REFEEIÇÃO
sexta-feira, junho 30, 2023
FRANZ KAFKA
quarta-feira, maio 31, 2023
FERNANDA BOTELHO
AS COORDENADAS LÍRICAS
domingo, abril 30, 2023
Fernando Esquio
sexta-feira, março 31, 2023
A NOVA CENSURA LITERÁRIA
1, O jornal Público tem nos últimos meses
apresentado à venda, em algumas bancas, um livro por mês que foi objecto da
censura do Estado Novo. A acompanhar o livro, em edição fac-simile, está um
relatório do censor que apresenta as razões por que o livro deve ser censurado.
Há quem pense que depois do 25 de Abril, a censura acabou. Na verdade, existem
várias formas de censura, a começar pela auto-censura. Mas, nos tempos do PREC,
terá vigorado uma espécie de censura com a nacionalização de quase toda a
Imprensa, com o saneamento de jornalistas – como aconteceu no Diário de
Notícias de que era director-adjunto José Saramago. No entanto, nesse período
conturbado, não existiu um mecanismo oficial de censura, como aquele que foi um
dos sustentáculos da ditadura. Além de existir liberdade em jornais como o
Expresso ou o então criado, e depois desaparecido Jornal Novo, não consta que
existisse uma censura editorial no que aos livros diz respeito. Esse terá sido,
pelo contrário, um período de anti-censura na exibição cinematográfica, com
filmes eróticos ou pornográficos, e provavelmente também nos costumes, no
levantar de certas questões, desde formas de vida até às inevitáveis questões
políticas. Depois do 25 de Novembro de 1975, algumas figuras que fizeram parte
do Estado Novo regressaram à televisão, como o popular historiador José Hermano
Saraiva. Ou seja, o que terá existido de censura, partiu de um “ar do tempo”,
do espírito de uma época efervescente.
2, Recordo um diálogo, numa livraria, entre
uma cliente e um livreiro, em volta de um livro de Mário Zambujal. A cliente
pretendia que o livreiro assegurasse que aquele livro não continha passagens
tristes ou que a incomodassem, ou seja, pretendia ler um livro sem o pathos
que afecta a grande literatura, e mesmo géneros menores como o policial. Creio
que Mário Zambujal será uma boa escolha para quem quer fugir aos vários pathos
da literatura. Mas também o pode ser Eça de Queiroz. Tudo depende da
sensibilidade do leitor. E o acto de leitura, pode ser interpretado como o
espreitar um mundo muito próprio de uma outra sensibilidade: a do autor. Muitas
vezes o autor escreve como se estivesse no divã de um psicanalista, dando azo
às suas pulsões, ainda que expressas com uma linguagem que tenta ser inovadora.
Nisto o leitor, que não é psicanalista, ressente-se daquilo que lê, a sua
sensibilidade é afectada. É talvez por isso que existem poucos leitores, e os
que existem lêm na sua maioria best-sellers de José Rodrigues dos Santos
ou Dan Brown ou outro autor que estiver na moda. A leitura de determinadas
obras exige um esforço, e uma dureza, que não se coaduna com a vida que as
pessoas levam. Por isso, a um livro preferem ver uma telenovela, uma série, ou
um blockbuster como a saga de 007. Algo que as entretenha da dureza da
realidade (“Go, go, go, said the bird: human kind Cannot bear very much
reality”. escreveu T. S. Eliot num dos versos de Quatro Quartetos). A
literatura é por vezes cruel para com o leitor, para com a sua sensibilidade,
que o autor na sua grandiloquência admite desprezar.
3, Já aqui referi alguns autores que terão a
capacidade de escrever pensando num determinado – e alargado – público, ou se
quisermos, terão uma literatura com menos pathos (Mário Zambujal, J.
Rodrigues dos Santos, Dan Brown). A estes gostaria de acrescentar outros: Roald
Dahl, Ian Fleming, Enid Blayton, Agatha Christie. Roald Dahl, foi um escritor britânico,
autor de livros para crianças (e também para adultos). Ian Fleming foi um
militar, jornalista e escritor britânico que escreveu romances de espionagem,
tendo sido o criador do famoso agente James Bond, o 007. Os seus livros,
escritos entre os anos 1950 e 1960 deram origem aos famosos filmes de James
Bond. Quanto a Enid Blayton, ficou celebre pela série de livros de aventuras
para um público juvenil, Os Cinco. Também estes tiveram adaptações audiovisuais.
