quarta-feira, dezembro 31, 2025

LIVROS EM 2025


1, A 28 de Abril do agora findo ano, cerca das 11h00 ocorre um estranho corte de energia eléctrica. Uma consulta a sites de informação na internet revelava algo de inusitado: Portugal, Espanha e uma parte de França estavam sem electricidade. Por volta das 21h00, quando já os sites de internet não estavam a funcionar na sua maioria, e os telemóveis ficavam sem bateria, a electricidade foi reposta. Mas se não fosse? Se o chamado “apagão” durasse 1, 2, 3 dias, ou uma semana? Ou mais? O apagão veio revelar a vulnerabilidade e dependência da sociedade em que vivemos perante não só a electricidade, mas também perante o mundo digital. Atirou-nos para um outro tempo, em que não existia electricidade, muito menos este mundo digital, onde escrevo este texto. Era um mundo que a esmagadora maioria não conheceu. Um mundo de tempo lento, de respeito pelos ritmos circadianos, onde esses pirilampos evocados por Pasolini podiam iluminar a noite obscura, sem a concorrência desleal da luz eléctrica. Nesse mundo, os livros, a literatura, o pensamento, faziam mais sentido – foi também na “noite do mundo” à luz de velas que a grande literatura e as grandes ideias nasceram. Mas era um tempo agreste para o corpo. No entanto, garanto que sei de quem vive ainda à luz de velas.

 

2, A 16 de Março de 1825 nascia em Lisboa Camilo Castelo Branco. Um nascimento que parece acidental, já que o autor de “Romance de um homem rico”, entre milhares de páginas escritas, retratou o universo nortenho, com um vocabulário luxuriante, já perdido no falar do dia-a-dia. É esse vocabulário, que já não encontra dicionários, que o distingue e talvez eleve, a par de uma ironia mordaz, acima de um Eça de Queiróz. Este ano, foi, portanto, altura de celebrar o bicentenário de Camilo.

 

3, O panorama editorial português é cada vez mais dominado pelo grupo Porto Editora. De tal forma que está dividido em dois: o grupo Porto Editora propriamente dito, e o grupo Bertrand, que foi adquirido pela Porto Editora em 2010. Deste último fazem parte as editoras Quetzal, Pergaminho, Temas e Debates, Contraponto, Arteplural, 11x17 e Círculo de Leitores. A Bertrand tem também a marca das livrarias de rua ou de centro comercial. Este ano, a livraria Latina, do Porto, no início da Rua de Santa Catarina, que pertencia à Leya, foi adquirida pelo grupo Bertrand. Do outro lado, estão as pequenas editoras como a Bestiário, Saguão, 7 nós, Letra Livre, 100 cabeças, Língua Morta, Maldoror, Averno, Sr. Taste, entre outras, que praticam conjuntamente com algumas livrarias “alternativas” ou “independentes” como a Utopia, Flâneur, Poetria (no Porto), Livraria Letra Livre, Snob (em Lisboa), uma certa resistência. No meio, aparecem grupos como a Almedina, a Pinguin Random House, e editoras como a Relógio d’ Água.

 

4, Da lista de livros abaixo, que é mais uma lista de desejos e arquivo que de livros lidos, faço alguns destaques. Na poesia para três antologias: “Adeus, campos felizes” de Rui Lage, tenta recuperar um território e uma geografia humana em desaparecimento; Graça Videira Lopes foi ao Cancioneiro de Garcia de Resende recuperar uma poesia de antanho que não celebrava o pathos da derrota e do niilismo, mas um lirismo que se perde; António Maria Lisboa é um poeta com pouca fortuna editorial e não só, a que a edição em livro de bolso da Pinguin, não ajuda, principalmente nos poemas visuais. Destaco ainda, ou sobretudo, o número 42 da revista Relâmpago (com data de Dezembro de 2024, mas distribuído em Março de 2025) sobre a “poesia portuguesa de agora”, coordenado por Fernando Pinto do Amaral e Ricardo Marques que incluiu uma selecção de 11 poetas e alguns ensaios – o que não parece ser suficiente para traçar os diversos mapas que constituem a poesia “de agora”. Liberato, músico e poeta, publicou em edição de autor o pequeno livro “Cá, nesta terriola”, de forte pendor político. Realce ainda para a reedição da obra (poética e ensaística) de Alberto Pimenta pela 7 Nós e Saguão e para o terceiro volume da obra – finalmente – completa de António Ramos Rosa. Um outro poeta maior da poesia portuguesa dominou a não-ficção: a biografia de Herberto Helder por João Pedro George. O calhamaço, de mais de 800 páginas, recolhe um trabalho de anos do autor, que ouviu pessoas próximas do poeta, como a sua companheira Olga. Se em vida o poeta sempre recusou aparições públicas, celebrizando a frase, “Meu Deus, faz de mim um poeta obscuro”, questiona-se a facilidade com que o autor de “Se eu quisesse enlouquecia” obteve os depoimentos – não serão uma traição à memória do autor Photomaton & Vox? Duas cartas escritas por Gunter Anders, marido de Hannah Arendt, aos filhos biológicos do nazi Adolf Eichmann, editadas pela Antígona sob o título “Nós, filhos de Eichmann”, colocam a enfase na teoria defendida por Arendt nas reportagens que fez sobre o julgamento do nazi: na “banalidade do mal” qualquer um de nós pode ser um Eichmann. Destaque-se ainda dois livros de José Gil (Pontas Soltas I e II) e uma entrevista conduzida por Marta Pais Oliveira ao filósofo. De Carlo Michelstaedter, filósofo italiano precocemente suicida, a Companhia das Ilhas publicou Retórica e Persuasão, a sua única obra. E para terminar as referências à não-ficção, mais uma biografia, desta vez de Egas Moniz, por Paulo M. Morais, que em A Glória Efémera segue a vida de uma personalidade que acabou por se tornar tenebrosa ao criar a lobotomia. Na ficção, foi este ano, traduzido para português, um romance que denúncia certas práticas da psiquiatria, “Voando sobre um ninho de cucos” (ed. original de 1962) de Ken kesey (Livros do Brasil) e que Milos Forman tornaria famoso ao adaptá-lo para o ecrã cinematográfico, em 1975. De Julio Cortazar, escritor determinante da literatura argentina, a Cavalo de Ferro publicou os seus Contos Completos, em dois grossos volumes, que passaram despercebidos.

