Mostrar mensagens com a etiqueta Ano literário. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ano literário. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, dezembro 31, 2025

LIVROS EM 2025


1, A 28 de Abril do agora findo ano, cerca das 11h00 ocorre um estranho corte de energia eléctrica. Uma consulta a sites de informação na internet revelava algo de inusitado: Portugal, Espanha e uma parte de França estavam sem electricidade. Por volta das 21h00, quando já os sites de internet não estavam a funcionar na sua maioria, e os telemóveis ficavam sem bateria, a electricidade foi reposta. Mas se não fosse? Se o chamado “apagão” durasse 1, 2, 3 dias, ou uma semana? Ou mais? O apagão veio revelar a vulnerabilidade e dependência da sociedade em que vivemos perante não só a electricidade, mas também perante o mundo digital. Atirou-nos para um outro tempo, em que não existia electricidade, muito menos este mundo digital, onde escrevo este texto. Era um mundo que a esmagadora maioria não conheceu. Um mundo de tempo lento, de respeito pelos ritmos circadianos, onde esses pirilampos evocados por Pasolini podiam iluminar a noite obscura, sem a concorrência desleal da luz eléctrica. Nesse mundo, os livros, a literatura, o pensamento, faziam mais sentido – foi também na “noite do mundo” à luz de velas que a grande literatura e as grandes ideias nasceram. Mas era um tempo agreste para o corpo. No entanto, garanto que sei de quem vive ainda à luz de velas.

 

2, A 16 de Março de 1825 nascia em Lisboa Camilo Castelo Branco. Um nascimento que parece acidental, já que o autor de “Romance de um homem rico”, entre milhares de páginas escritas, retratou o universo nortenho, com um vocabulário luxuriante, já perdido no falar do dia-a-dia. É esse vocabulário, que já não encontra dicionários, que o distingue e talvez eleve, a par de uma ironia mordaz, acima de um Eça de Queiróz. Este ano, foi, portanto, altura de celebrar o bicentenário de Camilo.

 

3, O panorama editorial português é cada vez mais dominado pelo grupo Porto Editora. De tal forma que está dividido em dois: o grupo Porto Editora propriamente dito, e o grupo Bertrand, que foi adquirido pela Porto Editora em 2010. Deste último fazem parte as editoras Quetzal, Pergaminho, Temas e Debates, Contraponto, Arteplural, 11x17 e Círculo de Leitores. A Bertrand tem também a marca das livrarias de rua ou de centro comercial. Este ano, a livraria Latina, do Porto, no início da Rua de Santa Catarina, que pertencia à Leya, foi adquirida pelo grupo Bertrand. Do outro lado, estão as pequenas editoras como a Bestiário, Saguão, 7 nós, Letra Livre, 100 cabeças, Língua Morta, Maldoror, Averno, Sr. Taste, entre outras, que praticam conjuntamente com algumas livrarias “alternativas” ou “independentes” como a Utopia, Flâneur, Poetria (no Porto), Livraria Letra Livre, Snob (em Lisboa), uma certa resistência. No meio, aparecem grupos como a Almedina, a Pinguin Random House, e editoras como a Relógio d’ Água.

 

4, Da lista de livros abaixo, que é mais uma lista de desejos e arquivo que de livros lidos, faço alguns destaques. Na poesia para três antologias: “Adeus, campos felizes” de Rui Lage, tenta recuperar um território e uma geografia humana em desaparecimento; Graça Videira Lopes foi ao Cancioneiro de Garcia de Resende recuperar uma poesia de antanho que não celebrava o pathos da derrota e do niilismo, mas um lirismo que se perde; António Maria Lisboa é um poeta com pouca fortuna editorial e não só, a que a edição em livro de bolso da Pinguin, não ajuda, principalmente nos poemas visuais. Destaco ainda, ou sobretudo, o número 42 da revista Relâmpago (com data de Dezembro de 2024, mas distribuído em Março de 2025) sobre a “poesia portuguesa de agora”, coordenado por Fernando Pinto do Amaral e Ricardo Marques que incluiu uma selecção de 11 poetas e alguns ensaios – o que não parece ser suficiente para traçar os diversos mapas que constituem a poesia “de agora”. Liberato, músico e poeta, publicou em edição de autor o pequeno livro “Cá, nesta terriola”, de forte pendor político. Realce ainda para a reedição da obra (poética e ensaística) de Alberto Pimenta pela 7 Nós e Saguão e para o terceiro volume da obra – finalmente – completa de António Ramos Rosa. Um outro poeta maior da poesia portuguesa dominou a não-ficção: a biografia de Herberto Helder por João Pedro George. O calhamaço, de mais de 800 páginas, recolhe um trabalho de anos do autor, que ouviu pessoas próximas do poeta, como a sua companheira Olga. Se em vida o poeta sempre recusou aparições públicas, celebrizando a frase, “Meu Deus, faz de mim um poeta obscuro”, questiona-se a facilidade com que o autor de “Se eu quisesse enlouquecia” obteve os depoimentos – não serão uma traição à memória do autor Photomaton & Vox? Duas cartas escritas por Gunter Anders, marido de Hannah Arendt, aos filhos biológicos do nazi Adolf Eichmann, editadas pela Antígona sob o título “Nós, filhos de Eichmann”, colocam a enfase na teoria defendida por Arendt nas reportagens que fez sobre o julgamento do nazi: na “banalidade do mal” qualquer um de nós pode ser um Eichmann. Destaque-se ainda dois livros de José Gil (Pontas Soltas I e II) e uma entrevista conduzida por Marta Pais Oliveira ao filósofo. De Carlo Michelstaedter, filósofo italiano precocemente suicida, a Companhia das Ilhas publicou Retórica e Persuasão, a sua única obra. E para terminar as referências à não-ficção, mais uma biografia, desta vez de Egas Moniz, por Paulo M. Morais, que em A Glória Efémera segue a vida de uma personalidade que acabou por se tornar tenebrosa ao criar a lobotomia. Na ficção, foi este ano, traduzido para português, um romance que denúncia certas práticas da psiquiatria, “Voando sobre um ninho de cucos” (ed. original de 1962) de Ken kesey (Livros do Brasil) e que Milos Forman tornaria famoso ao adaptá-lo para o ecrã cinematográfico, em 1975. De Julio Cortazar, escritor determinante da literatura argentina, a Cavalo de Ferro publicou os seus Contos Completos, em dois grossos volumes, que passaram despercebidos.

 

Uma nota final para o fecho do Jornal de Letras. Durante quase 45 anos, desde 1981, dirigido sempre por José Carlos Vasconcelos, foi um elemento imprescindível para a compreensão e divulgação das actividades culturais em Portugal, e não só. 