Agatha
Christie, foi um dos grandes nomes do policial, criadora das personagens
Hercule Poirot e Miss Marple. O que têm em comum estes quatro escritores para
além do seu grande sucesso junto do público? Foram todos, nos últimos tempos,
alvo de censura por parte das suas editoras. Essa censura foi feita com a ajuda
de um grupo de pessoas, chamado “leitores de sensibilidade” (“sensitivity
readers”). Sendo estes autores Best-Sellers, quer para um público
infanto-juvenil, quer para um público interessado no romance policial e de
espionagem, ou seja, para um público que prefere uma literatura mais ligeira,
longe da grandiloquência literária, torna-se um pouco difícil perceber em quê
estas obras feriram a sensibilidade destes leitores. A resposta estará num revisionismo
woke, que chega agora à literatura. A questão que se coloca, depois da obra
destes autores ter sido tocada pelos “leitores de sensibilidade” é saber até
onde irá esse revisionismo completamente intolerável. Será que chegarão às
grandes obras da literatura mundial? E mesmo que não cheguem, o facto de terem reescrito
obras de 4 autores – que para muitos leitores estão entre os seus preferidos – é
já demasiado grave.
terça-feira, fevereiro 28, 2023
O ESPESSO EXPRESSO
1, O semanário Expresso fez 50 anos. Número
redondo como se gosta nos meios jornalísticos, portanto ocasião para comemorar:
uma edição especial com o formato e o grafismo originais, um pequeno caderno
com as primeiras páginas e uma conferência em participou, entre outros o
presidente Marcelo Rebelo de Sousa – que foi director do Expresso –, e ainda um
livro do seu fundador e primeiro director, Francisco Pinto Balsemão, dividido
em três volumes. Na verdade, o livro, cujo título é Memórias. Expresso 50,
não é um livro original, mas o que alguém aproveitou e adaptou de um calhamaço
de mil páginas em que Balsemão escreve as suas Memórias (Porto Editora,
4ª edição 2021). Estes 3 volumes perfazem 237 páginas, pelo que, não tendo lido
esse recordatório, talvez podemos supor que cerca de 20 por cento do livro de
memórias de Balsemão é dedicado ao Expresso, e também ao Diário Popular, jornal
vespertino, já extinto como muitos outros, e de que um tio de Pinto Balsemão –
“o tio Xico” – era accionista e gestor.
2, Se escrevi acima que Francisco Pinto
Balsemão foi o fundador e primeiro director do Expresso, sendo essa a verdade
oficial, pela leitura das Memórias do Expresso facilmente se fica a perceber
que, ressalvando o período em que Balsemão foi ministro do governo AD, e
depois, Primeiro-Ministro, ou seja, entre 1980 e 1983. Balsemão assumiu sempre
um papel de liderança dentro do jornal, embora não voltasse ao cargo de
director. Uma espécie de director não executivo, ao mesmo tempo que era o
gestor do jornal, papel que continua a desempenhar.
3, O que essencialmente estas Memórias
oferecidas aos leitores do Expresso revelam é o espirito medíocre de Francisco
Pinto Balsemão, o seu egocentrismo, os seus tiques de uma alta burguesia
preocupada essencialmente com a rentabilidade, com os aspectos económicos. Balsemão
acha-se o pai do Expresso, o que na realidade é, mas não percebe que o bom pai
é aquele que quer que os filhos cresçam. Por isso acha-se acossado quando
pessoas que pertenceram ao jornal o abandonaram para criar outros projectos. E
refere-se a isso “numa interpretação freudiana” como “matar o pai”. E quem quis
matar o pai? Desde logo Marcelo Rebelo de Sousa, “um dos fundadores do
‘Semanário’, em 1983”, mas também Augusto de Carvalho que fundou o diário
Europeu, em 1988, Miguel Esteves Cardoso, que com Paulo Portas vai fundar nesse
mesmo ano o Independente, e que Balsemão admite que “nos anos áureos, foi um
perigoso e válido concorrente do Expresso”. Mas também José António Saraiva,
que depois de 21 anos como director do Expresso funda o Sol, ou ainda
jornalistas como Maria João Avillez, ou o administrador Henrique Granadeiro.
