TU ÉS MAIS BRANCA DO QUE O CISNE
TU ÉS MAIS BRANCA DO QUE O CISNE
1, 2023 foi
o ano em que o Ministério Público (MP) levou à demissão do governo de António
Costa. Depois do ano ter começado com uma série de casos & casinhos que
envolviam membros do governo, o golpe final foi dado em Novembro, quando a
polícia entrou na residência oficial do primeiro-ministro e um comunicado do MP
colocava Costa como suspeito. O primeiro-ministro demitiu-se nesse mesmo dia.
Um mês antes, no Médio Oriente, o Hamas, num ataque terrorista, matava cerca de
mil israelitas e fazia mais de 200 reféns. A resposta do governo de Benjamin
Netanyahu foi uma acção de guerra que até agora fez mais vinte mil mortos
palestinianos, na Faixa de Gaza, a maioria deles civis, e parece avançar com
intenções de extermínio dos palestinianos.
Mas, no
início do ano, algo de novo aparecia no reino da tecnologia em que estamos cada
vez mais imersos: o Chat GPT. Concebido pela empresa OpenAi, o Chat GPT, e os
modelos que lhe seguiram por parte da concorrência, o Chat Bing (Microsoft) e o
Chat Bard (Google), permitem pela primeira vez uma interacção conversacional
com um mecanismo de inteligência Artificial (IA). Embora já estivesse presente
nos dispositivos electrónicos, nomeadamente nos smarphones, embora a
investigação em IA tenha décadas, nunca a IA se apresentou assim perante os
humanos: como um chatbot com o qual é possível “falar” (teclar), a quem é
possível colocar questões, dúvidas ou pedir para criar algo. Tratando-se de um
modelo de linguagem estatístico, o Chat GPT assume uma aura de uma entidade com
uma sabedoria que não tem – ainda. A inteligência artificial apareceu como uma
ameaça, a juntar a outras como a crise climática e as guerras (na Ucrânia e
entre Israel e o Hamas), o que levou, paradoxalmente, alguns dos investigadores
em IA a escreverem uma carta onde pediam uma desaceleração na investigação em
IA. Vive-se assim entre o desejo que a IA resolva os problemas da humanidade, e
o receio que se torne tão ou mais inteligente que os humanos. O certo é que
ainda imberbe, a IA aparece como uma ameaça também ao mundo da criação
literária. A greve dos argumentistas em Hollywood, que durou cerca de cinco
meses, foi causada entre outros factores pela utilização da IA, num claro e
primeiro efeito da IA no mundo da criação literária e artística. Os modelos
como o Chat GPT têm já a capacidade de escreverem histórias infantis que podem
rivalizar com as escritas por escritores humanos. Por altura do aparecimento do
Chat GPT a Amazon foi inundada de livros para a infância. Vivemos, assim, num
certo meio literário, já condicionado pela inteligência artificial. E o
restante mundo editorial (tradutores, revisores, gráficos, etc) poderá ser
afectado pela IA.
Num artigo
publicado no El País, a escritora e activista Naomi Klein acusava a IA de
“grande roubo” a todo o conhecimento humano, tendo o jornal The New York Times
materializado essa opinião ao recentemente processar a Microsoft e a OpenAI por
violação de direitos de autor. O filósofo José Gil, num ensaio publicado no
Público (3-12-23) prevê um cenário distópico: “as obras de arte algoritmizadas
serão saudadas como exemplos singulares de criação e engenho das máquinas
inteligentes. Os romances, as traduções, os objectos de arte, as composições
musicais resplenderão de originalidade inigualável. Produtos de uma enorme
complexidade – nós seremos mais simples e pequenos, pobres e felizes.”
