1, A 28 de Abril do agora findo ano, cerca
das 11h00 ocorre um estranho corte de energia eléctrica. Uma consulta a sites
de informação na internet revelava algo de inusitado: Portugal, Espanha e uma
parte de França estavam sem electricidade. Por volta das 21h00, quando já os
sites de internet não estavam a funcionar na sua maioria, e os telemóveis
ficavam sem bateria, a electricidade foi reposta. Mas se não fosse? Se o
chamado “apagão” durasse 1, 2, 3 dias, ou uma semana? Ou mais? O apagão veio
revelar a vulnerabilidade e dependência da sociedade em que vivemos perante não
só a electricidade, mas também perante o mundo digital. Atirou-nos para um
outro tempo, em que não existia electricidade, muito menos este mundo digital,
onde escrevo este texto. Era um mundo que a esmagadora maioria não conheceu. Um
mundo de tempo lento, de respeito pelos ritmos circadianos, onde esses
pirilampos evocados por Pasolini podiam iluminar a noite obscura, sem a
concorrência desleal da luz eléctrica. Nesse mundo, os livros, a literatura, o
pensamento, faziam mais sentido – foi também na “noite do mundo” à luz de velas
que a grande literatura e as grandes ideias nasceram. Mas era um tempo agreste
para o corpo. No entanto, garanto que sei de quem vive ainda à luz de velas.
2, A 16 de Março de 1825 nascia em Lisboa
Camilo Castelo Branco. Um nascimento que parece acidental, já que o autor de “Romance
de um homem rico”, entre milhares de páginas escritas, retratou o universo
nortenho, com um vocabulário luxuriante, já perdido no falar do dia-a-dia. É
esse vocabulário, que já não encontra dicionários, que o distingue e talvez
eleve, a par de uma ironia mordaz, acima de um Eça de Queiróz. Este ano, foi,
portanto, altura de celebrar o bicentenário de Camilo.
3, O panorama editorial português é cada vez
mais dominado pelo grupo Porto Editora. De tal forma que está dividido em dois:
o grupo Porto Editora propriamente dito, e o grupo Bertrand, que foi adquirido
pela Porto Editora em 2010. Deste último fazem parte as editoras Quetzal,
Pergaminho, Temas e Debates, Contraponto, Arteplural, 11x17 e Círculo de
Leitores. A Bertrand tem também a marca das livrarias de rua ou de centro
comercial. Este ano, a livraria Latina, do Porto, no início da Rua de Santa
Catarina, que pertencia à Leya, foi adquirida pelo grupo Bertrand. Do outro
lado, estão as pequenas editoras como a Bestiário, Saguão, 7 nós, Letra Livre,
100 cabeças, Língua Morta, Maldoror, Averno, Sr. Taste, entre outras, que
praticam conjuntamente com algumas livrarias “alternativas” ou “independentes”
como a Utopia, Flâneur, Poetria (no Porto), Livraria Letra Livre, Snob (em
Lisboa), uma certa resistência. No meio, aparecem grupos como a Almedina, a
Pinguin Random House, e editoras como a Relógio d’ Água.
4, Da lista de livros abaixo, que é mais uma
lista de desejos e arquivo que de livros lidos, faço alguns destaques. Na
poesia para três antologias: “Adeus, campos felizes” de Rui Lage, tenta
recuperar um território e uma geografia humana em desaparecimento; Graça
Videira Lopes foi ao Cancioneiro de Garcia de Resende recuperar uma poesia de
antanho que não celebrava o pathos da derrota e do niilismo, mas um
lirismo que se perde; António Maria Lisboa é um poeta com pouca fortuna
editorial e não só, a que a edição em livro de bolso da Pinguin, não ajuda,
principalmente nos poemas visuais. Destaco ainda, ou sobretudo, o número 42 da
revista Relâmpago (com data de Dezembro de 2024, mas distribuído em Março de
2025) sobre a “poesia portuguesa de agora”, coordenado por Fernando Pinto do
Amaral e Ricardo Marques que incluiu uma selecção de 11 poetas e alguns ensaios
– o que não parece ser suficiente para traçar os diversos mapas que constituem
a poesia “de agora”. Liberato, músico e poeta, publicou em edição de autor o
pequeno livro “Cá, nesta terriola”, de forte pendor político. Realce ainda para
a reedição da obra (poética e ensaística) de Alberto Pimenta pela 7 Nós e
Saguão e para o terceiro volume da obra – finalmente – completa de António
Ramos Rosa. Um outro poeta maior da poesia portuguesa dominou a não-ficção: a