 

POESIA

 

AA VV – Relâmpago, nº 42 – Poesia portuguesa de agora (Fund. Luís Miguel Nava)

António Ramos Rosa – Obra Poética III (Assírio & Alvim)

Rui Lage (org.) – Adeus, campos felizes – Antologia do campo na poesia portuguesa do século XIII ao século XXI (Assírio & Alvim)

Graça Videira Lopes (ed.) – Cousas de folgar e gentilezas.  (Assírio & Alvim)

Alberto Pimenta – Tetraphármakos (Caixa + 4 livros) (7 Nós)

Fernando Guerreiro – A Sagrada Família (Bestiário)

Arthur Rimbaud – Poesia (Assírio & Alvim)

Liberato – Cá, nesta terriola (edição do autor)

António Maria Lisboa – Uma poesia extrema (Pinguin Clássicos)

Nunes da Rocha – Estudos literários & outras divagações de uso (Averno)

Nunes da Rocha – Real quotidiano (1957-1974) (100 Cabeças)

Daniel Jonas – Idade da perda (Assírio & Alvim)

Luís Quintais – A destruição do tempo (Assírio & Alvim)

Afonso Lopes Vieira – Poesia (E-Primatur)

 

NÃO-FICÇÃO

 

João Pedro George – Se eu quisesse enlouquecia – biografia de Herberto Helder (Contraponto)

Carlo Michelstaedter – Persuasão e retórica (Companhia das Ilhas)

Gunter Anders – Nós, filhos de Eichmann (Antígona)

José Gil – Pontas Soltas I (Relógio d’ Água)

Marta Pais Oliveira – A última lição de José Gil (Contraponto)

Jean Baudrillard – América (Língua Morta)

Paulo M. Morais – A glória efémera – biografia de Egas Moniz (Contraponto)

AA VV – Habitats internos – conversas com psicanalistas (VS)

António Branco Vasco / Mariana S. – Crónicas de uma psicoterapia (Taiga)

Carlos Mendes de Sousa – No caminho da poesia (Documenta)

Pedro Eiras – Constelações 4 – Ensaios comparatistas (Afrontamento)

Alberto Pimenta – O silêncio dos poetas (Saguão)

Yanis Varoufakis – Tecno-feudalismo (objetivamente)

 

FICÇÃO

 

Julio Cortazar – Contos completos (vol. 1 e 2) (Cavalo de Ferro)

Gonçalo M. Tavares – O fim dos Estados Unidos da América

Rui Manuel Amaral – Zov (Snob)

Lásló Krasznahorkai – Herscht 07769 (Cavalo de Ferro)

José Rodrigues Miguéis – Leah e outras histórias (Assírio & Alvim)

Miranda July – De quatro (Quetzal)

Ken Kesey – Voando sobre um ninho de cucos (Livros do Brasil)

AA VV – Antologia de contos humorísticos e satíricos russos (Tinta da China)

 

terça-feira, dezembro 31, 2024

LIVROS EM 2024

 


1, No que respeita à actualidade geral, o ano de 2024 foi marcado pela continuidade. A guerra na Ucrânia continuou, a guerra entre Israel e o Hamas também continuou com o genocídio do povo palestiniano por parte de Israel. A guerra é estúpida, este genocídio praticado por quem sofreu há 80 anos um dos mais ignóbeis genocídios da história, é profundamente estupido e desumano. No entanto, não podemos culpar o povo judeu, mas o líder político do Estado de Israel, Benjamim Natanyahu. A vitória de Donald Trump nas eleições norte-americanas, em Novembro, foi outro acontecimento que só a partir de Janeiro de 2025, quando Trump entra em funções, se poderá avaliar. Mas, este segundo mandato parece vir a ter uma diferença: a presença de Elon Musk na administração de Trump. Musk é um dos homens mais ricos do mundo, um excêntrico perigoso que sonha conquistar Marte, e que comprou a rede social Twitter e a transformou no X. Mas, ainda recentemente Musk apoiou a extrema-direita alemã da AfD, o que mostra que a extrema-direita que vai ganhando eleições um pouco por todo o mundo, tem do seu lado o homem mais rico do mundo. E isso torna o mundo mais perigoso do que nunca, porque desenha uma distopia (Musk está também, como outros multimilionários de Sillicon Valey, apostado na IA, e num estranho dispositivo para implantar na mente humana). Por cá, a nova AD ganhou, por escassa margem sobre o PS, as eleições legislativas, formando Luís Montenegro um governo PSD-CDS. Lucília Gago abandonou, por fim de mandato, a PGR e, de certa forma “deu” a António Costa o lugar de Presidente do Conselho Europeu.

2, 2024 foi um ano de tantos centenários que o V centenário do nascimento de Luís de Camões ia sendo esquecido. Do ponto de vista editorial, Isabel Rio Novo andava há já cinco anos a preparar uma biografia de Camões: Fortuna, Caso, Tempo e Sorte (Contraponto, 2024), um grosso volume de mais de 700 páginas resume a vida do autor d’ Os Lusíadas. Frederico Lourenço (que tem vindo a publicar uma tradução “laica” da Bíblia, traduzida a partir do grego) organizou uma antologia da poesia camoniana, Camões – Uma Antologia (Quetzal, 2024), onde metade do volume de cerca de 600 páginas é ocupado com comentários do professor da Universidade de Coimbra. Registe-se ainda a publicação do teatro de Camões, num volume com “prefácio, fixação de texto e notas” de Sérgio Guimarães de Sousa, editado pela Assírio & Alvim. Para quem quiser ler toda a obra de Camões, ela está publicada na E-Primatur, em três volumes, organizados por Maria Vitalina Leal de Matos. No campo mediático, Jorge Reis-Sá (que este ano publicou a reunião da sua poesia no volume Prado do Repouso – edição A Casa dos Ceifeiros), tem vindo a apresentar na RTP 3, o programa 1000xCamões, onde conversa com figuras de várias áreas sobre a poesia camoniana. A RTP 2 optou pela leitura dos 10 cantos de Os Lusíadas feita em outros tantos episódios. As comemorações vão estender-se até 2026 e têm um carácter político (como não podia deixar de ser, tratando-se de Camões): a nova ministra da cultura, Dalila Rodrigues, nomeou José António Bernardes, em substituição da anterior comissária, Isabel Marnoto. Para já, o governo AD destina 2,2 milhões de euros, para comemorar Camões, no OE para o ano de 2025.

3, Mas no que diz respeito a centenários, 2024 não foi só o de Camões. Dois importantes poetas portugueses nasceram há 100 anos: António Ramos Rosa e Alexandre O’ Neill. De O’ Neill a Assírio & Alvim republicou dois livros, Tempo de Fantasmas (primeira edição de 1951) e No Reino da Dinamarca (primeira edição 1958). Sobre Alexandre O’ Neill há ainda uma exposição, “No Reino de O’ Neill”, comissariada por Joana Meirim (que publicou o ensaio Uma Carta à Posteridade, Jorge de Sena e Alexandre O’ Neill – Imprensa Nacional, 2024) e que conta com um texto inédito de Adília Lopes intitulado “O’ Neill e a tia da aletria”. Quanto a António Ramos Rosa, poeta essencial da poesia portuguesa, mas também um teórico da própria poesia, alguém que publicou cerca de cem livros, caiu um absoluto silêncio e esquecimento sobre o seu centenário. A Assírio & Alvim tem vindo a publicar a sua obra, de que já foram publicados dois volumes (em 2018 e 2020), e existe uma antologia, Poesia Presente (Assírio & Alvim, org. de Maria Filipe Ramos Rosa, com prefácio de J. Tolentino Mendonça). Já sobre Franz Kafka, nome monstruoso da literatura mundial, não houve por cá esquecimentos editoriais. Destaque-se, entre as várias obras publicadas os Contos, Parábolas, Fragmentos (Relógio d’ Água, com tradução de António Sousa Ribeiro, ver lista) e o primeiro volume (O Artista da Fome, tradução de Bruno C. Duarte) de 3 com que a E-Primatur pretende publicar toda a prosa breve do autor de O Processo. E ainda o centenário do nascimento de Bernardo Santareno, talvez o melhor dramaturgo português do século XX.