Mas o grande “golpe” para o Expresso terá sido a saída de Vicente Jorge Silva
acompanhado de um grupo de 20 jornalistas que faziam a Revista, para fundar o
diário Público, cujo accionista era Belmiro de Azevedo, à altura o homem mais
rico de Portugal. O que Balsemão na sua cultura contabilística não consegue
perceber é que o Expresso é, apesar de tudo, um jornal muito maior do que a
estreita mente do seu fundador. É certo que foi ele que escolheu algumas das
pessoas para redactores ou para a direcção editorial, mas o Expresso terá ganho
uma outra dimensão com a contribuição de Vicente Jorge Silva, que nos finais da
década de 60 tinha fundado na Madeira o Comércio do Funchal. Vicente Jorge
Silva, quer com o Comércio do Funchal, quer com a Revista do Expresso, quer com
o Público, foi um grande criador de jornais, jornais de qualidade, de
referência, com um sentido cultural, político, de visão da sociedade e do seu
tempo. Jornais que talvez fossem um pouco megalómanos para o estreito espaço
português, mas fizeram com que Portugal tivesse produtos jornalísticos que
podiam colocar-se lado a lado com os grandes jornais europeus. E, para além de
saber rodear-se dos melhores colaboradores e jornalistas, Vicente Jorge Silva
era alguém cujos editoriais, assinados no Público, tinham um peso na sociedade
portuguesa.
4, E hoje, o que é o Expresso? Com uma ou
outra excepção é um jornal medíocre, com a direcção editorial a obedecer ao “pai”
e “fundador” Balsemão, à sua estreiteza mental de quem é sobretudo um
empresário e ex-político. É certo que os jornais, no seu estertor, perderam
qualidade. Mais: perderam-se e continuam-se a perder jornais, e é de temer o
que pode acontecer à Imprensa escrita portuguesa – e não só – na era do
digital, das redes sociais. Mas a perda de qualidade também atinge o Público, e
talvez jornais internacionais como o El País, o Le Monde, o Libération ou mesmo
o tão seguido pelos jornalistas The Guardian (será o único “grande” jornal em
regime totalmente aberto na sua edição on-line). O Expresso ainda mantém nomes
como Gonçalo M. Tavares (sem dúvida o melhor escritor português actual), Miguel
Sousa Tavares, Clara Ferreira Alves (que resvala muito nas suas longas crónicas
para um certo pedantismo), Pedro Mexia (que está muito longe de ocupar o lugar de um
Eduardo Prado Coelho na Imprensa portuguesa). Refira-se ainda correspondentes
em vários pontos do globo, mas não em regime de exclusividade.
5, O Expresso é um dos jornais que mais vende em Portugal, quer no on-line, quer na sua edição em papel, vendido num saco que outrora foi de plástico e agora – por razões ecológicas – é de papel. Já pesou quase 2 kg, mas agora está mais magro: primeiro caderno, revista E, e caderno de economia. O público a que se destina são classes A e B, ou seja, doutores & engenheiros, profissões liberais e posicionamento político. Aliás o preço do jornal em papel, quase cinco euros, assim o justifica. E quem pensa que tem leitura para toda a semana é porque lê pouco, ou aguenta com prosas chatas de especialistas nisto ou naquilo – algo visível na actual edição da revista E, onde existe uma pomposidade no título com que alguns articulistas escrevem quatro ou cinco páginas, como se vê nestes exemplos: "Nuno Galopim / Diretor de programas da Antena 1 e curador musical do Festival da Canção" (Revista E, 24 de fev. 2023) ou este: "Henrique Raposo / Licenciado em História, mestre em Ciência Política e cronista do Expresso"; de facto Raposo é cronista semanal na edição em papel do primeiro caderno e ainda cronista da edição diária digital, mas só mais risível que toda esta pompa de apresentar o CV dos articulistas ao lado da sua fotografia em caracteres maiúsculos, é mesmo este Henrique Raposo, e o artigo que assina na edição de 20.01.2023 intitulado "A cura dos pobres". Vale a pena transcrever a entrada: "Através da revolução da epigenética, uma nova neurociência da pobreza mostra-nos que a miséria extrema é sobretudo a manifestação de um grupo de doenças mentais. Aquilo que sempre foi visto como o 'comportamento à pobre' é, na verdade, um conjunto de sintomas do campo da saúde mental. Ou seja, a pobreza pode ter um tratamento ou mesmo cura". Fantástico este Raposo, cujas prosas tanto devem agradar ao pretenso citizen Kane Francisco Pinto Balsemão.
