sexta-feira, julho 31, 2026

Abade de Jazente (Paulino António Cabral)

 


É bem feliz por certo, o que somente

Ao rústico lavor acostumado

Conduzir sabe os bois, reger o arado,

E dar à terra a provida semente.

 

A arte de lavrar sempre inocente

Estuda só, e ignora afortunado

As novas leis, as máquinas de Estado,

E os documentos de enganar gente.

 

Projectos vãos não forma, e sempre isento

Da soberba ambição, nunca a Lisboa

Foi dobrar o joelho ao valimento.

 

Cabana humilde, onde nasceu, povoa;

E seguro no próprio abatimento,

Só tem medo do Céu, quando trovoa.

 

In Adeus, Campos Felizes – Antologia do campo na poesia portuguesa do século XIII ao século XXI, selecção e ensaio de Rui Lage, Assírio & Alvim, Porto, 2025, p. 171.

 


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