4, O Porto é hoje uma cidade descaracterizada. A culpa, como em muitas outras cidades europeias, é do turismo. Isso levou a uma especulação imobiliária que está a transformar a cidade, o que fez com que a Livraria Latina, fundada em 1942, e pertencente desde há vários anos ao grupo Leya, fechasse. A Livraria Latina situava-se no número 1 da Rua de Santa Catarina, uma artéria pedonal, de comércio de rua, das mais movimentadas do Porto. Foi uma das principais livrarias do Porto, juntamente com a saudosa Livraria Leitura e a Livraria Lello – que das três, e graças à arquitectura do edifício onde está, se tornou num lugar de peregrinação turística. Mais à frente, na mesma Rua de Santa Catarina, funcionava, desde há cerca de 25 anos, uma loja da FNAC que este ano fechou. Uma das características desta loja (replicada noutras), era funcionar como uma biblioteca: as pessoas iam à FNAC, escolhiam um livro e sentavam-se num dos sofás que por lá existia (se houvesse lugar). Algo replicado por algumas livrarias. A FNAC, quando apareceu em Portugal foi algo de novo: podiam-se comprar discos, filmes e livros no mesmo espaço. Nessa altura, a Internet dava os primeiros passos, e os computadores – mesmo portáteis – tinham uma gaveta para colocar o cd com disco ou filme. Hoje, curiosamente, é o livro que sobrevive aos cd’s de discos e filmes, substituídos por plataformas on-line. Portanto, o livro resiste, um objecto com séculos. Com séculos talvez se encontrem alguns exemplares de livros que fazem parte da Biblioteca Municipal do Porto. Este ano fechou para obras de alargamento, com um projecto de arquitectura de Eduardo Souto Moura. Prevê-se que reabra daqui a quatro ou cinco anos. Ora, tendo em conta que é a segunda maior biblioteca portuguesa, com depósito legal, que só lá se encontram livros e jornais essenciais para investigações académicas ou pessoais, é de lamentar que não se arranjasse uma solução em que a biblioteca continuasse a funcionar. Afinal Souto Moura não é um dos principais arquitectos mundiais?

5, Os prémios literários fazem naturalmente parte do mundo literário (já o podia dizer o senhor de La Palisse). Há prémios de dois tipos: os de reconhecimento de uma obra literária, e os que premeiam inéditos, ou seja, neste caso aspirantes a escritores ou escritores que procuram publicar uma obra e ter uma distinção. Entre os dois tipos de prémios há um fosso, com variantes. Mas, na generalidade os prémios literários servem para homenagear figuras da literatura (Camões, Vergílio Ferreira, Agustina Bessa-Luís ou mesmo Ernesto Sampaio, no caso português). O Nobel da literatura foi este ano para a escritora sul-coreana Han Kang, de 53 anos (uma das mais jovens a receber o Nobel da literatura), o Prémio Camões foi para a poetisa brasileira Adélia Prado, o Prémio José Saramago (inéditos) foi para Francisco Mota Saraiva (que em 2023 tinha ganho o prémio literário revelação Agustina Bessa-Luís), o Vergílio Ferreira (inéditos) para António Garcia Barreto. Enfim, será longa a lista de premiados com os vários prémios que dão a possibilidade de publicar a obra a concurso, para além do autor em alguns casos também receber uma (pequena) importância pecuniária. No entanto, algo surpreende quanto ao prémio de Melhor Livro de Poesia atribuído pela Sociedade Portuguesa de Escritores. Foi para o poeta Jorge Gomes Miranda (JGM) pelo livro Emoções Artificiais (2023, Gradiva). Em entrevista de JGM ao jornal Público ficamos a saber que se trata de um livro sobre a tecnologia, a Inteligência Artificial, a robótica. O autor, que iniciou a sua actividade como poeta em meados da década de 1990, diz na referida entrevista, “Esperemos que os robôs do futuro sejam mais humanos do que certos humanos”. Essa humanização dos robôs pode ser constatada nos poemas que estão disponíveis on-line. Será um livro tecnofílico, mais surpreendente por ser um livro de poesia que pelo tema abordado, que na ficção científica vem de longe, de Mary Shelley que em 1818 publicou Frankenstein. Que numa altura em que a realidade parece ultrapassar a ficção científica, sejamos acolhedores do que enforma o pós-humano, que não é senão o pior do humano, numa lógica capitalista, é algo, no mínimo, estranho. Ou ingénuo.

 Segue-se, abaixo, uma lista de livros; uns lidos, outros desejos de leitura.

POESIA

Adília Lopes – Dobra (Assírio & Alvim)

José Carlos Barros – Taludes Instáveis (Dom Quixote)

Ana Hatherly – Tisanas (Assírio & Alvim, org. Ana Marques Gastão)

Filipa Leal – Adrenalina (Assírio & Alvim)

Sebastião da Gama – O Inquieto Verbo do Mar – Poesia Reunida (Assírio & Alvim)

Marcos Foz – Enublado Dizes (Bestiário)

Nuno Moura – Cantos (Douda Correria)

T. S. Eliot – A Terra Devastada (Assírio & Alvim, trad. Jorge Vaz de Carvalho)

FICÇÃO

Ana Teresa Pereira – Como Numa História de William Irish (Relógio d’ Água)

Teresa Veiga – Vermelho Delicado (Tinta da China)

Stefan Zweig – Amok (Relógio d’ Água)

Knut Hamsun – Fome (Relógio d’ Água)

Thomas Bernhard – Antigos Mestres (comédia) (Documenta)

Jon Fosse – Uma Brancura Luminosa (Cavalo de Ferro)

Franz Kafka – Contos, Parábolas, Fragmentos (Relógio d’ Água)

NÃO-FICÇÃO

AA VV – História Global da Literatura Portuguesa (Temas e Debates)

AA VV – O Que Lêem os Escritores (Tinta da China)

AA VV – Adília Lopes: do Privado ao Político (Documenta)

Yuval Noah Harari – Nexus (Elsinore)

Maurice Nadeau – História do Surrealismo (Assírio & Alvim)

Wenceslau de Moraes – Paisagens da China e do Japão (Livros de Bordo)

António Marques – Paz (Edições 70)

Peter Singer – Libertação Animal, Hoje (Edições 70)

João Barrento – Os Infinitos Modos da Palavra – Caminhos e metamorfoses da poesia portuguesa contemporânea (Companhia das Ilhas)

domingo, dezembro 31, 2023

LIVROS EM 2023

 

1, 2023 foi o ano em que o Ministério Público (MP) levou à demissão do governo de António Costa. Depois do ano ter começado com uma série de casos & casinhos que envolviam membros do governo, o golpe final foi dado em Novembro, quando a polícia entrou na residência oficial do primeiro-ministro e um comunicado do MP colocava Costa como suspeito. O primeiro-ministro demitiu-se nesse mesmo dia. Um mês antes, no Médio Oriente, o Hamas, num ataque terrorista, matava cerca de mil israelitas e fazia mais de 200 reféns. A resposta do governo de Benjamin Netanyahu foi uma acção de guerra que até agora fez mais vinte mil mortos palestinianos, na Faixa de Gaza, a maioria deles civis, e parece avançar com intenções de extermínio dos palestinianos.

