quarta-feira, dezembro 31, 2025

LIVROS EM 2025


1, A 28 de Abril do agora findo ano, cerca das 11h00 ocorre um estranho corte de energia eléctrica. Uma consulta a sites de informação na internet revelava algo de inusitado: Portugal, Espanha e uma parte de França estavam sem electricidade. Por volta das 21h00, quando já os sites de internet não estavam a funcionar na sua maioria, e os telemóveis ficavam sem bateria, a electricidade foi reposta. Mas se não fosse? Se o chamado “apagão” durasse 1, 2, 3 dias, ou uma semana? Ou mais? O apagão veio revelar a vulnerabilidade e dependência da sociedade em que vivemos perante não só a electricidade, mas também perante o mundo digital. Atirou-nos para um outro tempo, em que não existia electricidade, muito menos este mundo digital, onde escrevo este texto. Era um mundo que a esmagadora maioria não conheceu. Um mundo de tempo lento, de respeito pelos ritmos circadianos, onde esses pirilampos evocados por Pasolini podiam iluminar a noite obscura, sem a concorrência desleal da luz eléctrica. Nesse mundo, os livros, a literatura, o pensamento, faziam mais sentido – foi também na “noite do mundo” à luz de velas que a grande literatura e as grandes ideias nasceram. Mas era um tempo agreste para o corpo. No entanto, garanto que sei de quem vive ainda à luz de velas.

 

2, A 16 de Março de 1825 nascia em Lisboa Camilo Castelo Branco. Um nascimento que parece acidental, já que o autor de “Romance de um homem rico”, entre milhares de páginas escritas, retratou o universo nortenho, com um vocabulário luxuriante, já perdido no falar do dia-a-dia. É esse vocabulário, que já não encontra dicionários, que o distingue e talvez eleve, a par de uma ironia mordaz, acima de um Eça de Queiróz. Este ano, foi, portanto, altura de celebrar o bicentenário de Camilo.

 

3, O panorama editorial português é cada vez mais dominado pelo grupo Porto Editora. De tal forma que está dividido em dois: o grupo Porto Editora propriamente dito, e o grupo Bertrand, que foi adquirido pela Porto Editora em 2010. Deste último fazem parte as editoras Quetzal, Pergaminho, Temas e Debates, Contraponto, Arteplural, 11x17 e Círculo de Leitores. A Bertrand tem também a marca das livrarias de rua ou de centro comercial. Este ano, a livraria Latina, do Porto, no início da Rua de Santa Catarina, que pertencia à Leya, foi adquirida pelo grupo Bertrand. Do outro lado, estão as pequenas editoras como a Bestiário, Saguão, 7 nós, Letra Livre, 100 cabeças, Língua Morta, Maldoror, Averno, Sr. Taste, entre outras, que praticam conjuntamente com algumas livrarias “alternativas” ou “independentes” como a Utopia, Flâneur, Poetria (no Porto), Livraria Letra Livre, Snob (em Lisboa), uma certa resistência. No meio, aparecem grupos como a Almedina, a Pinguin Random House, e editoras como a Relógio d’ Água.

 

