quinta-feira, janeiro 05, 2006

TELHADOS DE VIDRO

A revista Atlântico (porque será que só a direita consegue publicar revistas minimamente interessantes? - porque tem dinheiro para as financiar e a esquerda não?) publicou no último número (10) uma reportagem de Leonardo Ralha, que fez capa, sobre astrologia. Entre as chamadas personalidades ouvidas pelo repórter - Maya e Paulo Cardoso, entre os astrólogos, e uns anónimos - estava o psiquiatra e psicanalista Carlos Amaral Dias como representante da Razão e da Ciência. Não pretendo defender "astrólogos e trabalhadores similares" (assim são considerados como categoria profissional), mas tenho que registar a indignação de Amaral Dias. O psicanalista afirma que "na religião existia a excomunhão para quem não a praticava de acordo com as leis da Igreja. Em Ciência também devia haver uma excomunhão para todos aqueles que compactuam com tudo aquilo que não é científico. Excomunhão, já! Não se pode continuar a compactuar com a deficiência de saber". Destas afirmações do psicanalista infere-se que Carlos Amaral Dias coloca os astrólogos e trabalhadores similares no seu grupo profissional, o dos "psis". Senão porque razão excomungá-los em nome da Ciência? Porque lhes roubam clientela? É necessário puxar pela memória para lembrar que Amaral Dias, o psicanalista português com mais obra publicada, participou na TSF em programas onde respondia, na qualidade de psicanalista, às questões dos ouvintes tal como o faz (ou fazia) a bruxa do computador, Cristina Candeias, na Praça da Alegria da RTP 1. A existência de consultórios em programas de televisão ou rádio sobre assuntos psi, médicos ou júridicos é habitual em todo o mundo, mas não deixa de ser questionável. Será uma prática científica - sendo que, apesar de tudo, Amaral Dias considera o seu trabalho como psicanalista científico - fazer em 3 ou 4 minutos aconselhamento num meio de comunicação social? Não se trata antes de um "show" onde quem se mostra como estrela (especialista) do zodíaco ou do divã ganha os seus x minutos de fama?

quarta-feira, janeiro 04, 2006

FESTA ALEGÓRICA

O bobo do imperador Maximiliano
organizou uma festa alegórica
que o povo e a corte do soberano à frente
saborearam em grandes gargalhadas;
juntou na praça todo o cego pobre,
prendeu a um poste um porco muito gordo,
e anunciou ganhar o dito porco aquele
que à paulada o matasse. Os cegos todos
a varapau se esmocaram uns aos outros,
sem acertar no porco por serem cegos,
mas uns nos outros por humanos serem.
A festa acabou numa sangueira total:
porém havia muito tempo que o imperador
e a corte e o povo não se riam tanto.
O bobo, esse tinha por dever bem pago
o fabricar as piadas para fazer rir.

Jorge de Sena

terça-feira, janeiro 03, 2006

PESSOA: DOMíNIO PÚBLICO

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?
Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quasi alegre,
Quasi alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.

Fernando Pessoa/Alberto Caeiro, poema XLVIII de "O Guardador de Rebanhos", in Ficções do Interlúdio, Assírio & Alvim,1998