirmá-lo basta ver os anúncios de emprego (do Jornal de Notícias ao Linked In), mas trata-se de um novo tipo de emprego, criado com a crise, baseado na precaridade, nuns dias à experiência, num trabalho por vezes escravo, principalmente para pessoas com mais de 40 anos e já há alguns anos sem trabalho. O pior de tudo isto são os quase meio milhão de pessoas que não têm qualquer rendimento, ou mesmo os que têm 200 euros de RSI – uma miséria, uma indignidade do Estado para com estas pessoas.
Tudo isto, e muito mais – como a renegociação da dívida que o PCP e o BE tanto apregoavam quando estavam na oposição –, ficou silenciado face à “real politique” de um governo PS apoiado pelos restantes partidos de esquerda com representação parlamentar.   
O problema surge aqui: BE e PCP estão reféns da geringonça, fazem quase parte do governo. E perante isto impõem-se uma pergunta: onde está a oposição de esquerda a este governo de esquerda? BE e PCP fazem uma oposição negocial, é uma oposição muito limitada. O problema surge quando fora do quadro parlamentar os pequenos partidos só existem quando há eleições legislativas. Assim, não é possível uma crítica da esquerda a esta esquerda, e essa crítica faz falta.

quinta-feira, junho 29, 2017

ELOGIO DAS LÁGRIMAS DE CONSTANÇA

Desde a Idade Média que as lágrimas são um dom. A modernidade, com a sua racionalidade, tentará calar manifestações emotivas: lágrimas, prantos, carpideiras. Hoje vive-se uma ambivalência: se por um lado a psicologia fala em inteligência emocional, a televisão é “emoção e espectáculo”; por outro permanece uma atitude, herdeira de um positivismo, que condena a expressão do dom das lágrimas – “um homem não chora”. E se um homem não chora, pelo menos em público, uma mulher que hoje ocupa lugares públicos também não chora. Para muitas/os seria uma fraqueza, uma indignidade na igualdade de género.
Na política, de Margaret Thatcher a Angela Merkel temos vários exemplos de mulheres que adoptaram uma postura masculina, ou uma caricatura de uma posição masculina. Aliás, é difícil encontrar uma mulher, na actividade política, que tome uma posição feminina, podendo-nos interrogarmos sobre o que é a feminilidade em política. É o género independente da ideologia? Não me parece.
Um ou outro caso sai fora da regra. Penso no caso da Ministra da Administração Interna Constança Urbano de Sousa. Não será na atitude política que Constança marca a diferença – aliás difícil numa pasta como a administração interna –, mas será na postura. Podem considerar a emotividade, traduzida nas lágrimas de Constança, como algo kitsch, como um sinal de fraqueza ou até como uma imitação exagerada da atitude política de Marcelo Rebelo de Sousa. Pode-se ainda pensar que as lágrimas de Constança Urbano de Sousa são de actriz, que são usadas para proveito político. Não me parece que estejamos perante qualquer destas hipóteses cínicas. Creio que as lágrimas de Constança perante a tragédia de Pedrogão Grande, são genuínas. Aliás, não é a primeira vez que a ministra se emociona em público.
O grande repórter Ryszard Kapuściński dizia que o jornalismo não era profissão para cínicos. Mas o que mais encontramos no jornalismo é cinismo: o cinismo dos directores de informação que se aproveitam das grandes tragédias para aumentar as audiências. Passaram já quase duas semanas sobre o trágico fogo de Pedrogão Grande, e os meios de comunicação social ainda não se calaram sobre quem teve a culpa das 64 vítimas mortais. PSD e CDS-PP agarraram-se ao caso, esquecendo que a existir culpas eles também são culpados porque passaram nos últimos 15 anos por dois governos. Enfim, se o jornalismo é muitas vezes cínico, mais vezes é a política partidária em que vivemos.