2, De três
importantes escritores e poetas se comemoraram em 2023 o centenário de
nascimento: Eugénio de Andrade, Mário Cesariny e Natália Correia. Eugénio de
Andrade (1923-2005), foi um dos principais poetas portugueses da segunda metade
do século XX. A sua poesia imbuída de um Eros clássico, principalmente nas
primeiras obras, teve ao longo de décadas uma excelente recepção entre os
leitores. Treze anos depois do seu desaparecimento, importava averiguar o valor
que esta poesia mantém no cânone – universitário, crítico, entre pares e junto
dos leitores. Certo é que neste ano de centenário apenas um livro de Eugénio de
Andrade foi publico – Aquela Nuvem e Outras (Porto Editora), um livro para
crianças. Embora a Assírio & Alvim tenha vindo desde 2012 a publicar
individualmente cada um dos livros de Eugénio de Andrade, e já tenha em 2017
publicado a poesia reunida do poeta que nasceu no Fundão e viveu no Porto, e em
2022 a prosa reunida, pouco se notou, a nível de iniciativas, o centenário do
autor de As Mãos e os Frutos. Quer isto dizer que Eugénio de Andrade caiu num
certo esquecimento, ou talvez num desgaste.
Num sentido
contrário podemos falar da obra poética, e não só, de Mário Cesariny. O nome de
Cesariny liga-se umbilicalmente ao surrealismo português (juntamente com
Alexandre O`Neill e António Maria Lisboa, mas também Mário-Henrique Leiria ou
Manuel de Lima), de que foi o criador e teórico (veja-se Textos de Afirmação e
de Combate do Movimento Surrealista). Mas a sua poesia maior pode ser resumida
a quatro ou cinco poemas que estarão entre os melhores poemas da lírica
portuguesa. Mário Cesariny praticou a insubmissão como forma de vida. E essa
atitude terá levado a um propositado esquecimento da sua obra que foi
recuperada no final da sua vida e nos últimos anos. Daí que ao Cesariny poeta
se tenha recuperado o Cesariny artista plástico. A edição da antologia Poesia
de Mário Cesariny, e do projecto datado de 1977 de uma heterodoxa antologia de
poesia, cujo título Poetas do Amor, da Revolta e da Náusea (ambas organizadas
por Fernando Cabral Martins para a Assírio & Alvim) é já em si sintomático
da rebeldia de Cesariny, mas também do acolhimento que a sua obra tem tido.
No caso de Natália Correia, não podemos falar apenas de uma escritora e poeta. É, para além disso, a sua biografia que a vai impor como uma figura pública: deputada à Assembleia da República pelo PSD e depois pelo PRD, mas também pelo programa televisivo Mátria, que Natália Correia se torna conhecida do grande público, já depois do 25 de Abril. Mas, num outro círculo, mais restrito, Natália Correia vai afirmar-se, ainda durante o Estado Novo, como anfitriã e dona de um bar em Lisboa – o Botequim – que procurava ser um espaço de liberdade dentro da ditadura. Na sua actividade de escrita foi romancista, dramaturga, poeta, ensaísta, diarista, organizadora de antologias. Uma dessas antologias, Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (1965, primeira edição) valeu-lhe uma condenação de três anos com pena suspensa; foi ainda processada por ser a responsável editorial do livro Novas Cartas Portuguesas (1973). A sua escrita andou pelos caminhos do surrealismo, e com Mário Cesariny partilhou além da rebeldia e insubmissão, a amizade e admiração.
3, No que
respeita aos livros publicados em 2023, apresento uma lista abaixo, que é uma
selecção, lacunar, do que foi publicado. A maior parte recebeu alguma atenção
por parte da escassa crítica literária ainda existente (Expresso, Público, JL,
pouco mais), outros livros foram ignorados por essa mesma crítica.
Da lista saliente-se,
na poesia, uma nova edição da Poesia de Luiza Neto Jorge, revista e aumentada,
que vai buscar poemas que a poeta não integrou na reunião da sua poesia em Os
Sítios Sitiados (1973), mas estavam em outros livros anteriores; a edição pela
primeira vez em português de um autor italo-argentino, Antonio Porchia, mestre
no aforismo de forte tonalidade poética, ou no poema disfarçado de aforismo,
que foi publicando ao longo dos anos na suas Vozes (Voces). A publicação da
obra completa de um poeta mais conhecido como letrista de fados, Pedro Homem de
Mello; e também das obras completas de dois autores muito distantes entre si,
não só no tempo: o clássico Horácio, e o recente Roberto Bolaño. Ainda obras
completas, ou completas até à data: Rita Taborda Duarte, Helga Moreira, Maria
da Graça Varella Cid e Ernesto Sampaio, de quem a Maldoror e Língua Morta
reuniram em cerca de 400 páginas os poemas e textos em prosa.
