sexta-feira, março 19, 2010

Rui Lage


V. C. I.

O cântico dos carros sobe do asfalto.
Há quem venha espreitar a recolha do lixo
depois do jantar, enquanto fuma à janela,
respondendo para dentro à voz de criança
que chama no quarto,
ou mais perto,
àquele que diz haver pratos na mesa
por levantar.

Um ecrã em cada lar
emite luz amarela
como vela acesa
em cela de convento.

Rui Lage, Revólver, Quasi Edições, 2006, p. 40.

Rui Lage nasceu no Porto em 1975. É autor de quatro livros de poesia (todos publicados nas Quasi Edições: Antigo e Primeiro (2002), Berçário (2004), Revólver (2006) e Corvo (2009). Traduziu Paul Auster, Samuel Beckett e Pablo Neruda. Foi co-fundador e director da revista Águas Furtadas e é membro da direcção da Fundação Eugénio de Andrade. É actualmente doutorando em Literaturas Românicas na FLUP. Com Jorge Reis-Sá organizou para a Porto Editora a antologia Poemas Portugueses.

sexta-feira, março 12, 2010

AS CRIANÇAS CRIMINOSAS


I
Se uma organização criminosa (máfia, terrorismo, etc.) pretendesse uma maior eficácia na prática dos seus actos (por ex. matar alguém), fugindo a qualquer ilícito penal, não contrataria um top guy daqueles que vemos nas séries e filmes de acção, mas “inocentes” crianças, inimputáveis perante a lei. O suicídio de Leandro, de 12 anos, no rio Tua, e o suicídio de um professor de música no Tejo (hoje revelado pelos jornais i e Público), ambos vítimas de bullying, vem revelar esta eficácia assassina por parte das crianças. Até há uns anos atrás a expressão “criança criminosa” poderia remeter para o título de um escritor considerado maldito, Jean Genet, que passou por reformatórios e prisões antes de ser consagrado como um dos mais importantes escritores franceses do século XX.
Agora, pelo menos em Portugal, estamos a assistir a um transbordar do crime praticado por crianças – porque há que dizê-lo: não existindo outras causas fortes, e pelo que os média têm relatado, estas crianças são homicidas, desencadearam situações que levaram ao suicídio de duas pessoas. Levar alguém ao suicídio, pela subjectividade que envolve este acto, torna-se no crime perfeito, o crime de mãos limpas: afinal quem em último lugar decide por termo à vida é o suicida. Nisto, nesta arte da crueldade, as crianças de Mirandela, como as do 9º B da escola de Sintra, podem dar lições aos maiores pulhas do crime organizado. Lembram-se do caso Gisberta?
Em tudo isto a cumplicidade dos adultos é essencial. As crianças / adolescentes não são estúpidas ou ingénuas, sabem que nada, ou praticamente nada, lhes pode acontecer, têm um estatuto sagrado, intocável. São uma moeda viva rara. As escolas são hoje um dos locais de maior violência real e simbólica das sociedades ocidentais. Sempre o foram, mas essa violência que dantes era aplicada pelos professores aos alunos é agora aplicada pelos alunos aos professores.

II
A propósito da criança que se suicidou em Mirandela, ouvia terça-feira na Antena 1, no programa Alma Nostra, a explicação de Carlos Amaral Dias (CAD), psiquiatra e psicanalista. Dizia CAD, logo no inicio do programa (que pode ser ouvido em podcast aqui): “O que acontece é que quando o adolescente se comporta como aquilo a que chamo o adolescente pária, que é o adolescente sem carta, sem identidade, sem pertença grupal, esse adolescente é mais vitima, por causa do seu isolamento social, deste tipo de situações”. Há nestas palavras uma terrível acusação, que não pode passar impune, contra a memória da criança de 12 anos que se suicidou no rio Tua; e também contra todas as outras crianças que foram e são vitimas de bullying.
O bullying não é um fenómeno apenas entre crianças. É antes sancionado por alguns adultos (professores, pais, psis) que o permitem e, por vezes, encorajam. Humilhar, agredir, gozar, mal-tratar é sinal de crescimento e adaptação social. Porque o bullying vai continuar pela vida fora: veja-se o caso dos suicídios na France Telecom. Os adolescentes párias e sem “carta”, segundo a noção fascista do psicanalista da rádio, serão sempre os suicidados da sociedade, aqueles que pela sua diferença a sociedade agradece o suicídio (embora diga o contrário).

