domingo, fevereiro 28, 2021
Yosa Buson
domingo, janeiro 31, 2021
AMEAÇAS À DEMOCRACIA
1, No estado em que vivemos, a realização de eleições presidenciais torna-se problemática. O presidente reeleito e a Assembleia da República tiveram muito tempo para legislar sobre o adiantamento de eleições - não o quiseram fazer. O próprio Marcelo manteve um tabu artificial sobre a sua recandidatura. Mas deu-se ao luxo de fazer uma campanha solitária, num estilo de populismo light que cultivou durante todo o mandato. Seria esse populismo, pensava-se, uma forma de travar o populismo de direita de características neofascistas que da França à Alemanha, passando pela vizinha Espanha, grassa pela Europa e pelo mundo. Mas não. Portugal não escapou a esse populismo fascista, por meio de uma figura, que vinda do PSD de Passos Coelho (foi candidato à CM de Loures), com alguma visibilidade mediática por ser comentador de futebol numa estação de televisão, se pôs a destilar ódio contra a etnia cigana, contra os mais frágeis da população portuguesa, que vivem do RSI, a quem chama de subsídio-dependentes. Se nas legislativas de 2019 o partido que fundou conseguiu elegê-lo como deputado à AR, a partir daí o crescimento do seu partido de extrema-direita foi galopante nas sondagens. A confirmação desses números das sondagens, deu-se agora nestas eleições presidenciais, onde o líder da extrema-direita obteve cerca de 12% dos votos, cerca de meio milhão de eleitores. Apenas Ana Gomes, numa candidatura corajosa, conseguiu, eleitoralmente, fazer frente ao candidato da extrema-direita, e ficar em segundo lugar. A questão que se coloca é como foi possível chegarmos aqui, termos um líder da extrema-direita, apoiado por Marine Le Pen ou Salvini, que conseguiu o terceiro lugar numa eleição presidencial. A resposta parece estar nos média: numa lógica de que "tudo o que é bom aparece, tudo o que aparece é bom", os vários meios de comunicação social, falaram fartamente do líder da extrema-direita portuguesa. Mesmo quando falavam mal dele, falavam, e como deviam saber, mesmo a má publicidade é publicidade, e acaba por gerar simpatias. O velho discurso xenófobo e racista, contra os mais desprotegidos da sociedade, o discurso de que "o que fazia falta era um Salazar", regressou, agora corporizado num partido que ameaça tornar-se na terceira força política portuguesa e reconfigurar a direita, fazendo desaparecer o CDS-PP. Aos média que não querem o crescimento deste tipo de força política cabe pensar como abordá-la, como estancar a sua presença, quase diária, nas notícias, e tomar partido, editorialmente, contra. Aos partidos da direita clássica e também da nova direita liberal (PSD, CDS e IL) cabe criar um cordão sanitário que impeça uma futura aliança de direita onde o partido radical entre. No entanto, a sede pelo poder é grande, o que não augura nada de bom. A extrema-direita tem um tecto sociológico, é isso que impediu que a França se tornasse num país onde o (ou a) presidente da República fosse um(a) Le Pen. Mas no caso português é diferente, como se viu nos Açores, onde se criou uma geringonça à direita com o apoio da extrema-direita. De certa forma, e perante esta situação é a democracia que fica refém de um partido, ainda que minoritário, que fala de uma IV República, de "uma ditadura das pessoas de bem".
