para lá da cortina além da porta errada
silêncioso e só está sentado
e lê num livro
a sua própria história
Manuel de Castro, in Edoi Lelia Doura - Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa de Herberto Helder.
terça-feira, fevereiro 21, 2006
terça-feira, fevereiro 14, 2006
ÁLVARO LAPA (1939-2006)

O pintor e escritor Álvaro Lapa morreu no passado Sábado, 11 de Fevereiro, no Porto. Nascido a 31 de Julho de 1939 em Évora era professor de Estética na Faculdade de Belas Artes do Porto. Neste momento está patente uma exposição sua na Galeria Fernando Santos do Porto, à Rua Miguel Bombarda.
Álvaro Lapa iniciou o seu percurso como pintor com uma exposição individual em 1964 na Galeria 111. Em 1994 apresenta retrospectivas na Fundação de Serralves e no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian e em 2004 vence o Prémio EDP.
A escrita, o outro lado da criação de Álvaro Lapa foi, de certo modo, obscurecida pela pintura. Publicou cinco livros: Raso como o Chão (Estampa, 1977), Porque Morreu Eanes (Estampa, 1978), Barulheira (& etc, 1982), Balança (Frenesi, 1985) e Sequências Narrativas Completas (Assírio & Alvim, 1994). Influenciado por autores da tradição surrealiata e de vanguarda como Kafka, Burroughs, Joyce, Beckett, Artaud ou António Maria Lisboa afirmou ao DN, em 1993, que "só se cria aquilo que se é". Amigo do poeta António Gancho, falecido no mês passado no Telhal, cuja obra ajudou a publicar, Álvaro Lapa terá contornado a loucura pela via da criação.
O DIAGNÓSTICO
Um jovem tinha um cérebro artificial chamado diagnóstico. Um dia fez-lhe três perguntas e o cérebro não respondeu. Como era jovem teve medo e logo a seguir fez-lhe mais duas perguntas. O cérebro respondeu mas estava errado.
Álvaro Lapa, in Sião, org. de Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, Frenesi, 1987
Álvaro Lapa iniciou o seu percurso como pintor com uma exposição individual em 1964 na Galeria 111. Em 1994 apresenta retrospectivas na Fundação de Serralves e no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian e em 2004 vence o Prémio EDP.
A escrita, o outro lado da criação de Álvaro Lapa foi, de certo modo, obscurecida pela pintura. Publicou cinco livros: Raso como o Chão (Estampa, 1977), Porque Morreu Eanes (Estampa, 1978), Barulheira (& etc, 1982), Balança (Frenesi, 1985) e Sequências Narrativas Completas (Assírio & Alvim, 1994). Influenciado por autores da tradição surrealiata e de vanguarda como Kafka, Burroughs, Joyce, Beckett, Artaud ou António Maria Lisboa afirmou ao DN, em 1993, que "só se cria aquilo que se é". Amigo do poeta António Gancho, falecido no mês passado no Telhal, cuja obra ajudou a publicar, Álvaro Lapa terá contornado a loucura pela via da criação.
O DIAGNÓSTICO
Um jovem tinha um cérebro artificial chamado diagnóstico. Um dia fez-lhe três perguntas e o cérebro não respondeu. Como era jovem teve medo e logo a seguir fez-lhe mais duas perguntas. O cérebro respondeu mas estava errado.
Álvaro Lapa, in Sião, org. de Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, Frenesi, 1987
sexta-feira, fevereiro 10, 2006
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
MOVIMENTO DE FUGA