Na ficção,
no ano que o Nobel da literatura foi para o romancista e dramaturgo norueguês
Jon Fosse, os autores portugueses mais conceituados pouco ou nada publicaram
(com excepção de Gonçalo M. Tavares, sempre prolifico). Destaque-se o trabalho
editorial da E-Primatur que este ano publicou a tradução na integra de Gargântua
& Pantagruel de François Rabelais.
No ensaio,
destaque-se a reunião da obra ensaística sobre poesia de Joaquim Manuel Magalhães,
num grosso volume de quase 1200 páginas, que colige os seus três livros de
ensaios e acrescenta inéditos – pelo menos em livro –, assinado com o pseudónimo,
ou heterónimo, de António Maria António Pedro. Joaquim Manuel Magalhães é sem
dúvida um dos mais lúcidos leitores da poesia portuguesa, e não só. Ainda no
ensaio sobre literatura Joana Matos Frias publicou Oscilações (Documenta) e
Joana Emídio Marques Notícias do Bloqueio (Língua Morta). A Relógio d` Água
publicou mais um ensaio do filósofo Byung Chul Han, desta vez sobre A Vida Contemplativa,
mas nesta editora também se publicaram os Ensaios de Robert Musil, e um livro
que denúncia os mecanismos tecnológicos de vigilância da ditadura chinesa:
Estado de Vigilância de Josh Chin e Liza Lin. Também na linha da crítica das novas
tecnologias ao serviço do poder, de Jonathan Crary a Antígona traduziu Terra
Queimada – Da era digital ao mundo pós-capitalista. E, entre muitos outros
livros destaque ainda para um clássico do pensamento anarquista, Que é a
Propriedade? de Proudhon nas Edições 70.
POESIA
Mário
Cesariny – Antologia (Assírio & Alvim, org. Fernando Cabral Martins)
Mário Cesariny
– Poetas do Amor, da Revolta e da Náusea (Assírio & Alvim, org. Fernando
Cabral Martins)
António
Porchia – Vozes (Língua Morta, trad. Nuno Azevedo)
Luiza Neto
Jorge – Poesia (ed. Revista e aumentada por Fernando Cabral Martins e Manuele
Masini, Assírio & Alvim)
Adília Lopes
– Choupos (Assírio & Alvim)
Pedro Homem
de Mello – Poemas 1934-1961 (Assírio & Alvim, ed. Luís Manuel Gaspar)
Horácio –
Poesia Completa (Quetzal, trad. Frederico Lourenço)
Roberto
Bolaño – Poesia Completa (Quetzal, trad. Carlos Vaz Marquez)
Rosa Maria
Martelo – Desenhar no Escuro (Averno)
Margarida
Vale de Gato – Mulher ao Mar e Corsárias (Mariposa Azual)
Helga
Moreira – A Arte de Perder (Tinta da China)
Amadeu
Baptista – Danos Patrimoniais. Antologia pessoal 1982-2022 (Afrontamento)
Alberto Pimenta – They` II Never Be the Same (Edições Saguão)
Cesare
Pavese – Trabalhar Cansa (Penguin Clássicos, trad. Vasco Gato)
Fernando
Guerreiro – Metal de Fusão (Black Sun Editores / 100 Cabeças)
José Amaro
Dionisio, Helder Moura Pereira. Fátima Maldonado, F. Cabral Martins –
Imperfeição (não) edições
Rita Taborda
Duarte – Não Desfazendo (Imprensa Nacional)
Ernesto
Sampaio – Luz Central (Maldoror/Língua Morta)
Maria
da Graça Varella Cid – Poesia Incompleta (Tigre de Papel)
FICÇÃO
François
Rabelais – Gargântua & Pantagruel (E- Primatur)
Gustave
Flaubert – A Tentação de Santo Antão (Minotauro)
William S.