sábado, março 06, 2010

PÚBLICO: 20 ANOS


O Público fez ontem 20 anos. Edição especial, grátis, com o irritante António Barreto como director convidado. Resultado: Portugal transformado em números, como o sociólogo / profeta da catástrofe portuguesa gosta. Uma maçada, como diria o Eça. Ora o Público tem vindo a transformar-se nisso, em jornalismo maçudo. A decadência daquele que foi o melhor jornal português esta patente na crónica de Bárbara Reis, a actual directora, quando lembra, com nostalgia os primeiros tempos do Público, dirigido e fundado por Vicente Jorge Silva e com grafismo de Henrique Cayate. Escreve Bárbara Reis: “Hoje, 20 anos depois, imagino que o Vicente estivesse a fazer a primeira página e quisesse dar destaque a Eastwood, mas que alguém argumentara que ninguém em Portugal conhecia o nome, muito menos os filmes, para quê ‘puxar’ por tal coisa na capa? Mas estávamos em 1990, o PÚBLICO acabara de nascer, tinha ideias novas e estava ligado à terra – das capas não se esperava menos do que serem uma ruptura permanente. O PÚBLICO não pairava numa nuvem previsível, adormecida e burocrática como os jornais à nossa volta”. Precisamente. Bárbara Reis tem toda a razão. O problema é que hoje, vinte anos depois, o Público transformou-se num jornal previsível, adormecido e burocrático (veja-se, por exemplo os editoriais não assinados).
Nada pior que viver da nostalgia desses tempos em que o jornal de Vicente Jorge Silva era um diário de referência que se podia comparar a um Liberation ou El País, com uma longa lista de redactores, colaboradores (especialistas nas mais diversas áreas) e correspondentes (espalhados por todo o mundo). Porque essa nostalgia impede que se faça algo de novo, criativo.
Hoje os jornais, em papel, estão a suicidar-se. Os grupos económicos que gerem jornais parecem a todo o custo querer acabar com eles, ansiosos por plataformas multimédia na Internet. Os recursos (económicos) baixaram. Torna-se muito mais difícil fazer, dirigir um jornal hoje. Mas os jornais são necessários, eles estão na génese das democracias modernas. As notícias estão, em forma instantâneas, a toda a hora em vários suportes tecnológicos – menos nos jornais em papel. Perante esta situação cabe aos jornais apostar na reportagem, na investigação, na opinião; e na estética – elemento fundamental para embrulhar tudo isso. Ora é isso que os jornais actuais, por razões económicas e não só (vivemos tempos de indigência) não o estão a fazer – com excepção para jornais de referência que mantém a qualidade a que nos habituaram, como o El País.
Voltando ao caso do Público, a degradação do jornal acentuou-se nos últimos anos, sob a direcção de José Manuel Fernandes, com mudanças gráficas que descaracterizaram o jornal, o fim de suplementos (como o Mil Folhas), o despedimento de uma importante fatia da redacção, a perda de colunistas. A mudança, recente, na direcção editorial não trouxe nada de novo. Eu esperava uma nova imagem gráfica, pelo menos.
No entanto, e apesar de tudo tenho que reconhecer que o Público actual continua a manter um certo espírito que presidiu à sua fundação. Jornalistas como Alexandra Lucas Coelho, Paulo Moura, Luís Miguel Queirós, Ana Gerschenfeld, Margarida Santos Lopes, Nuno Pacheco (que está na direcção editorial desde o início e assumiu várias vezes o lugar de director interino) entre outros, mantém a qualidade do jornal.
O aparecimento do i foi, como se costuma dizer, uma lufada de ar fresco na Imprensa portuguesa, mas o jornal dirigido por Martim Avillez Figueiredo dá pouca – e má – importância à cultura, ou à actualidade internacional.

terça-feira, março 02, 2010

CESÁRIO VERDE


DE TARDE

Naquele «pic-nic» de burgueses,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter histórias nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzonal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro de papoulas!

Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde, Editora Orfeu, 1985, p. 75