TU ÉS MAIS BRANCA DO QUE O CISNE
TU ÉS MAIS BRANCA DO QUE O CISNE
OFERENDO UM ESPELHO
Envio-te um espelho precioso:
em seu alto horizonte faz surgir
o teu rosto, lua de bom presságio.
Desse modo, justamente,
apreciarás a tua formusura
e desculparás a paixão
que me consome.
Ai, sendo furtiva, a tua imagem
é mais acessível que tu mesma,
mais benevolente
e melhor cumpridora de promessas!
In Ladrões de Prazer – poemas arábigo-andaluzes,
Editorial Estampa, Clássicos de Bolso, tradução de Fernando Couto, 1991, p. 39
1, A 28 de Abril do agora findo ano, cerca
das 11h00 ocorre um estranho corte de energia eléctrica. Uma consulta a sites
de informação na internet revelava algo de inusitado: Portugal, Espanha e uma
parte de França estavam sem electricidade. Por volta das 21h00, quando já os
sites de internet não estavam a funcionar na sua maioria, e os telemóveis
ficavam sem bateria, a electricidade foi reposta. Mas se não fosse? Se o
chamado “apagão” durasse 1, 2, 3 dias, ou uma semana? Ou mais? O apagão veio
revelar a vulnerabilidade e dependência da sociedade em que vivemos perante não
só a electricidade, mas também perante o mundo digital. Atirou-nos para um
outro tempo, em que não existia electricidade, muito menos este mundo digital,
onde escrevo este texto. Era um mundo que a esmagadora maioria não conheceu. Um
mundo de tempo lento, de respeito pelos ritmos circadianos, onde esses
pirilampos evocados por Pasolini podiam iluminar a noite obscura, sem a
concorrência desleal da luz eléctrica. Nesse mundo, os livros, a literatura, o
pensamento, faziam mais sentido – foi também na “noite do mundo” à luz de velas
que a grande literatura e as grandes ideias nasceram. Mas era um tempo agreste
para o corpo. No entanto, garanto que sei de quem vive ainda à luz de velas.
2, A 16 de Março de 1825 nascia em Lisboa
Camilo Castelo Branco. Um nascimento que parece acidental, já que o autor de “Romance
de um homem rico”, entre milhares de páginas escritas, retratou o universo
nortenho, com um vocabulário luxuriante, já perdido no falar do dia-a-dia. É
esse vocabulário, que já não encontra dicionários, que o distingue e talvez
eleve, a par de uma ironia mordaz, acima de um Eça de Queiróz. Este ano, foi,
portanto, altura de celebrar o bicentenário de Camilo.
3, O panorama editorial português é cada vez
mais dominado pelo grupo Porto Editora. De tal forma que está dividido em dois:
o grupo Porto Editora propriamente dito, e o grupo Bertrand, que foi adquirido
pela Porto Editora em 2010. Deste último fazem parte as editoras Quetzal,
Pergaminho, Temas e Debates, Contraponto, Arteplural, 11x17 e Círculo de
Leitores. A Bertrand tem também a marca das livrarias de rua ou de centro
comercial. Este ano, a livraria Latina, do Porto, no início da Rua de Santa
Catarina, que pertencia à Leya, foi adquirida pelo grupo Bertrand. Do outro
lado, estão as pequenas editoras como a Bestiário, Saguão, 7 nós, Letra Livre,
100 cabeças, Língua Morta, Maldoror, Averno, Sr. Taste, entre outras, que
praticam conjuntamente com algumas livrarias “alternativas” ou “independentes”
como a Utopia, Flâneur, Poetria (no Porto), Livraria Letra Livre, Snob (em
Lisboa), uma certa resistência. No meio, aparecem grupos como a Almedina, a
Pinguin Random House, e editoras como a Relógio d’ Água.