2, As ameaças à democracia, podem não passar por partidos, podem simplesmente estar nos nossos bolsos, sob a forma de um smarphone. Ameaças à nossa liberdade e à nossa privacidade, que vincam a razão que Orwell tinha, há mais de 70 anos, ao escrever o romance 1984 (recentemente reeditado em nova tradução pelo poeta José Miguel Silva e com prefácio de Gonçalo M. Tavares, pela Relógio d' Água). Uma notícia do Público - [
Saber o que ouvimos não chega: o Spotify quer saber como falamos, onde estamos e com quem
A empresa sueca registou a patente de uma tecnologia que permite o acesso e a análise da voz dos utilizadores e do som ambiente que os rodeia. O objectivo, diz, é afinar o mais possível o seu algoritmo de sugestões.] dá conta de que a aplicação músical Spotify se prepara para nos escutar, saber onde e com quem falamos, para, assim, nos dar música mais condizente com os nossos gostos. Confesso que nos últimos meses utilizei esta aplicação para ouvir música e podcast's. Fiz algumas descobertas musicais e de podcasts. Mas a aplicação, para quem não era "premium", ou seja não pagava, tornava-se deliberadamente irritante na sua auto-publicidade. O problema dos algoritmos nas novas tecnologias, que nos escutam, nos "olham", sabem onde estamos, têm acesso a tudo o que temos nos telemóveis, é um problema grave de ameaça à nossa liberdade, logo um problema sobre o qual os Estados devem legislar com urgência. Não se pode permitir que grandes empresas, muitas vezes em regime de monopólio, como acontece com a google, nos estejam a espiar constantemente. Chegamos, tecnologicamente, à sociedade retratada em 1984. Mas ainda não vivemos em ditaduras. Por isso, se os governos nada fazem, é altura dos cidadãos se manifestarem e exigir limites legais ao processamento de informação por parte destas empresas, exigir a nossa privacidade - quer perante o Estado, quer perante empresas privadas - como um valor democrático.
domingo, janeiro 03, 2021
quinta-feira, dezembro 31, 2020
LIVROS EM 2020
Aqui fica a lista, que estará bastante longe de ser exaustiva,
dos livros de poesia publicados em 2020, e de uma selecção
de livros do ano. Saliento o II volume da Obra Poética
de Ramos Rosa, e a reedição da obra completa de
um poeta que está entre os melhores das últimas décadas:
Carlos Poças Falcão.
ASSÍRIO & ALVIM
António Ramos Rosa – Obra Poética II
Mário Cesariny – Poemas Dramáticos e Pictopoemas
Adília Lopes – Dias e Dias
Pedro Eiras – Inferno
Rosa Maria Martelo (org.) – Antologia Dialogante de Poesia Portuguesa
Jorge de Sousa Braga – A Matéria Escura
Yosa Buson – Os Quatro Rostos do Mundo
AVERNO
Manuel de Freitas - 769118
Inês Dias – Cerveja & Neve
BESTIÁRIO
Rui Baião - Scaramuccia
COMPANHIA DAS ILHAS
Frederico Pedreira – A lição do sonâmbulo
Cláudia Lucas Chéu – Confissão
Manuel Fernando Gonçalves - Alarido
AA VV – Afagando a face de Lorca
Álamo Oliveira – Poemas vadios
Nuno Dempster – Variações da Perda
Nuno Felix da Costa – Epopeia mínima
COTOVIA
Virgílio – Eneida (trad. Carlos Ascenso André)
DEBOUT SUR L’ OEUF
Manuel Fernando Gonçalves – Sol fora
Pedro Magalhães – Esturrado
Luís Cacho – O brocado do cio
José Emílio-Nelson – Sonetos Glaucos
Nuno F. Silva – Epilepsy dance
DO LADO ESQUERDO
António Amaral Tavares – A faca que nos une
José Carlos Barros – A educação das crianças
Billy Collins – Contra sinos de vento (trad. Francisco José Craveiro de Carvalho)
DOUDA CORRERIA
Rui S. Magalhães – Queda de neve nas terras altas
Paulo Ramalho – Manual de sobrevivência para náufragos
Maria Daniela – V de vagem
João Paulo Esteves da Silva – Missangas
Maria Lúcia Alvim – Antologia poética
Natália Agra – A noite de São João
Thomaz de Figueiredo – Sonetos da casa amarela