(Nota: na imagem, parte da capa do 1º número do Expresso, saído a 6 de Janeiro de 1973)
terça-feira, janeiro 31, 2023
A POLÍTICA DOS TOTÓS
1, Há um ano, O PS, inesperadamente, conseguia uma maioria absoluta com cerca de 41 por cento dos votos, numas eleições legislativas desnecessárias, provocadas pelo chumbo do Orçamento de Estado, em que os partidos da antiga geringonça tiveram um papel preponderante. Este ano de governo, ou melhor estes 10 meses do novo governo de António Costa foram dos mais desastrosos da democracia portuguesa, especialmente o último mês. A sucessão de "casos & casinhos" foi avassaladora e provocou a demissão de secretárias de Estado e de um Ministro. Por várias razões este governo já tinha um número anormal de demissões, cerca de dez, quando toda esta avalanche se deu. O caso da secretária de Estado do Tesouro, Alexandra Reis, que recebeu uma indemnização de meio milhão de euros para sair da TAP foi o despoletar de toda uma bola de neve, que chegou à demissão do ministro responsável pela pasta da TAP, Pedro Nuno Santos, apontado como possível sucessor de António Costa. Numa tentativa de pequena remodelação governamental, António Costa foi arranjar um outro sarilho: a nova secretária de Estado da Agricultura, uma aparente impoluta senhora, não chegou a estar 24 horas no governo. Afinal parecia que o marido tinha um caso com a justiça... mas na realidade a história era mais complicada. Demitiu-se depois de um comentário em directo de Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente-jornalista-comentador mor, que demite governantes em directos para as televisões. Como consequência disto tudo, outro erro de António Costa: uma lista de 36 perguntas a apresentar a quem for chamado para funções governativas. Carla Alves demitiu-se a 5 de janeiro, e a secretaria de Estado da Agricultura parece que foi extinta, sem que alguém a quisesse ocupar. Ou seja, toda esta crise com múltiplos escândalos, levou a uma fragilização do governo, que apesar de ser de maioria absoluta é um governo a prazo. A lista das 36 perguntas e os "casos & casinhos" afastam qualquer pessoa com competência (ou mesmo sem ela) de um lugar no governo. Se ninguém quer ocupar um lugar no governo, é lógico que o mesmo esteja a prazo, dependente da próxima demissão, do próximo caso.
2, O que muda agora? Naturalmente, espera-se, e as sondagens já vão nesse sentido, que das próximas legislativas saia uma maioria de direita, ou pelo menos o partido que lidera a direita - que ao longo da democracia representativa portuguesa tem sido o PSD - ganhe as eleições. Só que nos últimos anos houve uma reconfiguração da direita. A direita portuguesa perdeu o CDS, ganhou um partido de extrema-direita, que já é o terceiro maior partido português, e um outro de direita liberal - o Iniciativa Liberal. Para além disso, o PSD parece estar a perder força, o que só reforça os outros dois partidos de direita. Esta é a realidade: uma nova maioria de direita vai contar com a extrema-direita, e tanto PSD como IL não marcaram uma linha vermelha em relação ao Ch. Isto que pode acontecer em Portugal, e que parece ser inevitável, também pode acontecer em Espanha com o Vox, e já aconteceu em Itália com os Frateli d' Italia de Georgia Meloni.
3, Ora parece que a esquerda quer que a direita (com a extrema-direita) governe. E, na verdade, isso já aconteceu aquando da rejeição do PEC IV, o que levou à demissão de Sócrates, e consequente governo PSD/CDS com Passos Coelho a ir além da troika. Os portugueses, e principalmente os políticos portugueses parece que já se esqueceram do que se passava há 10 anos. Neste caso, e perante este descrédito do governo de António Costa, creio que a tentativa para uma solução passava por um congresso extraordinário onde fosse eleito um sucessor de Costa, continuando este no governo mas abrindo a possibilidade de ser substituído como primeiro-ministro. Para além disso, se já existisse um sucessor de Costa, seria mais fácil o PS apresentar-se a eleições. Mas nada parece mover-se no PS ou sequer na esquerda portuguesa. No fundo, e isto de certa forma é dramático, a classe política portuguesa tem perdido capacidade. Ou seja, ser dupla o triplamente escrutinado é coisa que certamente ninguém quer para a sua vida, por isso pessoas que podiam estar na política não estão. E este escrutínio não é já só mediático, é também o escrutínio que António Costa criou, agora, com as 36 perguntas, e é o escrutínio que o Ministério Público gosta de andar a fazer a políticos (repare-se que foi com a prisão de Lula da Silva que Bolsonaro chegou ao poder no Brasil). Este triplo escrutínio deixa a política para os totós, ou dito de outra forma, são os totós que se fecham num círculo político-mediático. que no caso português parece querer dar cabo do regime que nasceu com o 25 de Abril de 1974.
