
Peçam a grandiloquência a outros
acho-a pulha no estado actual da economia
(Variações em Sousa, 1987)
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EU VI UMA NOIVA SAIR DO AUTOMÓVEL
Ó noiva triste entre as noivas
que saem de casa pela manhã
partidas ao encontro da geada na relva,
noiva melancólica e sem palavras,
como te lamento assim vestida
de muitas folhas secas ao vento.
Sei que vais já morta, ferida no coração
por pedras e nevoeiros, por tarântulas.
Pequena caminhas sobre a leve seda
do teu manto, como as aves caminham
nos jardins molhados do Inverno;
sobes degrau a degrau, espada a espada
a tua última, arrebatada vertigem.
Rainha, agora, só de quebrados espelhos.
E da ternura exangue com que muda
celebrarás aos deuses malfazejos.
Aqui de longe envio com os olhos
um pequeno adeus, um punhado de terra.
(Cuidar dos Vivos, 1963)
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