 

Uma nota final para o fecho do Jornal de Letras. Durante quase 45 anos, desde 1981, dirigido sempre por José Carlos Vasconcelos, foi um elemento imprescindível para a compreensão e divulgação das actividades culturais em Portugal, e não só. 

 

POESIA

 

AA VV – Relâmpago, nº 42 – Poesia portuguesa de agora (Fund. Luís Miguel Nava)

António Ramos Rosa – Obra Poética III (Assírio & Alvim)

Rui Lage (org.) – Adeus, campos felizes – Antologia do campo na poesia portuguesa do século XIII ao século XXI (Assírio & Alvim)

Graça Videira Lopes (ed.) – Cousas de folgar e gentilezas.  (Assírio & Alvim)

Alberto Pimenta – Tetraphármakos (Caixa + 4 livros) (7 Nós)

Fernando Guerreiro – A Sagrada Família (Bestiário)

Arthur Rimbaud – Poesia (Assírio & Alvim)

Liberato – Cá, nesta terriola (edição do autor)

António Maria Lisboa – Uma poesia extrema (Pinguin Clássicos)

Nunes da Rocha – Estudos literários & outras divagações de uso (Averno)

Nunes da Rocha – Real quotidiano (1957-1974) (100 Cabeças)

Daniel Jonas – Idade da perda (Assírio & Alvim)

Luís Quintais – A destruição do tempo (Assírio & Alvim)

Afonso Lopes Vieira – Poesia (E-Primatur)

 

NÃO-FICÇÃO

 

João Pedro George – Se eu quisesse enlouquecia – biografia de Herberto Helder (Contraponto)

Carlo Michelstaedter – Persuasão e retórica (Companhia das Ilhas)

Gunter Anders – Nós, filhos de Eichmann (Antígona)

José Gil – Pontas Soltas I (Relógio d’ Água)

Marta Pais Oliveira – A última lição de José Gil (Contraponto)

Jean Baudrillard – América (Língua Morta)

Paulo M. Morais – A glória efémera – biografia de Egas Moniz (Contraponto)

AA VV – Habitats internos – conversas com psicanalistas (VS)

António Branco Vasco / Mariana S. – Crónicas de uma psicoterapia (Taiga)

Carlos Mendes de Sousa – No caminho da poesia (Documenta)

Pedro Eiras – Constelações 4 – Ensaios comparatistas (Afrontamento)

Alberto Pimenta – O silêncio dos poetas (Saguão)

Yanis Varoufakis – Tecno-feudalismo (objetivamente)

 

FICÇÃO

 

Julio Cortazar – Contos completos (vol. 1 e 2) (Cavalo de Ferro)

Gonçalo M. Tavares – O fim dos Estados Unidos da América

Rui Manuel Amaral – Zov (Snob)

Lásló Krasznahorkai – Herscht 07769 (Cavalo de Ferro)

José Rodrigues Miguéis – Leah e outras histórias (Assírio & Alvim)

Miranda July – De quatro (Quetzal)

Ken Kesey – Voando sobre um ninho de cucos (Livros do Brasil)

AA VV – Antologia de contos humorísticos e satíricos russos (Tinta da China)