Mas, no início do ano, algo de novo aparecia no reino da tecnologia em que estamos cada vez mais imersos: o Chat GPT. Concebido pela empresa OpenAi, o Chat GPT, e os modelos que lhe seguiram por parte da concorrência, o Chat Bing (Microsoft) e o Chat Bard (Google), permitem pela primeira vez uma interacção conversacional com um mecanismo de inteligência Artificial (IA). Embora já estivesse presente nos dispositivos electrónicos, nomeadamente nos smarphones, embora a investigação em IA tenha décadas, nunca a IA se apresentou assim perante os humanos: como um chatbot com o qual é possível “falar” (teclar), a quem é possível colocar questões, dúvidas ou pedir para criar algo. Tratando-se de um modelo de linguagem estatístico, o Chat GPT assume uma aura de uma entidade com uma sabedoria que não tem – ainda. A inteligência artificial apareceu como uma ameaça, a juntar a outras como a crise climática e as guerras (na Ucrânia e entre Israel e o Hamas), o que levou, paradoxalmente, alguns dos investigadores em IA a escreverem uma carta onde pediam uma desaceleração na investigação em IA. Vive-se assim entre o desejo que a IA resolva os problemas da humanidade, e o receio que se torne tão ou mais inteligente que os humanos. O certo é que ainda imberbe, a IA aparece como uma ameaça também ao mundo da criação literária. A greve dos argumentistas em Hollywood, que durou cerca de cinco meses, foi causada entre outros factores pela utilização da IA, num claro e primeiro efeito da IA no mundo da criação literária e artística. Os modelos como o Chat GPT têm já a capacidade de escreverem histórias infantis que podem rivalizar com as escritas por escritores humanos. Por altura do aparecimento do Chat GPT a Amazon foi inundada de livros para a infância. Vivemos, assim, num certo meio literário, já condicionado pela inteligência artificial. E o restante mundo editorial (tradutores, revisores, gráficos, etc) poderá ser afectado pela IA.

Num artigo publicado no El País, a escritora e activista Naomi Klein acusava a IA de “grande roubo” a todo o conhecimento humano, tendo o jornal The New York Times materializado essa opinião ao recentemente processar a Microsoft e a OpenAI por violação de direitos de autor. O filósofo José Gil, num ensaio publicado no Público (3-12-23) prevê um cenário distópico: “as obras de arte algoritmizadas serão saudadas como exemplos singulares de criação e engenho das máquinas inteligentes. Os romances, as traduções, os objectos de arte, as composições musicais resplenderão de originalidade inigualável. Produtos de uma enorme complexidade – nós seremos mais simples e pequenos, pobres e felizes.”  

 

2, De três importantes escritores e poetas se comemoraram em 2023 o centenário de nascimento: Eugénio de Andrade, Mário Cesariny e Natália Correia. Eugénio de Andrade (1923-2005), foi um dos principais poetas portugueses da segunda metade do século XX. A sua poesia imbuída de um Eros clássico, principalmente nas primeiras obras, teve ao longo de décadas uma excelente recepção entre os leitores. Treze anos depois do seu desaparecimento, importava averiguar o valor que esta poesia mantém no cânone – universitário, crítico, entre pares e junto dos leitores. Certo é que neste ano de centenário apenas um livro de Eugénio de Andrade foi publico – Aquela Nuvem e Outras (Porto Editora), um livro para crianças. Embora a Assírio & Alvim tenha vindo desde 2012 a publicar individualmente cada um dos livros de Eugénio de Andrade, e já tenha em 2017 publicado a poesia reunida do poeta que nasceu no Fundão e viveu no Porto, e em 2022 a prosa reunida, pouco se notou, a nível de iniciativas, o centenário do autor de As Mãos e os Frutos. Quer isto dizer que Eugénio de Andrade caiu num certo esquecimento, ou talvez num desgaste.

Num sentido contrário podemos falar da obra poética, e não só, de Mário Cesariny. O nome de Cesariny liga-se umbilicalmente ao surrealismo português (juntamente com Alexandre O`Neill e António Maria Lisboa, mas também Mário-Henrique Leiria ou Manuel de Lima), de que foi o criador e teórico (veja-se Textos de Afirmação e de Combate do Movimento Surrealista). Mas a sua poesia maior pode ser resumida a quatro ou cinco poemas que estarão entre os melhores poemas da lírica portuguesa. Mário Cesariny praticou a insubmissão como forma de vida. E essa atitude terá levado a um propositado esquecimento da sua obra que foi recuperada no final da sua vida e nos últimos anos. Daí que ao Cesariny poeta se tenha recuperado o Cesariny artista plástico. A edição da antologia Poesia de Mário Cesariny, e do projecto datado de 1977 de uma heterodoxa antologia de poesia, cujo título Poetas do Amor, da Revolta e da Náusea (ambas organizadas por Fernando Cabral Martins para a Assírio & Alvim) é já em si sintomático da rebeldia de Cesariny, mas também do acolhimento que a sua obra tem tido.

No caso de Natália Correia, não podemos falar apenas de uma escritora e poeta. É, para além disso, a sua biografia que a vai impor como uma figura pública:  deputada à Assembleia da República pelo PSD e depois pelo PRD, mas também pelo programa televisivo Mátria, que Natália Correia se torna conhecida do grande público, já depois do 25 de Abril. Mas, num outro círculo, mais restrito, Natália Correia vai afirmar-se, ainda durante o Estado Novo, como anfitriã e dona de um bar em Lisboa – o Botequim – que procurava ser um espaço de liberdade dentro da ditadura. Na sua actividade de escrita foi romancista, dramaturga, poeta, ensaísta, diarista, organizadora de antologias. Uma dessas antologias, Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (1965, primeira edição) valeu-lhe uma condenação de três anos com pena suspensa; foi ainda processada por ser a responsável editorial do livro Novas Cartas Portuguesas (1973). A sua escrita andou pelos caminhos do surrealismo, e com Mário Cesariny partilhou além da rebeldia e insubmissão, a amizade e admiração.

 

3, No que respeita aos livros publicados em 2023, apresento uma lista abaixo, que é uma selecção, lacunar, do que foi publicado. A maior parte recebeu alguma atenção por parte da escassa crítica literária ainda existente (Expresso, Público, JL, pouco mais), outros livros foram ignorados por essa mesma crítica.

Da lista saliente-se, na poesia, uma nova edição da Poesia de Luiza Neto Jorge, revista e aumentada, que vai buscar poemas que a poeta não integrou na reunião da sua poesia em Os Sítios Sitiados (1973), mas estavam em outros livros anteriores; a edição pela primeira vez em português de um autor italo-argentino, Antonio Porchia, mestre no aforismo de forte tonalidade poética, ou no poema disfarçado de aforismo, que foi publicando ao longo dos anos na suas Vozes (Voces). A publicação da obra completa de um poeta mais conhecido como letrista de fados, Pedro Homem de Mello; e também das obras completas de dois autores muito distantes entre si, não só no tempo: o clássico Horácio, e o recente Roberto Bolaño. Ainda obras completas, ou completas até à data: Rita Taborda Duarte, Helga Moreira, Maria da Graça Varella Cid e Ernesto Sampaio, de quem a Maldoror e Língua Morta reuniram em cerca de 400 páginas os poemas e textos em prosa.