4, Da lista de livros abaixo, que é mais uma
lista de desejos e arquivo que de livros lidos, faço alguns destaques. Na
poesia para três antologias: “Adeus, campos felizes” de Rui Lage, tenta
recuperar um território e uma geografia humana em desaparecimento; Graça
Videira Lopes foi ao Cancioneiro de Garcia de Resende recuperar uma poesia de
antanho que não celebrava o pathos da derrota e do niilismo, mas um
lirismo que se perde; António Maria Lisboa é um poeta com pouca fortuna
editorial e não só, a que a edição em livro de bolso da Pinguin, não ajuda,
principalmente nos poemas visuais. Destaco ainda, ou sobretudo, o número 42 da
revista Relâmpago (com data de Dezembro de 2024, mas distribuído em Março de
2025) sobre a “poesia portuguesa de agora”, coordenado por Fernando Pinto do
Amaral e Ricardo Marques que incluiu uma selecção de 11 poetas e alguns ensaios
– o que não parece ser suficiente para traçar os diversos mapas que constituem
a poesia “de agora”. Liberato, músico e poeta, publicou em edição de autor o
pequeno livro “Cá, nesta terriola”, de forte pendor político. Realce ainda para
a reedição da obra (poética e ensaística) de Alberto Pimenta pela 7 Nós e
Saguão e para o terceiro volume da obra – finalmente – completa de António
Ramos Rosa. Um outro poeta maior da poesia portuguesa dominou a não-ficção: a
biografia de Herberto Helder por João Pedro George. O calhamaço, de mais de 800
páginas, recolhe um trabalho de anos do autor, que ouviu pessoas próximas do
poeta, como a sua companheira Olga. Se em vida o poeta sempre recusou aparições
públicas, celebrizando a frase, “Meu Deus, faz de mim um poeta obscuro”,
questiona-se a facilidade com que o autor de “Se eu quisesse enlouquecia”
obteve os depoimentos – não serão uma traição à memória do autor Photomaton
& Vox? Duas cartas escritas por Gunter Anders, marido de Hannah Arendt, aos
filhos biológicos do nazi Adolf Eichmann, editadas pela Antígona sob o título “Nós,
filhos de Eichmann”, colocam a enfase na teoria defendida por Arendt nas
reportagens que fez sobre o julgamento do nazi: na “banalidade do mal” qualquer
um de nós pode ser um Eichmann. Destaque-se ainda dois livros de José Gil
(Pontas Soltas I e II) e uma entrevista conduzida por Marta Pais Oliveira ao
filósofo. De Carlo Michelstaedter, filósofo italiano precocemente suicida, a Companhia
das Ilhas publicou Retórica e Persuasão, a sua única obra. E para terminar as
referências à não-ficção, mais uma biografia, desta vez de Egas Moniz, por
Paulo M. Morais, que em A Glória Efémera segue a vida de uma personalidade que
acabou por se tornar tenebrosa ao criar a lobotomia. Na ficção, foi este ano,
traduzido para português, um romance que denúncia certas práticas da
psiquiatria, “Voando sobre um ninho de cucos” (ed. original de 1962) de Ken
kesey (Livros do Brasil) e que Milos Forman tornaria famoso ao adaptá-lo para o
ecrã cinematográfico, em 1975. De Julio Cortazar, escritor determinante da
literatura argentina, a Cavalo de Ferro publicou os seus Contos Completos, em
dois grossos volumes, que passaram despercebidos.
Uma nota final para o fecho do Jornal de
Letras. Durante quase 45 anos, desde 1981, dirigido sempre por José Carlos
Vasconcelos, foi um elemento imprescindível para a compreensão e divulgação das
actividades culturais em Portugal, e não só.
