RECREIO
Toda a gente toma conta da minha vida,
ou melhor, a minha vida é tomada
por todos de quem tomo conta.
Procuro o intervalo, quando dele me retiram.
***
VARANDA
Leio até que a luz o permita
e conforme desaparece
as letras ganham corpo
brilham de tão negras
na brancura do papel.
A falta torna fortes as palavras.
Quando a luz do candeeiro da rua
pousa nos meus dedos,
pego na caneta e ela dança.
As palavras levantam-se,
a noite cai.
Marta Chaves, Intervalo, Assírio & Alvim, 2025, pp. 13 e 19.
Marta Chaves estreou-se como poeta com o livro Onde não estou, tu não existes (2009), a que se seguiram mais sete livros, os 3 últimos publicados na Assírio & Alvim. O seu livro Perda de Inventário foi publicado no Brasil pela editora Corsário-Sata (2020). Nasceu em Coimbra (1978) e vive em Lisboa, onde exerce a profissão de psicoterapeuta, facto que não está ausente dos seus poemas.