4, Da lista de livros abaixo, que é mais uma lista de desejos e arquivo que de livros lidos, faço alguns destaques. Na poesia para três antologias: “Adeus, campos felizes” de Rui Lage, tenta recuperar um território e uma geografia humana em desaparecimento; Graça Videira Lopes foi ao Cancioneiro de Garcia de Resende recuperar uma poesia de antanho que não celebrava o pathos da derrota e do niilismo, mas um lirismo que se perde; António Maria Lisboa é um poeta com pouca fortuna editorial e não só, a que a edição em livro de bolso da Pinguin, não ajuda, principalmente nos poemas visuais. Destaco ainda, ou sobretudo, o número 42 da revista Relâmpago (com data de Dezembro de 2024, mas distribuído em Março de 2025) sobre a “poesia portuguesa de agora”, coordenado por Fernando Pinto do Amaral e Ricardo Marques que incluiu uma selecção de 11 poetas e alguns ensaios – o que não parece ser suficiente para traçar os diversos mapas que constituem a poesia “de agora”. Liberato, músico e poeta, publicou em edição de autor o pequeno livro “Cá, nesta terriola”, de forte pendor político. Realce ainda para a reedição da obra (poética e ensaística) de Alberto Pimenta pela 7 Nós e Saguão e para o terceiro volume da obra – finalmente – completa de António Ramos Rosa. Um outro poeta maior da poesia portuguesa dominou a não-ficção: a biografia de Herberto Helder por João Pedro George. O calhamaço, de mais de 800 páginas, recolhe um trabalho de anos do autor, que ouviu pessoas próximas do poeta, como a sua companheira Olga. Se em vida o poeta sempre recusou aparições públicas, celebrizando a frase, “Meu Deus, faz de mim um poeta obscuro”, questiona-se a facilidade com que o autor de “Se eu quisesse enlouquecia” obteve os depoimentos – não serão uma traição à memória do autor Photomaton & Vox? Duas cartas escritas por Gunter Anders, marido de Hannah Arendt, aos filhos biológicos do nazi Adolf Eichmann, editadas pela Antígona sob o título “Nós, filhos de Eichmann”, colocam a enfase na teoria defendida por Arendt nas reportagens que fez sobre o julgamento do nazi: na “banalidade do mal” qualquer um de nós pode ser um Eichmann. Destaque-se ainda dois livros de José Gil (Pontas Soltas I e II) e uma entrevista conduzida por Marta Pais Oliveira ao filósofo. De Carlo Michelstaedter, filósofo italiano precocemente suicida, a Companhia das Ilhas publicou Retórica e Persuasão, a sua única obra. E para terminar as referências à não-ficção, mais uma biografia, desta vez de Egas Moniz, por Paulo M. Morais, que em A Glória Efémera segue a vida de uma personalidade que acabou por se tornar tenebrosa ao criar a lobotomia. Na ficção, foi este ano, traduzido para português, um romance que denúncia certas práticas da psiquiatria, “Voando sobre um ninho de cucos” (ed. original de 1962) de Ken kesey (Livros do Brasil) e que Milos Forman tornaria famoso ao adaptá-lo para o ecrã cinematográfico, em 1975. De Julio Cortazar, escritor determinante da literatura argentina, a Cavalo de Ferro publicou os seus Contos Completos, em dois grossos volumes, que passaram despercebidos.

 

Uma nota final para o fecho do Jornal de Letras. Durante quase 45 anos, desde 1981, dirigido sempre por José Carlos Vasconcelos, foi um elemento imprescindível para a compreensão e divulgação das actividades culturais em Portugal, e não só. 

 

POESIA

 

AA VV – Relâmpago, nº 42 – Poesia portuguesa de agora (Fund. Luís Miguel Nava)

António Ramos Rosa – Obra Poética III (Assírio & Alvim)

Rui Lage (org.) – Adeus, campos felizes – Antologia do campo na poesia portuguesa do século XIII ao século XXI (Assírio & Alvim)

Graça Videira Lopes (ed.) – Cousas de folgar e gentilezas.  (Assírio & Alvim)

Alberto Pimenta – Tetraphármakos (Caixa + 4 livros) (7 Nós)

Fernando Guerreiro – A Sagrada Família (Bestiário)

Arthur Rimbaud – Poesia (Assírio & Alvim)

Liberato – Cá, nesta terriola (edição do autor)

António Maria Lisboa – Uma poesia extrema (Pinguin Clássicos)

Nunes da Rocha – Estudos literários & outras divagações de uso (Averno)

Nunes da Rocha – Real quotidiano (1957-1974) (100 Cabeças)

Daniel Jonas – Idade da perda (Assírio & Alvim)

Luís Quintais – A destruição do tempo (Assírio & Alvim)

Afonso Lopes Vieira – Poesia (E-Primatur)

 

NÃO-FICÇÃO

 

João Pedro George – Se eu quisesse enlouquecia – biografia de Herberto Helder (Contraponto)

Carlo Michelstaedter – Persuasão e retórica (Companhia das Ilhas)

Gunter Anders – Nós, filhos de Eichmann (Antígona)

José Gil – Pontas Soltas I (Relógio d’ Água)

Marta Pais Oliveira – A última lição de José Gil (Contraponto)

Jean Baudrillard – América (Língua Morta)

Paulo M. Morais – A glória efémera – biografia de Egas Moniz (Contraponto)

AA VV – Habitats internos – conversas com psicanalistas (VS)