POESIA
AA VV – Relâmpago, nº 42 – Poesia portuguesa
de agora (Fund. Luís Miguel Nava)
António Ramos Rosa – Obra Poética III
(Assírio & Alvim)
Rui Lage (org.) – Adeus, campos felizes –
Antologia do campo na poesia portuguesa do século XIII ao século XXI (Assírio
& Alvim)
Graça Videira Lopes (ed.) – Cousas de folgar
e gentilezas. (Assírio & Alvim)
Alberto Pimenta – Tetraphármakos (Caixa + 4
livros) (7 Nós)
Fernando Guerreiro – A Sagrada Família
(Bestiário)
Arthur Rimbaud – Poesia (Assírio & Alvim)
Liberato – Cá, nesta terriola (edição do
autor)
António Maria Lisboa – Uma poesia extrema
(Pinguin Clássicos)
Nunes da Rocha – Estudos literários &
outras divagações de uso (Averno)
Nunes da Rocha – Real quotidiano (1957-1974)
(100 Cabeças)
Daniel Jonas – Idade da perda (Assírio &
Alvim)
Luís Quintais – A destruição do tempo
(Assírio & Alvim)
Afonso Lopes Vieira – Poesia (E-Primatur)
NÃO-FICÇÃO
João Pedro George – Se eu quisesse
enlouquecia – biografia de Herberto Helder (Contraponto)
Carlo Michelstaedter – Persuasão e retórica
(Companhia das Ilhas)
Gunter Anders – Nós, filhos de Eichmann
(Antígona)
José Gil – Pontas Soltas I (Relógio d’ Água)
Marta Pais Oliveira – A última lição de José
Gil (Contraponto)
Jean Baudrillard – América (Língua Morta)
Paulo M. Morais – A glória efémera –
biografia de Egas Moniz (Contraponto)
AA VV – Habitats internos – conversas com
psicanalistas (VS)
António Branco Vasco / Mariana S. – Crónicas
de uma psicoterapia (Taiga)
Carlos Mendes de Sousa – No caminho da poesia
(Documenta)
Pedro Eiras – Constelações 4 – Ensaios
comparatistas (Afrontamento)
Alberto Pimenta – O silêncio dos poetas
(Saguão)
Yanis Varoufakis – Tecno-feudalismo
(objetivamente)
FICÇÃO
Julio Cortazar – Contos completos (vol. 1 e
2) (Cavalo de Ferro)
Gonçalo M. Tavares – O fim dos Estados Unidos
da América
Rui Manuel Amaral – Zov (Snob)
Lásló Krasznahorkai – Herscht 07769 (Cavalo
de Ferro)
José Rodrigues Miguéis – Leah e outras
histórias (Assírio & Alvim)
Miranda July – De quatro (Quetzal)
Ken Kesey – Voando sobre um ninho de cucos
(Livros do Brasil)
AA VV – Antologia de contos humorísticos e
satíricos russos (Tinta da China)
NINGUÉM MEU AMOR
Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nos conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos
Sebastião Alba, in Rosa do Mundo – 2001
poemas para o futuro, Assírio & Alvim, 2001, pp.1793-94
Sebastião Alba (1940-2000), pseudónimo de
Dinis Albano Carneiro Gonçalves, nasceu em Braga, indo viver para Moçambique
onde iniciou a sua actividade literária. Em 1983 regressa a Portugal. Foi jornalista, guerrilheiro, esteve internado em hospitais psiquiátricos e viveu na rua. Em A
Noite Dividida (Assírio & Alvim, 1996) reúne três livros: dois já
publicados e um inédito. Em 2023, na Imprensa Nacional é publicado Todo o Alba,
volume que colige a obra edita e inédita do poeta.
A Biblioteca Pública Municipal do Porto
(BPMP) fechou a 1 de Abril de 2024 para obras de “requalificação e ampliação”
da autoria do arquitecto Eduardo Souto de Moura. Previa-se, então, a sua
reabertura para Dezembro de 2027. No entanto, em Abril deste ano, a CMP, então
ainda presidida por Rui Moreira, resolveu lançar um novo concurso de 34,5
milhões de euros – aumentando em 8 milhões o valor inicialmente orçamentado – e
prevendo na altura a reabertura da biblioteca para 2028. Mas agora aponta-se
para uma “data indeterminada” Os motivos avançados por Rui Moreira em 2024 para
as obras de “requalificação e ampliação” da BPMP, eram “um problema crónico” de
“défice de espaço para armazenamento de livros e espólio”. Entretanto,
anunciava-se, em 2024, um serviço especial de livros take-way
(finalmente os livros puderam ser equiparados a refeições, e o dito de Natália
Correia de que a poesia era para comer aproximou-se como nunca da realidade)
para investigadores. Ora, estes investigadores lançaram em Junho deste ano uma (nova)
petição. Em causa estava (está) a dificuldade de acesso a documentos essenciais
para fazer investigação. Na verdade, não parece que hoje os investigadores
académicos do Porto tenham outro recurso senão procurar outras bibliotecas. O
mesmo se passa com aqueles que ainda procuram um tema para investigação.