A loucura é um movimento de fuga. Uma das imagens mais usadas para representar a loucura é O grito de Eduard Munch. É um ícone da loucura. Em Esplendor na Relva (1961)de Elia Kazan há uma cena em que o quadro de Munch é citado. É quando Natalie Wood, numa aula de Inglês é chamada a comentar os versos de Wordsworth: "E agora, apesar de perdido o esplendor na relva e o tempo de glória da flor, em vez de chorarmos buscaremos força no que para trás deixamos". É depois de comentar estes versos que Deenie Loomis/Natalie Wood pede para sair da aula num enquadramento em que o rosto de Natalie Wood se aproxima, cita, a imagem de Munch (uma das mãos da actriz junto ao rosto). E, em seguida, no movimento de fuga, em sentido inverso ao do quadro de Munch, vemos Natalie Wood de costas, fugir pelo corredor em direcção à loucura. O grito, vocalizado ou calado, expresso num esgar que suporta a angústia do mundo, a angústia de ser/estar no mundo, é uma suprema aesthesis carregada de pathos. Assim são os estados de perturbação, fora do normal, fora da normalidade estatística que rege a vidinha e os lepidópteros. A estética (aesthesis) é um movimento de fuga a essa normalidade castradora das sensações. Daí, o grito. Grito que é pavor e espanto de ser no mundo, mas também grito de angústia pela consciência do peso de um mundo onde vigora uma insustentável leveza.
Mas se O grito de Munch nos deixa perante a angústia, o silêncio, a perplexidade, um espaço de unidade ontologicamente parmenidiana perdido, Esplendor na Relva aceita a perda do "tempo da glória da flor", um trabalho de luto, de luta. Porque Esplendor na Relva não exige a imutabilidade do ser na chaga do tempo ou o impedimento (social) da unidade dos corpos. Embora sejam esses os factores que levam Natalie Wood à loucura, o filme tem o happy end de uma psicoterapia bem sucedida: nas cenas finais do filme Natalie Wood aceita a renuncia de que falam os versos de Wordsworth - e que antes lhe tinham despoletado a loucura. Ou seja, aceita/faz o trabalho de luto a partir das memórias do passado (no caso a relação amorosa com Warren Bety): "em vez de chorarmos buscaremos força no que deixamos para trás". Esta formulação de Wordsworth contém um devir impelido pela enxurrada da memória. É um movimento de fuga inverso da loucura: sem angústia, apaziguado num eu-pele poroso, fronteira entre o interior e a realidade externa, superficie. Superficialidade dos dias sem História que a narrativa já não contempla.
domingo, janeiro 29, 2006
segunda-feira, janeiro 23, 2006
NOTAS SOBRE AS PRESIDENCIAIS (3)
1. EQUÍVOCOS. Uma parte significativa dos eleitores votaram em Cavaco não tendo a real consciência de que o professor de Boliqueime, como presidente da república, não tem os poderes que outrora teve como primeiro-ministro. Cavaco ajudou a passar essa mensagem, Soares tentou, em vão, explicar que os poderes do PR eram reduzidos. De nada valeu. Cavaco, como PR não pode ser (a menos que perverta a função presidencial) o salvador da pátria, a solução para a crise.
2. TODOS. Cavaco "dissolveu" a sua escassa maioria e afirmou-se o presidente de todos os portugueses. Nada de novo. Os anteriores presidentes utilizaram a mesma fórmula, uma vez eleitos passam a ser o "presidente de todos os portugueses". Falta saber se todos os portugueses se reconhecem nesta afirmação, e dizem em uníssino "este é o meu presidente". Eu, como muitos outros, não me reconheço no coro.
sexta-feira, janeiro 20, 2006
POR
UMA VIDA
SEM CAVACO
help
SOARES ALEGRE LOUÇÃ JERÓNIMO GARCIA PEREIRA
UMA VIDA
SEM CAVACO
help
SOARES ALEGRE LOUÇÃ JERÓNIMO GARCIA PEREIRA
terça-feira, janeiro 17, 2006
NOTAS SOBRE AS PRESIDENCIAIS (2)

A entrevista dada hoje por Mário Soares ao Jornal da Noite da SIC mostrou um animal político derrotado, antecipadamente. O mais confrangedor nesta entrevista é a incapacidade que Soares mostra de lutar, derrotado pelas sondagens, quando na pré-campanha venceu Cavaco por K.O. Cansado, o apelidado pai da pátria, prepara a derrota do seu último combate político. A seu favor tem a História. O protagonismo em quase meio século da História de Portugal, o jogo político, muitos ódios, outras venerações, poucos votos.
No pólo oposto, Manuel Alegre, que na pré-campanha se mostrava hesitante e balbuciante, animado pelas sondagens, distanciado das lógicas partidárias, mostra-se agora firme e lutador a caminho do impossível. Para já, Alegre parece ter ganho o seu primeiro combate, aos pontos, contra Soares.
domingo, janeiro 15, 2006
Pára-me de repente o Pensamento...
- Como se de repente sofreado
Na Douda Correria... em que, levado...
- Anda em Busca... da Paz... do Esquecimento
-Pára Surpreso... Escrutador... Atento
Como pára... um Cavalo Alucinado
Ante um abismo... ante seus pés rasgado...
- Pára... e Fica... e Demora-se um Momento...
Vem trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora
E mergulha na Noute, Escura e Fria
Um olhar d'Aço, que na Noute explora...
- Mas a Espora da dor seu flanco estria...
- E Ele Galga... e Prossegue... sob a espora!
Ângelo de Lima
(Poesias Completas, Assírio & Alvim, organização de Fernando Guimarães)
- Como se de repente sofreado
Na Douda Correria... em que, levado...
- Anda em Busca... da Paz... do Esquecimento
-Pára Surpreso... Escrutador... Atento
Como pára... um Cavalo Alucinado
Ante um abismo... ante seus pés rasgado...
- Pára... e Fica... e Demora-se um Momento...
Vem trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora
E mergulha na Noute, Escura e Fria
Um olhar d'Aço, que na Noute explora...
- Mas a Espora da dor seu flanco estria...
- E Ele Galga... e Prossegue... sob a espora!
Ângelo de Lima
(Poesias Completas, Assírio & Alvim, organização de Fernando Guimarães)
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