António Branco Vasco / Mariana S. – Crónicas de uma psicoterapia (Taiga)

Carlos Mendes de Sousa – No caminho da poesia (Documenta)

Pedro Eiras – Constelações 4 – Ensaios comparatistas (Afrontamento)

Alberto Pimenta – O silêncio dos poetas (Saguão)

Yanis Varoufakis – Tecno-feudalismo (objetivamente)

 

FICÇÃO

 

Julio Cortazar – Contos completos (vol. 1 e 2) (Cavalo de Ferro)

Gonçalo M. Tavares – O fim dos Estados Unidos da América

Rui Manuel Amaral – Zov (Snob)

Lásló Krasznahorkai – Herscht 07769 (Cavalo de Ferro)

José Rodrigues Miguéis – Leah e outras histórias (Assírio & Alvim)

Miranda July – De quatro (Quetzal)

Ken Kesey – Voando sobre um ninho de cucos (Livros do Brasil)

AA VV – Antologia de contos humorísticos e satíricos russos (Tinta da China)

 

domingo, novembro 30, 2025

Sebastião Alba

 


NINGUÉM MEU AMOR

 

Ninguém meu amor

ninguém como nós conhece o sol

Podem utilizá-lo nos espelhos

apagar com ele

os barcos de papel dos nossos lagos

podem obrigá-lo a parar

à entrada das casas mais baixas

podem ainda fazer

com que a noite gravite

hoje do mesmo lado

Mas ninguém meu amor

ninguém como nos conhece o sol

Até que o sol degole

o horizonte em que um a um

nos deitam

vendando-nos os olhos

 

Sebastião Alba, in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro, Assírio & Alvim, 2001, pp.1793-94

Sebastião Alba (1940-2000), pseudónimo de Dinis Albano Carneiro Gonçalves, nasceu em Braga, indo viver para Moçambique onde iniciou a sua actividade literária. Em 1983 regressa a Portugal. Foi jornalista, guerrilheiro, esteve internado em hospitais psiquiátricos e viveu na rua. Em A Noite Dividida (Assírio & Alvim, 1996) reúne três livros: dois já publicados e um inédito. Em 2023, na Imprensa Nacional é publicado Todo o Alba, volume que colige a obra edita e inédita do poeta.

 


sexta-feira, outubro 31, 2025

A BIBLIOTECA MUNICIPAL DO PORTO FECHADA

 


A Biblioteca Pública Municipal do Porto (BPMP) fechou a 1 de Abril de 2024 para obras de “requalificação e ampliação” da autoria do arquitecto Eduardo Souto de Moura. Previa-se, então, a sua reabertura para Dezembro de 2027. No entanto, em Abril deste ano, a CMP, então ainda presidida por Rui Moreira, resolveu lançar um novo concurso de 34,5 milhões de euros – aumentando em 8 milhões o valor inicialmente orçamentado – e prevendo na altura a reabertura da biblioteca para 2028. Mas agora aponta-se para uma “data indeterminada” Os motivos avançados por Rui Moreira em 2024 para as obras de “requalificação e ampliação” da BPMP, eram “um problema crónico” de “défice de espaço para armazenamento de livros e espólio”. Entretanto, anunciava-se, em 2024, um serviço especial de livros take-way (finalmente os livros puderam ser equiparados a refeições, e o dito de Natália Correia de que a poesia era para comer aproximou-se como nunca da realidade) para investigadores. Ora, estes investigadores lançaram em Junho deste ano uma (nova) petição. Em causa estava (está) a dificuldade de acesso a documentos essenciais para fazer investigação. Na verdade, não parece que hoje os investigadores académicos do Porto tenham outro recurso senão procurar outras bibliotecas. O mesmo se passa com aqueles que ainda procuram um tema para investigação.