Para já, uma parte dos periódicos – apenas os mais consultados – foi para a Escola Ramalho Ortigão, onde podem ser consultados. Alguns livros foram para a Biblioteca Almeida Garrett. A casa onde viveu o poeta Eugénio de Andrade, na Foz, foi em 2024 transformada na Casa da Poesia, sendo que o espólio do poeta e outros livros de poesia seleccionados por Luís Miguel Queirós (um total de 4 mil volumes) podem aí ser consultados. Mas a realidade das obras de requalificação e ampliação da BPMP é outra. Quem passa pelo edifício da Biblioteca, junto ao Jardim de S. Lazaro, na Rua de D. João IV, não vê nenhuma actividade que indicie o início das obras. O site da Biblioteca apresenta esta frase: “A BPMP está encerrada para trabalhos preparatórios da obra de beneficiação e ampliação do edifício”. Daqui se infere que as obras ainda não começaram, e como em muitos casos em que é um organismo público a adjudicar a obra, estas tornam-se nas chamadas “obras de Santa Engrácia”. É claro que os livros e periódicos que estão no antigo Convento de Santo António, e que são cerca de 2 milhões, necessitam de ser salvaguardados das obras.
Isto pode levar a que quando a Biblioteca abra ao público, a relação com o livro seja diferente da de hoje. Estava prometida a digitalização dos três grandes jornais do Porto: O Primeiro de Janeiro, O Comércio do Porto (ambos já extintos) e o Jornal de Notícias – o que era uma excelente ideia quando temos apenas um jornal digitalizado e disponível on-line, o Diário de Lisboa. Mas no site da Biblioteca, embora seja anunciado um novo serviço, o “BiblioLED: o novo serviço de leitura digital”, não há referência à digitalização destes jornais. Aliás este serviço é pouco ambicioso, com um catálogo inicial de 1500 títulos, entre livros digitais e audiolivros. A realidade é que já há bastante tempo a Google iniciou o projecto Gutenberg de digitalização de livros de autores que entraram no domínio público; digitalizou cerca de 60 mil volumes, onde se contam vários autores de língua portuguesa cujas obras ficaram esquecidas. Mas abandonou este projecto, mesmo porque hoje existem milhares de vídeos no you tube, em várias línguas, com a leitura de obras fundamentais – da literatura à filosofia – quer por vozes humanas, quer por vozes de IA – e isso só vem reafirmar a “profecia” de M. Mac Luhan de que caminhamos para uma sociedade oral. Apesar de o livro ter resistido, até agora, como objecto analógico à sua passagem para o digital, nada prova que o avançar para um mundo cada vez mais digitalizado não acabará por engolir também o livro, como está a acontecer com os jornais. É, portanto, simplesmente estúpido fechar totalmente (ou quase) a BPMP – a segunda maior do país. Mas aqui a culpa é – presumo – do arquitecto Souto Moura que poderia arranjar uma outra solução, e também de Rui Moreira que concordou com o fecho da Biblioteca. A este respeito, basta lembrar o que aconteceu a outro equipamento cultural desenhado pelo arquitecto Souto Moura – um dos “Nobel” da arquitectura portuguesa. A Casa das Artes, que abriu no início da década de 1990, com uma boa programação entre o cinema, exposições, colóquios, etc, acabou por cair no esquecimento. O edifício foi-se degradando sem que nenhum responsável camarário se lembrasse que aquele equipamento estava ao abandono. Quando alguém interveio, a Casa das Artes era uma quase ruína. Fizeram-se as inevitáveis obras de requalificação e iniciou-se uma programação, mas em Maio do ano passado essa programação foi interrompida para “obras de beneficiação”. A excepção foi o Cine Clube do Porto que continuou a sua programação. Pelo menos até Março deste ano.
“AQUILO QUE DIANA MAIS TEMIA ERA QUE A
REALIDADE IRROMPESSE”
Liliana Heker
E, por isso, começou a lavar a roupa.
Deitou água num balde
e agitou o sabão, com um sentimento ambíguo:
tinha um novo perfume e uma nova certeza
para contar ao mundo.
“Ver como as bolhas se desfazem, disse,
não é mais estranho do que vermo-nos ao
espelho”.
Pensava que falava com os seus papéis
e riu-se, enquanto tocava a água.
A roupa submergia devagar, e ela
esfregava-a devagar, à medida que
ia conhecendo o jogo.
Decidida,
tomou cada uma das bolhas de sabão
e nomeou-as; era
o melhor que sabia fazer até então,
nomear, e esperar que as coisas
se parissem na sua mão.