biografia de Herberto Helder por João Pedro George. O calhamaço, de mais de 800
páginas, recolhe um trabalho de anos do autor, que ouviu pessoas próximas do
poeta, como a sua companheira Olga. Se em vida o poeta sempre recusou aparições
públicas, celebrizando a frase, “Meu Deus, faz de mim um poeta obscuro”,
questiona-se a facilidade com que o autor de “Se eu quisesse enlouquecia”
obteve os depoimentos – não serão uma traição à memória do autor Photomaton
& Vox? Duas cartas escritas por Gunter Anders, marido de Hannah Arendt, aos
filhos biológicos do nazi Adolf Eichmann, editadas pela Antígona sob o título “Nós,
filhos de Eichmann”, colocam a enfase na teoria defendida por Arendt nas
reportagens que fez sobre o julgamento do nazi: na “banalidade do mal” qualquer
um de nós pode ser um Eichmann. Destaque-se ainda dois livros de José Gil
(Pontas Soltas I e II) e uma entrevista conduzida por Marta Pais Oliveira ao
filósofo. De Carlo Michelstaedter, filósofo italiano precocemente suicida, a Companhia
das Ilhas publicou Retórica e Persuasão, a sua única obra. E para terminar as
referências à não-ficção, mais uma biografia, desta vez de Egas Moniz, por
Paulo M. Morais, que em A Glória Efémera segue a vida de uma personalidade que
acabou por se tornar tenebrosa ao criar a lobotomia. Na ficção, foi este ano,
traduzido para português, um romance que denúncia certas práticas da
psiquiatria, “Voando sobre um ninho de cucos” (ed. original de 1962) de Ken
kesey (Livros do Brasil) e que Milos Forman tornaria famoso ao adaptá-lo para o
ecrã cinematográfico, em 1975. De Julio Cortazar, escritor determinante da
literatura argentina, a Cavalo de Ferro publicou os seus Contos Completos, em
dois grossos volumes, que passaram despercebidos.
Uma nota final para o fecho do Jornal de
Letras. Durante quase 45 anos, desde 1981, dirigido sempre por José Carlos
Vasconcelos, foi um elemento imprescindível para a compreensão e divulgação das
actividades culturais em Portugal, e não só.
POESIA
AA VV – Relâmpago, nº 42 – Poesia portuguesa
de agora (Fund. Luís Miguel Nava)
António Ramos Rosa – Obra Poética III
(Assírio & Alvim)
Rui Lage (org.) – Adeus, campos felizes –
Antologia do campo na poesia portuguesa do século XIII ao século XXI (Assírio
& Alvim)
Graça Videira Lopes (ed.) – Cousas de folgar
e gentilezas. (Assírio & Alvim)
Alberto Pimenta – Tetraphármakos (Caixa + 4
livros) (7 Nós)
Fernando Guerreiro – A Sagrada Família
(Bestiário)
Arthur Rimbaud – Poesia (Assírio & Alvim)
Liberato – Cá, nesta terriola (edição do
autor)
António Maria Lisboa – Uma poesia extrema
(Pinguin Clássicos)
Nunes da Rocha – Estudos literários &
outras divagações de uso (Averno)
Nunes da Rocha – Real quotidiano (1957-1974)
(100 Cabeças)
Daniel Jonas – Idade da perda (Assírio &
Alvim)
Luís Quintais – A destruição do tempo
(Assírio & Alvim)
Afonso Lopes Vieira – Poesia (E-Primatur)
NÃO-FICÇÃO
João Pedro George – Se eu quisesse
enlouquecia – biografia de Herberto Helder (Contraponto)
Carlo Michelstaedter – Persuasão e retórica
(Companhia das Ilhas)
Gunter Anders – Nós, filhos de Eichmann
(Antígona)
José Gil – Pontas Soltas I (Relógio d’ Água)
Marta Pais Oliveira – A última lição de José
Gil (Contraponto)
Jean Baudrillard – América (Língua Morta)
Paulo M. Morais – A glória efémera –
biografia de Egas Moniz (Contraponto)
AA VV – Habitats internos – conversas com
psicanalistas (VS)
António Branco Vasco / Mariana S. – Crónicas
de uma psicoterapia (Taiga)
Carlos Mendes de Sousa – No caminho da poesia
(Documenta)
Pedro Eiras – Constelações 4 – Ensaios
comparatistas (Afrontamento)
Alberto Pimenta – O silêncio dos poetas
(Saguão)
Yanis Varoufakis – Tecno-feudalismo
(objetivamente)
FICÇÃO
Julio Cortazar – Contos completos (vol. 1 e
2) (Cavalo de Ferro)
Gonçalo M. Tavares – O fim dos Estados Unidos
da América
Rui Manuel Amaral – Zov (Snob)
Lásló Krasznahorkai – Herscht 07769 (Cavalo
de Ferro)
José Rodrigues Miguéis – Leah e outras
histórias (Assírio & Alvim)
Miranda July – De quatro (Quetzal)
Ken Kesey – Voando sobre um ninho de cucos
(Livros do Brasil)
AA VV – Antologia de contos humorísticos e
satíricos russos (Tinta da China)