Na ficção, no ano que o Nobel da literatura foi para o romancista e dramaturgo norueguês Jon Fosse, os autores portugueses mais conceituados pouco ou nada publicaram (com excepção de Gonçalo M. Tavares, sempre prolifico). Destaque-se o trabalho editorial da E-Primatur que este ano publicou a tradução na integra de Gargântua & Pantagruel de François Rabelais.

No ensaio, destaque-se a reunião da obra ensaística sobre poesia de Joaquim Manuel Magalhães, num grosso volume de quase 1200 páginas, que colige os seus três livros de ensaios e acrescenta inéditos – pelo menos em livro –, assinado com o pseudónimo, ou heterónimo, de António Maria António Pedro. Joaquim Manuel Magalhães é sem dúvida um dos mais lúcidos leitores da poesia portuguesa, e não só. Ainda no ensaio sobre literatura Joana Matos Frias publicou Oscilações (Documenta) e Joana Emídio Marques Notícias do Bloqueio (Língua Morta). A Relógio d` Água publicou mais um ensaio do filósofo Byung Chul Han, desta vez sobre A Vida Contemplativa, mas nesta editora também se publicaram os Ensaios de Robert Musil, e um livro que denúncia os mecanismos tecnológicos de vigilância da ditadura chinesa: Estado de Vigilância de Josh Chin e Liza Lin. Também na linha da crítica das novas tecnologias ao serviço do poder, de Jonathan Crary a Antígona traduziu Terra Queimada – Da era digital ao mundo pós-capitalista. E, entre muitos outros livros destaque ainda para um clássico do pensamento anarquista, Que é a Propriedade? de Proudhon nas Edições 70.

 

 

POESIA

Mário Cesariny – Antologia (Assírio & Alvim, org. Fernando Cabral Martins)

Mário Cesariny – Poetas do Amor, da Revolta e da Náusea (Assírio & Alvim, org. Fernando Cabral Martins)

António Porchia – Vozes (Língua Morta, trad. Nuno Azevedo)

Luiza Neto Jorge – Poesia (ed. Revista e aumentada por Fernando Cabral Martins e Manuele Masini, Assírio & Alvim)

Adília Lopes – Choupos (Assírio & Alvim)

Pedro Homem de Mello – Poemas 1934-1961 (Assírio & Alvim, ed. Luís Manuel Gaspar)

Horácio – Poesia Completa (Quetzal, trad. Frederico Lourenço)

Roberto Bolaño – Poesia Completa (Quetzal, trad. Carlos Vaz Marquez)

Rosa Maria Martelo – Desenhar no Escuro (Averno)

Margarida Vale de Gato – Mulher ao Mar e Corsárias (Mariposa Azual)

Helga Moreira – A Arte de Perder (Tinta da China)

Amadeu Baptista – Danos Patrimoniais. Antologia pessoal 1982-2022 (Afrontamento)

Alberto Pimenta – They` II Never Be the Same (Edições Saguão)

Cesare Pavese – Trabalhar Cansa (Penguin Clássicos, trad. Vasco Gato)

Fernando Guerreiro – Metal de Fusão (Black Sun Editores / 100 Cabeças)

José Amaro Dionisio, Helder Moura Pereira. Fátima Maldonado, F. Cabral Martins – Imperfeição (não) edições

Rita Taborda Duarte – Não Desfazendo (Imprensa Nacional)

Ernesto Sampaio – Luz Central (Maldoror/Língua Morta)

Maria da Graça Varella Cid – Poesia Incompleta (Tigre de Papel)

 

FICÇÃO

François Rabelais – Gargântua & Pantagruel (E- Primatur)

Gustave Flaubert – A Tentação de Santo Antão (Minotauro)

William S. Burroughs – Almoço Nu (Minotauro)

Rui Nunes – Neve, Cão e Lava (Relógio D` Água)

Gonçalo M. Tavares – As Botas de Mussolini (Relógio d` Água)

Gonçalo M. Tavares – Breves Notas sobre o Oriente (Relógio d` Água)

Joseph Conrad – Plantador de Malata (Sistema Solar)

Hélia Correia – Certas Raízes (Relógio D` Água)

Horace Walpole – Contos Hieroglíficos (Antígona)

Monteiro Lobato – Reinações de Narizinho (Tinta da China)

 

NÃO – FICÇÃO

Joaquim Manuel Magalhães – Poesia Portuguesa Contemporânea (Bestiário)

Byung Chul Han – Vida Contemplativa (Relógio d´Água)

Jonathan Crary – Terra Queimada – Da era digital ao mundo pós-capitalista (Antígona)

Joana Matos Frias – Oscilações (Ducumenta)

Josh Chin e Liza Lin – Estado de Vigilância (Relógio d´Água)

Robert Musil – Ensaios (Relógio d´ Água)

Joana Emídio Marques – Notícias do Bloqueio (Língua Morta)

Salvador Dali – Diário de um Génio (Sr. Teste)

Ian F. Svenonius – Contra a Palavra Escrita (Chili com carne)

Maria Filomena Mónica – Os Livros da Minha Vida (Relógio d´Água)

António Castro Caeiro – O que é a Filosofia? (Tinta da China)

João Barrento – Aparas dos Dias (Companhia das Ilhas)

Furio Jesi - Cultura de Direita (Edições 70)

Simon Sebag Montefiore – Mundo (Crítica)

António Vieira – Entrevista (Companhia das Ilhas)

Diogo Ramada Curto – Um País em Bicos de Pés (Edições 70)

José Gil – Morte e Democracia (Relógio d´Água)

Camilo Pessanha – China e Macau (Livros de Bordo)

Alexandra Lucas Coelho – Libano, Labirinto (Caminho)

Michel Eltchaninoff – Lenine Foi à Lua (Zigurate)

Roberto Calasso – O Cunho do Editor (Edições 70)

P-J Proudhon – Que é a Propriedade? (Edições 70)

(Em cima, intervenção sobre fotograma com Mário Cesariny)

 

 

 

sábado, dezembro 31, 2022

LIVROS EM 2022

 


1, A 24 de Fevereiro de 2022 a Rússia invadia a Ucrânia. Não era a primeira vez que a guerra eclodia na Europa depois de 1945, mas desta vez o ocidente (UE, Nato, EUA), não estava disposto a tolerar as ambições lunáticas de Putin. Nem os jornalistas a abdicar do modo monotemático dos telejornais: substituíram a covid pela guerra. O resultado é a divisão do mundo, de novo, em dois blocos, como durante a Guerra Fria. Os Estados Unidos, com Biden, em nada mudaram: são os polícias do mundo, estão a alimentar a guerra através da ajuda militar à Ucrânia de Zelensky. Parece que ninguém quer a paz. E os Ucranianos, incentivados pelo nacionalismo do fantoche Zelensky, são as vítimas disto tudo. Eles e os soldados russos. A Ucrânia é no início deste século o solo onde se joga uma perigosa e barbara partida de xadrez, onde não pode haver xeque-mate. E, em fundo, ecoa a ameaça nuclear. Ora esse facto, deu lugar na actividade editorial, à publicação de uma série de livros relacionados com o tema. Desde histórias da Rússia, biografias de Putin, à publicação de escritores ucranianos. 

