quarta-feira, setembro 30, 2026

Fernando Namora

 


Onde ficava o mundo?
Só pinhais, matos, charnecas e milho
para a fome dos olhos.
Para lá da serra, o azul de outra serra e outra serra ainda.
E o mar? E a cidade? E os rios?
Caminhos de pedra, sulcados, curtos e estreitos,
onde chiam carros de bois e há poças de chuva.
Onde ficava o mundo?
Nem a alma sabia julgar.
Mas vieram engenheiros e máquinas estranhas.
Em cada dia o povo abraçava um outro povo.
E hoje a terra é livre e fácil como o céu das aves:
a estrada branca e menina é uma serpente ondulada
e dela nasce a sede da fuga como as águas dum rio.

Fernando Namora in Adeus, Campos Felizes - Antologia da poesia portuguesa do século XIII ao século XXI, selecção e ensaio de Rui Lage, Assírio & Alvim, 2025, p.377


segunda-feira, agosto 31, 2026

Beatriz Almeida Rodrigues

 


MEIA-LUZ

inscreveste-te no vidro quando o quarto se apaga
os teus dedos como lâmpadas fragmentadas
crivam nas janelas as últimas partículas de sol

és um corpo de poeira
és um corpo 
és
aquele que vem esvaziar as minhas palavras
insuflá-las de hélio que roubaste aos astros
para que não caibam nessa equação vaga
a que chamamos linguagem
então desajustadas iniciam a grotesca parada
da nossa derrota
mãe rosa regaço arco
enfileiradas no trejeito dos teus lábios
de escárnio perante o quão pouco
os nossos antepassados nos deixaram
um punhado de palavras gastas
que desfilam para o abismo do teu olho
escancarado

julgamos que após afogarmos os nossos deuses
e lhe cosermos as pálpebras
não haveria mais testemunhas
mas restas tu
que te ergues de passagem
para operar alquimias nas sombras

Beatriz Almeida Rodrigues, in A Rosa Devorada pelos Espinhos - Antologia crítica da poesia portuguesa do primeiro quartel do século XXI, Org. de Diogo Vaz Pinto, João Vasco Rodrigues e Nuno dos Santos Sousa, Língua Morta, 2026, pp. 407-408

Beatriz Almeida Rodrigues nasceu em 1996. Publicou até à data um só livro de poesia: Manganês (Flan de Tal, 2021), tendo colaboração em várias revistas literárias. É doutoranda em filosofia no King´s College de Londres com um projecto de investigação sobre o grotesco,


sexta-feira, julho 31, 2026

Abade de Jazente (Paulino António Cabral)

 


É bem feliz por certo, o que somente
Ao rústico labor acostumado
Conduzir sabe os bois, reger o arado,
E dar à terra a provida semente.

A arte de lavrar sempre inocente
Estuda só, e ignora afortunado
As novas leis, as máximas de Estado,
E os documentos de enganar gente.

Projectos vãos não forma, e sempre isento
Da soberba ambição, nunca a Lisboa
Foi dobrar o joelho ao valimento.

Cabana humilde, onde nasceu, povoa;
E seguro no próprio abatimento,
Só tem medo do Céu, quando trovoa.

In Adeus, Campos Felizes – Antologia do campo na poesia portuguesa do século XIII ao século XXI, selecção e ensaio de Rui Lage, Assírio & Alvim, Porto, 2025, p. 171.

 


terça-feira, junho 30, 2026

A PSU E O DESAPARECIMENTO DA ESQUERDA

 


1, Durante os últimos meses, o ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho andou de aparição pública em aparição pública como a virgem Maria em Fátima. E os média iam atrás dele, “bebendo” sofregamente das suas palavras sibilinas, como se tratasse de um profeta. Mas não é. Passos Coelho faz parte de um dos períodos mais negros da história de Portugal depois do 25 de Abril. É o tempo da troika, em que Portugal perdeu a independência quer a nível económico, quer político. Sem entrar fundo no que penso que foram esses tempos, direi que a democracia foi suspensa durante esses tempos sádicos. A palavra, creio que é precisa: existia um sadismo político por parte da troika (que emprestou dinheiro a Portugal, fazendo exigências de carácter político), que teve um excelente acolhimento no governo PSD/CDS, que, então, nas palavras de Passos Coelho, quis ir além das medidas da troika. Não sei o que aconteceu a muita gente que por essa altura perdeu o emprego, o que levou a que não pudesse continuar a pagar a prestação da casa ou do carro ao banco. O sadismo de Passos Coelho via-se em medidas como a apresentação obrigatória, na Junta de Freguesia, dos beneficiários do subsídio de desemprego.

