quinta-feira, julho 11, 2013
UM RECADO DOS XUTOS PARA O "COELHINHO"
quarta-feira, julho 03, 2013
O DESMORONAMENTO DE PPC
Quando eu
andava no que hoje é o actual 5º ano, existia na minha turma um rapaz que
queria ser Presidente da República. Esta resposta, dada na sala aula era, claro,
motivo de chacota. Mas creio que um professor, mais alerta para os reveses da
vida, não terá descartado de todo a possibilidade, embora se tratasse do pior
aluno da turma. Não sei por onde anda esse meu antigo colega, mas deverá ter
ficado pela agricultura. Mais ou menos por essa mesma altura, um jovem já
envolvido na política partidária, ao ver o grupo As Doces decidiu que haveria
de casar com uma delas – e consegui. Passou à realidade o que deveria ser uma
fantasia de muitos homens na época. Creio que esse jovem, já nessa altura,
sonhava ser primeiro-ministro e talvez também Presidente da República. Esse
jovem, agora perto dos cinquenta, é desde há dois anos primeiro-ministro de
Portugal. E conseguiu ser mais que primeiro-ministro. Pedro Passos Coelho
ficará na História de Portugal como o pior primeiro-ministro de sempre (abre-se
uma excepção para Salazar, naturalmente), como aquele que executou um programa
de destruição do país, ordenado por interesses mais ou menos obscuros,
representados pela troika e pela Alemanha. Mas na ganância do poder quis “ir
além da troika”, empobrecer Portugal, estrangular a economia. E, com a preciosa
ajuda de Vítor Gaspar, como exterminador implacável da economia portuguesa, e o
silencioso apoio do “palhaço” Cavaco, conseguiu o seu objectivo.
Nos últimos
dois dias tudo se desmoronou com a demissão de Gaspar e depois de Paulo Portas.
Ontem, nas televisões, Coelho fazia lembrar um general de Saddan Hussein que
quando as tropas americanas já estavam em Bagdade insistia em dizer que tudo
permanecia na mesma. O “não me demito” de Coelho faz parte já de um
negacionismo da realidade que raia o psicótico ou a tragicomédia de um filme
muito muito mau. A apoiar tudo isto está a múmia presidencial. Perante esta
situação, de nada vale invocar os mercados – esses “deuses”, para quem Coelho,
Gaspar e Cavaco sacrificaram a vida dos portugueses durante dois anos, não são
tão estúpidos como parecem, e muito menos misericordiosos. Implacáveis estão a
vender tudo que é produto financeiro português. A manutenção deste governo (?)
de nada serve; a batata quente está nas mãos do presidente.
É necessário
dizer, redizer, que, desde o 25 de Abril, nunca um governo faz tão mal aos portugueses.
E mesmo agora, na hora que está prestes a sair de cena insiste em complicar as
coisas, em fazer mais mal. Nunca um governo teve um primeiro-ministro tão
estúpido, tão incapaz; nunca um primeiro-ministro mentiu tanto, tão
colossalmente, entre aquilo que prometeu em campanha eleitoral e o que fez
depois.
É agora
altura de regressar à política e mostrar que os mercados são deuses com pés de
barro. Mas essa é a mais difícil das tarefas, para a qual não servem pessoas
inseguras.