Burroughs – Almoço Nu (Minotauro)
Rui Nunes –
Neve, Cão e Lava (Relógio D` Água)
Gonçalo M.
Tavares – As Botas de Mussolini (Relógio d` Água)
Gonçalo M.
Tavares – Breves Notas sobre o Oriente (Relógio d` Água)
Joseph
Conrad – Plantador de Malata (Sistema Solar)
Hélia
Correia – Certas Raízes (Relógio D` Água)
Horace
Walpole – Contos Hieroglíficos (Antígona)
Monteiro
Lobato – Reinações de Narizinho (Tinta da China)
NÃO – FICÇÃO
Joaquim
Manuel Magalhães – Poesia Portuguesa Contemporânea (Bestiário)
Byung
Chul Han –
Vida Contemplativa (Relógio d´Água)
Jonathan
Crary – Terra Queimada – Da era digital ao mundo pós-capitalista (Antígona)
Joana Matos
Frias – Oscilações (Ducumenta)
Josh
Chin e Liza Lin – Estado de Vigilância (Relógio d´Água)
Robert Musil
– Ensaios (Relógio d´ Água)
Joana Emídio
Marques – Notícias do Bloqueio (Língua Morta)
Salvador
Dali – Diário de um Génio (Sr. Teste)
Ian F.
Svenonius – Contra a Palavra Escrita (Chili com carne)
Maria
Filomena Mónica – Os Livros da Minha Vida (Relógio d´Água)
António
Castro Caeiro – O que é a Filosofia? (Tinta da China)
João
Barrento – Aparas dos Dias (Companhia das Ilhas)
Furio Jesi - Cultura de Direita (Edições 70)
Simon Sebag
Montefiore – Mundo (Crítica)
António
Vieira – Entrevista (Companhia das Ilhas)
Diogo Ramada
Curto – Um País em Bicos de Pés (Edições 70)
José Gil –
Morte e Democracia (Relógio d´Água)
Camilo
Pessanha – China e Macau (Livros de Bordo)
Alexandra
Lucas Coelho – Libano, Labirinto (Caminho)
Michel
Eltchaninoff – Lenine Foi à Lua (Zigurate)
Roberto
Calasso – O Cunho do Editor (Edições 70)
P-J
Proudhon – Que é a Propriedade? (Edições 70)
(Em cima, intervenção sobre fotograma com Mário Cesariny)
ESCALA RICHTER
REBIS
1, A 24 de Fevereiro de 2022 a Rússia invadia a Ucrânia. Não era a primeira vez que a guerra eclodia na Europa depois de 1945, mas desta vez o ocidente (UE, Nato, EUA), não estava disposto a tolerar as ambições lunáticas de Putin. Nem os jornalistas a abdicar do modo monotemático dos telejornais: substituíram a covid pela guerra. O resultado é a divisão do mundo, de novo, em dois blocos, como durante a Guerra Fria. Os Estados Unidos, com Biden, em nada mudaram: são os polícias do mundo, estão a alimentar a guerra através da ajuda militar à Ucrânia de Zelensky. Parece que ninguém quer a paz. E os Ucranianos, incentivados pelo nacionalismo do fantoche Zelensky, são as vítimas disto tudo. Eles e os soldados russos. A Ucrânia é no início deste século o solo onde se joga uma perigosa e barbara partida de xadrez, onde não pode haver xeque-mate. E, em fundo, ecoa a ameaça nuclear. Ora esse facto, deu lugar na actividade editorial, à publicação de uma série de livros relacionados com o tema. Desde histórias da Rússia, biografias de Putin, à publicação de escritores ucranianos.
