
quarta-feira, janeiro 03, 2018
domingo, dezembro 31, 2017
LIVROS EM 2017
No ano da
morte de Mário Soares, um dos fundadores do regime democrático em que vivemos;
no ano do centenário das aparições em Fátima e da Revolução Russa; no ano em
que as alterações climáticas, aliadas a um desordenamento da floresta, fizeram
mais de uma centena de vítimas mortais nos fogos; no ano em que, finalmente, a
economia portuguesa deu mostras de crescimento e o ministro das finanças, Mário
Centeno, foi eleito para presidir ao Eurogrupo; no ano agora findo de 2017, no
que respeita a livros editados – e devem ter sido na totalidade para cima de
uma dezena de milhar, dos quais apenas um restrito número chegou ao mercado
livreiro com visibilidade – não houve grandes novidades. Por isso torna-se difícil
escolher um livro do ano, coisa em que os balanços da imprensa que ainda dedica algum espaço aos livros também não
conseguiu.
Algumas
coisas mantém-se: o livro, na sua materialidade, resiste; apesar do gigantismo
de um grupo editorial como a Porto Editora, as editoras independentes também
resistem – caso paradigmático da Relógio d’ Água, mas também da Antígona e
outras. Por outro lado aparecem novas editoras, algumas de uma dimensão
bastante reduzida, outras inseridas em grupos que poderíamos designar de
independentes, como é o caso do grupo 20|20 onde estão duas das editoras mais
interessantes aparecidas nos últimos tempos: a Elsinore e a E-Primatur.
A ainda
vitalidade do livro mostra-se nos livros que se vendem nas tabacarias (o termo
é já anacrónico), juntamente com jornais ou revistas. Estão neste caso os
livros distribuídos dentro do saco do Expresso (gratuitos) ou as variadas
colecções do Público ou da Sábado. A uma maior proximidade do leitor
corresponde, no entanto, um completo desmazelo editorial. Está neste caso O
Livro das Mil e Uma Noites, distribuído pelo Expresso durante o verão passado.
A edição da Aletheia ocultava a origem das traduções, um pormenor que parece despiciendo,
mas é fundamental. Esta forma de tratar
os leitores, quer por parte do Expresso quer por parte da editora de Zita
Seabra é lamentável. No entanto, a esta edição soube a E-Primatur responder com
o primeiro volume das Mil e Uma Noites traduzidas directamente da árabe por
Hugo Maia.
POESIA
A lista que aqui se apresenta de livros de
poesia publicados durante o ano de 2017 foi a mais exaustiva que consegui. Certamente
muitos ficaram de fora – edições de autor, edições da editora Chiado, etc.
Apresento aqui 133 livros de 29 editoras, desde a pequena editora que editou um
ou dois livros à também pequena editora – Douda Correria – que editou 26
livros, que é o dobro dos livros editados pela actual Assírio & Alvim.
Gostaria de destacar o livro que recupera um
poeta há muito esquecido na poesia portuguesa: António Reis. Os seus 100 “Poemas
Quotidianos” editados pela Tinta da China devolvem-nos um poeta (mais conhecido
como cineasta) na sua plenitude, que não pode ser arrumado numa gaveta de uma
segunda vaga do neo-realismo. António Reis na sua poesia quotidiana, poesia de
imanência, é um nome a ter em conta na poesia do século XX, esse século de ouro
da poesia portuguesa.