Mas no caso de Constança Urbano de Sousa parece existir uma genuinidade política que se embrenha com a vida das pessoas. Só assim se compreendem as lágrimas de Constança: ela tomou os mortos de Pedrogão como seus mortos, por isso disse ontem no Parlamento que aquele Sábado tinha sido o “momento mais difícil” da sua vida. Este tipo de política é estranho e pode causar confusão em quem anda na política. Mas é de políticos como estes que precisamos para uma nova política, uma política da imanência, uma política que verdadeiramente sirva as pessoas. 

quarta-feira, maio 31, 2017

FRANÇA: DEMOCRACIA EM ESTADO DE SÍTIO


Resultado de imagem para bandeira francesa rasgada       Desde o ataque terrorista de Novembro de 2015 que a França está sob estado de emergência. O estado de emergência foi prolongado por cinco vezes pelo presidente Hollande. Agora, o novo presidente francês, Emmanuel Macron, prepara-se para pedir ao parlamento o prolongamento do estado de emergência pela sexta vez. A França está há mais de 18 meses em estado de emergência, o que condiciona gravemente a democracia francesa. Ontem, a Amnistia Internacional divulgou um relatório onde aponta o uso político do estado de emergência: “medidas de emergência destinadas a proteger o povo francês da ameaça do terrorismo estão, em vez disso, a ser usadas para restringir o seu direito de protestar pacificamente", lê-se no relatório da Amnistia Internacional (AI).
Tudo isto é demasiado grave. E, no entanto, com excepção de um ou outro órgão de comunicação social (Lusa, DN, TSF, Antena 1), este relatório da AI passou ao lado da agenda dos meios de comunicação social (como se estes precisassem do relatório da AI para fazer o seu trabalho). Durante a campanha e durante as eleições, a França estava sob estado de emergência, e esse facto, aparentemente simbólico, foi escamoteado pelos média. O perigo, nas eleições presidenciais francesas, segundo os comentadores, residia em Marine Le Pen e Jean-Luc Melonchon, nos extremos da direita e da esquerda, respectivamente. Mas o perigo, para a democracia, não está só na fascista, xenófoba e racista Marine Le Pen, também está no centro, em Hollande e agora em Macron.
Custa ver como um país de tradições democráticas e de protesto como a França, tem vivido em estado de sítio, como se se tratasse de uma república da América Latina. Mas não, é a França, no centro da Europa civilizada; a França dos grandes movimentos artísticos do século XX, a França da Comuna, a França do Maio de 68, e é certo, a França que cedeu à ocupação nazi, mas também a outra França que resistiu a essa ocupação.
A França laica, a França da “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, cede ao terrorismo radical islâmico. Pior: os seus medíocres e mesquinhos políticos aproveitam-se de um ataque terrorista para fazer o que os terroristas querem: aniquilar a democracia. Que democracia resta nesta França em estado de emergência há mais de ano e meio? Que França resta com a democracia sitiada?   

domingo, abril 30, 2017

AS VINHAS DA IRA










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As Vinhas da Ira é um romance de John Steinbeck que teve adaptação cinematográfica de John Ford. O livro e o filme relatam, e de certa forma testemunham, a vida no campo depois da grande depressão de 1929. Até 2008 e à falência de um importante banco norte-americano, a grande depressão de 1929 era um marco histórico, algo que pairava sobre a economia e os mercados como uma assombração, algo que não podia voltar a acontecer. Mas aconteceu, e ainda está a acontecer. A partir de 2008 deixou-se de falar da grande depressão de 1929 – afinal os tempos eram outros. Estes tempos que vivemos são tempos de recalcamento, de varrer para debaixo do tapete o que é importuno. O que se constata é que em países como Portugal, que foi dos que mais sofreram com as consequências da crise económica iniciada em 2008, praticamente não existem narrativas dessa mesma crise. Nem a nível jornalístico, nem a nível artístico. É como se existisse uma censura interna – ou será mesmo uma censura externa de forma subtil? A verdade é que as empresas de comunicação social, mesmo as que ainda dão lucro, têm despedido dezenas, ou mesmo centenas, de jornalistas. Que liberdade sobra para o actual jornalismo fazer o devido relato da crise? Quanto à vertente artística é mais difícil de perceber. Escritores, cineastas, músicos, encenadores, apenas por vezes têm esboçado gestos tímidos. Os novos músicos, com uma ou outra excepção parecem ter medo que lhes fique colado o rótulo de cantores de intervenção; os cineastas que estão mais perto de estética do real, como João Canijo, preferem temas como Fátima; os escritores e poetas, também com uma ou outra excepção, continuam como se nada se passasse à sua volta, numa torre de marfim. A crise e suas consequências na vida das pessoas parece ficar sem relato, sem testemunho. Mas urge insistir, perguntar: porque não temos nós as nossas Vinhas da Ira?