MEIA-LUZ
MEIA-LUZ
In Adeus, Campos Felizes – Antologia do campo na poesia portuguesa do século XIII ao século XXI, selecção e ensaio de Rui Lage, Assírio & Alvim, Porto, 2025, p. 171.
1, Durante os últimos meses, o
ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho andou de aparição pública em aparição
pública como a virgem Maria em Fátima. E os média iam atrás dele, “bebendo”
sofregamente das suas palavras sibilinas, como se tratasse de um profeta. Mas não
é. Passos Coelho faz parte de um dos períodos mais negros da história de
Portugal depois do 25 de Abril. É o tempo da troika, em que Portugal perdeu a
independência quer a nível económico, quer político. Sem entrar fundo no que
penso que foram esses tempos, direi que a democracia foi suspensa durante esses
tempos sádicos. A palavra, creio que é precisa: existia um sadismo político por
parte da troika (que emprestou dinheiro a Portugal, fazendo exigências de
carácter político), que teve um excelente acolhimento no governo PSD/CDS, que,
então, nas palavras de Passos Coelho, quis ir além das medidas da troika. Não
sei o que aconteceu a muita gente que por essa altura perdeu o emprego, o que
levou a que não pudesse continuar a pagar a prestação da casa ou do carro ao
banco. O sadismo de Passos Coelho via-se em medidas como a apresentação
obrigatória, na Junta de Freguesia, dos beneficiários do subsídio de
desemprego.
2, Por essa altura, com menos cabelo, era
Luís Montenegro o líder da bancada social-democrata. Creio que o sadismo de
Passos Coelho nunca perdoou que Montenegro não fosse um continuador do passismo.
Daí as aparições públicas de Passos, e uma eventual candidatura à liderança do
PSD (para se aliar com o Chega) ou à presidência da República. O certo é que
das falas sibilinas, Passos passou ao ralhete com o seu ex-líder da bancada
parlamentar. E parece que teve algum êxito. A ministra do Trabalho e Segurança
Social, preparou duas medidas à medida do sadismo político de Passos: uma nova
lei (ou pacote) laboral e a unificação de 13 prestações sociais numa única só,
chamada PSU (Prestação Social Única).
3, O pacote laboral há meses que andava a ser
discutido, sendo alvo de duas greves gerais. Mas não foi a contestação de rua,
organizada pela UGT e CGTP que fez cair a reforma laboral defendida pelo
governo de Montenegro. Foi o Chega, cujo líder – uma criação de Passos Coelho –
à última hora resolveu votar contra. Veja-se que o voto contra da esquerda,
onde se inclui o PS, e os partidos de esquerda mais ou menos residuais (PCP,
Livre, BE, PAN) em nada podia derrotar o pacote laboral se o Chega votasse a
favor. A questão é, portanto, porque razão votou o Chega com a esquerda, e, que
consequências tem esse voto para a esquerda. Creio que a resposta está na
análise dos resultados eleitorais de distritos como Beja, onde o PCP era, desde
o 25 de Abril, o principal partido, e nas últimas eleições perdeu esse lugar
para o Chega. Ou seja, há votos do Chega, partido de extrema-direita, que
vieram de eleitores do PCP. Torna-se necessário compreender o que está por
detrás desta dinâmica de transferência de voto, para compreender o fenómeno da
extrema-direita em Portugal, e como a esquerda se tornou residual. Se a
esquerda continuar a negar a realidade (como mostra o Avante!), corre o sério
risco de desaparecer por completo (refiro-me aqui à esquerda “histórica”, PCP e
Bloco).
4, A outra medida que parece fabricada pela
ministra Rosário Palma Ramalho para agradar ao sadismo de Passos, é a PSU
(Prestação Social Única). Trata-se da reunião de 13 prestações, como o rendimento
social de inserção (RSI), subsídio de desemprego, a pensão social de invalidez
e outras dez do regime não contributivo, numa única só. Dois problemas surgiram
logo com esta nova modalidade de prestação: a obrigatoriedade de trabalho
comunitário de 15 horas por semana por parte dos beneficiários, e um canal de
denúncias para as situações de aproveitamento alegadamente indevido desta
prestação. Esta medida, que tem prioridade dado que resulta de uma exigência da
UE, no quadro do PRR, para a atribuição de um cheque de 600 milhões de euros,
faz em tudo lembrar as medidas do governo de Passos Coelho/Troika, da qual a
União Europeia também fazia parte. Note-se que esta medida podia, como o pacote
laboral, ser aprovada pela direita – PSD, Chega e IL. Mas, o PS quis
aproximar-se do governo para, alegadamente, evitar o canal de denúncias,
enquanto que o Chega queria cinco anos de residência em Portugal para que os
imigrantes beneficiassem dos apoios.