LIVROS DE POESIA PUBLICADOS EM 2017
ABYSMO
Pindaro –
Odes Olímpicas (Trad. de António Castro Caeiro)
Antero de
Quental – Poesia I: Odes Modernas/ Primaveras Românticas
Arno Schmidt
– Leviatã ou o Melhor dos Mundos seguido de Espelho Negro (Trad. de Mário
Gomes)
José Anjos –
Somos Contemporâneos do Impossível
AFRONTAMENTO
Ricardo Lima
- Suíte Rústica - Fraldeu em espelhos
Afonso
Cautela - Lama e Alvorada. Poesia reunida 1953 – 2015
Eduarda
Chiote - Fiat Lux
Fernando
Guimarães - A Terra se é Leve
Albano
Martins - Pequeno Dicionário Privativo
Flor Campino
- Elogio do Efémero - Logo de l'éphémere (ed. bilingue)
ALAMBIQUE
António Barahona - Só o Som Por Si Só (Quarto Tômo da Suma Poética)
Ricardo Marques - A Noite [Variações]
Manuel de Freitas - Game Over (2ª Ed. Revista)
ALAMBIQUE
António Barahona - Só o Som Por Si Só (Quarto Tômo da Suma Poética)
Ricardo Marques - A Noite [Variações]
Manuel de Freitas - Game Over (2ª Ed. Revista)
ANTIGONA
António
José Forte – Uma Faca nos Dentes (pref. de Herberto Helder)
ARTEFACTO
Guilherme
Gontijo Flores - carvão :: capim
Luís Falcão –
Uma Exigência de Infinito
ASSÍRIO
& ALVIM
Alexandre O`
Neill – Poesia Completa
Ana Luísa
Amaral - What’s in a Name
Golgona
Anghel – Nadar na Piscina dos Pequenos
José
Tolentino Mendonça – Teoria da Fronteira
Luís
Quintais – A Noite Imóvel
Gastão Cruz
– Existência
Eugénio de
Andrade – Poesia (pref. de J. Tolentino Mendonça)
Rui Costa - Mike
Tyson para Principiantes
Ruy Belo –
Transporte no Tempo
Daniel Jonas
– Oblívio
Mário
Cesariny – Primavera Autónoma das Estradas
Mário
Cesariny - Manual de Prestidigitação
Mário
Cesariny – Poesia (org. e edição Perfecto E. Cuadrado)
S/A – Épico de
Gilgames (Trad. de Francisco Luís Parreira)
AVERNO
Paulo da
Costa Domingos - A Céu Aberto
Rosa Maria
Martelo – Siringe
Emanuel
Jorge Botelho - Os Ossos Dentro da Cinza
João Almeida
- Hotel Zurique
Nunes da
Rocha - Poemas Obsoletos de um Bicho Imóvel
José Miguel
Silva - Últimos Poemas
Luca Argel -
33 Rotações
Rui Baião –
Antro
António
Barahona - A Voz ao Espelho
Vítor
Nogueira – Cantochão
COMPANHIA
DAS ILHAS
Francisco
José Craveiro de Carvalho - Quatro Garrafas de Água
Madalena de
Castro Campos - La Mariée Mise à Nu
Ricardo
Pérez Piñero - Cântico do Estuário
COMPANHIA
DAS LETRAS
José Mário
Silva (org.) – Os Cem Melhores Poemas dos Últimos Cem Anos
DO LADO
ESQUERDO
Miguel
Martins – S. A.
Jesús
Jiménez Domínguez – Ensinar o Eco a falar
Carlos Bessa
– Pai
Carlos
Alberto Machado – Pés no Charco
Rui Knopfli
– Uso Particular
Rui Almeida
– A Pedra Não Pode Ser Coração
Pedro Santo
Tirso – Oxalá
DOUDA
CORRERIA
Miguel-Manso
- Rosto, Clareia e Desmaio
Cláudia R.
Sampaio – 1025 mg
Diego Moraes
– Dentro do Meu Peito Você Pode Cultivar a Solidão o Ano Inteiro (Br)
Ricardo
Domeneck - Manual para Melodrama
Iván Prego -
Tédio Tropical
João Rios - Os
Heróis Transformados em Floreiras
Gary Snyder
- Nada Natural (Antologia Poética) - (Trad. de Nuno Marques e Margarida Vale de
Gato)
Artur
Almeida – Sulcos
Diniz
Conefrey - No Coração de Agave (ilustrações do A.)
Sandra
Andrade - Caim / Lilith (desenhos e capa de Elagabal Aurelius Keiser)
Miguel
Cardoso - Mais de Mil Anos (posf. de Regina Guimarães)
Rui Almeida -
Talvez a Dúvida
António
Poppe - Come Coral
Mariano
Alejandro Ribeiro - Carta Em Fuga Para Cravo E Drá
Rui Nuno Vaz
Tomé - 21 Impromptus Para Crianças Peludas
Nuno Moura -
Canto Nono (3ª edição)
Rosalina
Marshall - Clorântida
Raquel Nobre
Guerra - Senhor Roubado (2ª edição)
Angélica
Freitas - Um Útero é do Tamanho de Um Punho (Br)