 Para já, uma parte dos periódicos – apenas os mais consultados – foi para a Escola Ramalho Ortigão, onde podem ser consultados. Alguns livros foram para a Biblioteca Almeida Garrett. A casa onde viveu o poeta Eugénio de Andrade, na Foz, foi em 2024 transformada na Casa da Poesia, sendo que o espólio do poeta e outros livros de poesia seleccionados por Luís Miguel Queirós (um total de 4 mil volumes) podem aí ser consultados. Mas a realidade das obras de requalificação e ampliação da BPMP é outra. Quem passa pelo edifício da Biblioteca, junto ao Jardim de S. Lazaro, na Rua de D. João IV, não vê nenhuma actividade que indicie o início das obras. O site da Biblioteca apresenta esta frase: “A BPMP está encerrada para trabalhos preparatórios da obra de beneficiação e ampliação do edifício”. Daqui se infere que as obras ainda não começaram, e como em muitos casos em que é um organismo público a adjudicar a obra, estas tornam-se nas chamadas “obras de Santa Engrácia”. É claro que os livros e periódicos que estão no antigo Convento de Santo António, e que são cerca de 2 milhões, necessitam de ser salvaguardados das obras.

 Isto pode levar a que quando a Biblioteca abra ao público, a relação com o livro seja diferente da de hoje. Estava prometida a digitalização dos três grandes jornais do Porto: O Primeiro de Janeiro, O Comércio do Porto (ambos já extintos) e o Jornal de Notícias – o que era uma excelente ideia quando temos apenas um jornal digitalizado e disponível on-line, o Diário de Lisboa. Mas no site da Biblioteca, embora seja anunciado um novo serviço, o “BiblioLED: o novo serviço de leitura digital”, não há referência à digitalização destes jornais. Aliás este serviço é pouco ambicioso, com um catálogo inicial de 1500 títulos, entre livros digitais e audiolivros. A realidade é que já há bastante tempo a Google iniciou o projecto Gutenberg de digitalização de livros de autores que entraram no domínio público; digitalizou cerca de 60 mil volumes, onde se contam vários autores de língua portuguesa cujas obras ficaram esquecidas. Mas abandonou este projecto, mesmo porque hoje existem milhares de vídeos no you tube, em várias línguas, com a leitura de obras fundamentais – da literatura à filosofia – quer por vozes humanas, quer por vozes de IA – e isso só vem reafirmar a “profecia” de M. Mac Luhan de que caminhamos para uma sociedade oral. Apesar de o livro ter resistido, até agora, como objecto analógico à sua passagem para o digital, nada prova que o avançar para um mundo cada vez mais digitalizado não acabará por engolir também o livro, como está a acontecer com os jornais. É, portanto, simplesmente estúpido fechar totalmente (ou quase) a BPMP – a segunda maior do país. Mas aqui a culpa é – presumo – do arquitecto Souto Moura que poderia arranjar uma outra solução, e também de Rui Moreira que concordou com o fecho da Biblioteca. A este respeito, basta lembrar o que aconteceu a outro equipamento cultural desenhado pelo arquitecto Souto Moura – um dos “Nobel” da arquitectura portuguesa. A Casa das Artes, que abriu no início da década de 1990, com uma boa programação entre o cinema, exposições, colóquios, etc, acabou por cair no esquecimento. O edifício foi-se degradando sem que nenhum responsável camarário se lembrasse que aquele equipamento estava ao abandono. Quando alguém interveio, a Casa das Artes era uma quase ruína. Fizeram-se as inevitáveis obras de requalificação e iniciou-se uma programação, mas em Maio do ano passado essa programação foi interrompida para “obras de beneficiação”. A excepção foi o Cine Clube do Porto que continuou a sua programação. Pelo menos até Março deste ano. 

terça-feira, setembro 30, 2025

Irene Gruss

 


“AQUILO QUE DIANA MAIS TEMIA ERA QUE A REALIDADE IRROMPESSE”

Liliana Heker

 

E, por isso, começou a lavar a roupa.

Deitou água num balde

e agitou o sabão, com um sentimento ambíguo:

tinha um novo perfume e uma nova certeza

para contar ao mundo.

“Ver como as bolhas se desfazem, disse,

não é mais estranho do que vermo-nos ao espelho”.

Pensava que falava com os seus papéis

e riu-se, enquanto tocava a água.

A roupa submergia devagar, e ela

esfregava-a devagar, à medida que

ia conhecendo o jogo.

Decidida,

tomou cada uma das bolhas de sabão

e nomeou-as; era

o melhor que sabia fazer até então,

nomear, e esperar que as coisas

se parissem na sua mão.

