terça-feira, setembro 24, 2013

ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924-2013)

 ESTOU VIVO E ESCREVO SOL

Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol

Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol

A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida

Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

António Ramos Rosa, "Estou vivo e escrevo sol", poema publicado pela primeira vez no livro com o mesmo título de 1966.


AS PALAVRAS VITAIS PULSANDO NO POEMA



António Ramos Rosa era um dos últimos grandes poetas portugueses. Esta afirmação aparentemente banal numa altura como esta tem a sua justificação. Embora sendo um poeta maior, pela sua necessidade de uma respiração poética que o parecia alimentar como o ar, como a “facilidade do ar” – título de um dos seus livros –, Ramos Rosa tornou-se em certo sentido um poeta “marginal”. Marginal porque editou cerca de 100 livros, a maioria dos quais em pequenas editoras, mas também porque a sua pulsão poética, marcada pelo desejo – desejo do poema e no poema em primeiro lugar, como acto de afirmação, acolhimento e plenitude – não seria bem vista a partir de um momento em que a poesia portuguesa começa a ser marcada por um tom narrativo, pela melancolia e posteriormente por um niilismo de pulsão tanática. É certo que a poesia – portuguesa e não só, sempre foi marcada por pulsões de morte. No entanto, António Ramos Rosa, embora só iniciando a publicação em livro em 1958, com o livro O Grito Claro (título que encerra todo um programa), pertence a uma geração de grandes poetas portugueses que iniciaram o seu percurso ainda durante a II grande guerra: Sophia, Eugénio de Andrade ou Jorge de Sena. 
 É fundamentalmente a forma como é editado e a sua pulsão poética, que o leva a escrever milhares de poemas, que o tornam um poeta que pode parecer repetitivo ao leitor desatento da sua obra. E no entanto, a obra poética de Ramos Rosa está à altura da de Sophia, Sena, Eugénio ou Herberto. 
Essa obra é marcada por uma extrema modernidade, uma alta modernidade – e repare-se na influência que Ramos Rosa exerceu sobre os poetas de Poesia 61 de que é testemunho Gastão Cruz. O autor de Acordes (1989) foi desde cedo um teórico do poema. Daí resultaram alguns dos principais livros de ensaio da poesia portuguesa: Poesia, Liberdade Livre (1962), Incisões Oblíquas (1987) ou A Parede Azul (1991). Nestes livros, a respiração poética fazia-se quer através de uma teorização do poema, quer através do diálogo com a obra de outros poetas – e esse diálogo, já sob a forma de poema, foi particularmente fecundo em livros como A Imobilidade Fulminante (1998) em diálogo com Rosa Alice Branco. Mas a teorização da poesia, de que os textos iniciais de A Parede Azul são um dos pontos mais altos, bem como as múltiplas artes poéticas espalhadas pela sua vasta obra, falam-nos de uma poesia autotélica e de uma insurreição: “a poesia é uma invenção livre e aberta mas é ao mesmo tempo uma insurreição vital”, lemos na página 15 de A Parede Azul. Assim se compreende que os primeiros poemas, como “O boi da paciência”, que fizeram Eduardo Lourenço classificar a poesia de António Ramos Rosa como realista, até livros finais como Génese Seguido de Constelações (2005) mantenham ainda que de forma diferente essa linha de resistência, que é ao mesmo tempo uma forma de insurreição contra “os discursos que a sociedade produz […] os seus estereótipos, as suas normas e conceitos”. É contra este mundo desvitalizado que Ramos Rosa escreve. Mas estar contra essa desvitalização implica que o poema é também um lugar de pensamento – e nesse sentido há uma ligação em Ramos Rosa entre poesia e filosofia.  
De António Ramos Rosa, ficam as palavras, as palavras vitais pulsando nos seus poemas. E enquanto existir uma civilização, essas palavras ecoam como um desejo eterno de vida: “Estou vivo e escrevo sol”.

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