2, Byung-Chul Han. Vivemos em certo sentido "tempos sombrios" (H. Arendt), marcados pela emergência climática, pelo avanço da extrema-direita, por um mundo onde a nossa relação com as coisas, os objectos, se torna cada vez mais virtual, e onde essa virtualização corresponde a uma exploração dos nossos dados por mecanismos mais ou menos secretos de Inteligência Artificial (IA), como o tem vindo a denunciar, numa analítica da actualidade, o filósofo germano-sul-coreano Byung-Chul Han. De Han a Relógio d' Água tem vindo a publicar a sua já extensa obra de pequenos livros - cerca de 100 páginas cada um - onde se procede a uma crítica e elucidação do tempo presente. Este ano publicou Não-Coisas e Infocracia. Ora estes livros, levantando o problema da virtualização das coisas, estão também a levantar o problema da virtualização da leitura. No que respeita aos jornais isso é evidente: são os próprios jornais que cada vez mais apostam nas suas edições on-line. Mais: como tinha previsto Mcluhan, estamos a caminho de uma sociedade oral, onde a leitura em silêncio acabará por desaparecer. São disso exemplo, já, a leitura áudio de artigos por máquinas de IA, como faz, por exemplo, a edição on-line do jornal Público. Mas também o word do windows 11 possibilita a leitura áudio de documentos da mesma forma.
3, Centenários. 2022 foi o ano do centenário de nascimento de dois dos mais importantes escritores portugueses da segunda metade do século XX: José Saramago e Agustina Bessa-Luís. Foram também personalidades politicamente nos extremos. José Saramago, filho de pobres agricultores, tornou-se militante do PCP durante a ditadura do Estado Novo; depois do 25 de Abril, e durante o chamado "verão quente" de 1975, foi director-adjunto do Diário de Notícias, então nacionalizado. Os escritos de Saramago, no Diário de Notícias não constam das suas Folhas Políticas, livro que recolhe textos entre 1976 e 1998. Mas terá sido um período de efervescência em que o escritor José Saramago começou a nascer para a escrita que o viria a consagrar com o Nobel da literatura (é certo que já tinha publicado um romance e 3 livros de poemas). Do outro lado, completamente oposto, temos Agustina Bessa-Luís, filha de uma família burguesa. Incorporou o espírito familiar na defesa de um reaccionarismo bastante patente na sua vasta obra, estranha e por muitos julgada de quase genial. A origem social foi marcante para a obra destes dois escritores tão antagónicos. Mas no caso de Agustina, a sua defesa de classe torna-se por vezes enervante. A utilização da palinódia, esse dizer e desdizer, fazer e desfazer verbal; o aforismo, em que a escritora de Amarante foi prolifica, serviram sempre uma causa extremamente conservadora, escandalosa por vezes, como a caracterizou Eduardo Prado Coelho em A Noite do Mundo. Recorde-se um episódio sintomático: depois da SPA ter atribuído um prémio literário a Luandino Vieira, a PIDE destruiu a sede da SPA; Óscar Lopes escreveu a Agustina - entre outros escritores - para tomarem uma posição publica, mas a autora de A Sibila declinou qualquer compromisso. Agustina vivia num "mundo fechado" (título do seu primeiro livro) que não reconhecia a existência do outro - nisso, creio, reside o "escândalo" a que aludia EPC. Já o Saramago que terá participado dos saneamentos de trabalhadores do DN, fá-lo no período de uma efervescência revolucionária.
Mas este ano de 2022 também foi o ano do centenário do nascimento de Pier Paolo Pasolini. Cineasta, dramaturgo, romancista, poeta, ensaísta, Pasolini foi sobretudo alguém polémico no meio intelectual italiano. Polémico porque lúcido, polémico porque pensava por si, fora de qualquer categoria de adestramento ideológico, porque sendo comunista, homossexual e católico era já o bastante para desarrumar as etiquetas que não lhe conseguiam colar. Por isso, também, incómodo. Pasolini é, ao mesmo tempo o realizador do filme Evangelho Segundo S. Mateus e o autor do romance Vida Violenta; o autor do filme Saló ou os 120 Dias de Sodoma onde denúncia o fascismo italiano de Mussolini e o que também existia de fascista, avant la lettre na obra de Sade; é contra o aborto e denuncia o desaparecimento dos pirilampos como signo do capitalismo e das luzes eléctricas que avançam pelo espaço da noite. De Pasolini foi este ano editado pela VS Entrevistas Corsárias - sobre a política e a vida, A Poesia é uma Mercadoria Inconsumível (Sr. teste) e O Odor da Índia (Desassossego) - relato de uma viagem à Índia na companhia de Alberto Moravia e Elsa Morante. João Oliveira Duarte publicou um glossário em forma de ensaio sobre temas pasolinianos: Não Sou da Família - Notas Sobre Pasolini (BCF Editores). Recorde-se que Pasolini seria assassinado a 2 de Novembro de 1975 na praia de Óstia, por um ragazzo di vita. Em homenagem a Pasolini os Coil compuseram esta magnifica canção, precisamente intitulada Ostia.