 

2, Por essa altura, com menos cabelo, era Luís Montenegro o líder da bancada social-democrata. Creio que o sadismo de Passos Coelho nunca perdoou que Montenegro não fosse um continuador do passismo. Daí as aparições públicas de Passos, e uma eventual candidatura à liderança do PSD (para se aliar com o Chega) ou à presidência da República. O certo é que das falas sibilinas, Passos passou ao ralhete com o seu ex-líder da bancada parlamentar. E parece que teve algum êxito. A ministra do Trabalho e Segurança Social, preparou duas medidas à medida do sadismo político de Passos: uma nova lei (ou pacote) laboral e a unificação de 13 prestações sociais numa única só, chamada PSU (Prestação Social Única).

 

3, O pacote laboral há meses que andava a ser discutido, sendo alvo de duas greves gerais. Mas não foi a contestação de rua, organizada pela UGT e CGTP que fez cair a reforma laboral defendida pelo governo de Montenegro. Foi o Chega, cujo líder – uma criação de Passos Coelho – à última hora resolveu votar contra. Veja-se que o voto contra da esquerda, onde se inclui o PS, e os partidos de esquerda mais ou menos residuais (PCP, Livre, BE, PAN) em nada podia derrotar o pacote laboral se o Chega votasse a favor. A questão é, portanto, porque razão votou o Chega com a esquerda, e, que consequências tem esse voto para a esquerda. Creio que a resposta está na análise dos resultados eleitorais de distritos como Beja, onde o PCP era, desde o 25 de Abril, o principal partido, e nas últimas eleições perdeu esse lugar para o Chega. Ou seja, há votos do Chega, partido de extrema-direita, que vieram de eleitores do PCP. Torna-se necessário compreender o que está por detrás desta dinâmica de transferência de voto, para compreender o fenómeno da extrema-direita em Portugal, e como a esquerda se tornou residual. Se a esquerda continuar a negar a realidade (como mostra o Avante!), corre o sério risco de desaparecer por completo (refiro-me aqui à esquerda “histórica”, PCP e Bloco).

 

4, A outra medida que parece fabricada pela ministra Rosário Palma Ramalho para agradar ao sadismo de Passos, é a PSU (Prestação Social Única). Trata-se da reunião de 13 prestações, como o rendimento social de inserção (RSI), subsídio de desemprego, a pensão social de invalidez e outras dez do regime não contributivo, numa única só. Dois problemas surgiram logo com esta nova modalidade de prestação: a obrigatoriedade de trabalho comunitário de 15 horas por semana por parte dos beneficiários, e um canal de denúncias para as situações de aproveitamento alegadamente indevido desta prestação. Esta medida, que tem prioridade dado que resulta de uma exigência da UE, no quadro do PRR, para a atribuição de um cheque de 600 milhões de euros, faz em tudo lembrar as medidas do governo de Passos Coelho/Troika, da qual a União Europeia também fazia parte. Note-se que esta medida podia, como o pacote laboral, ser aprovada pela direita – PSD, Chega e IL. Mas, o PS quis aproximar-se do governo para, alegadamente, evitar o canal de denúncias, enquanto que o Chega queria cinco anos de residência em Portugal para que os imigrantes beneficiassem dos apoios.