5, Resulta daqui uma evidência: o PS de José
Luís Carneiro concorda e apoia uma medida que obriga os beneficiários de
rendimentos como o RSI a fazer trabalho obrigatório. É bom que se diga, que
este trabalho obrigatório em favor da comunidade é, por vezes, em determinados
casos e ordenamentos jurídicos, uma pena decretada por um juiz para pequenos
crimes. Assim como, a já referida medida do governo PSD/Troika dos
beneficiários do subsídio de desemprego se apresentarem periodicamente nas
Juntas de Freguesia, era uma medida que imitava o Termo de Identidade e
Residência (TIR) aplicado aos arguidos por um juiz. O que está em causa aqui é a
forma como são tratados os mais pobres, os mais vulneráveis, para quem a
sociedade devia de ter um dever de solidariedade, serem tratados como
criminosos. E isso, mais uma vez na história da democracia portuguesa é grave.
Mas mais grave é que esta medida tenha sido apoiada pelo PS. Esse apoio, a uma
medida desumana, a ausência de tentativa de negociação com o governo,
demonstram que o PS se está a colar à direita que governa. Ora, se a esquerda a
que alegadamente pertence o PS, se cola à direita, o que sobra da esquerda? Quatro
partidos com grupos parlamentares residuais? Ou nem isso.
No meu tempo
jogava-se apenas por desporto. Era uma brincadeira. Jogava-se apenas entre
pessoas que já mantinham uma relação de amizade e cortesia. Tínhamos todos
condição e educação aproximadas. Não havia luta. O futebol era um divertimento
próprio da idade. Não se falava nem sonhava em futebol de campeonato e, menos
ainda, de profissionalismo. Era tudo diferente. Depois a enorme expansão que o
futebol tomou, alargando-se a todas as camadas sociais, devia, evidentemente,
diminuir mais ou menos o verdadeiro espírito desportivo que requer uma cultura
e uma educação que, infelizmente, não existe nas camadas populares (…) Eu
exorto os rapazes de hoje a serem, em tudo, como os rapazes do meu tempo: gentlemen
no campo e fora dele. O sport quer dizer isso mesmo”
Gulherme Pinto Basto, o "pai" do futebol em Portugal, em declarações ao jornal O Século (21-3-1938) por altura das comemorações do 50º aniversário da introdução do futebol em Portugal. (in A Paixão do Povo, de João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro, ed. Afrontamento)
Em cima, fotografia do primeiro jogo de futebol realizado em Portugal continental, em 1888, em que Guilherme Pinto Basto e outros membros da família Pinto Basto participaram.
TU ÉS MAIS BRANCA DO QUE O CISNE
OFERENDO UM ESPELHO
Envio-te um espelho precioso:
em seu alto horizonte faz surgir
o teu rosto, lua de bom presságio.
Desse modo, justamente,
apreciarás a tua formusura
e desculparás a paixão
que me consome.
Ai, sendo furtiva, a tua imagem
é mais acessível que tu mesma,
mais benevolente
e melhor cumpridora de promessas!
In Ladrões de Prazer – poemas arábigo-andaluzes,
Editorial Estampa, Clássicos de Bolso, tradução de Fernando Couto, 1991, p. 39
1, A 28 de Abril do agora findo ano, cerca
das 11h00 ocorre um estranho corte de energia eléctrica. Uma consulta a sites
de informação na internet revelava algo de inusitado: Portugal, Espanha e uma
parte de França estavam sem electricidade. Por volta das 21h00, quando já os
sites de internet não estavam a funcionar na sua maioria, e os telemóveis
ficavam sem bateria, a electricidade foi reposta. Mas se não fosse? Se o
chamado “apagão” durasse 1, 2, 3 dias, ou uma semana? Ou mais? O apagão veio
revelar a vulnerabilidade e dependência da sociedade em que vivemos perante não
só a electricidade, mas também perante o mundo digital. Atirou-nos para um
outro tempo, em que não existia electricidade, muito menos este mundo digital,
onde escrevo este texto. Era um mundo que a esmagadora maioria não conheceu. Um
mundo de tempo lento, de respeito pelos ritmos circadianos, onde esses
pirilampos evocados por Pasolini podiam iluminar a noite obscura, sem a
concorrência desleal da luz eléctrica. Nesse mundo, os livros, a literatura, o
pensamento, faziam mais sentido – foi também na “noite do mundo” à luz de velas
que a grande literatura e as grandes ideias nasceram. Mas era um tempo agreste
para o corpo. No entanto, garanto que sei de quem vive ainda à luz de velas.