De Marcel Proust, o autor de um dos grandes romances do século XX, esse imenso Em Busca do Tempo Perdido (a tradução para português europeu é de Pedro Tamen e está publicada na Relógio d' Água), comemoraram-se este ano os 100 anos do falecimento. Por cá em silêncio total. Outro dos mais referenciados como grande romance do século XX, ou de sempre, é Ullises de James Joyce - livro quase intragável que comemorou este ano o centenário da sua primeira edição. A Relógio fez uma edição especial da tradução de Jorge Vaz de Carvalho, enquanto a Livros do Brasil reeditou a tradução de João Palma-Ferreira.
4, Pessoa. Fernando Pessoa continua a assombrar a literatura portuguesa e não só. Este ano publicaram-se duas biografias do poeta dos heterónimos: de Richard Zenith, um dos principais estudiosos e editor da obra pessoana, foi traduzida para português a sua monumental biografia de Fernando Pessoa - Pessoa. Uma Biografia (Quetzal) que foi finalista do Prémio Pulitzer. A outra biografia de Pessoa, é da autoria de João Pedro Gorge - O Super-Camões. Biografia de Fernando Pessoa (D. Quixote) - foi menos referenciada. João Pedro George é autor de biografias de Luiz Pacheco, da Marquesa de Paiva ou de Mota Pinto, o presidente do PSD que nos anos 80 formou governo com o PS de Mário Soares. A biografia de João Pedro George é também a segunda feita por um autor português, mais de 70 anos depois de João Gaspar Simões escrever a primeira biografia de Pessoa. Na verdade, descontando uma biografia feita por um brasileiro, há poucos anos, e que os pessoanos rejeitaram como pouco séria, existiam apenas duas biografias sobre Fernando Pessoa: a de Gaspar Simões e a de Robert Bréchon publicada nos anos 1990. 2022 foi o ano em que apareceram mais duas. Pessoa é tido, por uma ideia generalista, como quase não tendo biografia; o que viveu, os seus pensamentos, estão em fragmentos dentro da famosa arca. Em parte isto será verdade: se Wittgenstein poderia referir como o melhor da sua obra tudo o que não escreveu (mas pensou, ou mesmo verbalizou), já Pessoa parece ter apontado quase tudo o que pensou. E nenhuma biografia pode ultrapassar essa grande obra que é o Livro do Desassossego, onde existem resquícios auto-biográficos. Mas a vida de Pessoa vai para além da sua escrita, do seu "texto" que ele deixou para que outros o fixassem. E é nesse labirinto pessoano, quase um palimpsesto, que Pessoa continua vivo, nas múltiplas variantes dos seus textos, a "obra" pessoana é sempre incompleta.
