Ao número 20 a revista Textos e Pretextos (do Centro de Estudos Comparatistas da FLUL) abordou a temática da literatura e do futebol. A revista conta com ensaios de António Sá Moura, Norberto do Vale Cardoso e Nuno Domingos; textos (depoimentos, pequenas ficções, crónicas) de Álvaro Magalhães, Eric Nepomuceno, Gonçalo M. Tavares, Inês Fonseca
Santos, João Assis Pacheco, Jorge Almeida e Nuno Amado, Rui Miguel Tovar
e Ruy Castro. A terminar uma entrevista ao escritor brasileiro Nelson Rodrigues e uma bibliografia sobre literatura e futebol.
sexta-feira, setembro 30, 2016
quarta-feira, agosto 31, 2016
AUGUSTO MONTERROSO
A TARTARUGA E AQUILES
Finalmente, segundo o cabograma, na semana passada a Tartaruga chegou à meta.
Em conferência de imprensa declarou modestamente que sempre temeu perder, já que o seu rival lhe pisou os calcanhares o tempo todo.
De facto, uma décima-milésima-trilionésima de segundo depois, com uma seta e amaldiçoando Zenão de Eleia, chegou Aquiles.
Augusto Monterroso, A ovelha negra e outras fábulas, Angelus Novus, 2008, p. 31
domingo, julho 10, 2016
CAMPEÕES EUROPEUS
Durante longos anos a grande referência em termos de selecção nacional foi o 3º lugar no Mundial de Inglaterra, com uma selecção onde predominava Eusébio. Depois, há 32 anos, em França, foi uma derrota nas meias-finais com uma selecção de que faziam parte jogadores esquecidos mas grandioso no futebol português (Fernando Gomes, Chalana, Bento, Frasco, Sousa, Jordão, Néné, Oliveira... nem todos jogaram em 1984, mas todos fazem parte de uma geração grandiosa do futebol português). Depois houve Figo, Futre e outros; a final perdida frente à Grécia em casa há 12 anos. E agora, quando no início deste Euro 2016, Portugal não era apontado como favorito; quando o seleccionador Fernando Santos disse que só regressava a Portugal no dia 11 e todos se riram. Hoje o "impossível" realizou-se: Portugal tornou-se campeão da Europa, dessa Europa onde é chamado de porco, dessa Europa que políticamente nos quer impôr sanções.
Esta vitória da selecção nacional em França, frente à França, tem um relevo desportivo de décadas, mas também um relevo político e social de décadas. É como que uma vingança pelo sofrimento de mais de um milhão de migrantes que, por vezes nas piores condições foram ganhar a vida para terras gaulesas (veja-se o exemplo da mala de cartão de Linda de Suza, as barracas onde em finais dos anos 60 os portugueses viviam nas mais precárias condições).
quinta-feira, junho 30, 2016
VASCO GONÇALVES
É verdade que, em toda a nossa história, houve sempre portugueses que, por espírito mesquinho de classe, estiveram de cócoras diante do estrangeiro, prontos a sacrificarem os interesses da Pátria a interesses não-nacionais. Todos nós conhecemos os nomes de tais homens, e execrámo-los. Durante séculos e séculos, como bicho dentro da maçã, o partido castelhano corrompeu e desfibrou o País até levar aos opróbios de 1580; mais perto de nós, foram os integralistas (ora de imitação francesa, ora de figurino germanófilo e nazi) que se entregaram à mesma tarefa. Hoje, erguem-se vozes a cantar loas à Europa - não à Europa dos trabalhadores, claro, mas à Europa dos monopólios e das sociedades multinacionais. Ontem, houve quem servisse Castela contra a arraia miúda; hoje há quem há quem deseje colocar as classes laboriosas portuguesas na situação de fogueiros da fornalha da Europa capitalista...
Vasco Gonçalves, excerto de discurso de 18 de Agosto de 1975 em Almada (era então primeiro-ministro), in Exortação aos Poetas, col. Memória Perecível, da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, 2015, p. 39
terça-feira, maio 31, 2016
AND THE CAMÕES GOES TO... RADUAN NASSAR
A obra de Raduan Nassar, o vencedor do Prémio Camões 2016, é mínima: apenas três pequenos livros, Lavoura Arcaica (1975), Um Copo de Cólera (1978) e Menina a Caminho (1997), todas as obras editadas em Portugal pela Relógio d´Água e Cotovia. No entanto, para uma obra em prosa sobreviver ao tempo e o seu autor ser considerado um dos maiores escritores brasileiros, ombreando com nomes como Guimarães Rosa e Clarice Lispector, temos que estar perante uma prosa fortíssima.
