quinta-feira, setembro 14, 2006

A INFÂNCIA CONFISCADA

Desenho de Alejandra Pizarnik
Nunca como agora a infância foi tão vigiada, controlada, programada. É certo que aquilo a que hoje chamamos infância eram os primeiros seis anos de vida, pouco mais, até há pelo menos 100, 80 anos. Pelo menos seria assim para a grande maioria das crianças, as que não pretencenciam às classes abastadas e tinham que começar a trabalhar em tenra idade, sem frequentar a escola. A infância começou com o controlo da natalidade através dos métodos contraceptivos e do fim da calamitosa taxa de mortalidade infantil que andaria, ainda no início do século passado muito acima dos 50 por cento.
É nos últimos anos que a infância se tornou, cada vez mais, politizada, comercializada, mediatizada (tanto zada!). É certo que Freud, e seus seguidores, já tinham no começo do século passado utilizado a infância como matriz de todo o comportamento do homem pela vida fora. Mas é também com os psicanalistas, os pedo-psiquiatras, os psicologos e tantos outros técnicos que se vão ocupar - e viver, no sentido económico - da infância, que esta ganha o seu lugar na cidade. Hoje ao mesmo tempo que qualquer ameaça à infância é notícia de abertura de telejornal, geralmente protagonizada por essa figura por excelência da actualidade que é o pedófilo, as crianças, são controladas de todas as formas numa negação do espaço que configura a infância. É assim que o tempo de aulas é aumentado, a pressão para o chamado sucesso escolar compete com a pressão no trabalho dos adultos, aumentam as actividades extra curriculares, os ATL, etc. Tudo visa uma ocupação do espaço da infância, que entretanto foi alargado a nível etário: hoje alguém com 18 anos é considerado uma criança. Ao mesmo tempo a infância, com o seu alargamento etário, é considerada um lugar de inocência quando, por vezes se assiste à pratica das maiores crueldades por essas criancinhas (veja-se o caso Gisberta) que sem nenhuma condenação, e conscientes da sua inimputabilidade, não mostram a mais miúda culpa.
Por outro lado, e no que diz respeito á infância dos adultos, esta é objecto de todo um trabalho de reescrita por parte de psicoterapeutas e psicanalistas que culmina na criação de falsas memórias (veja-se a este respeito o trabalho de Elisabeth Loftus) ou no apagar da memória da infância.

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