1, Já se sabia das habilidades da IA para
escrever textos literários. Logo em 2022/23, a Amazon, que publica no seu site
livros electrónicos de quem quiser, aumentou as suas publicações. No entanto,
não se estava à espera que esta complexa máquina de calcular palavras
interferisse com um dos principais prémios literários: o prémio Goncourt deste
ano. Parece que toda a gente que leu o livro do escritor canadiano-haitiano
Thélyson Orélien, gostou. E era o livro deste autor o principal candidato ao
prémio Goncourt deste ano. Só que alguém publicou na rede social X (o grupo
Balance ton Claude) que este livro tinha sido escrito por IA. A suspeita estava
lançada. Assim como existem os modelos de IA que escrevem ficção, poemas,
ensaio e o mais que os utilizadores lhes pedirem, também existem programas de
IA para verificar se um texto foi escrito por humanos ou por um modelo de IA. O
modelo mais eficaz nessa tarefa é o Pangram. Ora, o autor(?) Thélyson Orélien,
que com C’était ça ou mourir já tinha contratos para ser editado em
vinte países, incluindo Portugal, onde seria publicado pela D. Quixote – que
anunciou a suspensão da edição – acabou por perder o apoio da sua editora, as
Éditions du Boréal que anunciou em comunicado que o autor tinha recorrido à IA
para escrever o seu romance. Antes disso, Thélyson Orélien tinha afirmado não
ter recorrido à IA, mas ter plagiado obras de outros autores – algo que nos
tempos pré-IA era considerado bastante grave, ao ponto de levar ao
“cancelamento” de um escritor ou jornalista.
2, Depois do aparecimento da Inteligência
Artificial o mundo já não é o mesmo, e tende a ser cada vez mais dominado por
esta. A literatura também não será mais a mesma. A suspeita sobre um romance,
livro de poemas, ensaio ou tese académica paira. Mas não se esperava que para
já a IA fosse capaz de competir com os escritores humanos. Por outro lado,
torna-se difícil saber o grau de autoria de um escritor (?) num texto com
intervenção da IA, ou seja, como o escritor elaborou os pedidos à IA, que tipo
de intervenção teve sobre o texto da IA, etc. A realidade é que há uma profunda
injustiça entre quem escreve um romance de 200, 300 ou 400 páginas, e quem pede
à IA, a partir de uma ideia que teve, que lhe escreva um romance ou outra obra
literária. E essa injustiça começa, desde logo no trabalho. Poderíamos
pretender para a literatura assistida ou feita por IA um equivalente à arte
conceptual, em que o trabalho de execução da obra de arte é feito por
trabalhadores pagos para isso, como se se tratasse de uma fábrica (como no caso
da escultora Joana Vasconcelos). Mas esta seria uma visão completamente nova da
produção literária. A escrita de um romance, mesmo que seja um romance
policial, implica uma relação do autor com a palavra, com a frase escrita que
não pode ser substituída sem a perda de autoria. Isso é notoriamente muito mais
evidente na poesia, e cabe aqui convocar o poeta e romancista Carlos de
Oliveira, que intitulou o conjunto da sua obra poética, depois de várias vezes
reescrita, de Trabalho Poético (1976).
3, Tendem alguns escritores a serem
benevolentes para com a IA. Por exemplo, a escritora francesa Amélie Nothomb,
sobre o caso de Thélyson Orélien, afirma em entrevista à revista L’ Express:
“Qu’ il ait pu recourir à l’ IA ne me choque pas une seconde. Cela ne fait pas
de lui un moins écrivain. En revanche, qu’ il ait pu recourir au plagiat me
consterne”. No entanto, nem os editores nem o júri do prémio Goncourt foram
benevolentes para com o escritor canadiano-haitiano (e será que lhe podemos
chamar escritor?). Creio que agiram bem, mas não sabemos que medidas editores e
júris de prémios literários vão tomar no futuro. Em volta desta polémica,
alguém lembrou-se em criar um prémio literário para textos criados por modelos
de IA, chamou-lhe prémio Pascal. Para já, a prestigiosa editora Gallimard
anunciou que irá fazer passar todos os manuscritos que recebe por um programa
de detecção para saber se as obras foram escritas por máquinas ou pessoas.
(Em cima foto de Thélyson Orélien)