Foi isso mesmo que entendeu o júri deste ano do Prémio Camões constituído por Miguel Honrado (secretário de estado da Cultura), Paula Morão e Pedro Mexia (por Portugal), Flora Sussekind e Sérgio Alcides do Amaral (pelo Brasil), Lourenço do Rosário (Moçambique) e Inocência Mata (São Tomé).
Raduan Nassar nasceu em 1935, em Pindorama (S. Paulo), filho de pais de origem libanesa. Após frequentar vários cursos universitários, sem concluir nenhum, começou a interessar-se pela literatura e pela agricultura - chegou a presidir à Associação Brasileira de Criadores de Coelhos. Nos anos 1970 publica os dois livros fundamentais da sua escassa obra, depois abandona a literatura para se dedicar em exclusivo à agricultura.
Recentemente Raduan Nassar apareceu em público para apoiar a destituída presidente do Brasil, Dilma Roussef.
terça-feira, abril 26, 2016
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Há entre Mário de Sá-Carneiro e Fernando
Pessoa mais que uma amizade. Sá-Carneiro poderá ter sido prejudicado por essa
pequena multidão de gente que habitava a mente e o génio de Pessoa. Demasiado ofuscante
para toda a poesia que viria depois, Mário de Sá-Carneiro terá sido a primeira “vítima”
de Pessoa. Sá-Carneiro foi quase um heterónimo de Pessoa. Mas, por outro lado,
Pessoa foi o duplo de Sá-Carneiro, a alteridade em que se funda a poesia
moderna, pelo menos desde Rimbaud (o outro, “Aqueloutro”).
E, no entanto, há um caso Mário de
Sá-Carneiro na literatura portuguesa que tem sido sombreado pela imensa
complexidade – em todos os sentidos – do caso Pessoa. E Sá-Carneiro, de mais
breve vida, de obra publicada em vida e com poucos inéditos, não deixa de ser
um caso único na unicidade da sua obra a que se liga um ou outro biografema,
quando não se tenta fazer uma interpretação da obra pela biografia ou
vice-versa. A orfandade materna, o dinheiro, os cafés, Paris… e o suicídio, a
26 de Abril de 1916, que parece ter sido uma encenação para um espectador –
João Araújo.
Mas para além de tudo isto, há uma obra de
extrema riqueza, quer a nível poético quer ficcional. É essa obra, escassa, que
tem vindo a ser descurada, talvez em proveito de um mito que o jovem suicida alimenta.
Ou, simplesmente a literatura de Mário de Sá-Carneiro, hoje, cem anos após o
seu suicídio, ainda não foi entendida. Como defendem vários especialistas na
obra do “esfinge gorda” na edição de hoje do Público (pp. 24-25), terá sido
Sá-Carneiro a abrir caminhos para a obra pessoana. Repare-se num poema como
Manucure (datado de Maio de 1915), “semifuturista” mas algo de único na
literatura portuguesa, na sua ligação às vanguardas de princípios de século. E
algo de único também entre o barroco e a poesia experimental. É claro que a
literatura, nem a sociedade, portuguesa estava preparada para ter um Mário de
Sá-Carneiro – e provavelmente ainda não está. Mário de Sá-Carneiro sabia que
escrevia para o futuro, o que espanta é como esse futuro tem andado alheado
desta escrita. Será porque ainda não a compreendeu?