2, Byung-Chul Han. Vivemos em certo sentido "tempos sombrios" (H. Arendt), marcados pela emergência climática, pelo avanço da extrema-direita, por um mundo onde a nossa relação com as coisas, os objectos, se torna cada vez mais virtual, e onde essa virtualização corresponde a uma exploração dos nossos dados por mecanismos mais ou menos secretos de Inteligência Artificial (IA), como o tem vindo a denunciar, numa analítica da actualidade, o filósofo germano-sul-coreano Byung-Chul Han. De Han a Relógio d' Água tem vindo a publicar a sua já extensa obra de pequenos livros - cerca de 100 páginas cada um - onde se procede a uma crítica e elucidação do tempo presente. Este ano publicou Não-Coisas e Infocracia. Ora estes livros, levantando o problema da virtualização das coisas, estão também a levantar o problema da virtualização da leitura. No que respeita aos jornais isso é evidente: são os próprios jornais que cada vez mais apostam nas suas edições on-line. Mais: como tinha previsto Mcluhan, estamos a caminho de uma sociedade oral, onde a leitura em silêncio acabará por desaparecer. São disso exemplo, já, a leitura áudio de artigos por máquinas de IA, como faz, por exemplo, a edição on-line do jornal Público. Mas também o word do windows 11 possibilita a leitura áudio de documentos da mesma forma. 

3, Centenários. 2022 foi o ano do centenário de nascimento de dois dos mais importantes escritores portugueses da segunda metade do século XX: José Saramago e Agustina Bessa-Luís. Foram também personalidades politicamente nos extremos. José Saramago, filho de pobres agricultores, tornou-se militante do PCP durante a ditadura do Estado Novo; depois do 25 de Abril, e durante o chamado "verão quente" de 1975, foi director-adjunto do Diário de Notícias, então nacionalizado. Os escritos de Saramago, no Diário de Notícias não constam das suas Folhas Políticas, livro que recolhe textos entre 1976 e 1998. Mas terá sido um período de efervescência em que o escritor José Saramago começou a nascer para a escrita que o viria a consagrar com o Nobel da literatura (é certo que já tinha publicado um romance e 3 livros de poemas). Do outro lado, completamente oposto, temos Agustina Bessa-Luís, filha de uma família burguesa. Incorporou o espírito familiar na defesa de um reaccionarismo  bastante patente na sua vasta obra, estranha e por muitos julgada de quase genial. A origem social foi marcante para a obra destes dois escritores tão antagónicos. Mas no caso de Agustina, a sua defesa de classe torna-se por vezes enervante. A utilização da palinódia, esse dizer e desdizer, fazer e desfazer verbal; o aforismo, em que a escritora de Amarante foi prolifica, serviram sempre uma causa extremamente conservadora, escandalosa por vezes, como a caracterizou Eduardo Prado Coelho em A Noite do Mundo. Recorde-se um episódio sintomático: depois da SPA ter atribuído um prémio literário a Luandino Vieira, a PIDE destruiu a sede da SPA; Óscar Lopes escreveu a Agustina - entre outros escritores - para tomarem uma posição publica, mas a autora de A Sibila declinou qualquer compromisso. Agustina vivia num "mundo fechado" (título do seu primeiro livro) que não reconhecia a existência do outro - nisso, creio, reside o "escândalo" a que aludia EPC. Já o Saramago que terá participado dos saneamentos de trabalhadores do DN, fá-lo no período de uma efervescência revolucionária. 

Mas este ano de 2022 também foi o ano do centenário do nascimento de Pier Paolo Pasolini. Cineasta, dramaturgo, romancista, poeta, ensaísta, Pasolini foi sobretudo alguém polémico no meio intelectual italiano. Polémico porque lúcido, polémico porque pensava por si, fora de qualquer categoria de adestramento ideológico, porque sendo comunista, homossexual e católico era já o bastante para desarrumar as etiquetas que não lhe conseguiam colar. Por isso, também, incómodo. Pasolini é, ao mesmo tempo o realizador do filme Evangelho Segundo S. Mateus e o autor do romance Vida Violenta; o autor do filme Saló ou os 120 Dias de Sodoma onde denúncia o fascismo italiano de Mussolini e o que também existia de fascista, avant la lettre na obra de Sade; é contra o aborto e denuncia o desaparecimento dos pirilampos como signo do capitalismo e das luzes eléctricas que avançam pelo espaço da noite. De Pasolini foi este ano editado pela VS Entrevistas Corsárias - sobre a política e a vida, A Poesia é uma Mercadoria Inconsumível (Sr. teste) e O Odor da Índia (Desassossego) - relato de uma viagem à Índia na companhia de Alberto Moravia e Elsa Morante. João Oliveira Duarte publicou um glossário em forma de ensaio sobre temas pasolinianos: Não Sou da Família - Notas Sobre Pasolini (BCF Editores). Recorde-se que Pasolini seria assassinado a 2 de Novembro de 1975 na praia de Óstia, por um ragazzo di vita. Em homenagem a Pasolini os Coil compuseram esta magnifica canção, precisamente intitulada Ostia.

De Marcel Proust, o autor de um dos grandes romances do século XX, esse imenso Em Busca do Tempo Perdido (a tradução para português europeu é de Pedro Tamen e está publicada na Relógio d' Água), comemoraram-se este ano os 100 anos do falecimento. Por cá em silêncio total. Outro dos mais referenciados como grande romance do século XX, ou de sempre, é Ullises de James Joyce - livro quase intragável que comemorou este ano o centenário da sua primeira edição. A Relógio fez uma edição especial da tradução de Jorge Vaz de Carvalho, enquanto a Livros do Brasil reeditou a tradução de João Palma-Ferreira.

4, Pessoa. Fernando Pessoa continua a assombrar a literatura portuguesa e não só. Este ano publicaram-se duas biografias do poeta dos heterónimos: de Richard Zenith, um dos principais estudiosos e editor da obra pessoana, foi traduzida para português a sua monumental biografia de Fernando Pessoa - Pessoa. Uma Biografia (Quetzal) que foi finalista do Prémio Pulitzer. A outra biografia de Pessoa, é da autoria de João Pedro Gorge - O Super-Camões. Biografia de Fernando Pessoa (D. Quixote) - foi menos referenciada. João Pedro George é autor de biografias de Luiz Pacheco, da Marquesa de Paiva ou de Mota Pinto, o presidente do PSD que nos anos 80 formou governo com o PS de Mário Soares. A biografia de João Pedro George é também a segunda feita por um autor português, mais de 70 anos depois de João Gaspar Simões escrever a primeira biografia de Pessoa. Na verdade, descontando uma biografia feita por um brasileiro, há poucos anos, e que os pessoanos rejeitaram como pouco séria, existiam apenas duas biografias sobre Fernando Pessoa: a de Gaspar Simões e a de Robert Bréchon publicada nos anos 1990. 2022 foi o ano em que apareceram mais duas. Pessoa é tido, por uma ideia generalista, como quase não tendo biografia; o que viveu, os seus pensamentos, estão em fragmentos dentro da famosa arca. Em parte isto será verdade: se Wittgenstein poderia referir como o melhor da sua obra tudo o que não escreveu (mas pensou, ou mesmo verbalizou), já Pessoa parece ter apontado quase tudo o que pensou. E nenhuma biografia pode ultrapassar essa grande obra que é o Livro do Desassossego, onde existem resquícios auto-biográficos. Mas a vida de Pessoa vai para além da sua escrita, do seu "texto" que ele deixou para que outros o fixassem. E é nesse labirinto pessoano, quase um palimpsesto, que Pessoa continua vivo, nas múltiplas variantes dos seus textos, a "obra" pessoana é sempre incompleta.    