terça-feira, janeiro 03, 2023
sábado, dezembro 31, 2022
LIVROS EM 2022
1, A 24 de Fevereiro de 2022 a Rússia invadia a Ucrânia. Não era a primeira vez que a guerra eclodia na Europa depois de 1945, mas desta vez o ocidente (UE, Nato, EUA), não estava disposto a tolerar as ambições lunáticas de Putin. Nem os jornalistas a abdicar do modo monotemático dos telejornais: substituíram a covid pela guerra. O resultado é a divisão do mundo, de novo, em dois blocos, como durante a Guerra Fria. Os Estados Unidos, com Biden, em nada mudaram: são os polícias do mundo, estão a alimentar a guerra através da ajuda militar à Ucrânia de Zelensky. Parece que ninguém quer a paz. E os Ucranianos, incentivados pelo nacionalismo do fantoche Zelensky, são as vítimas disto tudo. Eles e os soldados russos. A Ucrânia é no início deste século o solo onde se joga uma perigosa e barbara partida de xadrez, onde não pode haver xeque-mate. E, em fundo, ecoa a ameaça nuclear. Ora esse facto, deu lugar na actividade editorial, à publicação de uma série de livros relacionados com o tema. Desde histórias da Rússia, biografias de Putin, à publicação de escritores ucranianos.
2, Byung-Chul Han. Vivemos em certo sentido "tempos sombrios" (H. Arendt), marcados pela emergência climática, pelo avanço da extrema-direita, por um mundo onde a nossa relação com as coisas, os objectos, se torna cada vez mais virtual, e onde essa virtualização corresponde a uma exploração dos nossos dados por mecanismos mais ou menos secretos de Inteligência Artificial (IA), como o tem vindo a denunciar, numa analítica da actualidade, o filósofo germano-sul-coreano Byung-Chul Han. De Han a Relógio d' Água tem vindo a publicar a sua já extensa obra de pequenos livros - cerca de 100 páginas cada um - onde se procede a uma crítica e elucidação do tempo presente. Este ano publicou Não-Coisas e Infocracia. Ora estes livros, levantando o problema da virtualização das coisas, estão também a levantar o problema da virtualização da leitura. No que respeita aos jornais isso é evidente: são os próprios jornais que cada vez mais apostam nas suas edições on-line. Mais: como tinha previsto Mcluhan, estamos a caminho de uma sociedade oral, onde a leitura em silêncio acabará por desaparecer. São disso exemplo, já, a leitura áudio de artigos por máquinas de IA, como faz, por exemplo, a edição on-line do jornal Público. Mas também o word do windows 11 possibilita a leitura áudio de documentos da mesma forma.
3, Centenários. 2022 foi o ano do centenário de nascimento de dois dos mais importantes escritores portugueses da segunda metade do século XX: José Saramago e Agustina Bessa-Luís. Foram também personalidades politicamente nos extremos. José Saramago, filho de pobres agricultores, tornou-se militante do PCP durante a ditadura do Estado Novo; depois do 25 de Abril, e durante o chamado "verão quente" de 1975, foi director-adjunto do Diário de Notícias, então nacionalizado. Os escritos de Saramago, no Diário de Notícias não constam das suas Folhas Políticas, livro que recolhe textos entre 1976 e 1998. Mas terá sido um período de efervescência em que o escritor José Saramago começou a nascer para a escrita que o viria a consagrar com o Nobel da literatura (é certo que já tinha publicado um romance e 3 livros de poemas). Do outro lado, completamente oposto, temos Agustina Bessa-Luís, filha de uma família burguesa. Incorporou o espírito familiar na defesa de um reaccionarismo bastante patente na sua vasta obra, estranha e por muitos julgada de quase genial. A origem social foi marcante para a obra destes dois escritores tão antagónicos. Mas no caso de Agustina, a sua defesa de classe torna-se por vezes enervante. A utilização da palinódia, esse dizer e desdizer, fazer e desfazer verbal; o aforismo, em que a escritora de Amarante foi prolifica, serviram sempre uma causa extremamente conservadora, escandalosa por vezes, como a caracterizou Eduardo Prado Coelho em A Noite do Mundo. Recorde-se um episódio sintomático: depois da SPA ter atribuído um prémio literário a Luandino Vieira, a PIDE destruiu a sede da SPA; Óscar Lopes escreveu a Agustina - entre outros escritores - para tomarem uma posição publica, mas a autora de A Sibila declinou qualquer compromisso. Agustina vivia num "mundo fechado" (título do seu primeiro livro) que não reconhecia a existência do outro - nisso, creio, reside o "escândalo" a que aludia EPC. Já o Saramago que terá participado dos saneamentos de trabalhadores do DN, fá-lo no período de uma efervescência revolucionária.