Dulce Maria
Cardoso - Rosas
Nuno Moura -
Cavalo Alucinado
Luís Carmelo
- Extintor de Achados
Regina
Guimarães (textos)/ Paulo Ansiães Monteiro (desenhos) – Casamata
Sarah
Adamopoulos - A Única Palavra
Catarina
Santiago Costa - Filha Febril
Catarina
Costa – Analema
EDIÇÕES DO
SAGUÃO
S. T.
Coleridge – A Balada do Velho Marinheiro (Trad. de Alberto Pimenta)
EDITORA
EXCLAMAÇÃO
António
Pedro Ribeiro – Dez Pés Abaixo do Mundo (Sel. Rui Manuel Amaral)
Nuno Brito –
O Desenhador de Sóis
ELSINORE
Francisco
José Viegas (Sel. e Org.) – Cem Poemas e Alguns Mais: antologia da novíssima poesia
brasileira
E-PRIMATUR
Camões –
Épica e Cartas (Org. Mª Vitalina Leal de Matos)
FAHRENHEIT
451
Miguel
Martins - O Caçador Esquimó
FLOP
Konstantínos
Kaváfis – 145 Poemas (Trad. de Manuel Resende)
IGNOTA
Henri Michaux - Capturar (Trad. de Aníbal Fernandes)
IGNOTA
Henri Michaux - Capturar (Trad. de Aníbal Fernandes)
IMPRENSA NACIONAL – CASA DA MOEDA
Bocage - Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas (Org. Daniel Pires)
LICORNE
Ruy Ventura – Detergente
Isabel Aguiar – As Mães da Síria
José Miranda Rodrigues – Em Busca do Silêncio Perdido
Margarida Morgado – Enquanto (Antologia)
Ricardo Cabaça – Storni - Quiroga
Ruy Ventura – A Chave de Sebastião da Gama
Fernando Eduardo Carita – Estância & Deixamento
Leonora Rosado – A Fenda no Sangue
Manuel Silva-Terra – Ser Casa
R. M. Rilke – Das Rosas (trad. de Manuel da Silva-Terra)
Leonora Rosado – O Último Sopro
LÍNGUA MORTA
José Diogo Nogueira – O Gato Epiléptico
Andreia C. Faria – Tão Bela Como Qualquer Rapaz
Vasco Gato – Lacre, correspondência afectiva
Zetho Cunha Gonçalves – Noite Vertical
Elisabete Marques – Animais de Sangue Frio
Vasco Gato – Fera Oculta (Reed.)
António Amaral Tavares – Os Nomes dos Pássaros
Narciso Pinto – Pingolim
Ivone Mendes da Silva – Dano e Virtude
MARIPOSA
AZUAL
Rosalinda Marshal
– Sebastião
MODO DE LER
Luís Adriano Carlos/José Cruz dos Santos (Org.) – Os Mais Belos Poemas Portugueses
(não) edições
MODO DE LER
Luís Adriano Carlos/José Cruz dos Santos (Org.) – Os Mais Belos Poemas Portugueses
(não) edições
D. H.
Lawrwnce - Amores-perfeitos / Pansies (vol. II), (trad. de João Concha e
Ricardo Marques)
Helder Moura
Pereira - Não há nada para fazer em Elephant & Castle
Rita Natálio
- Plantas Humanas (capa/ilustração de Mattia Denisse)
Álvaro Seiça
- Ensinando o espaço (capa/ilustração de Sofia Morais)
Anne Carson
- Autobiografia do Vermelho (um romance em verso) (trad. de João Concha e
Ricardo Marques)
ORO
José-Alberto
Marques – Épicodrone & Etc
PUBLICAÇÕES
DOM QUIXOTE
Nuno Júdice
– O Mito da Europa
Maria Teresa
Horta – Poesis
Manuel
Alegre – O Canto e as Armas (Reed.)