5. Pessoa, o Prémio. O Prémio Pessoa é atribuído desde 1987 pelo semanário Expresso. Tem galardoado poetas, escritores, cientistas, historiadores, artistas, juristas, arquitectos, etc. A lista já é longa e inicia-se com José Mattoso (em 1987). Como poetas o prémio foi entregue a António Ramos Rosa (1988), Vasco Graça Moura (1995), Manuel Alegre (1998), Mário Cláudio (2004) e - única rejeição - a de Herberto Helder (1994). Agora, em 2022 o júri entendeu voltar a atribuir o prémio a um poeta e escolheu... João Luís Barreto Guimarães. É simplesmente uma escolha que não se percebe - embora o júri, sempre presidido por Francisco Pinto Balsemão, não pareça perceber muito de poesia, tem entre os seus elementos a ex-crítica literária Clara Ferreira Alves. Qualquer que seja a lógica do prémio (galardoar consagrados ou pessoas de quem se espera que "ofereçam obras" á sociedade), o nome de Barreto Guimarães aparece no fim de uma lista onde há muitos outros poetas que mereciam o prémio. E nisso é bom não esquecer poetas como António Franco Alexandre, José Agostinho Baptista, João Miguel Fernandes Jorge, Paulo da Costa Domingos, Fátima Maldonado, Nuno Júdice, entre outros, que iniciaram a publicação da sua obra na década de 70. Mas se o júri queria dar o prémio a alguém que por várias razões o merece, mesmo porque pertence à geração de Barreto Guimarães, a dos poetas dos anos 80, tinha dois nomes: Adília Lopes ou Carlos Poças Falcão. Adília é já um nome incontornável na poesia portuguesa, precisamente pela sua aparente apoeticidade, por uma poesia da imanência que sobrevaloriza - e bem - a vida à obra. Já Carlos Poças Falcão, poeta também dos anos 80, é um poeta extremamente discreto que só a reunião da sua poesia completa, em 2012, com Arte Nenhuma (republicada com acrescentos em 2020 pela Língua Morta) pôde dar uma visão geral da obra deste poeta que está entre os melhores da poesia portuguesa actual. J. L. Barreto Guimarães é apresentado como poeta tradutor e médico; vive no Porto e há anos que com Jorge de Sousa Braga edita o blogue Poesia Ilimitada.  Aliás Sousa Braga, que também é médico (obstetra) e vive no Porto, seria um nome com mais notabilidade para receber o prémio Pessoa, mas o júri talvez não quisesse entregar o prémio a um poeta que é autor de um livro intitulado De Manhã Vamos Todos Acordar Com Uma Pérola no Cu  (Fenda, 1983). Note-se ainda que, embora sem nenhuma formação académica para o efeito, Barreto Guimarães lecciona no curso de medicina do ICBAS, uma cadeira de poesia. No entanto, a sua poesia, por vezes, adentra-se numa perigosa ironia que uma leitura literal (e onde começa a ironia e acaba a literalidade?) pode chocar com a deontologia da sua profissão.

Enfim, há nos prémios que concernem ao campo literário sempre uma injustiça. Neste caso, do Prémio Pessoa, é de lembrar que Fernando Pessoa quando concorreu com a Mensagem a um prémio de poesia ficou em segundo lugar. Do vencedor ninguém sabe hoje o nome. Um outro prémio literário bastante discutível é o Nobel da literatura, que este ano foi para a francesa Annie Ernaux. Mas o Nobel da literatura tem já as suas regras, que alguns ingénuos teimam em não perceber. Para já, uma regra clara é a equidade de género (ou quotas literárias): um ano um homem, no outro uma mulher.

6, Vejamos agora os livros publicados em 2022, dos quais fiz uma selecção dividida por géneros. No que respeita à poesia, parto de uma citação de António Guerreiro, no suplemento Ípsilon do Público de 23-12-22: "o que a poesia contemporânea tem de mais importante deixou de ser maioritariamente assinado por nomes masculinos" (p.14). De facto, isso é hoje uma evidência, cujo diagnostico é um pouco tardio: a década de 2010 é já marcada pelo aparecimento de algumas poetas e o consolidamento de outras. A par disso dá-se um desvanecimento de uma poesia do quotidiano ou do real (e o gesto radical de Joaquim Manuel Magalhães em Um Toldo Vermelho, também é disso sintomático), que a antologia Poetas Sem Qualidade, organizada por Manuel de Freitas, constituiu um marco. Nomes como Andreia C. Faria, Raquel Nobre Guerra, Margarida Vale de Gato, Cláudia R. Sampaio ou Elisabete Marques (para só nomear autoras que publicaram este ano e constam desta lista), trouxeram uma inflexão á poesia portuguesa, que genericamente parte de um abandono da poesia do real. Nomes como Isabel de Sá (ou Eduarda Chiote), voltaram a publicar depois de anos sem publicar. No caso de Isabel de Sá, publicou a sua poesia reunida (pela segunda vez depois de Repetir o Poema - Quasi, 2005 - e do inédito O Real Arrasa Tudo, em 2019). Trata-se de uma obra das mais singulares da poesia portuguesa, que tem sido esquecida. Desta constelação de mulheres poetas - ou poetisas - assinale-se ainda Adília Lopes, nome cimeiro da poesia actual que este ano publicou o livro Pardais. Um dos poetas mais esquecidos da poesia portuguesa contemporânea é Rui Diniz, que no início da década de 70 publicou Ossuário. Este ano, cerca de 50 anos depois, publicou Ossos de Sépia. Registe-se ainda a reedição da poesia de António Gancho na Assírio & Alvim, editora que apostou para calhamaço do ano na obra completa de Paul Celan, um dos grandes poetas do século XX, cuja poesia é marcada pelo Holocausto.

No que respeita à ficção, assinalem-se três autores malditos: Michel Houllebecq, Thomas Bernhard e Jean Genet. Este último, tem andado arredado da edição em Portugal, pelo menos desde que a Hiena o públicou. António Lobo Antunes publicou, aos 80 anos, O Tamanho do Mundo (D. Quixote). De George Orwell foram publicados mais dois romances (Emergir Para Respirar - Relógio d' Água - e História de Um Homem Comum - E-Primatur). Orwell é de facto um autor fundamental para os tempos que atravessamos, e a edição portuguesa tem feito jus a esse facto, editando quase toda a obra do autor de 1984.

Quanto ao ensaio a colheita foi boa e abundante. Destaque-se o primeiro volume dos Ensaios de Montaigne publicado pela E-Primatur e os 48 Ensaios de Virginia Woolf. Para além dos livros de Byung-Chul Han, outros títulos colocam-nos questões. É o caso do título de Angela Davis editado pela Antígona: As Prisões Estão Obsoletas? Mas, também, do Livro do Clima organizado por Greta Thunberg. Noutro registo, Miguel Esteves Cardoso recuperou a sua Escrítica Pop e as crónicas que escreveu no Independente. Livros de Foucault (o seminário sobre essa categoria da psiquiatria e da biopolítica que foram Os Anormais), de Agamben sobre o período da loucura de Holderlin, de Deleuze sobre Proust em ano do seu centenário. Federico Bertolazzi com No Reino da Terrível Pureza (Documenta) interroga a edição da obra de Sophia. Para o autor, Sophia tem estado a ser censurada por uma série de artigos que ela publicou na imprensa não terem sido editados em livro. 