Mas este ano de 2022 também foi o ano do centenário do nascimento de Pier Paolo Pasolini. Cineasta, dramaturgo, romancista, poeta, ensaísta, Pasolini foi sobretudo alguém polémico no meio intelectual italiano. Polémico porque lúcido, polémico porque pensava por si, fora de qualquer categoria de adestramento ideológico, porque sendo comunista, homossexual e católico era já o bastante para desarrumar as etiquetas que não lhe conseguiam colar. Por isso, também, incómodo. Pasolini é, ao mesmo tempo o realizador do filme Evangelho Segundo S. Mateus e o autor do romance Vida Violenta; o autor do filme Saló ou os 120 Dias de Sodoma onde denúncia o fascismo italiano de Mussolini e o que também existia de fascista, avant la lettre na obra de Sade; é contra o aborto e denuncia o desaparecimento dos pirilampos como signo do capitalismo e das luzes eléctricas que avançam pelo espaço da noite. De Pasolini foi este ano editado pela VS Entrevistas Corsárias - sobre a política e a vida, A Poesia é uma Mercadoria Inconsumível (Sr. teste) e O Odor da Índia (Desassossego) - relato de uma viagem à Índia na companhia de Alberto Moravia e Elsa Morante. João Oliveira Duarte publicou um glossário em forma de ensaio sobre temas pasolinianos: Não Sou da Família - Notas Sobre Pasolini (BCF Editores). Recorde-se que Pasolini seria assassinado a 2 de Novembro de 1975 na praia de Óstia, por um ragazzo di vita. Em homenagem a Pasolini os Coil compuseram esta magnifica canção, precisamente intitulada Ostia.
De Marcel Proust, o autor de um dos grandes romances do século XX, esse imenso Em Busca do Tempo Perdido (a tradução para português europeu é de Pedro Tamen e está publicada na Relógio d' Água), comemoraram-se este ano os 100 anos do falecimento. Por cá em silêncio total. Outro dos mais referenciados como grande romance do século XX, ou de sempre, é Ullises de James Joyce - livro quase intragável que comemorou este ano o centenário da sua primeira edição. A Relógio fez uma edição especial da tradução de Jorge Vaz de Carvalho, enquanto a Livros do Brasil reeditou a tradução de João Palma-Ferreira.
4, Pessoa. Fernando Pessoa continua a assombrar a literatura portuguesa e não só. Este ano publicaram-se duas biografias do poeta dos heterónimos: de Richard Zenith, um dos principais estudiosos e editor da obra pessoana, foi traduzida para português a sua monumental biografia de Fernando Pessoa - Pessoa. Uma Biografia (Quetzal) que foi finalista do Prémio Pulitzer. A outra biografia de Pessoa, é da autoria de João Pedro Gorge - O Super-Camões. Biografia de Fernando Pessoa (D. Quixote) - foi menos referenciada. João Pedro George é autor de biografias de Luiz Pacheco, da Marquesa de Paiva ou de Mota Pinto, o presidente do PSD que nos anos 80 formou governo com o PS de Mário Soares. A biografia de João Pedro George é também a segunda feita por um autor português, mais de 70 anos depois de João Gaspar Simões escrever a primeira biografia de Pessoa. Na verdade, descontando uma biografia feita por um brasileiro, há poucos anos, e que os pessoanos rejeitaram como pouco séria, existiam apenas duas biografias sobre Fernando Pessoa: a de Gaspar Simões e a de Robert Bréchon publicada nos anos 1990. 2022 foi o ano em que apareceram mais duas. Pessoa é tido, por uma ideia generalista, como quase não tendo biografia; o que viveu, os seus pensamentos, estão em fragmentos dentro da famosa arca. Em parte isto será verdade: se Wittgenstein poderia referir como o melhor da sua obra tudo o que não escreveu (mas pensou, ou mesmo verbalizou), já Pessoa parece ter apontado quase tudo o que pensou. E nenhuma biografia pode ultrapassar essa grande obra que é o Livro do Desassossego, onde existem resquícios auto-biográficos. Mas a vida de Pessoa vai para além da sua escrita, do seu "texto" que ele deixou para que outros o fixassem. E é nesse labirinto pessoano, quase um palimpsesto, que Pessoa continua vivo, nas múltiplas variantes dos seus textos, a "obra" pessoana é sempre incompleta.