In Por Alguma Razão – antologia de poesia
argentina, selecção, tradução e nota previa de Hugo Miguel Santos, contracapa,
p.117
Irene Gruss (Buenos Aires, 1950-2018) foi uma
poeta argentina, autora de cerca de uma vintena de livros de poesia e da
antologia Poetas Argentinas (1940-1960) – 2006. Nos anos 1970 fundou o grupo de
poetas Taller Mario Jorge de Lellis. Foi, nesse sentido, e pela sua
participação em várias revistas e jornais, uma divulgadora da poesia.
RECREIO
1, Na faixa de Gaza vive-se o inominável. Todos
os dias dezenas de palestinianos são mortos quando vão buscar comida. São já
cerca de 56 mil os mortos na faixa de Gaza, desde o 7 de Outubro de 2023,
altura em que o Hamas atacou e fez reféns colonos israelitas. A ira bíblica de
Israel abateu-se sobre os palestinianos, entrincheirados na estreita faixa de
Gaza, entre o mar e o estado de Israel. Dois milhões de pessoas vivendo numa
prisão a céu aberto. O Hamas agora, como outrora a OLP, surge como resposta a
essa situação infra-humana. A criação do estado de Israel deu-se depois do fim
da II Guerra Mundial, ou seja, depois do fim do Holocausto em que os nazis
exterminaram cerca de seis milhões de judeus. A solução final nazi, foi naquela
altura o inominável que palavras como Holocausto pretenderam traduzir. Mas agora
é Israel – melhor dizendo o primeiro-ministro Benjamin Natanyahu – que se
comporta como os nazis. Trata-se de um lento genocídio, pela fome como arma de
guerra, pela falsa ajuda humanitária de uma alegada fundação privada norte-americana,
que é um bando de mercenários pronto a disparar com o exército israelita sobre
os famintos palestinianos. E tudo isto é uma criação da aliança entre Trump e
Natanyahu.
A FORMA JUSTA
O PRINCÍPIO
Dois gregos conversam: Sócrates, talvez, e Parménides.
Convém que nunca saibamos os seus nomes; assim, a história será mais misteriosa e tranquila.
O tema do diálogo é abstracto. Às vezes,
aludem a mitos, dos quais ambos descrêem. As razões que alegam podem abundar em
falácias e nunca intentam um fim.
Não polemicam. Já não querem persuadir, nem
ser persuadidos, não pensam em ganhar ou perder.
Numa só coisa estão de acordo: sabem que o
diálogo é o não impossível caminho para chegar a uma verdade.
Livres do mito e da metáfora, pensam, ou
procuram pensar.
Nunca saberemos os seus nomes.
Esta conversa de dois desconhecidos, num
lugar da Grécia, é o facto capital da História.
Pois já olvidaram a prece e a magia.
Jorge Luis Borges, A Memória de Shakespeare,
trad. Luís Alves da Costa, Vega, 2002, p. 7
Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires (Argentina) em 1899. Foi dos maiores criadores da literatura mundial do século XX. Não recebeu o Nobel nem precisava; o Nobel é que precisava dele. A sua criação de mundos atinge o auge em dois volumes de contos: Ficções e O Aleph.
OLHOS
Falar tão baixo que ninguém ouça, escrever tão pequeno que ninguém leia, esvaziar tanto os ouvidos e os olhos que me achem sumida no chão que piso. Meu eu ausente, comprando casas de porcelana para minha mãe. Coleccionamos casas, pássaros nas molduras e budas mendicantes, que nos olham além da ternura bojuda de um candeeiro em latão dourado a que a mãe passa o lustre todas as segundas. Não temos casas nem asas. Cristo menino é perneta e dorme na almofadinha de veludo rosado que lhe deram para fazer conjunto na vez das palhas. Não repousa, olha-nos de olhos bem abertos de vidro pintado; nunca pude ter berlindes, pois os adultos tinham medo que os engolisse; mas eu não engoliria os olhos do menino magoado. Embate na noite a minha alma e é possível que a tenha trocado por olhos vidrados a um cristo de duas pernas. Gemer tão baixo que todos ouçam, falar tão silenciosamente que ninguém possa dormir, respirar tão pausadamente que até santos acordem e anjos se evadam dos céus. Que outra forma tenho eu de recriar a tua solidão na minha?
Beatriz Hierro Lopes, É Quase Noite, Averno, Lisboa, 2013.