A mancha gráfica de um livro nem sempre é constituída por palavras. Por vezes surgem as imagens, ou quase só imagens. Estão neste caso os livros de Banda Desenhada ou novelas gráficas. Por isso faço referência a 3 livros nesta lista: a Obra Gráfica de Mário Henrique Leiria (que completa a edição das suas obras completas editadas na E-Primatur), a reedição da reportagem gráfica Palestina da autoria de Joe Sacco, e de Reinhard Kleist uma obra gráfica sobre Nick Cave. E, ainda, um livro de fotografia de um dos grandes foto-repórteres portugueses: Alfredo Cunha, publicado na colecção Ph da Imprensa Nacional com textos de António Barreto e David Santos. Esta é uma excelente colecção de fotografia, onde já foram publicados livros de Jorge Molder, Paulo Nozolino ou José M. Rodrigues com textos de José Bragança de Miranda, Rui Nunes ou Maria Filomena Molder.

7, Editoras. Basta olhar para a lista, para encontrar algumas pequenas e médias editoras, fora dos grandes grupos (Porto Editora, Leya), que, penso, melhor têm editado. É o caso da Antígona, Relógio d' Água, Tinta da China, Documenta ou E-Primatur - entre as médias editoras - e da Barco Bêbado, Sr, Teste, Língua Morta, Saguão, Dois Dias ou BCF Editores entre as pequenas editoras. O grupo Almedina, a que pertence a bastante activa Edições 70, tem feito um excelente trabalho editorial que dignifica esta chancela com quase 50 anos de existência.


POESIA

Adília Lopes - Pardais (Assírio & Alvim)
Isabel de Sá - Semente em solo adverso (Officium Lectionis)
Andreia C. Faria - Canina (Tinta da China)
Raquel Nobre Guerra - A divisão da alegria (Tinta da China)
Cláudia R. Sampaio - Uma mulher aparentemente viva (Porto Editora)
Rui Diniz - Ossos de sépia (Língua Morta)
Rui Baião - Motim (Barco Bêbado, c/ posfácio de Rui Nunes)
Paulo da Costa Domingos - Na sombra da quinta vertical (Barco Bêbado)
Paul Celan - Os Poemas (Assírio & Alvim, trad. Mª Teresa Dias Furtado)
J. W. Goethe - Os Poemas (Edições 70)
F. Nietzsche - Poemas (Edições 70)
Horácio - Odes e epodos (Tinta da China)
Robert Walser - Estou só e fora do mundo: 50 poemas (Sr. Teste)
Margarida Vale de Gato (org. e trad,) - O outono de oitocentos (Flop)
Elisabete Marques - Estranhos em casa (Língua Morta)
José Afonso - Obra Poética (Relógio d' Água)
Vítor Silva Tavares - Poemas de amor e ódio (Barco Bêbado)
António Gancho - O ar da manhã (Assírio & Alvim, reed.)
José Carlos Soares - Medição dos Arvoredos (Alambique)

FICÇÃO
Michel Houllebecq - Aniquilação (Alfaguara)
Thomas Bernhard - Geada (Dois Dias Editora)
Jean Genet - Diário do Ladrão (Minotauro)
Geoffrey Chaucer - Contos de Cantuária (E-Primatur, trad. Daniel Jonas)
Thomas Carlyle - Sartor Resartus (Imprensa Nacional)
Henrich von Kleist - Estranha profecia e outros textos (E-Primatur)
Isaac Asimov - Eu, Robô (Relógio d' Água)
Woody Allen - Gravidade zero (Edições 70)
George Orwell - Emergir para respirar (Relógio d' Água)
George Orwell - História de um homem comum (E-Primatur)
Gonçalo M Tavares - O diabo (Bretrand)
António Lobo Antunes - O tamanho do mundo (D. Quixote)
Raquel Gaspar da Silva - A pedra é mais bela que o pássaro (Caixa Alta)
Dulce Garcia - Olho da rua (Companhia das Letras)
João Reis - Cadernos da água (Quetzal)

ENSAIO
Virginia Woolf - 48 Ensaios (Relógio d' Água)
Michel de Montaigne - Ensaios (E-Primatur)
Byung-Chul Han - Infocracia (Relógio d' Água)
Byung-Chul Han - Não-Coisas (Relógio d' Água)
Greta Thunberg (org.)- O Livro do Clima (Objectiva)
Critical Arte Ensemble - Desobediência civil electrónica e outras ideias impopulares (Barco Bêbado)
Angela Davis - As prisões estão obsoletas? (Antígona)
Michel Foucault - Os anormais (Edições 70)
Giorgio Agamben - A loucura de Holderlin (Edições 70)
Gilles Deleuze - Proust e os signos (Barco Bêbado)
J. W. Goethe - A metamorfose das plantas (Saguão, trad. Maria Filomena Molder)
Miguel Esteves Cardoso - Escritica pop (Bertrand)
Miguel Esteves Cardoso - Independente demente (Bertrand)
André Barata - Para viver em qualquer mundo (Documenta)
Fernando Rosas (coord.) - Revolução Portuguesa 1974-75 (Tinta da China)
António Araújo - O mais sacana possível - a revista Almanaque (Tinta da China)
Rosa Maria Martelo - Devagar, a poesia (Documenta)
Frederico Pedreira - Um virar de costas sedutor (Relógio d' Água)
AA VV - Sobre Sophia: novas leituras (Assírio & Alvim)
Federico Bertolazzi - No reino da terrível pureza (Documenta)
João Oliveira Duarte - Não sou da família. Notas sobre Pasolini (BCF)
Luís Varela Aldemira - Arte e psicanálise (Taiga)
S. Kierkegaard - Diário de um sedutor (Sr. Teste)
David Graeber e David Wengrow - O príncipio de tudo - uma nova história da humanidade (Bretrand)
Carlo Rovelli - O Abismo vertiginoso (Objectiva)
Susan Sontag - Contra a interpretação (Quetzal)
Elena Ferrante - As margens e a escrita (Relógio d' Água)
Carlos Taibo - Ibéria esvaziada (Livraria Letra Livre)
Luís Mateus - O campeonato do mundo (Kathartika)

OUTROS. BIOGRAFIA, DIÁRIO, VIAGENS, NOVELA GRÁFICA
Richard Zenith - Pessoa. Uma biografia (Quetzal)
João Pedro George - O Super-Camões, biografia de Fernando Pessoa (D. Quixote)
Benjamin Moser - Sontag: vida e obra (Objectiva)
Witold Gombrowicz - Diário II (1959-1969) (Antígona)
Fernando Pessoa - Diário e escritos autobiográficos (Assírio & Alvim)
Pier Paolo Pasolini - O odor da Índia (Desassossego)
Alberto Moravia - Cartas do Sahara (Tinta da China)
Walter Benjamin - Diários de Viagens (Assírio & Alvim)
Mário-Henrique Leiria - Obra gráfica (E-Primatur)
Joe Sacco - Palestina (Tigre de Papel)
Reinhard Kleist - Nick Cave: Mercy on Me (Minotauro)