quarta-feira, junho 26, 2013
UM GESTO POR INVENTAR
Em
entrevista publicada no jornal i da passada segunda-feira, Rui Tavares admite a
criação de um novo partido de esquerda. A forma tímida e demorada dessa
admissão, que o texto de capa do jornal ilustra (“Em entrevista ao i, o
eurodeputado Rui Tavares quebra um tabu e assume que a esquerda ‘não deve ter
vergonha’ de formar um novo partido, afirmando em voz alta ‘o que outros dizem
nos corredores’”), mostra como se tem feito política em Portugal nos últimos
dois anos, ou seja, durante a vigência deste governo de destruição nacional. Ou
dito doutro modo, como a oposição, a esquerda, perante uma situação política
anormal, de emergência, que na História portuguesa recente só encontra paralelo
no PREC de 1974-75, quase nada tem feito. Que algumas das vozes contra a
escandalosa política deste governo, que nos manda empobrecer, venham da
direita, como é o caso de Pacheco Pereira, Manuela Ferreira Leite ou Bagão
Félix é sintomático – enquanto algumas personalidades da esquerda, com
responsabilidades partidárias ou governativas nas últimas décadas, se mantém em
silêncio ou só há pouco tempo acordaram (por exemplo: António Guterres, Ferro
Rodrigues, Jorge Sampaio, Ramalho Eanes). Pode-se dizer que os políticos, ou
ex-políticos, estão em consonância com o povo que engole o barrete da dívida,
em parte ajudado por uma longa série de comentadores televisivos, de Marcelo a
José Gomes Ferreira, na versão soft, que
nos explicam a sorte que temos em ter uma troika
que nos ajuda, e como os pobres do tempo de Salazar, como devemos ser
agradecidos para com a troika e a
Chanceler Merkel (que se prepara para vencer as próximas eleições em Setembro,
muito à custa dos países “intervencionados” do sul que renderam no último ano à
Alemanha 80 mil milhões de euros).
De facto, os
portugueses adormeceram ao som de um fado antigo. Estão, como nunca divorciados
da política e dos políticos – e têm razão. Mas os portugueses enfiam ainda mais
o barrete, tapam os olhos e assobiam para o lado. Enquanto isto, no Brasil,
essa espantosa criação portuguesa, o povo saiu à rua e mostrou a sua força.
Neste
momento, em Portugal – como também um pouco pela Europa do sul atingida pela
agiotagem financeira da troika e da
Alemanha – impera a inércia, o pasmo, a lentidão. Faz sentido criar um novo
partido à esquerda, nesta situação? Faz todo o sentido se for para acordar o
país, para enfrentar energicamente os tempos que vivemos, tempos difíceis e
sombrios. Mas esse partido terá que ser diferente: a questão não é a ausência
de um programa político – temos melhor programa político que a Constituição
(que em muitos dos seus artigos nunca foi comprida)? A questão, essencial, está
na atitude. E essa atitude é ainda um gesto por inventar que não se coaduna com
a inércia e burocracia político-partidária existente.
terça-feira, junho 25, 2013
ELES FAZEM LÁ O QUE NÓS NÃO FAZEMOS AQUI
terça-feira, junho 11, 2013
LUÍS FILIPE DE CASTRO MENDES
OS DERROTADOS DE ABRIL
Preferiam a guerra, os anos de cinza,
a morte devagar distribuida
e os muros pintados a cal.
E eles pensam: terá voltado a nossa hora?
Mas é tudo diferente.
O dinheiro nunca teve cor, mas agora
não tem mundo nem maneiras.
Seja como for, por caminhos ínvios
ou por mecanismos que não se entendem,
mas que filhos de gente conhecida explicam,
ainda que fiquemos sem o nosso dinheiro
o importante é que os pobres vão perder a grimpa
e o arrojo: o nosso tempo voltou.
(Publicado no J. L.- Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 1113, de 29 de Maio de 2013, p. 36 e datado de "Estrasburgo, 25 de abril de 2013")
Preferiam a guerra, os anos de cinza,
a morte devagar distribuida
e os muros pintados a cal.
E eles pensam: terá voltado a nossa hora?
Mas é tudo diferente.
O dinheiro nunca teve cor, mas agora
não tem mundo nem maneiras.
Seja como for, por caminhos ínvios
ou por mecanismos que não se entendem,
mas que filhos de gente conhecida explicam,
ainda que fiquemos sem o nosso dinheiro
o importante é que os pobres vão perder a grimpa
e o arrojo: o nosso tempo voltou.
(Publicado no J. L.- Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 1113, de 29 de Maio de 2013, p. 36 e datado de "Estrasburgo, 25 de abril de 2013")
quinta-feira, junho 06, 2013
EDUARDO PITTA
Está um rapaz a arder
em cima do muro,
as mãos apaziguadas.
Arde indiferente à neve que o encharca.