5. Pessoa, o Prémio. O Prémio Pessoa é atribuído desde 1987 pelo semanário Expresso. Tem galardoado poetas, escritores, cientistas, historiadores, artistas, juristas, arquitectos, etc. A lista já é longa e inicia-se com José Mattoso (em 1987). Como poetas o prémio foi entregue a António Ramos Rosa (1988), Vasco Graça Moura (1995), Manuel Alegre (1998), Mário Cláudio (2004) e - única rejeição - a de Herberto Helder (1994). Agora, em 2022 o júri entendeu voltar a atribuir o prémio a um poeta e escolheu... João Luís Barreto Guimarães. É simplesmente uma escolha que não se percebe - embora o júri, sempre presidido por Francisco Pinto Balsemão, não pareça perceber muito de poesia, tem entre os seus elementos a ex-crítica literária Clara Ferreira Alves. Qualquer que seja a lógica do prémio (galardoar consagrados ou pessoas de quem se espera que "ofereçam obras" á sociedade), o nome de Barreto Guimarães aparece no fim de uma lista onde há muitos outros poetas que mereciam o prémio. E nisso é bom não esquecer poetas como António Franco Alexandre, José Agostinho Baptista, João Miguel Fernandes Jorge, Paulo da Costa Domingos, Fátima Maldonado, Nuno Júdice, entre outros, que iniciaram a publicação da sua obra na década de 70. Mas se o júri queria dar o prémio a alguém que por várias razões o merece, mesmo porque pertence à geração de Barreto Guimarães, a dos poetas dos anos 80, tinha dois nomes: Adília Lopes ou Carlos Poças Falcão. Adília é já um nome incontornável na poesia portuguesa, precisamente pela sua aparente apoeticidade, por uma poesia da imanência que sobrevaloriza - e bem - a vida à obra. Já Carlos Poças Falcão, poeta também dos anos 80, é um poeta extremamente discreto que só a reunião da sua poesia completa, em 2012, com Arte Nenhuma (republicada com acrescentos em 2020 pela Língua Morta) pôde dar uma visão geral da obra deste poeta que está entre os melhores da poesia portuguesa actual. J. L. Barreto Guimarães é apresentado como poeta tradutor e médico; vive no Porto e há anos que com Jorge de Sousa Braga edita o blogue Poesia Ilimitada. Aliás Sousa Braga, que também é médico (obstetra) e vive no Porto, seria um nome com mais notabilidade para receber o prémio Pessoa, mas o júri talvez não quisesse entregar o prémio a um poeta que é autor de um livro intitulado De Manhã Vamos Todos Acordar Com Uma Pérola no Cu (Fenda, 1983). Note-se ainda que, embora sem nenhuma formação académica para o efeito, Barreto Guimarães lecciona no curso de medicina do ICBAS, uma cadeira de poesia. No entanto, a sua poesia, por vezes, adentra-se numa perigosa ironia que uma leitura literal (e onde começa a ironia e acaba a literalidade?) pode chocar com a deontologia da sua profissão.
Enfim, há nos prémios que concernem ao campo literário sempre uma injustiça. Neste caso, do Prémio Pessoa, é de lembrar que Fernando Pessoa quando concorreu com a Mensagem a um prémio de poesia ficou em segundo lugar. Do vencedor ninguém sabe hoje o nome. Um outro prémio literário bastante discutível é o Nobel da literatura, que este ano foi para a francesa Annie Ernaux. Mas o Nobel da literatura tem já as suas regras, que alguns ingénuos teimam em não perceber. Para já, uma regra clara é a equidade de género (ou quotas literárias): um ano um homem, no outro uma mulher.
6, Vejamos agora os livros publicados em 2022, dos quais fiz uma selecção dividida por géneros. No que respeita à poesia, parto de uma citação de António Guerreiro, no suplemento Ípsilon do Público de 23-12-22: "o que a poesia contemporânea tem de mais importante deixou de ser maioritariamente assinado por nomes masculinos" (p.14). De facto, isso é hoje uma evidência, cujo diagnostico é um pouco tardio: a década de 2010 é já marcada pelo aparecimento de algumas poetas e o consolidamento de outras. A par disso dá-se um desvanecimento de uma poesia do quotidiano ou do real (e o gesto radical de Joaquim Manuel Magalhães em Um Toldo Vermelho, também é disso sintomático), que a antologia Poetas Sem Qualidade, organizada por Manuel de Freitas, constituiu um marco. Nomes como Andreia C. Faria, Raquel Nobre Guerra, Margarida Vale de Gato, Cláudia R. Sampaio ou Elisabete Marques (para só nomear autoras que publicaram este ano e constam desta lista), trouxeram uma inflexão á poesia portuguesa, que genericamente parte de um abandono da poesia do real. Nomes como Isabel de Sá (ou Eduarda Chiote), voltaram a publicar depois de anos sem publicar. No caso de Isabel de Sá, publicou a sua poesia reunida (pela segunda vez depois de Repetir o Poema - Quasi, 2005 - e do inédito O Real Arrasa Tudo, em 2019). Trata-se de uma obra das mais singulares da poesia portuguesa, que tem sido esquecida. Desta constelação de mulheres poetas - ou poetisas - assinale-se ainda Adília Lopes, nome cimeiro da poesia actual que este ano publicou o livro Pardais. Um dos poetas mais esquecidos da poesia portuguesa contemporânea é Rui Diniz, que no início da década de 70 publicou Ossuário. Este ano, cerca de 50 anos depois, publicou Ossos de Sépia. Registe-se ainda a reedição da poesia de António Gancho na Assírio & Alvim, editora que apostou para calhamaço do ano na obra completa de Paul Celan, um dos grandes poetas do século XX, cuja poesia é marcada pelo Holocausto.