5. Pessoa, o Prémio. O Prémio Pessoa é atribuído desde 1987 pelo semanário Expresso. Tem galardoado poetas, escritores, cientistas, historiadores, artistas, juristas, arquitectos, etc. A lista já é longa e inicia-se com José Mattoso (em 1987). Como poetas o prémio foi entregue a António Ramos Rosa (1988), Vasco Graça Moura (1995), Manuel Alegre (1998), Mário Cláudio (2004) e - única rejeição - a de Herberto Helder (1994). Agora, em 2022 o júri entendeu voltar a atribuir o prémio a um poeta e escolheu... João Luís Barreto Guimarães. É simplesmente uma escolha que não se percebe - embora o júri, sempre presidido por Francisco Pinto Balsemão, não pareça perceber muito de poesia, tem entre os seus elementos a ex-crítica literária Clara Ferreira Alves. Qualquer que seja a lógica do prémio (galardoar consagrados ou pessoas de quem se espera que "ofereçam obras" á sociedade), o nome de Barreto Guimarães aparece no fim de uma lista onde há muitos outros poetas que mereciam o prémio. E nisso é bom não esquecer poetas como António Franco Alexandre, José Agostinho Baptista, João Miguel Fernandes Jorge, Paulo da Costa Domingos, Fátima Maldonado, Nuno Júdice, entre outros, que iniciaram a publicação da sua obra na década de 70. Mas se o júri queria dar o prémio a alguém que por várias razões o merece, mesmo porque pertence à geração de Barreto Guimarães, a dos poetas dos anos 80, tinha dois nomes: Adília Lopes ou Carlos Poças Falcão. Adília é já um nome incontornável na poesia portuguesa, precisamente pela sua aparente apoeticidade, por uma poesia da imanência que sobrevaloriza - e bem - a vida à obra. Já Carlos Poças Falcão, poeta também dos anos 80, é um poeta extremamente discreto que só a reunião da sua poesia completa, em 2012, com Arte Nenhuma (republicada com acrescentos em 2020 pela Língua Morta) pôde dar uma visão geral da obra deste poeta que está entre os melhores da poesia portuguesa actual. J. L. Barreto Guimarães é apresentado como poeta tradutor e médico; vive no Porto e há anos que com Jorge de Sousa Braga edita o blogue Poesia Ilimitada. Aliás Sousa Braga, que também é médico (obstetra) e vive no Porto, seria um nome com mais notabilidade para receber o prémio Pessoa, mas o júri talvez não quisesse entregar o prémio a um poeta que é autor de um livro intitulado De Manhã Vamos Todos Acordar Com Uma Pérola no Cu (Fenda, 1983). Note-se ainda que, embora sem nenhuma formação académica para o efeito, Barreto Guimarães lecciona no curso de medicina do ICBAS, uma cadeira de poesia. No entanto, a sua poesia, por vezes, adentra-se numa perigosa ironia que uma leitura literal (e onde começa a ironia e acaba a literalidade?) pode chocar com a deontologia da sua profissão.
Enfim, há nos prémios que concernem ao campo literário sempre uma injustiça. Neste caso, do Prémio Pessoa, é de lembrar que Fernando Pessoa quando concorreu com a Mensagem a um prémio de poesia ficou em segundo lugar. Do vencedor ninguém sabe hoje o nome. Um outro prémio literário bastante discutível é o Nobel da literatura, que este ano foi para a francesa Annie Ernaux. Mas o Nobel da literatura tem já as suas regras, que alguns ingénuos teimam em não perceber. Para já, uma regra clara é a equidade de género (ou quotas literárias): um ano um homem, no outro uma mulher.
