sexta-feira, dezembro 04, 2009

FRANZ KAFKA


DIANTE DA LEI

Diante da lei encontra-se um guarda. Um homem do campo aproxima-se dele e pede para entrar na Lei. Mas o guarda diz-lhe que de momento não o pode deixar entrar. O homem pondera e depois pergunta se o deixarão entrar mais tarde. «É possível», responde o guarda, «mas não agora» O guarda afasta-se do portão, aberto como sempre, e dá um passo para o lado; o homem estica-se para espreitar lá para dentro. Ao vê-lo, o guarda ri-se e diz «Se te sentes assim tão atraído, tenta entrar, não obstante o meu veto. Mas presta atenção: eu sou forte. E sou apenas o menor dos guardas. De salão em salão encontram-se guardas cada vez mais fortes. O terceiro é tão terrível que nem eu consigo olhar para ele». O homem do campo não esperava tantas dificuldades: a lei, pensa ele, deveria certamente ser sempre acessível e a todos; mas ao examinar mais de perto o guarda, no seu casaco de peles, com seu nariz comprido e afilado, a barba negra à tártaro, decide que é melhor que o deixe entrar. O guarda dá-lhe um banco e deixa-o sentar-se de um dos lados da porta. Ali ele fica durante dias e anos. Faz várias tentativas para que o deixe entrar, e desgasta o guarda com a sua persistência. O guarda faz-lhe pequenos interrogatórios frequentes, com preguntas sobre a sua terra e muitas outras coisas, mas as perguntas são feitas com indiferença, como grandes senhores as fariam, e terminam sempre com a declaração de que ele ainda não pode entrar. O homem, que se proveu com todo o tipo de coisas para a sua viagem, sacrifica tudo o que tem, independemente do valor, para subornar o guarda. Este aceita tudo, mas sempre com o comentário: «Só aceito para que não penses que esqueceste qualquer coisa» Durante estes muitos anos, o homem observa o guarda constantemente. Esquece os outros guardas, e este primeiro parece-lhe o único obstáculo que o lhe impede o acesso à Lei. Nos últimos anos, ele amaldiçoa a sua falta de sorte, em alto e bom som; mais tarde, à medida que vai envelhecendo, limita-se a resmungar para consigo. Torna-se infantil e, como depois de tantos anos a observar o guarda até já lhe conhece as pulgas da gola do casaco, também àquelas ele suplica, para que o ajudem a fazer com que o guarda mude de ideias. Com o tempo, a sua visão começa a falhar e ele não sabe se o mundo está mesmo a ficar escuro ou se os seus olhos o enganam. No entanto, na sua escuridão está agora consciente do brilho que emana eternamente do portão da Lei. Agora já não lhe resta muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as suas experiências durante aqueles longos anos reúnem-se-lhe dentro da cabeça numa só questão, uma pergunta que ele ainda não fez ao guarda. Então, faz-lhe sinal para que se aproxime, uma vez que já não consegue levantar o corpo hirto. O guarda tem de se baixar, pois a diferença de altura entre os dois alterou-se muito, com desvantagem para o homem do campo. «O que queres saber agora?» perguntou o guarda; «és insaciável». «Todos se esforçam para chegar à Lei», disse o homem, «então como é que durante todos estes anos ninguém, para além de mim, pediu para entrar?» O guarda reconhece que o homem atingiu o seu limite e, para que os seus sentidos débeis captem as palavras, grita-lhe ao ouvido: «Mais ninguém poderia entrar aqui, visto que o portão foi feito só para ti. Agora, vou fechá-lo»

"Diante da Lei" in O Abutre e outras Histórias de Franz Kafka, trad. de Noémia Ramos, Estrofes e Versos, pp.17-20

1 comentário:

Dri Viaro disse...

Oi, passei pra conhecer o blog, e desejar boa semana
bjsss

aguardo sua visita ;)