segunda-feira, agosto 31, 2026

Beatriz Almeida Rodrigues

 


MEIA-LUZ

inscreveste-te no vidro quando o quarto se apaga
os teus dedos como lâmpadas fragmentadas
crivam nas janelas as últimas partículas de sol

és um corpo de poeira
és um corpo 
és
aquele que vem esvaziar as minhas palavras
insuflá-las de hélio que roubaste aos astros
para que não caibam nessa equação vaga
a que chamamos linguagem
então desajustadas iniciam a grotesca parada
da nossa derrota
mãe rosa regaço arco
enfileiradas no trejeito dos teus lábios
de escárnio perante o quão pouco
os nossos antepassados nos deixaram
um punhado de palavras gastas
que desfilam para o abismo do teu olho
escancarado

julgamos que após afogarmos os nossos deuses
e lhe cosermos as pálpebras
não haveria mais testemunhas
mas restas tu
que te ergues de passagem
para operar alquimias nas sombras

Beatriz Almeida Rodrigues, in A Rosa Devorada pelos Espinhos - Antologia crítica da poesia portuguesa do primeiro quartel do século XXI, Org. de Diogo Vaz Pinto, João Vasco Rodrigues e Nuno dos Santos Sousa, Língua Morta, 2026, pp. 407-408

Beatriz Almeida Rodrigues nasceu em 1996. Publicou até à data um só livro de poesia: Manganês (Flan de Tal, 2021), tendo colaboração em várias revistas literárias. É doutoranda em filosofia no King´s College de Londres com um projecto de investigação sobre o grotesco,


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