2, A 16 de Março de 1825 nascia em Lisboa
Camilo Castelo Branco. Um nascimento que parece acidental, já que o autor de “Romance
de um homem rico”, entre milhares de páginas escritas, retratou o universo
nortenho, com um vocabulário luxuriante, já perdido no falar do dia-a-dia. É
esse vocabulário, que já não encontra dicionários, que o distingue e talvez
eleve, a par de uma ironia mordaz, acima de um Eça de Queiróz. Este ano, foi,
portanto, altura de celebrar o bicentenário de Camilo.
3, O panorama editorial português é cada vez
mais dominado pelo grupo Porto Editora. De tal forma que está dividido em dois:
o grupo Porto Editora propriamente dito, e o grupo Bertrand, que foi adquirido
pela Porto Editora em 2010. Deste último fazem parte as editoras Quetzal,
Pergaminho, Temas e Debates, Contraponto, Arteplural, 11x17 e Círculo de
Leitores. A Bertrand tem também a marca das livrarias de rua ou de centro
comercial. Este ano, a livraria Latina, do Porto, no início da Rua de Santa
Catarina, que pertencia à Leya, foi adquirida pelo grupo Bertrand. Do outro
lado, estão as pequenas editoras como a Bestiário, Saguão, 7 nós, Letra Livre,
100 cabeças, Língua Morta, Maldoror, Averno, Sr. Taste, entre outras, que
praticam conjuntamente com algumas livrarias “alternativas” ou “independentes”
como a Utopia, Flâneur, Poetria (no Porto), Livraria Letra Livre, Snob (em
Lisboa), uma certa resistência. No meio, aparecem grupos como a Almedina, a
Pinguin Random House, e editoras como a Relógio d’ Água.
4, Da lista de livros abaixo, que é mais uma
lista de desejos e arquivo que de livros lidos, faço alguns destaques. Na
poesia para três antologias: “Adeus, campos felizes” de Rui Lage, tenta
recuperar um território e uma geografia humana em desaparecimento; Graça
Videira Lopes foi ao Cancioneiro de Garcia de Resende recuperar uma poesia de
antanho que não celebrava o pathos da derrota e do niilismo, mas um
lirismo que se perde; António Maria Lisboa é um poeta com pouca fortuna
editorial e não só, a que a edição em livro de bolso da Pinguin, não ajuda,
principalmente nos poemas visuais. Destaco ainda, ou sobretudo, o número 42 da
revista Relâmpago (com data de Dezembro de 2024, mas distribuído em Março de
2025) sobre a “poesia portuguesa de agora”, coordenado por Fernando Pinto do
Amaral e Ricardo Marques que incluiu uma selecção de 11 poetas e alguns ensaios
– o que não parece ser suficiente para traçar os diversos mapas que constituem
a poesia “de agora”. Liberato, músico e poeta, publicou em edição de autor o
pequeno livro “Cá, nesta terriola”, de forte pendor político. Realce ainda para
a reedição da obra (poética e ensaística) de Alberto Pimenta pela 7 Nós e
Saguão e para o terceiro volume da obra – finalmente – completa de António
Ramos Rosa. Um outro poeta maior da poesia portuguesa dominou a não-ficção: a
biografia de Herberto Helder por João Pedro George. O calhamaço, de mais de 800
páginas, recolhe um trabalho de anos do autor, que ouviu pessoas próximas do
poeta, como a sua companheira Olga. Se em vida o poeta sempre recusou aparições
públicas, celebrizando a frase, “Meu Deus, faz de mim um poeta obscuro”,
questiona-se a facilidade com que o autor de “Se eu quisesse enlouquecia”
obteve os depoimentos – não serão uma traição à memória do autor Photomaton
& Vox? Duas cartas escritas por Gunter Anders, marido de Hannah Arendt, aos
filhos biológicos do nazi Adolf Eichmann, editadas pela Antígona sob o título “Nós,
filhos de Eichmann”, colocam a enfase na teoria defendida por Arendt nas
reportagens que fez sobre o julgamento do nazi: na “banalidade do mal” qualquer
um de nós pode ser um Eichmann. Destaque-se ainda dois livros de José Gil
(Pontas Soltas I e II) e uma entrevista conduzida por Marta Pais Oliveira ao
filósofo. De Carlo Michelstaedter, filósofo italiano precocemente suicida, a Companhia
das Ilhas publicou Retórica e Persuasão, a sua única obra. E para terminar as
referências à não-ficção, mais uma biografia, desta vez de Egas Moniz, por
Paulo M. Morais, que em A Glória Efémera segue a vida de uma personalidade que
acabou por se tornar tenebrosa ao criar a lobotomia. Na ficção, foi este ano,
traduzido para português, um romance que denúncia certas práticas da
psiquiatria, “Voando sobre um ninho de cucos” (ed. original de 1962) de Ken
kesey (Livros do Brasil) e que Milos Forman tornaria famoso ao adaptá-lo para o
ecrã cinematográfico, em 1975. De Julio Cortazar, escritor determinante da
literatura argentina, a Cavalo de Ferro publicou os seus Contos Completos, em
dois grossos volumes, que passaram despercebidos.