6, Vejamos agora os livros publicados em 2022, dos quais fiz uma selecção dividida por géneros. No que respeita à poesia, parto de uma citação de António Guerreiro, no suplemento Ípsilon do Público de 23-12-22: "o que a poesia contemporânea tem de mais importante deixou de ser maioritariamente assinado por nomes masculinos" (p.14). De facto, isso é hoje uma evidência, cujo diagnostico é um pouco tardio: a década de 2010 é já marcada pelo aparecimento de algumas poetas e o consolidamento de outras. A par disso dá-se um desvanecimento de uma poesia do quotidiano ou do real (e o gesto radical de Joaquim Manuel Magalhães em Um Toldo Vermelho, também é disso sintomático), que a antologia Poetas Sem Qualidade, organizada por Manuel de Freitas, constituiu um marco. Nomes como Andreia C. Faria, Raquel Nobre Guerra, Margarida Vale de Gato, Cláudia R. Sampaio ou Elisabete Marques (para só nomear autoras que publicaram este ano e constam desta lista), trouxeram uma inflexão á poesia portuguesa, que genericamente parte de um abandono da poesia do real. Nomes como Isabel de Sá (ou Eduarda Chiote), voltaram a publicar depois de anos sem publicar. No caso de Isabel de Sá, publicou a sua poesia reunida (pela segunda vez depois de Repetir o Poema - Quasi, 2005 - e do inédito O Real Arrasa Tudo, em 2019). Trata-se de uma obra das mais singulares da poesia portuguesa, que tem sido esquecida. Desta constelação de mulheres poetas - ou poetisas - assinale-se ainda Adília Lopes, nome cimeiro da poesia actual que este ano publicou o livro Pardais. Um dos poetas mais esquecidos da poesia portuguesa contemporânea é Rui Diniz, que no início da década de 70 publicou Ossuário. Este ano, cerca de 50 anos depois, publicou Ossos de Sépia. Registe-se ainda a reedição da poesia de António Gancho na Assírio & Alvim, editora que apostou para calhamaço do ano na obra completa de Paul Celan, um dos grandes poetas do século XX, cuja poesia é marcada pelo Holocausto.
No que respeita à ficção, assinalem-se três autores malditos: Michel Houllebecq, Thomas Bernhard e Jean Genet. Este último, tem andado arredado da edição em Portugal, pelo menos desde que a Hiena o públicou. António Lobo Antunes publicou, aos 80 anos, O Tamanho do Mundo (D. Quixote). De George Orwell foram publicados mais dois romances (Emergir Para Respirar - Relógio d' Água - e História de Um Homem Comum - E-Primatur). Orwell é de facto um autor fundamental para os tempos que atravessamos, e a edição portuguesa tem feito jus a esse facto, editando quase toda a obra do autor de 1984.
Quanto ao ensaio a colheita foi boa e abundante. Destaque-se o primeiro volume dos Ensaios de Montaigne publicado pela E-Primatur e os 48 Ensaios de Virginia Woolf. Para além dos livros de Byung-Chul Han, outros títulos colocam-nos questões. É o caso do título de Angela Davis editado pela Antígona: As Prisões Estão Obsoletas? Mas, também, do Livro do Clima organizado por Greta Thunberg. Noutro registo, Miguel Esteves Cardoso recuperou a sua Escrítica Pop e as crónicas que escreveu no Independente. Livros de Foucault (o seminário sobre essa categoria da psiquiatria e da biopolítica que foram Os Anormais), de Agamben sobre o período da loucura de Holderlin, de Deleuze sobre Proust em ano do seu centenário. Federico Bertolazzi com No Reino da Terrível Pureza (Documenta) interroga a edição da obra de Sophia. Para o autor, Sophia tem estado a ser censurada por uma série de artigos que ela publicou na imprensa não terem sido editados em livro.
A mancha gráfica de um livro nem sempre é constituída por palavras. Por vezes surgem as imagens, ou quase só imagens. Estão neste caso os livros de Banda Desenhada ou novelas gráficas. Por isso faço referência a 3 livros nesta lista: a Obra Gráfica de Mário Henrique Leiria (que completa a edição das suas obras completas editadas na E-Primatur), a reedição da reportagem gráfica Palestina da autoria de Joe Sacco, e de Reinhard Kleist uma obra gráfica sobre Nick Cave. E, ainda, um livro de fotografia de um dos grandes foto-repórteres portugueses: Alfredo Cunha, publicado na colecção Ph da Imprensa Nacional com textos de António Barreto e David Santos. Esta é uma excelente colecção de fotografia, onde já foram publicados livros de Jorge Molder, Paulo Nozolino ou José M. Rodrigues com textos de José Bragança de Miranda, Rui Nunes ou Maria Filomena Molder.
7, Editoras. Basta olhar para a lista, para encontrar algumas pequenas e médias editoras, fora dos grandes grupos (Porto Editora, Leya), que, penso, melhor têm editado. É o caso da Antígona, Relógio d' Água, Tinta da China, Documenta ou E-Primatur - entre as médias editoras - e da Barco Bêbado, Sr, Teste, Língua Morta, Saguão, Dois Dias ou BCF Editores entre as pequenas editoras. O grupo Almedina, a que pertence a bastante activa Edições 70, tem feito um excelente trabalho editorial que dignifica esta chancela com quase 50 anos de existência.
POESIA
quarta-feira, novembro 30, 2022
ISABEL DE SÁ
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segunda-feira, outubro 31, 2022
ARTUR ROCKZANE