 

5, Resulta daqui uma evidência: o PS de José Luís Carneiro concorda e apoia uma medida que obriga os beneficiários de rendimentos como o RSI a fazer trabalho obrigatório. É bom que se diga, que este trabalho obrigatório em favor da comunidade é, por vezes, em determinados casos e ordenamentos jurídicos, uma pena decretada por um juiz para pequenos crimes. Assim como, a já referida medida do governo PSD/Troika dos beneficiários do subsídio de desemprego se apresentarem periodicamente nas Juntas de Freguesia, era uma medida que imitava o Termo de Identidade e Residência (TIR) aplicado aos arguidos por um juiz. O que está em causa aqui é a forma como são tratados os mais pobres, os mais vulneráveis, para quem a sociedade devia de ter um dever de solidariedade, serem tratados como criminosos. E isso, mais uma vez na história da democracia portuguesa é grave. Mas mais grave é que esta medida tenha sido apoiada pelo PS. Esse apoio, a uma medida desumana, a ausência de tentativa de negociação com o governo, demonstram que o PS se está a colar à direita que governa. Ora, se a esquerda a que alegadamente pertence o PS, se cola à direita, o que sobra da esquerda? Quatro partidos com grupos parlamentares residuais? Ou nem isso.

 


domingo, maio 31, 2026

Guilherme Pinto Basto e o futebol em Portugal

 


No meu tempo jogava-se apenas por desporto. Era uma brincadeira. Jogava-se apenas entre pessoas que já mantinham uma relação de amizade e cortesia. Tínhamos todos condição e educação aproximadas. Não havia luta. O futebol era um divertimento próprio da idade. Não se falava nem sonhava em futebol de campeonato e, menos ainda, de profissionalismo. Era tudo diferente. Depois a enorme expansão que o futebol tomou, alargando-se a todas as camadas sociais, devia, evidentemente, diminuir mais ou menos o verdadeiro espírito desportivo que requer uma cultura e uma educação que, infelizmente, não existe nas camadas populares (…) Eu exorto os rapazes de hoje a serem, em tudo, como os rapazes do meu tempo: gentlemen no campo e fora dele. O sport quer dizer isso mesmo”

Gulherme Pinto Basto, o "pai" do futebol em Portugal, em declarações ao jornal O Século (21-3-1938) por altura das comemorações do 50º aniversário da introdução do futebol em Portugal. (in A Paixão do Povo, de João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro, ed. Afrontamento)

Em cima, fotografia do primeiro jogo de futebol realizado em Portugal continental, em 1888, em que Guilherme Pinto Basto e outros membros da família Pinto Basto participaram. 

quinta-feira, abril 30, 2026

Kobayashi Issa



As abelhas do campo
passam zumbindo
por dentro do tempo

***


 A minúscula abelha 
pensa em grande - 
flores do aniversário do Buda.


terça-feira, março 31, 2026

Canção de tradição oral celta (gaélico escocês)

 

TU ÉS MAIS BRANCA DO QUE O CISNE

Tu és mais branca do que o cisne branco
Que voga no lago.

Tu és mais branca do que a gaivota branca
Que voa no rio.
Tu és mais branca do que a neve branca
No cimo dos montes.
Tu és mais branca do que os anjos de branco
Que moram no céu.

Tu és a delicada baga vermelha
Que no bosque acalma a fúria 
De todos os homens.

Tu és a onda do mar.
Da praia-mar
Desces de manso
Á baixa-mar.

Tu és a onda do mar.
Da baixa-mar

Sobes de manso
Á praia-mar.

In A Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o futuro, Trad. José Domingos Morais, Assírio & Alvim, 2001, pp. 766-767


sábado, fevereiro 28, 2026

IBN AL-SABUNI

 

OFERENDO UM ESPELHO

 

Envio-te um espelho precioso:

em seu alto horizonte faz surgir

o teu rosto, lua de bom presságio.

 

Desse modo, justamente,

apreciarás a tua formusura

e desculparás a paixão

que me consome.

 

Ai, sendo furtiva, a tua imagem

é mais acessível que tu mesma,

mais benevolente

e melhor cumpridora de promessas!

 

In Ladrões de Prazer – poemas arábigo-andaluzes, Editorial Estampa, Clássicos de Bolso, tradução de Fernando Couto, 1991, p. 39