Nick Virgilio – Um capacete crivado de balas (trad. Francisco José Craveiro de Carvalho)
Marta Caldas – E aquáticos
Débora Miltrano – Curso técnico para a iluminação
António Ferra – Clara em castelo
Guilherme Vilhena Martins – Háptica
Bernard O’ Donoghue – Fora do sítio (trad. João Paulo Esteves da Silva)
Sean Bonney – A nossa morte (trad. Miguel Cardoso)
João Silveira – Pomba-Peste
Rafaela jacinto – Regime
Alexandre Costa – Na dúvida dedicaremos o fim
Regina Guimarães e Ricardo Castro – Traumatório
Manuel Seatra – Raiz densa no pátio da garganta
Gonçalo Perestelo – Tomo banhos imperadores
EXCLAMAÇÃO
Regina Guimarães – Antes de mais e depois de tudo
EDIÇÕES SAGUÃO
Emily Dickinson – Poemas envelope (trad. Mariana Pinto dos Santos e Rui Pires Cabral)
FRESCA
Samsara – Painéis Solares
João Coles – Merda para as Musas
Narciso Pinto – Unhas-de-Fome
Tatiana Faia – Leopardo e Abstracção
IMPRENSA NACIONAL/CASA DA MOEDA
Vitorino Nemésio – Poesia (1950-1959)
LICORNE
João Pedro Mésseder – Espanta-espíritos
Tu Fu – Entre céu e terra (“transgressões” de Manuel Silva-Terra)
Rainer Maria Rilke – Notas sobre a melodia das coisas
LÍNGUA MORTA
Roger Wolfe – Fazer o trabalho sujo (antologia org. por Luís Pedroso)
Andreia C. Faria – Clavicórdio
Luís Carlos Patraquim – Morada nómada
Luís Filipe Parrado – O universo está pintado à mão
Pablo Javier Pérez López – Dicionário de garças e de melros & outros textos (trad. João Moita)
??? – O meu livro de cabeceira é um revólver (trad. Jorge Melícias)
Mariano Alejandro Ribeiro – Bartlebyana
Carlos Poças Falcão – Arte nenhuma (co-edição com a Livraria Snob)
Ivone Mendes da Silva – Os contos esquivos
Amâncio Reis – Pterodáctilo
Nuno dos Santos Sousa – Ao ouvido de um moribundo – uma antologia desesperada da poesia portuguesa
Joan Margarit – Misteriosamente feliz (sel, trad. Miguel Filipe Mochila)
Raul de Carvalho – Lâmpadas acesas para aumentar o dia (sel. Diogo Martins)
(NÃO EDIÇÕES)
José António Almeida – Pouca tinta (poesia reunida)
Susana Araújo – Discurso aos pacientes cirúrgicos
Rui Pires Cabral – Drawing Rooms
Inês Francisco Jacob – Sair de cena
Edwin Morgan – 100 poemas (sel. Trad. Ricardo Marques)
MALDOROR
Diogo Vaz Pinto – Aurora para os cegos da noite
PORTO EDITORA
Artur do Cruzeiro Seixas – Obra poética I (org. Isabel Meyrelles)
Artur do Cruzeiro Seixas – obra poética II
PUBLICAÇÕES DOM QUIXOTE
Manuel Alegre – Quando
Nuno Júdice – Regresso a um cenário campestre
QUETZAL
Frederico Lourenço (trad. e org.) – Poesia Grega de Hesíodo a Teócrito
João Luís Barreto Guimarães – Movimento
RELÓGIO D’ ÁGUA
Louise Gluck – A Íris selvagem (trad. Ana Luísa Amaral)
Louise Gluck – Averno (trad. Inês Dias)
Miguel-Manso – Estojo
Hélia Correia – Acidentes
TINTA DA CHINA
Alejandra Pizarnik – Antologia poética (trad. Fernando Pinto do Amaral)
VOLTA D’ MAR
José Ricardo Nunes – Si dispensa daí fiori
Sandra Costa – Boletim Meteorológico
Uma selecção de livros (ficção, ensaio, poesia)
AA VV – O Cânone (Tinta da China, Fund. Cupertino de Miranda)
Paul Celan/Ingeborg Bachmann – Tempo do Coração (Antígona)
Alejandra Pizarnik – Antologia Poética (Tinta da China)
António Ramos Rosa – Obra Poética II (Assírio & Alvim)
Adília Lopes – Dias e Dias (Assírio & Alvim
Ana Teresa Pereira – Os Perseguidores (Relógio d’ Água)
Shoshana Zuboff – A Era do Capitalismo de Vigilância (Relógio d’ Água)
António Damásio – Sentir & Saber (Temas e Debates)
AA VV – História Global de Portugal (Temas e Debates)
Robert Arlt – Águas Fortes Portenhas (Exclamação)
Mónica Bello – A Vida Extraordinária do Português que Conquistou a Patagónia (Temas e Debates)
Alberto Velho Nogueira – Ensaios 3 (Bestiário)
Gabriel Garcia Marquez – O escândalo do século (D. Quixote)