 

In Por Alguma Razão – antologia de poesia argentina, selecção, tradução e nota previa de Hugo Miguel Santos, contracapa, p.117

 

Irene Gruss (Buenos Aires, 1950-2018) foi uma poeta argentina, autora de cerca de uma vintena de livros de poesia e da antologia Poetas Argentinas (1940-1960) – 2006. Nos anos 1970 fundou o grupo de poetas Taller Mario Jorge de Lellis. Foi, nesse sentido, e pela sua participação em várias revistas e jornais, uma divulgadora da poesia.

 


sábado, agosto 30, 2025

Marta Chaves

 


RECREIO

Toda a gente toma conta da minha vida,
ou melhor, a minha vida é tomada 
por todos de quem tomo conta.
Procuro o intervalo, quando dele me retiram.

***

VARANDA

Leio até que a luz o permita
e conforme desaparece
as letras ganham corpo
brilham de tão negras
na brancura do papel.

A falta torna fortes as palavras.

Quando a luz do candeeiro da rua
pousa nos meus dedos,
pego na caneta e ela dança.
As palavras levantam-se,
a noite cai.
 
Marta Chaves, Intervalo, Assírio & Alvim, 2025, pp. 13 e 19.
Marta Chaves estreou-se como poeta com o livro Onde não estou, tu não existes (2009), a que se seguiram mais sete livros, os 3 últimos publicados na Assírio & Alvim. O seu livro Perda de Inventário foi publicado no Brasil pela editora Corsário-Sata (2020). Nasceu em Coimbra (1978) e vive em Lisboa, onde exerce a profissão de psicoterapeuta, facto que não está ausente dos seus poemas.

quarta-feira, julho 30, 2025

Isabel Mendes Ferreira

 



pronto. decidi que és uma égua. talvez um pouco de água. e se me
tocas com teu pêlo de ferrugem irei mais longe. és uma flauta.
no entanto ontem quando puseste o vestido branco
foste puta deusa anjo mãe safo e senti que um barco
te penetrava o ventre liso laço de algas lenço afago.

não me basta o teu rosto
a tua vulva as tuas rugas o teu regato

decidi que és uma égua mas não te devolvo o pasto.
entrego-te a faca. já me basta de combate.

Isabel Mendes Ferreira, in A Pele, ed. Presença, Colecção do Autor, 1989, p. 31.
Isabel Mendes Ferreira iniciou a publicação de poesia na década de 1980, com títulos como A mais loura de Lisboa (Difel, 1984) ou Um corpo (sub)exposto (IN-CM, 1983).  Em 2015 ganhou o prémio PEN Clube Português de Poesia pelo livro O tempo é renda (Labirinto de Letras, 2014). Há na sua poesia uma dimensão erótica, bastante transgressora para a época em que começou a publicar, como atesta o poema acima.
Imagem de fotograma de uma entrevista à RTP, em 1989.


segunda-feira, junho 30, 2025

A guerra, entre o inominável e o patético

 


1, Na faixa de Gaza vive-se o inominável. Todos os dias dezenas de palestinianos são mortos quando vão buscar comida. São já cerca de 56 mil os mortos na faixa de Gaza, desde o 7 de Outubro de 2023, altura em que o Hamas atacou e fez reféns colonos israelitas. A ira bíblica de Israel abateu-se sobre os palestinianos, entrincheirados na estreita faixa de Gaza, entre o mar e o estado de Israel. Dois milhões de pessoas vivendo numa prisão a céu aberto. O Hamas agora, como outrora a OLP, surge como resposta a essa situação infra-humana. A criação do estado de Israel deu-se depois do fim da II Guerra Mundial, ou seja, depois do fim do Holocausto em que os nazis exterminaram cerca de seis milhões de judeus. A solução final nazi, foi naquela altura o inominável que palavras como Holocausto pretenderam traduzir. Mas agora é Israel – melhor dizendo o primeiro-ministro Benjamin Natanyahu – que se comporta como os nazis. Trata-se de um lento genocídio, pela fome como arma de guerra, pela falsa ajuda humanitária de uma alegada fundação privada norte-americana, que é um bando de mercenários pronto a disparar com o exército israelita sobre os famintos palestinianos. E tudo isto é uma criação da aliança entre Trump e Natanyahu.