sábado, abril 16, 2016
O JORNALISTA NÃO MORDE O DONO

Sexta-feira foi noticiado no Jornal de Notícias a discussão e aprovação de uma lei que partiu de um projecto de iniciativa cidadã com cerca de 157 mil assinaturas. O projecto de lei dizia respeito ao fim do período de fidelização de 24 meses dos serviços das operadoras de telecomunicações. Como bem escrevia o subdirector do JN, David Pontes, "sempre que vierem à baila os interesses de grandes empresas,
preparemo-nos para a sintonia entre os dois grandes blocos [PS e PSD] e a completa
nulidade da ação dos reguladores". Portanto, a referida tentativa de acabar com o abuso que é o período de fidelização de 24 meses saiu em parte gorada porque PS e PSD formam, ainda, um bloco central que serve os interesses das grandes empresas. No entanto, algo mudou. O que não mudou, antes pelo contrário, foi a forma como os média noticiam estes acontecimentos. Se o JN deu relevo a esta iniciativa, que mobilizou 157 mil pessoas, já o Público a ignorou por completo (não falo dos outros jornais e telejornais que não consultei nem vi). Torna-se fácil perceber porque razão esta notícia não saiu no Público: o jornal é propriedade da sonae, o mesmo grupo empresarial que detém uma das operadoras de telecomunicações em Portugal, a actual Nos. O que está em questão é a independência editorial de um jornal que se tem como jornal de referência perante o seu dono. Mais: sendo as operadoras de telecomunicações um dos principais clientes, a nível publicitário, de televisões e jornais, qual a independência editorial dos média perante estas grandes empresas? Ou estamos todos, desde consumidores a partidos políticos, reféns dos interesses destas empresas? Na resposta a esta pergunta, creio, está também a resposta à pergunta sobre a nossa liberdade, e em última instância sobre quem verdadeiramente nos governa.
terça-feira, abril 12, 2016
Inês Fonseca Santos

Eis a língua terrível,
incendiada, densa,
de encontro ao verso;
a língua de lamber
da mão a ferida aberta
no encontro do verso.
Nessa língua, saberás falar: a boca
aberta com o abismo dentro
como se alguém estivesse realmente
à escuta do outro lado.
Do outro lado:
um tiro na cabeça do verso,
estilhaçando a voz.
Sem colete à prova de bala
Inês Fonseca Santas, O Voo Rasante - Antologia de poesia contemporânea, Mariposa Azual, 2015, p. 62
Inês Fonseca Santos (1979) é jornalista cultural, com quase total dedicação aos livros. Publicou uma antologia do humor português e, no campo da poesia editou os livros As Coisas (abysmo, 2012) e Habitação de Jonas (abysmo, 2013). É ainda autora de um estudo sobre a obra de Manuel António Pina: Regressar a Casa com Manuel António Pina (abysmo, 2015).
domingo, março 13, 2016
A ANACOM OS GRANDES
A Ana não
vai com todos. Vai só com os poderosos, como uma puta cara. É assim a ANACOM, a
Autoridade Nacional para as Comunicações, órgão do Estado que tem por função
regular as ditas comunicações – desde a TDT aos serviços de voz e internet das
grandes operadoras (meo, vodafone, nos). Vejamos o que fez a ANACOM no diz
respeito à TDT. Obrigou os telespectadores a comprar caixas de descodificação
do sinal da TDT. Em muitas regiões do país o sinal ainda não chega ou chega
mal. Eu, que vivo no litoral norte, a poucos quilómetros do Porto, tenho tido
nos últimos dias dificuldade em ver tv porque o sinal chega mal. E quem ficou
com as bandas que serviam o antigo sinal de televisão, os saudosos VHF e UHF?
As operadoras de telemóvel. Por aqui já podíamos ver para que serve a ANACOM –
para servir os interesses das três grandes operadoras de telemóveis, tv por
cabo, etc, enfim os três grandes grupos que dominam as telecomunicações em
Portugal( no caso da televisão o exemplo português é vergonhoso: apenas um
canal foi acrescentado na TDT – o Canal Parlamento, enquanto em Espanha, e
noutros países, uma série de canais foram acrescentados). Mas o descaramento e
servilismo desta entidade reguladora estatal que devia representar os
interesses dos cidadãos vai muito mais longe. Basta esta expressão: “utilização
responsável”. Que quer isto dizer? Que o utilizador de um determinado tarifário
de internet ou telemóvel tem x GB ou minutos para utilizar a internet ou o
telemóvel. Quando ultrapassa, por exemplo, em certos tarifários os 15 GB de
internet a mesma é-lhe cortada, ou passa a uma velocidade tão baixa que é
impossível ligar-se a qualquer site. O mesmo acontece com tarifários de
telemóvel: se ultrapassar x minutos fica incomunicável.
É
interessante trazer toda esta realidade promovida pelo neoliberalismo, quando
ouvimos os pseudo-palermas das start-ups e alegados “gurus” da internet como
António Câmara falar da internet das coisas – os objectos com dispositivos que
os tornam “inteligentes” e “comunicantes”.