Manuel
Alegre – Auto de António
RELÓGIO D`
ÁGUA
Frederico
Pedreira – A Noite Inteira
Jaime Rocha
– Preparação para a Noite
W. B Yeats –
Poemas Escolhidos (Trad. de Frederico Pedreira)
John Donne –
Poemas (Trad. de Fernando Guimarães e Maria de Lurdes Guimarães)
TINTA DA
CHINA
Rosa
Oliveira – Tardio
António Reis
– Poemas Quotidianos
Gregorio
Duvivier – Sonetos
Mário de
Sá-Carneiro – Poesia Completa (ed. Ricardo Vasconcelos)
Antero de
Quental – As Fadas
AA VV – Às Vezes
São Precisas Rimas Destas: Poesia Política Portuguesa e de Expressão Alemã
(1914-2014)
Eliane
Robert Moraes (Org.) – Antologia da Poesia Erótica Brasileira
Adam Zagajewski
– Sombras de Sombras
Rui Knopfli –
Nada Tem Já Encanto
VOLTA D` MAR
Henrique
Manuel Bento Fialho – A Grua
Rui Tinoco -
A Mão Heteronómica
*
FICÇÃO, ENSAIO, POESIA (UMA SELECÇÃO)
Agustina
Bessa-Luís – Ensaios e Artigos 1951-2007 (Fund. Caluste Gulbenkian)
Maria
Filomena Molder – Dia Alegre, Dia Pensante, Dias Fatais (Relógio d’ Água)
Fátima
Maldonado – Resgate (Averno)
G. e W. Grossmith
– Diário de um Zé Ninguém (Tinta da China)
Alphonse
Allais – 63 Histórias de Humor e 1 Poema Melancólico (Exclamação)
Ana
Margarida de Carvalho – Pequenos Delírios Domésticos (Relógio d’ Água)
Júlio
Henriques – Alucinar Estrume (Antígona)
Mário Henrique
Leiria – Ficção (E-Primatur)
Ricardo
Araújo Pereira – Reaccionário com Dois Cês (Tinta da China)
Carson
McCullers – Relógio sem Ponteiros (Relógio d’ Água)
H. D.
Thoreau – A Desobediência Civil e outros ensaios (Antigona)
Isabel Lucas
– Viagem ao Sonho Americano (Companhia das Letras)
S/A – As Mil
e Uma Noites (Trad. de Hugo Maia) (Elsinore)
Annemarie
Schwarzenbach – O Vale Feliz (Teodolito)
J. G.
Ballard – Reino do Amanhã (Elsinore)
Marie
Darrieussecq – Há Que Muito Amar os Homens (Teodolito)
Elena
Ferrante – Escombros (Relógio d’ Água)
Ben Larner –
Ódio à Poesia (Elsinore)
Luís Adriano
Carlos/José Cruz dos Santos – Os Mais Belos Poemas Portugueses (Modo de Ler)
Mário
Cesariny – Poesia (Assírio & Alvim)
António Reis
– Poemas Quotidianos (Tinta da China)
José Miguel
Silva – Últimos Poemas (Averno)
Rosa
Oliveira – Tardio (Tinta da China)
António José
Forte – Uma Faca nos Dentes (Antigona)
S/A – Épico de
Gilgames (Assírio & Alvim)
Golgona
Anghel – Nadar na Piscina dos Pequenos (Assírio & Alvim)
Mário de
Sá-Carneiro – Poesia Completa (Tinta da China)
Elias
Canetti – A Consciência das Palavras (Cavalo de Ferro)
Pedro Eiras –
Os Mestres (Documenta)
quinta-feira, novembro 30, 2017
O PRÉMIO DE ANA TERESA PEREIRA

A obra de Ana teresa Pereira é singular na
literatura portuguesa. E na literatura de língua portuguesa. Talvez por isso o
júri do prémio Oceanos (que se destina a obras de literatura portuguesa e
brasileira, com um júri maioritariamente brasileiro) foi este ano para Ana
Teresa Pereira pelo seu livro Karen. O prémio é justo mas pode causar admiração
se tivermos em conta que Ana Teresa Pereira ainda não está publicada no Brasil.
Depois de já ter vencido o grande prémio de romance e novela da APE, este é
mais um prémio de consagração numa obra, ou “obra-mundo” como lhe chamou o
ensaísta Fernando Guerreiro, de uma extraordinária idiossincrasia.