José Mattoso – A História Contemplativa (Temas e Debates)
Carlos Poças Falcão – Arte Nenhuma (Língua Morta / Livraria Snob)
Andrea Mazzola – Transhumano mon amour (Jornal Mapa)
segunda-feira, novembro 30, 2020
Graça Videira Lopes
*
NEBLINA
sábado, outubro 31, 2020
Raimbaut de Viqueiras
quarta-feira, setembro 30, 2020
Dick Haskins e o policial
O nome de António Andrade Albuquerque, ou mesmo o de Dick Haskins, nada dirá ao leitor mediana ou mesmo bem informado português. Sendo que Dick Haskins é o pseudónimo utilizado de António Andrade Albuquerque para a escrita de 21 romances policiais, na esteira de outros autores portugueses, que optaram pelo uso de um nome inglês para pseudónimo na assinatura autoral de um romance policial, como é o caso de Ross Pynn (José Roussado Pinto, 1926-1986), Dennis McShade (Dinis Machado, 1930-2008), Frank Gold (Luís da Silva Campos, 1942-2000) ou W. Strong-Ross (Francisco Valério Azevedo, 1888-1980). Mas destes nomes, entre outros, que fizeram o policial português o nome de Dick Haskins foi o que conseguiu uma internacionalização, rara mesmo na literatura "convencional" portuguesa. É assim que a partir de 1961, ainda a obra de António Andrade Albuquerque estava no início, começa a ser traduzido em Espanha e na América do Sul, países a que se seguem a Alemanha, Itália, França, Suécia, Holanda, Grã- Bretanha, Estados Unidos, México, África do Sul, Austrália ou Nova Zelândia, num total total de 30 países e milhões de exemplares vendidos. Na verdade, em número de países e em milhões de exemplares Andrade Albuquerque/Dick Haskins ombreia com autores como José Saramago ou António Lobo Antunes, e no entanto é (foi), em Portugal um autor desconhecido. Isto diz muito da forma como o policial tem sido tratado em Portugal - e não só - como um género menor da literatura, a par com a ficção-cientifica (embora sejam famosas coleções como a dos Livros do Brasil, ou da Editorial Caminho). O certo é que o policial evoluiu, tanto em língua inglesa com autoras como Patricia Highsmith ou Ruth Rendell, ou no caso português em autores como Francisco José Viegas, mais próximo do policial clássico, ou os primeiros livros de Ana Teresa Pereira, autora com um universo muito próprio que foge ao policial clássico, embora tenha publicado os seus primeiros livros na coleção policial da Caminho. E tanto Viegas como Ana Teresa Pereira são hoje autores de referência na literatura portuguesa, premiados com o Prémio de romance e novela da APE.
António Andrade Albuquerque nasceu em Lisboa, a 11 de Novembro de 1929. Frequentou o liceu Passos Manuel, onde teve como professor o historiador de literatura António José Saraiva, que via no seu aluno um futuro escritor. Mas acabou por ir parar ao curso de medicina, o qual não terminou para se entregar à escrita. Escreveu 21 policiais. Entre o fim da década de 1970 e inicio de 1980, a RTP produziu uma série de 12 episódios baseados nos seus policias. Em 2008 foi galardoado com a medalha de honra da SPA. Vivia em Peniche. Faleceu em 2018, aos 88 anos. Neste momento não é possível encontrar exemplares de livros do autor nas livrarias portuguesas.
segunda-feira, agosto 31, 2020
Leonor de Almeida e a Feira do Livro do Porto
ENTRONIZAÇÃO
sexta-feira, julho 31, 2020
Al - Mu'tamid
terça-feira, junho 30, 2020
António Manuel Couto Viana

O AVESTRUZ LÍRICO
Avestruz:
O sarcasmo de duas asas breves
(Ânsia frustrada de espaço e luz,
De coisas frágeis, líricas, leves) ;
Patas afeitas ao chão;
Voar? Até onde o pescoço dá.
Bicho sem classificação:
Nem cá, nem lá.
Isto sou (doi-me a ironia
- Pudor nem eu sei de quê).
Daí a absurda fantasia
De me esconder na poesia,
Por crer que ninguém a lê .