Mas importa
regressar à ANACOM, a essa entidade
presidida por uma tal Maria de Fátima Henriques da Silva Barros. Agora que
parece ter acabado o fartote neoliberal do governo de Passos Coelho, é altura
de fazer com que a ANACOM se torne uma entidade ao serviço dos cidadãos e não
dos poderes económicos das grandes operadoras de telecomunicações. Para isso
deve este governo começar por substituir a actual presidente da ANACOM, a tal
senhora Fátima Barros, e colocar alguém capaz de afrontar o poder económico.
segunda-feira, fevereiro 15, 2016
COSTA E A PROMESSA DA POLÍTICA
O que seria
de esperar de um governo do PS apoiado pela esquerda – BE e PCP? Seria de
esperar a reversão da maioria das medidas tomadas pelo governo de destruição
nacional PSD/CDS. Senão todas agora pelo menos até ao fim provável da
legislatura, daqui a quatro anos. Mas não. Este governo de António Costa é
maquiavélico, no sentido em que apenas pretende o poder pelo poder, o governar
por governar, porque é para isso – acham – que serve um partido como o PS.
Engano. As pessoas, os portugueses, os alegados eleitores estão, com razão, fartos
de uma classe política que da direita à esquerda apenas quer o poder, mesmo que
para isso se tenha que desfigurar na sua identidade ideológica. Já tínhamos o
exemplo grego de Alexis Tsipras, que em pouco tempo se transformou de um
radical que ameaçava a ordem podre e anti-democrática da UE num amestrado
político às ordens de frau Merkel e dos interesses financeiros. Agora tivemos
António Costa a liderar um governo PS, apoiado pela primeira vez na história da
democracia constitucional portuguesa pós 25 de Abril por todos os partidos à
sua esquerda (BE, PCP, PEV, PAN), a ir ao beija-mão a frau Merkel. O mesmo
Costa que dá despudoradamente conselhos aos portugueses para andarem mais a pé
ou não fumarem é o simile na administração da vida do que Passos Coelho foi na
destruição de vidas.
Um governo
socialista, um governo apoiado por uma maioria de esquerda, sim. Mas não era
nada disto que estávamos à espera. Não estávamos à espera de OE que continuasse
a austeridade, não estávamos à espera que um governo socialista pagasse mais de
2 mil milhões de euros para “vender” um banco falido – isso já tínhamos visto
no governo de Passos Coelho.
Passaram pouco
mais de dois meses sob a tomada de posse deste governo de António Costa que
nunca chegou a conhecer o estado de graça, embora fosse tão promissor para quem
não tinha acompanhado o percurso dos últimos meses do ex-presidente da CM de
Lisboa – das primárias do PS às eleições legislativas, Costa revelou que não é
o mesmo comentar as políticas dos outros que estar no terreno, a fazer
política. Se seguro era inseguro, também Costa veio revelar-se titubeante sendo
incapaz de impor os interesses dos portugueses em Bruxelas. Era isso o mínimo que
podíamos pedir a António Costa – que representasse os interesses dos
portugueses (que não são bem os interesses de Portugal) em Bruxelas de forma
combativa e não de cócoras ou ajoelhado.
Mas talvez
isso fosse pedir muito. Talvez isso, nestes tempos que vivemos de políticos que
se acobardam perante os deuses dos mercados e a sua sacerdotisa Angela, fosse
pedir um messias que afrontasse essas entidades que governam o nosso destino. Mas
isso é tão só o mínimo que podemos (sim, Podemos) pedir a quem nos governa. Porque
isso é política, “a promessa da política” que poderemos ter uma vida melhor. Mas
o que a chamada classe política tem feito é governar contra as pessoas, a favor
de uma elite em que ela mesma se inclui. Espantam-se os políticos com o nível
de abstenção? Mas porque devem as pessoas ir votar? Para financiar os partidos
ou os candidatos?
Mas isso não
significa que as pessoas se devam arredar da política. Em primeiro lugar porque
a política faz-se em todo o lado e não só na altura de depositar o voto na urna
– a política habita o espaço público, das manifestações aos pequenos protestos nos
livros de reclamações. Em segundo lugar cabe aos cidadãos numa democracia
parlamentar vigiar e denunciar não só o que acham que é corrupção, mas também,
e sobretudo, o que pode pôr em risco a democracia como espaço de liberdade de
expressão e acção (dentro das regras de um estado de direito). Esta é a “promessa
da política” a que António Costa parece estar a faltar. Esperemos pelo caso
espanhol e o que pode o Podemos.
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