 2, Natanyahu bombardeou o Irão (com a ajuda da sua tenebrosa Mossad, pretendia decapitar o regime dos aiatolas), e o Irão bombardeou Israel. Andaram nisto 12 dias, até que Donald Trump, o palhaço rico, usou os seus “fantásticos” aviões B-2 para bombardear locais onde, alegadamente, se desenvolve o programa nuclear do Irão. Uma bomba “incrível” que só os EUA têm. Resta saber se os bombardeamentos foram eficazes para acabar com o programa nuclear de Irão. Mas para Israel de Natanyahu – acossado com acusações por corrupção – nada é suficiente. Israel está quase sempre em guerra desde a sua fundação, em 1948.

 3, Donald Trump, que queria que os EUA saíssem da NATO, acabou a exigir dos membros do clube fundado entre outros por Portugal de Salazar, que cada país pague cinco por cento do seu PIB anualmente para a defesa e segurança. É muito dinheiro para a indústria do armamento – principalmente norte-americana – que está extremamente grata ao homem cor de laranja. E Luís Montenegro, no beija-mão a Donald, como os seus homólogos europeus e não só, concordou. Deste coro destoou a voz de Pedro Sanchez, o presidente do governo espanhol, que vive cercado de acusados de corrupção por todo o lado (mulher, irmão, melhores amigos dentro do PSOE). Neste lodaçal de corrupção, o líder do PSOE aguenta-se e recusa a chantagem do bonecreiro Donald.

 (imagem do The New Yorker)

 


sábado, maio 31, 2025

Sophia de Mello Breyner Andresen

 


A FORMA JUSTA

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa forma terrestre
A terra onde estamos - se ninguém atraiçoasse - proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
- Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

Sophia de Mello Breyner Andressen do livro O Nome das Coisas (1977), in Obra Poética II, Circulo de Leitores, Lisboa, 1992, p. 238

terça-feira, abril 29, 2025

JORGE LUIS BORGES

 


                                              O PRINCÍPIO

 

Dois gregos conversam: Sócrates, talvez, e Parménides.

Convém que nunca saibamos os seus nomes; assim, a história será mais misteriosa e tranquila.

O tema do diálogo é abstracto. Às vezes, aludem a mitos, dos quais ambos descrêem. As razões que alegam podem abundar em falácias e nunca intentam um fim.

Não polemicam. Já não querem persuadir, nem ser persuadidos, não pensam em ganhar ou perder.

Numa só coisa estão de acordo: sabem que o diálogo é o não impossível caminho para chegar a uma verdade.

Livres do mito e da metáfora, pensam, ou procuram pensar.

Nunca saberemos os seus nomes.

Esta conversa de dois desconhecidos, num lugar da Grécia, é o facto capital da História.

Pois já olvidaram a prece e a magia.

 

Jorge Luis Borges, A Memória de Shakespeare, trad. Luís Alves da Costa, Vega, 2002, p. 7

Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires (Argentina) em 1899. Foi dos maiores criadores da literatura mundial do século XX. Não recebeu o Nobel nem precisava; o Nobel é que precisava dele. A sua criação de mundos atinge o auge em dois volumes de contos: Ficções e O Aleph. 


segunda-feira, março 31, 2025

Beatriz Hierro Lopes



OLHOS

Falar tão baixo que ninguém ouça, escrever tão pequeno que ninguém leia, esvaziar tanto os ouvidos e os olhos que me achem sumida no chão que piso. Meu eu ausente, comprando casas de porcelana para minha mãe. Coleccionamos casas, pássaros nas molduras e budas mendicantes, que nos olham além da ternura bojuda de um candeeiro em latão dourado a que a mãe passa o lustre todas as segundas. Não temos casas nem asas. Cristo menino é perneta e dorme na almofadinha de veludo rosado que lhe deram para fazer conjunto na vez das palhas. Não repousa, olha-nos de olhos bem abertos de vidro pintado; nunca pude ter berlindes, pois os adultos tinham medo que os engolisse; mas eu não engoliria os olhos do menino magoado. Embate na noite a minha alma e é possível que a tenha trocado por olhos vidrados a um cristo de duas pernas. Gemer tão baixo que todos ouçam, falar tão silenciosamente que ninguém possa dormir, respirar tão pausadamente que até santos acordem e anjos se evadam dos céus. Que outra forma tenho eu de recriar a tua solidão na minha? 

Beatriz Hierro Lopes, É Quase Noite, Averno, Lisboa, 2013.