Começando em 1989, na então colecção de bolso
da Caminho, com o já aparente policial Matar a imagem, Ana Teresa Pereira vem
seguindo um percurso em que os seus romances e novelas são marcados por uma
escrita obsessiva, como se estivesse sempre a escrever o mesmo livro (a exemplo
de uma Duras), marcado por uma profícua relação com outras artes: pintura,
cinema, teatro e obviamente uma forte intertextualidade com autores clássicos
do policial, mas também outros como Rilke ou Iris Murdoch. Ao já referido não é
alheia uma relação com a filosofia e principalmente com a psicanálise (vejam-se
os livros Num Lugar Solitário e Rosas Mortas). Há um tema central em Ana Teresa
Pereira, como bem viu num ensaio sobre a sua obra Rui Magalhães: o medo. O
Labirinto do Medo. É disso que se tece certa literatura, mas em Ana Teresa Pereira
ganha outras dimensões ontológicas. Escrita em português, a obra da autora de
Karen, quase nenhuma (ou mesmo nenhuma) relação mantém com a literatura
portuguesa. O Mundo de Ana Teresa Pereira é predominantemente anglo-saxónico,
com títulos, nomes de personagens e locais de acção referindo-se à Inglaterra.
Mas nada disto impede que a escrita da autora madeirense seja das mais
criativas da actual literatura portuguesa.
Agora os brasileiros vão poder descobrir Ana
Teresa Pereira, e um dia esta obra – já longa – poderá chegar ao mundo de
língua inglesa.
O terceiro prémio atribuído pelo júri (que
integrava o crítico literário português António Guerreiro) foi atribuído ao
livro Golpe de Teatro do poeta Helder Moura Pereira e o quarto lugar à
escritora e poetisa Maria Teresa Horta pelo livro Anunciações.
terça-feira, outubro 31, 2017
OUTUBRO REVOLTADO
1. A 1 deste mês Portugal ia a votos para as
autarquias locais. Mas a consequência política dessas eleições foi a clamorosa
derrota do PSD de Passos Coelho, que se viu forçado a convocar eleições para a
liderança do partido. Assim se espera que termine a carreira do político que
mais mal fez aos portugueses depois do 25 de Abril. Quanto ao PSD, deveria ser
um partido com o mesmo destino do PAZOK na Grécia ou do Partido Socialista
francês – e pelos resultados obtidos arrisca-se a transformar-se num partido
insignificante. Pelo mal que o PSD de Passos Coelho fez a Portugal merece-o; no
entanto, e apesar de os candidatos à liderança serem duas figuras que nada
trazem de novo (Pedro Santana Lopes e Rui Rio), o PSD conta com boa imprensa o
que o torna, num país como Portugal, difícil ou impossível de abater.
2. No mesmo dia em que Portugal elegia os
seus autarcas, a Catalunha organizava um referendo, à rebelia das autoridades e
da constituição espanhola, pelo sim ou não a um estado catalão independente. No
meio de uma votação quase clandestina, com intervenções da polícia que fizeram
centenas de feridos, acabou por naturalmente ganhar o sim com 90 por cento dos
votos. No entanto, só metade dos eleitores votaram o que não dá legitimidade a
este referendo convocado pelo governo independentista de Carles Puigdemont. O
mês de Outubro foi dos mais tumultuosos para a Espanha e para a Catalunha desde
a transição democrática, com Puigdemont a declarar a independência unilateral.
O governo de Rajoy accionou o artigo 155 e o líder independentista fugiu para a
Bélgica. O (primeiro) problema da independência da Catalunha reside na legitimidade
democrática quando existem manifestações a favor da independência e outras a
favor da manutenção da Catalunha no estado espanhol. Depois, há uma série de
situações iguais à da Catalunha, quer em Espanha quer noutros países da Europa
que poderão seguir o exemplo da Catalunha, redefinindo a geografia da Europa.
3. Ao fim de quase 3 anos depois da prisão
preventiva de José Sócrates, o Ministério Público apresentou finalmente a
acusação. O caso Sócrates, que agora é engrossado pelo alegado corruptor, o
banqueiro Ricardo Salgado, e conta ainda com dois ex-CEO da PT, Henrique
Granadeiro e Zeinal Bava, sofre de duas coisas que não deviam ser permitidas
num Estado de direito: 1) a prisão durante meses do ex-primeiro-ministro para
investigar e sem acusação e, 2) o tempo que demorou o MP a fazer essa acusação
com sucessivos dilatamentos nos prazos, permitidos pela PGR, muito para além do
que determina a lei.