Outros foram capazes
de lhe sabotar o corpo,
archote glaciar.
Nunca ninguém apagou esse lume.
*
As coisas são como são.
Sempre haverá uma mão senhora de exemplar
desprendimento, atenta ao sufoco
e à desoloção da alma.
Assim foi, por socalcos de tabaco,
o enredodos caminhos, ardente magia.
Pouco importa saber
que toda a paisagem mente.
Eduardo Pitta, Desobediência - Poemas escolhidos, Dom Quixote, Lisboa, 2011, pp. 147 e 173.
em cima do muro,
as mãos apaziguadas.
Arde indiferente à neve que o encharca.
Outros foram capazes
de lhe sabotar o corpo,
archote glaciar.
Nunca ninguém apagou esse lume.
*
As coisas são como são.
Sempre haverá uma mão senhora de exemplar
desprendimento, atenta ao sufoco
e à desoloção da alma.
Assim foi, por socalcos de tabaco,
o enredodos caminhos, ardente magia.
Pouco importa saber
que toda a paisagem mente.
Eduardo Pitta, Desobediência - Poemas escolhidos, Dom Quixote, Lisboa, 2011, pp. 147 e 173.
quarta-feira, maio 29, 2013
NUNO GUIMARÃES
[ACERCA DA POESIA]
Há um tipo de poesia em que a intenção é adjacente à escrita, uma poesia de púlpito, destinada a uma audiência que, como dizer?, age por simpatia a certos «slogans». Creio que isso é uma forma muito fácil de dizer as coisas em nome da poesia. Não é que eu pense numa arte aristocrática e muito menos destinada a um público aristocrata. O público ideal está ainda, infelizmente, em condições económicas e culturais muito deficientes e não parece que delas possa sair tão cedo. Eu acho que a expressão da ideologia [...] terá que fazer-se dentro da materia verbal. A linguagem poética [...] não é sinal de algo exterior. É ela mesmo um objecto. É um signo que vale por si próprio. Um signo inquieto mas perfeitamente circular.
[...] Terá que haver sempre uma revolução, digamos, interna. O envelhecimento inevitável do modo de dizer situa já essa poesia. A persistência na repetição é o suicídio. É claro, todos nós corremos esse risco, não é? Todos nós envelhecemos, pelo menos fisicamente. A renovação é indispensável, é a resistência, é a negação da morte física.
[...] Penso que todo o poeta é responsável, através da sua escrita. E acho mesmo que a prática da vida e a prática da poesia são coisas indissociáveis...
[...] O quotidiano é, por assim dizer, esquecimento, uma dissolução das suas funções. Todo o esforço de escrita é, portanto, uma reacção: esquecer o esquecimento. É uma actividade traumatizante, então. Não sei se estou a ser claro. Não quero dizer que possa ser algo de insuportável, messiânico. É, simplesmente, um risco próprio do ofício, da natureza da matéria. Um risco, digamos, profissional...
[...] Acho que a poesia é irredutível, tem a propriedade da irredutibilidade. Quando acontece uma redução, passará a ser outra coisa, passará a ser talvez a substância redutora, mas já é outra coisa...
[...] Quanto a mim a única posição coerente e revolucionária tem de iniciar-se dentro da matéria, numa renovação interna, em que forma e fundo sejam um só. [...] A partir de certa altura acreditei na inutilidade, por si só, das intenções. A intencionalidade não tem por si só, sentido.
[...] A poesia é feita de tensões. Isso é fundamental. É intencional mas sempre tensional. E isso implica uma atenção constante à linguagem, uma investigação permanente. O que por si só, é claro, também não é condição suficiente...
[...] Eu penso que quase toda a poesia, para não dizer a totalidade, mesmo a mais positiva, estabelece uma ruptura com as coisas, é de crise, e é crítica. No entanto estou longe de pensar que isso seja sinónimo de decadência. Antes pelo contrário.
[Publicado no J. L. nº 111, 1984, a partir de selecção feita por José do Carmo Francisco]
Nuno Guimarães, Poesia Completas, Org. e prefácio de Fernando Guimarães, Porto, Afrontamento, 1995, pp. 113-114.