Uma nota final para o fecho do Jornal de
Letras. Durante quase 45 anos, desde 1981, dirigido sempre por José Carlos
Vasconcelos, foi um elemento imprescindível para a compreensão e divulgação das
actividades culturais em Portugal, e não só.
POESIA
AA VV – Relâmpago, nº 42 – Poesia portuguesa
de agora (Fund. Luís Miguel Nava)
António Ramos Rosa – Obra Poética III
(Assírio & Alvim)
Rui Lage (org.) – Adeus, campos felizes –
Antologia do campo na poesia portuguesa do século XIII ao século XXI (Assírio
& Alvim)
Graça Videira Lopes (ed.) – Cousas de folgar
e gentilezas. (Assírio & Alvim)
Alberto Pimenta – Tetraphármakos (Caixa + 4
livros) (7 Nós)
Fernando Guerreiro – A Sagrada Família
(Bestiário)
Arthur Rimbaud – Poesia (Assírio & Alvim)
Liberato – Cá, nesta terriola (edição do
autor)
António Maria Lisboa – Uma poesia extrema
(Pinguin Clássicos)
Nunes da Rocha – Estudos literários &
outras divagações de uso (Averno)
Nunes da Rocha – Real quotidiano (1957-1974)
(100 Cabeças)
Daniel Jonas – Idade da perda (Assírio &
Alvim)
Luís Quintais – A destruição do tempo
(Assírio & Alvim)
Afonso Lopes Vieira – Poesia (E-Primatur)
NÃO-FICÇÃO
João Pedro George – Se eu quisesse
enlouquecia – biografia de Herberto Helder (Contraponto)
Carlo Michelstaedter – Persuasão e retórica
(Companhia das Ilhas)
Gunter Anders – Nós, filhos de Eichmann
(Antígona)
José Gil – Pontas Soltas I (Relógio d’ Água)
Marta Pais Oliveira – A última lição de José
Gil (Contraponto)
Jean Baudrillard – América (Língua Morta)
Paulo M. Morais – A glória efémera –
biografia de Egas Moniz (Contraponto)
AA VV – Habitats internos – conversas com
psicanalistas (VS)
António Branco Vasco / Mariana S. – Crónicas
de uma psicoterapia (Taiga)
Carlos Mendes de Sousa – No caminho da poesia
(Documenta)
Pedro Eiras – Constelações 4 – Ensaios
comparatistas (Afrontamento)
Alberto Pimenta – O silêncio dos poetas
(Saguão)
Yanis Varoufakis – Tecno-feudalismo
(objetivamente)
FICÇÃO
Julio Cortazar – Contos completos (vol. 1 e
2) (Cavalo de Ferro)
Gonçalo M. Tavares – O fim dos Estados Unidos
da América
Rui Manuel Amaral – Zov (Snob)
Lásló Krasznahorkai – Herscht 07769 (Cavalo
de Ferro)
José Rodrigues Miguéis – Leah e outras
histórias (Assírio & Alvim)
Miranda July – De quatro (Quetzal)
Ken Kesey – Voando sobre um ninho de cucos
(Livros do Brasil)
AA VV – Antologia de contos humorísticos e
satíricos russos (Tinta da China)
NINGUÉM MEU AMOR
Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nos conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos
Sebastião Alba, in Rosa do Mundo – 2001
poemas para o futuro, Assírio & Alvim, 2001, pp.1793-94
Sebastião Alba (1940-2000), pseudónimo de
Dinis Albano Carneiro Gonçalves, nasceu em Braga, indo viver para Moçambique
onde iniciou a sua actividade literária. Em 1983 regressa a Portugal. Foi jornalista, guerrilheiro, esteve internado em hospitais psiquiátricos e viveu na rua. Em A
Noite Dividida (Assírio & Alvim, 1996) reúne três livros: dois já
publicados e um inédito. Em 2023, na Imprensa Nacional é publicado Todo o Alba,
volume que colige a obra edita e inédita do poeta.