O almirante (ou ex-almirante) Henrique
Gouveia e Melo, depois de ter organizado a vacinação de milhões de portugueses
contra a covid, num cenário de ficção científica, tornou-se num mito
sebastianista. Esse mito foi alimentado pelos meios de comunicação social como
candidato às eleições presidenciais de 2026. E eis que o militar submarinista,
já no ano passado, aparecia em primeiro lugar nas sondagens. O próprio Gouveia
e Melo, em entrevistas, não descartou a hipótese de uma candidatura. Agora,
depois do artigo publicado pelo almirante no Expresso de 21 de Fevereiro, não
restam dúvidas que Gouveia e Melo será candidato às próximas eleições
presidenciais. Só falta oficializar a candidatura, como já fez Marques Mendes e
Mariana Leitão (candidata apresentada pela IL).
A
grande questão que se colocava aos comentadores políticos sobre a candidatura
do militar submarinista, era saber quais as suas ideias políticas, como se
posicionava no espectro político: é de esquerda? De direita? Um populista?
Ninguém sabia. Afinal ficamos a saber que o submarinista pesca eleitorado entre
o socialismo e a social-democracia, portanto ao centro que é onde há mais
peixes. Mas porque se interrogavam, antes deste artigo tão minuciosamente
analisado, os comentadores políticos? Será que não sabem o que é o you tube? É
que por lá andam vídeos com as ideias de Gouveia e Melo. As ideias do
submarinista candidato a candidato a presidente da República Portuguesa, enfim
a grande ideia, que poderá fazer de Henrique Eduardo Passaláqua de Gouveia e
Melo o novo Infante D. Henrique, é colonizar o mar. Colonizar talvez não seja
bem a palavra certa, mas os peixes não vão gostar. Diz Gouveia e Melo num TEDx
que o “ser humano, antes de ir para o
espaço, vai habitar o mar” e isto antes de 2050, pelos cálculos do militar
agora na reserva. No mesmo TEDx Gouveia e Melo fala de “cidades flutuantes”.
Mais, “vamos passar de um mundo terreno para um mundo oceanocêntrico”. Para o
ex-almirante “não devemos chamar a este planeta Terra, mas Água” porque 2/3 do
planeta é constituído por água. Nesse TEDx, realizado no Porto, Henrique
Gouveia e Melo faz o elogio do Infante D. Henrique, nascido na cidade do Porto.
Este
homem andou durante mais de 40 anos debaixo de água, em submarinos. Em criança
certamente leu as 20 Mil Léguas Submarinas de Jules Verne. Chegou à mais alta patente das forças
armadas, foi empurrado por um vírus para a ribalta mediática, e agora, quer ser
presidente da República. Mais, numa atitude megalómana, quer ser um novo
Infante D. Henrique. Isto é política, ou ficção científica? As duas coisas. Mas
os comentadores políticos só percebem de política em terra. Não são capazes de
ver que temos aqui um Elon Musk (sem saudação nazi) português. O submarinista
mete água? Claro, é uma espécie de Homem da Atlântida (série que passou na tv
portuguesa nos anos 80). Henrique Passaláqua (repare-se neste nome, que contém
áqua = água) é água por todos os lados. Com as sondagens que tem, a simpatia do
eleitorado feminino, já foi eleito presidente, 11 meses antes das eleições. Mas
o que fará um homem da água no palácio de Belém? Será que vai atirar com 10
milhões de portugueses borda fora para ocupar as cidades marítimas ou
flutuantes? Teremos presidências não abertas, mas fechadas dentro do exíguo
espaço de um submarino?
Na
verdade – ou na mentira – o ex-almirante é uma fabricação mediática resultante,
como já foi dito, da vacinação contra a covid. Como tal foi possível? Não é uma
atitude de total irresponsabilidade por parte dos meios de comunicação social
atirar para a corrida presidencial um militar sobre o qual eram – e continuam a
ser – desconhecidas as ideias políticas. Porque Gouveia e Melo atira para um
eleitorado do centro, um espaço muito amplo; porque Gouveia e Melo com a sua
atitude autoritária chegou a ser pensado pelo Chega para ser o candidato
apoiado pelo partido de André Ventura (que também foi uma criação mediática até
se tornar um elefante no meio do parlamento).