Nuno Guimarães nasceu Vila Nova de Gaia a 29 de Agosto de 1942. Faleceu em 1973. Publicou Corpo Agrário (1970) e Os Campos Visuais (1973). A sua poesia inscreve-se na lógica dos poetas que publicaram em Poesia 61
sexta-feira, maio 10, 2013
A ALEMANHA AO ESPELHO
Wagner,
Richard Wagner, o compositor alemão nasceu há 200 anos. Portanto, e como é
natural nestas coisas comemoram-se os 200 anos de Wagner. E para comemorar os
200 anos do nascimento de Wagner a Deutsche Oper levou à cena Tannhäuser, em Düsseldorf. Até aqui tudo
muito bem e normal. O problema surgiu no dia da estreia – o público não gostou
da encenação da ópera. Não só não gostou como ficou em choque e pavor, tendo
alguns espectadores recebido assistência médica (algo inédito num evento
cultural). E porquê esta reacção tão reactiva a uma obra de arte? Porque o
encenador resolveu colocar em cena figuras nazis, com execuções e tudo, tal
como durante o Holocausto. De tal forma foram os protestos que a ópera continua
apenas com a parte sinfónica.
Tudo isto é
revelador do que é a actual Alemanha e da sua relação com o passado nazi. Esse
passado, não tão distante, foi recalcado pelos alemães, de tal forma que quando
é evocado numa versão de uma ópera de um compositor anti-semita, provoca
reacções psicossomáticas. Os alemães para viverem no seu conforto e na sua
eficiência trabalhadora, têm que enterrar o passado que vai sendo enterrado
como memória viva à medida que os mais velhos, os que levaram Hitler ao poder e
ajudaram a construir o Holocausto, vão morrendo. Ao mesmo tempo a Alemanha
regressa a uma posição de hegemonia na Europa. É quando se enterra o passado,
quando se perde a noção de culpa e vergonha, que algo parecido com esse passado
pode regressar. É claro que a Alemanha de Merkel não é a Alemanha de Hitler,
são incomensuráveis as distâncias. Mas, setenta anos depois, a Alemanha de
Merkel é a que mais próxima está da Alemanha de Hitler. Agora não são os
judeus, mas os povos do sul, os PIIGS, os porcos. Também não se trata do extermínio
em câmaras de gás, mas do asfixiar de economias como a portuguesa ou a grega
com a ajuda de governos colaboracionistas como o de Passos Coelho. Esta
Alemanha quando se vê ao espelho, sem maquilhagem, vê o horror e desmaia.
segunda-feira, abril 29, 2013
ANTÓNIO BARAHONA
OS PASSOS DO COELHO
Ontem, 15 de Setembro de 2012,
efectou-se uma manifestação pacífica
do povo português, que, bem domesticado,
não partiu montras, nem agrediu a bófia,
talvez porque a fome ainda não é muita.
Mas houve uma excepção:
um jovem de vinte e um anos
partiu, aos cacos, a realidade em foco
e agrediu a própria vida
imolando-se pelo fogo.
*
Na margem de um rio
escruto a água e a linguagem
dos pássaros;
e vejo pairar na aragem
os meus próprios pensamentos.
António Barahona,As Grandes Ondas, Averno, Lisboa, 2013, pp. 61 e 119.
Ontem, 15 de Setembro de 2012,
efectou-se uma manifestação pacífica
do povo português, que, bem domesticado,
não partiu montras, nem agrediu a bófia,
talvez porque a fome ainda não é muita.
Mas houve uma excepção:
um jovem de vinte e um anos
partiu, aos cacos, a realidade em foco
e agrediu a própria vida
imolando-se pelo fogo.
*
Na margem de um rio
escruto a água e a linguagem
dos pássaros;
e vejo pairar na aragem
os meus próprios pensamentos.
António Barahona,As Grandes Ondas, Averno, Lisboa, 2013, pp. 61 e 119.
quinta-feira, abril 25, 2013
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