No que respeita à ficção, assinalem-se três autores malditos: Michel Houllebecq, Thomas Bernhard e Jean Genet. Este último, tem andado arredado da edição em Portugal, pelo menos desde que a Hiena o públicou. António Lobo Antunes publicou, aos 80 anos, O Tamanho do Mundo (D. Quixote). De George Orwell foram publicados mais dois romances (Emergir Para Respirar - Relógio d' Água - e História de Um Homem Comum - E-Primatur). Orwell é de facto um autor fundamental para os tempos que atravessamos, e a edição portuguesa tem feito jus a esse facto, editando quase toda a obra do autor de 1984.
Quanto ao ensaio a colheita foi boa e abundante. Destaque-se o primeiro volume dos Ensaios de Montaigne publicado pela E-Primatur e os 48 Ensaios de Virginia Woolf. Para além dos livros de Byung-Chul Han, outros títulos colocam-nos questões. É o caso do título de Angela Davis editado pela Antígona: As Prisões Estão Obsoletas? Mas, também, do Livro do Clima organizado por Greta Thunberg. Noutro registo, Miguel Esteves Cardoso recuperou a sua Escrítica Pop e as crónicas que escreveu no Independente. Livros de Foucault (o seminário sobre essa categoria da psiquiatria e da biopolítica que foram Os Anormais), de Agamben sobre o período da loucura de Holderlin, de Deleuze sobre Proust em ano do seu centenário. Federico Bertolazzi com No Reino da Terrível Pureza (Documenta) interroga a edição da obra de Sophia. Para o autor, Sophia tem estado a ser censurada por uma série de artigos que ela publicou na imprensa não terem sido editados em livro.
A mancha gráfica de um livro nem sempre é constituída por palavras. Por vezes surgem as imagens, ou quase só imagens. Estão neste caso os livros de Banda Desenhada ou novelas gráficas. Por isso faço referência a 3 livros nesta lista: a Obra Gráfica de Mário Henrique Leiria (que completa a edição das suas obras completas editadas na E-Primatur), a reedição da reportagem gráfica Palestina da autoria de Joe Sacco, e de Reinhard Kleist uma obra gráfica sobre Nick Cave. E, ainda, um livro de fotografia de um dos grandes foto-repórteres portugueses: Alfredo Cunha, publicado na colecção Ph da Imprensa Nacional com textos de António Barreto e David Santos. Esta é uma excelente colecção de fotografia, onde já foram publicados livros de Jorge Molder, Paulo Nozolino ou José M. Rodrigues com textos de José Bragança de Miranda, Rui Nunes ou Maria Filomena Molder.
7, Editoras. Basta olhar para a lista, para encontrar algumas pequenas e médias editoras, fora dos grandes grupos (Porto Editora, Leya), que, penso, melhor têm editado. É o caso da Antígona, Relógio d' Água, Tinta da China, Documenta ou E-Primatur - entre as médias editoras - e da Barco Bêbado, Sr, Teste, Língua Morta, Saguão, Dois Dias ou BCF Editores entre as pequenas editoras. O grupo Almedina, a que pertence a bastante activa Edições 70, tem feito um excelente trabalho editorial que dignifica esta chancela com quase 50 anos de existência.
POESIA
Da Écloga X
Cantiga
PROJECTO DE SUCESSÃO
Para o Mário Henrique
ENTRONIZAÇÃO