4. Subitamente a 15 de Outubro, Domingo
quentíssimo e com vento forte por todo o país, as sirenes dos carros de
bombeiros dão o alarme: Portugal (pelo menos acima do Tejo) estava a arder. O
fogo atiçado por ventos ciclónicos saltava por entre as matas cheias de
vegetação, eucaliptos e pinheiros como um macabro dançarino. Ainda o país não
se tinha refeito da tragédia de Pedrogão e o inferno voltava – 45 mortes a
juntar às mais de 60 de Pedrogão. Nunca tal tragédia tinha acontecido em
Portugal, apesar dos fogos recorrentes no verão. Mas agora já não estávamos sequer
no verão. A questão politizou-se com a exigência – desde comentadores a
manifestantes na rua ou nas redes sociais – da demissão da Ministra da
Administração Interna. Afinal, soube-se depois da comunicação ao país de
Marcelo Rebelo de Sousa, que indirectamente demitia a ministra, que esta já
tinha pedido a demissão em Julho aquando da tragédia de Pedrogão. A politização
desta desgraça acaba por ser algo vergonhoso quer para Marcelo como para Costa.
Mas principalmente para o presidente da República que, no seu estilo irrequieto,
passou a percorrer o Portugal queimado e na sua magistratura de afectos andou a
distribuir abraços pelas vítimas dos incêndios. É como se o chefe de Estado se
tornasse num terapeuta de uma dessas terapias new-age, mas sobretudo quisesse
suspender a política, torná-la numa clínica, lugar despolitizado.
Penso que o que foi escamoteado na questão
dos incêndios é bastante mais simples: o mundo está a sofrer graves alterações
climáticas cujas consequências podem ser dramaticamente inesperadas. Só Donald
Trump ignora esse facto. É certo que pouco ou nada se fez durante os últimos anos
para ordenar a floresta – e nisto tanto os governos do PS como os do PSD têm
culpa. Mas o que aconteceu este ano foi demasiado anormal, como é ainda anormal
no final de Outubro estar uma temperatura de Agosto. As mudanças climáticas
estão aí, não são uma narrativa de ficção-científica, são reais e temos que
alterar o nosso modo de vida se não queremos destruir o planeta.
5. Em Outubro, pelo nosso calendário, há 100
anos, Lenine chegava à Rússia para por em prática uma nefasta utopia: o
comunismo. As crianças deviam aprender na escola ou na família que as utopias,
os desenhos totais (logo totalitários) de sociedades são algo de que se devem
afastar; são qualquer coisa como o homem do saco. A concretização da teoria de
Marx e Engels por Lenine na Rússia, em Outubro de 1917, foi o início de 100 anos
de terror, torturas, mortes. Ainda hoje a Coreia do Norte da dinastia Kim é a
prova disso, ameaçando não só os seus cidadãos mas todo o mundo com o seu
arsenal nuclear. Como pode tanta generosidade transformar-se em algo
absolutamente monstruoso? Esse homem novo, que ainda pouco depois do 25 de
Abril de 1974 Carlos do Carmo cantava (lembro: “São os putos deste povo / a
aprender o homem novo”) é a revelação de que antropológica e psicologicamente o
homem continua a ser um monstro, um bárbaro, se para isso lhe derem
possibilidades. E foram essas possibilidades que as revoluções comunistas
trouxeram a alguns homens (?) durante o século XX (e ainda neste século). Algo
que me espanta: que ao longo destes 100 anos algumas das cabeças mais
brilhantes do pensamento tenham insistido na teoria marxista – e nenhuma teoria
política foi tantas vezes experimentada e tantas vezes falhou (é certo que o
capitalismo fez as suas vítimas, tem o seu lado negro, invisivelmente negro,
mas isso não justifica que do outro lado da barricada ideológica o terror se
tenha manifestado em tal grau de pureza).
sábado, setembro 30, 2017
A CRISE, AINDA

A crise que a finança mundial criou há 10
anos e que atingiu Portugal e os portugueses como nunca, ainda não acabou.
Lamento, mas isto tem que ser dito. Têm que ser lembradas as vítimas da crise –
as que morreram por suicídio, por falta de cuidados médicos –; as vidas
despedaçadas (algumas até tinham bons empregos, ganhavam bem, mas ficaram na miséria,
subitamente caídas num buraco negro). Há muito por investigar, muito trabalho
para os historiadores futuros sobre esta crise. Mas não é difícil apontar os
seus responsáveis: as agências de rating que criminosamente levaram Portugal
para o lixo – literal e metafóricamente –; Passos Coelho e o seu governo
neoliberal que quiseram ir além da troika; Angela Merkel ou Durão Barroso, que criaram
uma Europa não democrática, que a partir de uma Alemanha que nunca deixou de
ser nazi (veja-se como agora o resultado do partido AfD – cerca de 13 por cento
– faz estalar o verniz que cobria o nazismo alemão), impuseram a via única
(diziam) da miséria aos países do sul – os PIIGS (PORCOS, assim éramos
chamados).
