quarta-feira, janeiro 23, 2008
ANTÓNIO MARIA LISBOA
Projecto de Sucessão
Para o Mário Henrique
Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra
Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos
Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.
António Maria Lisboa
poesia
Assírio & Alvim
1995
domingo, janeiro 13, 2008
OS LUGARES DOS VISITANTES

United States
Redwood City, California
22
Slovenia
Ljubljana, Bohinj
23
Spain
Madrid
24
Portugal
Santo Antnio Da Charneca, Setubal
25
Brazil
Uberlndia, Minas Gerais
26
Portugal
Vila Nova De Gaia, Porto
27
Switzerland
Muri, Aargau
28
Brazil
Piracicaba, Sao Paulo
29
Denmark
Kerteminde, Fyn
30
Brazil
Tup, Sao Paulo
31
Portugal
Moura, Beja
32
United States
Mountain View, California
33
Portugal
Coronado, Porto
34
Germany
Solingen, Nordrhein-Westfalen
35
Brazil
So Paulo, Amapa
36
Brazil
Florianpolis, Santa Catarina
37
Mexico
Tlacote El Bajo, Queretaro de Arteaga
38
Portugal
Porto
39
Portugal
Lisboa
40
Brazil
Porto Alegre, Rio Grande do Sul
sexta-feira, janeiro 11, 2008
O JORNALISMO LAMBE-BOTAS

O jornalismo, pelo menos em Portugal, tornou-se de há uma década para cá numa coisa séria, institucional. Ao jornalista pede-se respeitinho pelas figuras públicas, simpatia, cordialidade, nada de questões incómodas.(A porta da rua é já ali). O cumulo deste tipo de jornalismo deu-se a ver hoje na SIC, num programa intitulado Primeira Pessoa, emitido logo a seguir ao Jornal da Noite. O programa tinha como entrevistado o patrão da SIC e Expresso, o grande magnata da imprensa portuguesa, Francisco Pinto Balsemão, apresentado por Conceição Lino como uma personagem de telenovela a entrar no prédio da Impressa. Exactamente como os "ricos" das telenovelas que a SIC ou a TVI passam. Balsemão que foi jornalista, foi também fundador do PPD/PSD e primeiro-ministro. Ou seja, experimentou os três poderes (politico, mediático e económico) é uma figura interessante para uma entrevista séria. Mas para um programa de lambe-botas, como parece ser este, escolher para a primeira emissão o patrão, é o cumulo do descaramento. E o descaramento parece ser todo de Nuno Santos, o novo director de programas da estação de Carnaxide.
quarta-feira, janeiro 09, 2008
quinta-feira, janeiro 03, 2008
terça-feira, janeiro 01, 2008
FUMAR

(Demi Moore)
TABACARIA (Fernando Pessoa / Ávaro de Campos, excerto)
(...)
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência
[de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheco-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança,
[e o Dono da Tabacaria sorriu.
segunda-feira, dezembro 17, 2007
terça-feira, dezembro 04, 2007
domingo, dezembro 02, 2007
Pedro Oom

CARTA AO EGITO
A poesia não necessita de "ser salva" porque o que nós entendemos por poesia não necessita de espécie alguma de salvação. Todo o acto de revolta ou de rebeldia, todo o processo de violentar "a natureza" e de desconhecer o direito e a moral é para nós poesia embora não se plasme, não se fixe, não se possa generalizar - e aqui está, implícita, a recusa terminante de amarrar o poeta a uma técnica, seja ela qual for, mesmo a mais actual, a mais opurtuna, porque, precisamente, o que o distingue do homem da técnica é um sentido de não oportunidade, de inoportunidade, que lhe advém de uma clarividência total e duma insubmissão permanente ante os conceitos, regras e princípios estabelecidos. Com isto não queremos dizer (Deus nos livre!) que o poeta seja um louco, um visionário, mas que, se ele tem de possuir uma estética e uma moral é, sem sombra de dúvida, uma estética e uma moral próprias.
A poesia é um meio de conhecimento e acção de cujos frutos, bons ou maus, só o poeta aproveita (facto, este, de que muito poucos se dão conta) e daí a inutilidade dos esforços para ligá-lo a qualquer filosofia, política ou teologia, inutilidade que se não desmente no caso de ser o próprio poeta a tentar essa aproximação. É (foi) o caso de Régio como o de Mayakovsky: a sua voz continuará estranha e o sentido das suas palavras incompreensível mesmo para aqueles que escolheu como amigos ou correligionários. É que o poeta é rebelde sem premeditação, demolidor de tudo e de si próprio, esforçadamente anti-caridade-encostada-às-esquinas-de-pistola-em-punho ou caneta-na-mão-lágrima-de-jacaré.
Daí que resultem contraditórios os termos do poeta católico, marxista, surrealista, existencialista, anarquista ou socialista, quando não se desconhece que só ao poeta é dado compreender o poeta. Daí que resultem ridículas as homenagens colarinho-alto ou selecta-de-infância com que é costume, aqui e lá fora, enfaixar o cadáver daqueles que como Fernando Pessoa, Rimbaud ou Gomes Leal foram em vida o mais esforçado testemunho contra o bom-senso-não-deites-a-língua-de-fora.
O que possa haver de menos compreensível em tudo isto resulta do facto de que toda a explicação necessita de outra explicação para ser compreendida. Aquilo que de um modo imediato é para nós verdadeiro só será inteligível para outrem depois de uma determinada "mastigação" durante cujo processo já todo o objecto em causa adquiriu nova cor, nova forma, novo ou novos sentidos de interpretação. O poeta tem a clarividência desta transformação e daí a sua atitude, sempre de recusa a qualquer espécie de imposição, e ainda quando nos pareça que um dos seus gestos adquire uma cor mais conformista, ou um tom menos violento, ele não é mais do que uma forma diferente de recusa.
Pedro Oom, in Actuação Escrita (Lisboa, & etc, 1980), retirado de Telhados de Vidro, nº3
terça-feira, novembro 27, 2007
Manuel de Freitas

O SOM DAS VÍRGULAS
para o Jorge Gomes Miranda
Deixa estar, Jorge, é demasiado
tarde: já não nos livramos da
imerecida glória de sermos
grupo, constelação, movimento
-"nós" que, a bem dizer,
nunca acreditamos em nada disso.
Sempre de vozes tontas e ruído
alarve precisou o mundo. Mas agora
imitam os políticos, delegam poder
naquilo que nenhum poder aufere -
a poesia - esses que em jornais
e outras cátedras matariam pai e mãe
para chegar a palcos grosseiros
em que nem actores conseguem ser.
E até dizem que prestamos vassalagem
a quem simplesmente nos ensinou
por onde não devíamos seguir
-à distância dos livros, na pulsão
do irrespirável e, anos depois, do afecto.
Há várias maneiras de preferir um descampado.
Porque a poesia, Jorge, só interessa
- se é que interessa - quando nos visita
"com a urgencia de quem verte
cubos de gelo num copo de whisky".
Tão parecida com "o vírus do amor"
que faz do corpo o único lugar.
Mas para quê falar-te disto?
Disseste-o melhor, assim:
"nada é a poesia
prelúdio de outras ruínas
nunca afirmadas".
Não te inquietes, pois, com arrumadores
de versos. A morte corrigirá todas
as vírgulas, mesmo as que lá não estavam.
Manuel de Freitas, Telhados de Vidro, nº3, ed. Averno.
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