terça-feira, abril 25, 2006

sexta-feira, abril 21, 2006

Fernando Assis Pacheco


Peçam a grandiloquência a outros
acho-a pulha no estado actual da economia

(Variações em Sousa, 1987)

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EU VI UMA NOIVA SAIR DO AUTOMÓVEL
Ó noiva triste entre as noivas
que saem de casa pela manhã
partidas ao encontro da geada na relva,
noiva melancólica e sem palavras,
como te lamento assim vestida
de muitas folhas secas ao vento.
Sei que vais já morta, ferida no coração
por pedras e nevoeiros, por tarântulas.
Pequena caminhas sobre a leve seda
do teu manto, como as aves caminham
nos jardins molhados do Inverno;
sobes degrau a degrau, espada a espada
a tua última, arrebatada vertigem.
Rainha, agora, só de quebrados espelhos.
E da ternura exangue com que muda
celebrarás aos deuses malfazejos.
Aqui de longe envio com os olhos
um pequeno adeus, um punhado de terra.
(Cuidar dos Vivos, 1963)

sexta-feira, abril 07, 2006

SILVA DESAPARECEU?


Um mês depois da tomada de posse de Silva como Presidente da República, estranha-se a ausência deste. Vimos Sampaio numa corrida ao lado de Sócrates, mas Sampaio já não é presidente, é ex-presidente. Até tem o retrato pintado por Paula Rego. O presidente agora é Silva. Mas onde está Silva que não aparece? Nem um sound bite no Jornal Nacional, nem uma fotografia no 24 Horas, nem sequer um comentário de um assessor. É certo que houve a tomada de posse, com o Bush pai e todos os outros ex-chefes de estado e algumas suas altezas reais e o Soares a pirar-se antes do beija mão. Mas, e depois? Por onde anda e o que faz Silva? Vai todos os dias a Belém ou fica em casa de pantufas? Estará num bunker com medo de uma terceira guerra mundial? Ou terá sido raptado e o SIS está a encobrir tudo? Terá medo de aparecer por não conseguir realizar o milagre da multiplicação de euros? Todos ansiavam (enfim 50 virgula qualquer coisa por cento dos votantes) pela eleição de Silva e esperavam que com ele sempre que metessem a mão ao bolso saísse uma nota de 20 euros, num truque de prestidigitação que nem o Luís de Matos ousa tentar. Mas Silva está desaparecido e as poucas notas de 20 euros que entram nos bolsos depressa desaparecem, e os bolsos ficam vazios. Onde estará o Silva?

quarta-feira, abril 05, 2006

Sophia de Mello Breyner Andresen


Pranto pelo dia de hoje

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criadorser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas

de Livro sexto, 1962

terça-feira, abril 04, 2006

Al Berto


dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligueira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorrisotamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

(de Uma Existência de Papel, 1985)

sexta-feira, março 24, 2006


Solidão

Cai chuva, chora
chora, chora.
Solidão, solidão!

Já não canta o pássaro.
Calou-se a voz, a alegre, a rara.
A que se ouvia solitária.
Cai chuva.

Não sou freira e estou num convento.
A paz, o silêncio, a chuva, os claustros...
Ser freira!
O sequestro, cantar, rezar.
Cai chuva, rude e sem dor.
Tu não choras.
Sou eu que choro.

Que é do pássaro, como cantava?
Voltou, voltou. Pia!
Bendito pássaro, onde estás?
Acompanha-me, já não chove.
Solidão, melancolia.

Irene Lisboa, Outono Havias de Vir in Obras de Irene Lisboa I, Presença, 1991, org. de Paula Mourão

terça-feira, março 14, 2006


SEM OUTRO INTUITO

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extrírem
às águas o silêncio que as unia.

Luís Miguel Nava, in Vulcão

sexta-feira, março 03, 2006


VIOLA CHINESA

Ao longo da viola morosa
Vai adormecendo a perlenda,
Sem que, amadornado, eu atenda
A lengalenga fastidiosa

Sem que o meu coração se prenda
Enquanto, nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a perlenda.

Mas que cicatriz melindrosa
Há nele, que essa viola ofenda
E faz que as asitas distenda
Numa agitação dolorosa?

Ao longo da viola, morosa...

Camilo Pessanha, "Clepsidra"

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

AS CRIANCINHAS CRIMINOSAS

Um grupo de 14 adolescentes assassinou de forma barbara um sem abrigo, travesti, prostituto e toxicodependente (é por todos estes qualificativos que esta pessoa de 40 anos tem sido identificada nos meios de comunicação) no Porto. A vitima foi apredejada, esbofeteada, esfaqueada e violada, segundo revela a autópsia ao corpo.
As adoráveis criancinhas que cometeram tal crime foram presentes ao Tribunal de Família de Menores do Porto e a mais velha, de 16 anos, ao TIC. Esta última ficou em prisão preventiva, das outras, maiores de 13 anos, 11 serão internados em instituições a designar pelo Instituto de Reinserção Social de Lisboa, sendo que uma delas ficará em regime fechado e as restantes dez em regime aberto.
A inimputabilidade dos menores de 16 anos permite que façam o que lhes apetecer, sendo assim apetecíveis ao crime organizado. A perversidade deste crime aumenta se tivermos em conta o que relata o Portugal Diário:"Os jovens estiveram durante todo o dia muito descontraidos: juntos na mesma sala, os jovens viram televisão e fizeram alguma brincadeiras entre eles. Segundo informações recolhidas pelo PortugalDiário nas conversas que tinham, não havia menção a [sic] questão que os levava a estarem retidos em tribunal". Ou seja, o perfeito sentimento de frieza e completa impunidade que alguns "técnicos", especialmente pedopsiquiatras, tem ajudado a reforçar. No fundo quer fazer-se crer que são crianças, anjinhos completamente inocentes, vitimas de situações sociais e não carrascos, como no caso presente. Ora estes adolescentes, como muitos outros, são um perigo social - a começar para outros adolescentes (algumas escolas são lugares de extrema violencia). Atacam os mais fracos e os que fogem aos padrãos sociais dominantes, como foi o caso do crime desta semana no Porto (a vitima era sem abrigo, travesti, prostituto e toxicodependente, alguém completamente indefeso perante este bando, que não tão poucos adultos terão aplaudido). Que isto se tenha passado no Porto e os criminosos sejam de uma escola (Oficinas de S. José) pertencente à Igreja não será mero acaso.