No
artigo publicado no Expresso aparece uma ideia nova: a de demitir o governo
quando este não cumprir com as promessas eleitorais, algo que foi bastante
evidente com o governo de Passos Coelho/Paulo Portas, mas também com governos
anteriores. Aqui é o governo que mete água, e de forma significativa nos
últimos 50 anos de democracia. Confesso que esta ideia me agrada, um candidato a
primeiro-ministro não pode dizer que vai baixar os impostos na campanha
eleitoral e, quando alcançar o poder subir a carga fiscal. Ou seja, não pode
mentir ao seu eleitorado, tem que ser fiel às suas promessas eleitorais.
Mas
no geral, e faltando ainda muito tempo para as eleições presidenciais, mas
tendo em conta as declarações que se podem encontrar no you tube por Gouveia e
Melo, quer pelo facto deste pertencer a uma cultura militar, marcada pela
disciplina, não parece trazer nada de bom para a democracia portuguesa
(bastante fragilizada no mundo de Trump & Musk). Já tivemos a experiência
de um militar na presidência da república, Ramalho Eanes eleito para o primeiro
mandato em 1976, mas esses eram tempos diferentes, e Eanes tinha sido um dos
vencedores do 25 de Novembro de 1975, contra um golpe da extrema-esquerda –
portanto era conhecida a sua posição política. De Gouveia e Melo sabemos que é
um submarinista, e talvez aproveite o cargo de presidente da República – se lá
chegar – para usar a sua “magistratura de influência” no sentido de construir
as “cidades flutuantes”. Uma ideia mirabolante de ficção científica. Uma ficção
científica que estará sempre ao serviço do capitalismo, como o almirante
Gouveia e Melo.
TELEVISÃO
Eu gostava de desenhar. Estava sempre
desenhando. Isso antigamente. Agora perdi a vontade de desenhar, ou melhor, não
sei o que desenhar. Eu desenho tudo, mulheres nuas, homem morto, flor – flor eu
não gostava muito, só do cheiro –, desenhava ruas, letreiros luminosos, pessoas
em volta de uma mesa jantando (ou almoçando), dois sujeitos jogando sinuca
aleijadinho – aleijadinho eu gostava de desenhar, vários tipos de aleijadinho,
sem perna, em cadeira de rodas, sem braço, mas o que eu gostava mesmo era do
aleijadinho com duas muletas e sem as duas pernas. Eu desenhava a cara desse
aleijadinho como a de um homem feliz, feliz porque podia passear pelas ruas,
ainda que fosse de muletas.
Havia uma coisa que eu detestava: desenho
abstrato. «Abstração: uma coisa de difícil compreensão, obscura», diz o
dicionário. Novamente o dicionário: «Abstrato: que não é claro para o espírito,
que é difícil de compreender, de explicar.»
Você desenha uma porcaria que não quer dizer
nada e diz «é uma abstração», e os bestalhões dizem «muito interessante». Será que
essa gente não sabe que arte tem que ter um significado? Tem que exprimir algo?
Voltando ao meu problema. Eu sento à mesa, o
papel e os crayons na frente, e não consigo desenhar. Na verdade, nem sento
mais à mesa. Vou direto pra televisão ver uma das porcarias que exibem.
Falta inspiração? Isso parece coisa religiosa
e eu sou ateu. Falta motivação? O artista precisa de estar motivado? Isso me
parece pueril, uma tolice.
Eu sento à mesa, com o material para desenhar,
espero um minuto. Desenhar o quê? Vou para a poltrona e ligo a televisão. Penso,
amanhã vou desenhar. Mas volto a ver televisão. Vejo televisão todos os dias. Isso
é coisa de débil mental. Mas vejo televisão, e vejo novamente, e novamente, e
novamente. Ver televisão deixa o sujeito maluco.
Compro um revólver, vou dar um tiro na
cabeça.
Mas em vez de dar um tiro na cabeça atiro na
televisão. Vários tiros, destruo aquele monstro.
Não demorou muitos dias para que eu voltasse
a desenhar.
Televisão? Nunca mais. Sem televisão eu
fiquei bom, deixei de ser neurótico, coisa parecida.
Mas quando passo na vitrine de uma loja e
vejo um aparelho de televisão confesso que meu coração bate apressado e minha
boca se enche de saliva.
(Rubem Fonseca, Histórias Curtas, Sextante, pp. 67-68)