Mas a crise não acabou. Ela continua na vida
de centenas de milhar de pessoas que não têm nenhum rendimento; continua nas
reformas de miséria; na miséria do RSI; no “colossal aumento de impostos” que
não foi revertido por este governo de esquerda. A crise continua, estacionou
mansamente em vidas caladas pela depressão, pela miséria de vender o recheio da
casa no olx, por uma oferta de trabalho precária, escrava. A crise permanece,
apesar dos bons resultados económicos, de Portugal ter saído do lixo na
classificação da Standard & Poors (o que é isso de uma agência rating
chamar lixo à dívida de um país? Têm eles coragem de colocar os EUA abaixo de
AAA?). A crise permanece no Estado social com os cortes a continuarem. Perante
isto, os partidos de esquerda que sustentam este governo calam a permanência da
crise, calam objectivos que eram urgentes como impor a renegociação da divida.
Os média, vivem em crise (quanto tempo aguenta o grupo Impresa na família
Balsemão?), directores de informação, como Paulo Dentinho na pública RTP,
despedem mais de metade da redacção, em silêncio, substituída por jovens que
sabem que existe um risco vermelho que não pode ser pisado. O resultado disto é
uma nova censura: há demasiados licenciados em jornalismo e afins, por isso os
jornalistas que se tornam incómodos podem ser despedidos, como aconteceu no
Público.
Esta semana morreu o antigo bispo de Setúbal,
D. Manuel Martins, o bispo que em meados da década de 1980 denunciou a fome
existente no seu distrito. Nessa altura, dez anos passados sobre o 25 de Abril,
com o FMI em versão light em Portugal, era possível escutar e dar voz ao “bispo
vermelho”, confirmar as suas denúncias. Estranhei a notícia da sua morte,
porque há muito que não ouvia falar dele, pensei que já tivesse morrido. D.
Manuel Martins tinha 90 anos, não sei em que condições de saúde estava, mas
desde o início desta crise, há quase 7 anos, que a sua voz, o seu exemplo,
tinha que ser censurado. Porque não se pode dizer HÁ FOME EM PORTUGAL.
quinta-feira, agosto 31, 2017
A ESQUERDA QUE TEMOS
O governo de António Costa, com o apoio do PCP e do Bloco de
Esquerda é algo de inédito na política portuguesa. O resultado pelo menos a
nível económico tem sido bom. Mas isso, por agora, não tem sido suficiente para
reverter o que quatro anos de um governo de destruição nacional fizeram aos
portugueses. A reversão das medidas do anterior governo, principalmente “o
colossal aumento de impostos” ainda está longe de ser revertido. Espera-se pelo
próximo Orçamento de Estado, que para já promete aliviar a carga fiscal de 1,6
milhões de famílias em 5 milhões. É pouco.
O desemprego desceu, é certo. E a confirmá-lo basta ver os
anúncios de emprego (do Jornal de Notícias ao Linked In), mas trata-se de um
novo tipo de emprego, criado com a crise, baseado na precaridade, nuns dias à
experiência, num trabalho por vezes escravo, principalmente para pessoas com
mais de 40 anos e já há alguns anos sem trabalho. O pior de tudo isto são os
quase meio milhão de pessoas que não têm qualquer rendimento, ou mesmo os que
têm 200 euros de RSI – uma miséria, uma indignidade do Estado para com estas
pessoas.
Tudo isto, e muito mais – como a renegociação da dívida que o
PCP e o BE tanto apregoavam quando estavam na oposição –, ficou silenciado face
à “real politique” de um governo PS apoiado pelos restantes partidos de
esquerda com representação parlamentar.
O problema surge aqui: BE e PCP estão reféns da geringonça,
fazem quase parte do governo. E perante isto impõem-se uma pergunta: onde está
a oposição de esquerda a este governo de esquerda? BE e PCP fazem uma oposição
negocial, é uma oposição muito limitada. O problema surge quando fora do quadro
parlamentar os pequenos partidos só existem quando há eleições legislativas.
Assim, não é possível uma crítica da esquerda a esta esquerda, e essa crítica
faz falta.
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